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Renato Kress

Todo mundo deveria ter projetos secretos…

Todo mundo deveria ter projetos secretos. Mas secretos mesmo, desses que não precisam de ajuda para ser guardados, sabe? O segredo é um privilégio do poder, um sinal de participação no poder. Desperdiçamos muita energia, tempo e tesão vivendo o "como se" ao invés de dar dois passos para trás, planejar, e mergulhar de cabeça naquilo que está pedindo para florescer dentro do nosso peito. Mas o segredo é sagrado. Por que? É que aquele que é capaz de guardar os seus segredos adquire uma força de dominação incomparável sobre si mesmo e sobre o seu destino.
Renato Kress

O que eu queria…

Eu queria amar sem pressa. Sem a necessidade desse viver voraz que consome minutos, experiências e tempos sem deixar maturar nada. Sem a expectativa dissolvente de que cada latejar de oportunidade vai sumir no primeiro piscar de olhos. Eu queria amar sem pressa. Eu queria olhar sem pressa. Sem essa concepção fluida de que o mundo está de passagem, e com ele as pessoas e os átomos e os planetas e as galáxias girando e correndo em elipses e espirais infinitos. Sem a ideia de que eu também sou passagem e, acreditando nisso, me torno um borrão tímido. Eu queria olhar sem pressa.
Renato Kress

Deixando minha opinião!

Eu não concordo com muitas coisas no governo Dilma. E sempre soube que nunca concordaria já de antemão, vendo os patrocinadores de campanha dela, que foram os mesmos que patrocinaram a campanha do Aécio. Eu não concordo com muitos dos posicionamentos dela e vejo como nosso povo está refém das empresas que pagam as campanhas e pré-selecionam os candidatos em quem nós podemos "votar". Menos ainda concordo com o que o nosso oligopólio midiático tenta nos convencer de que seja "democracia". Mas não desejo a morte de ninguém. Nem faço graça com questões sérias como o valor da vida (manifeste-se ela no gênero que for). Só acredito que qualquer pessoa que tenha um mínimo de sensibilidade e humanidade deveria olhar muito bem para a charge que o jornal "O Globo" colocou hoje, dia das mulheres, na primeira página e pensar: É isso que me "informa"?
Renato Kress

Não dá para argumentar com o ódio!

Não dá para argumentar com o ódio. Simplesmente não dá. É preciso esperar ele passar. Às vezes ele vai, às vezes ele não vai. E nessas horas é preciso aprender a deixar morrer, a deixar definhar e passar por dentro, através. É preciso atravessar a barreira (cognitiva, social, cultural) do ódio. Ainda que algumas pessoas se identifiquem tão intensamente com o ódio que se tornam entusiasmadas ("en-théos", ter deus dentro de si) que sejam tomadas por uma violência desmedida a todo custo, contra tudo o que identifiquem como diferente de si mesmos, como o "maldito outro".
Renato Kress

Criticando Manuel Castells…

É como aquela criança criada no Leblon que acha que a maçã brota na estante do horti-fruti. Minha crítica é só essa: ignora a realidade social, produtiva, econômica, ecológica e cultural do planeta. Tirando ela os cálculos todos batem. É só tirar o planeta. As contas do economês disfarçado de sociologia de botequim costumam ter esse pequeno erro de cálculo que poderíamos chamar de "fator planeta" ou "fator realidade".
Renato Kress

Acabando com a brincadeira!

Viveremos em alguns dias uma eleição controlada por uma única empresa de urnas eletrônicas que, ao contrário de todas as demais urnas eletrônicas usadas no mundo, não imprime comprovante de voto nem permite recontagem ou auditorias. A mesma empresa que foi expulsa dos EUA e condenada a pagar U$48 milhões por fraude comprovada na Califórnia. A mesma empresa que teve de receber de volta 170 urnas doadas ao Paraguai, que decidiu que pode fraudar as eleições sozinho, sem precisar enriquecer os donos da DIEBOLD. Na eleição brasileira o TSE decidiu não fazer teste público nas urnas eletrônicas. Acima de qualquer suspeita, hein!
Renato Kress

Marrento Coca-Cola

Impressionante como algumas pessoas são grosseiras a troco de nada. Violentas mesmo. Sequer lhe dão bom dia ou boa tarde e já partem para o ataque aleatório e despropositado. O mais engraçado é que em toda a minha vida nunca conheci, dentre essas pessoas que já saem atacando, sequer uma que suportasse receber a mesma agressividade, na mesma proporção, de volta. Todas ficam melindradas como crianças mimadas. É o típico "marrento coca-cola", vem na pressão mas perde todo o gás na primeira sacudida que você dá.
Renato Kress

Sobre o rapaz, o poste, o crime e o medo

O medo é um dos companheiros mais comuns em nosso cotidiano. Ele está presente não só quando ligamos a TV e não vemos, quase nunca, nenhuma notícia sobre qualquer descoberta científica dos laboratórios brasileiros, mas somente tomadas aéreas de povos indignados que, se estiverem fora do Brasil serão considerados “manifestantes” e, se estiverem dentro serão “vândalos”, “baderneiros”, “criminosos”. O medo nos vendeu nosso último sapato, lembra? Ele era o “último do estoque”, segundo aquele vendedor super simpático que não mentiria para nós, é claro! O medo nos vendeu muitas respostas. O medo da saúde pública não te deixa atrasar o plano de saúde, o medo da educação pública também coloca no débito automático a mensalidade do colégio dos filhos. Ele está sempre por ali, rodeando.
Renato Kress

“Você não está entendendo!”

Antes de soltar uma frase dessas, certifique-se de que a pessoa simplesmente não discorda de você. Entender e concordar são coisas completamente diversas. Um dos piores tipos de arrogância é a arrogância intelectual, a pretensão de que qualquer ser humano teria acesso à pura e perfeita (e geralmente nazista, intolerante e preconceituosa) “razão”. A essa altura do campeonato creio que chegamos num empate: Tantos crimes foram cometidos no mundo em nome dessa "razão" quanto em nome de "Deus". Dizer de alguém que não concorde com você que essa pessoa “não entende” tem dois grandes problemas: parte da premissa de que você é infalível e de que o outro é (pelo menos por enquanto) intelectualmente incapaz. Mas essa incapacidade do outro pode mudar, no momento em que ele concordar contigo, claro! (nossa, como sou magnânimo, além de humilde!)
Renato Kress

Do vândalo e do baderneiro

Vândalo é quem luta por seus direitos ou quem nega todos eles e te enche de porrada quando você luta por eles? Baderneiro é quem não suporta a pressão dos abusos do preço, do imposto, da passagem, da comida, das mentiras patrocinadas na TV e reage pela dignidade sobre seu próprio futuro ou quem recebe um salário milionário para — sentado numa cadeira macia acariciado pelo ar-condicionado — fazer gracinha e piadinha ridicularizando quem ainda não vendeu o próprio caráter? Quem vandalizou o Rio de Janeiro e São Paulo, quem vandaliza as bolsas de valores do mundo, a saúde pública, o ensino público, a habitação, o turismo, a dignidade e a vida humana é essa ideia infeliz do lucro acima de qualquer coisa.
Renato Kress

A serpente e a semente

O psicólogo suíço Carl Gustav Jung, obcecado pelo estudo da dimensão inconsciente de nossas mentes, trouxe da alquimia medieval o termo "enantiodromia", que significa que superabundância de uma força produz seu inverso. O excesso de limites de uma sociedade dará ensejo a uma nova geração libertária tanto quanto uma geração excessivamente liberal tenderá a gerar filhos reacionários e tradicionalistas. A enantiodromia - que pode ser compreendida historicamente por uma análise dialética de caráter hegeliano - é um processo de cristalização da psique que é danoso ao fluxo normal da energia psíquica, que é o que mantém a saúde mental. É preciso que a energia flua, que as idéias mudem, que os conceitos se transformem, que os pensamentos, como as serpentes, se livrem das cascas carcomidas pelo tempo, ainda que mantendo sua intenção positiva primordial, seu intento primário.
Renato Kress

Dinâmicas entre estratégia e tática

Quando se tem o desejo de treinar ou instruir pessoas é imprescindível que se atente ao fato de que é necessário adquirir conteúdo. Conhecer e aprender, com tudo e com todos, implica tanto numa postura disciplinada em horas de leituras coordenadas, quanto em humildade, para que saibamos aprender com tudo e com todos a todo o tempo. Bons e maus exemplos são fontes idênticas de aprendizado. Desperdiçar conhecimento ou julgar-se tão sábio a ponto de não precisar conhecer mais nada é que são os únicos verdadeiros inimigos do crescimento e da sabedoria.
Renato Kress

O bem, o mal e o neoliberal — parte 2

A tendência da defesa contínua, como a defesa necessária dentro de um ambiente de trabalho, é a de se cristalizar, gerando a banalização da injustiça, da humilhação, da violência cotidianas. Caso contrário os trabalhadores enlouqueceriam diante das pressões criadas pelo sistema neoliberal de organização, ou de desorganização premeditada e lucrativa, do trabalho.
Renato Kress

O bem, o mal e o neoliberal

O aparato midiático neoliberal, submisso à lógica econômica, nos enleva a uma situação psicológica de guerra econômica, nos fazendo crer que, em nome do (todo poderoso) capital, estariam em jogo, com a mesma gravidade de uma guerra, a sobrevivência da nação e a garantia da liberdade. Este artigo recorre a um ponto que parece estar sendo marginalizado nesse discurso: os mecanismos sociológicos e psicológicos que vêm tornando a prática da injustiça social, a prática da violência corporativa e social, uma constante banalizada dentro do fenômeno de massificação da cultura e do comportamento.
Renato Kress

Caostemporaneidade

Estive prestando atenção em quantas vezes ouço ou leio a palavra “caos” nos livros, jornais e revistas quando escritores, articulistas ou “especialistas” de todas as áreas se detém a falar sobre a contemporaneidade. Diria que se trata de um tema cult hoje em dia, estando presente em congressos, livros, discussões acadêmicas e mesmo conversas de bar. Penso até que ponto trata-se de modismo ou mesmo até que ponto não se verifica como uma exigência da realidade conjuntural dentro da aceleração da oferta de estímulos estéticos em todos os campos.
Renato Kress

Umbigos

Sinto-me ligeiramente leve ao crer que o mundo não está nem cabe no meu umbigo. Isso é saudável e mantém a sanidade do homem contemporâneo que deixa de se esmagar querendo se exigir ser o nexus da vida, das culturas, das lógicas e das possibilidades. O ser humano passa a podar vinte e quatro horas por dia as possibilidades da sua vida e não está nem estará apto a introjetar todas as possibilidades do comportamento humano. Mesmo porque muitas vezes criamos padrões por comparações excludentes de características. Mesmo Deus têm características, em cada cultura, assim como os semi-deuses. Ele não representa tudo e se compreendesse tudo com certeza não castigaria, julgaria ou talvez mesmo se importaria.
Renato Kress

Raízes do Cristianismo

Creiam ou não Jesus não morreu como um Pop-Star. Em sua gênese o cristianismo era só mais uma dentre as várias doutrinas religiosas orientais. Nascida no seio da religião judaica que, como todas as religiões antigas, era nacional ou própria a uma população em particular, ele trazia, contudo, uma perspectiva completamente nova: a idéia de evangelização, a possibilidade de espalhar a ‘boa nova’ para o mundo inteiro, a fim de converter os não-cristãos e tornar-se universal. Não era, como o judaísmo, uma religião de um “povo eleito”, ou pertencente a uma cultura em especial, como a religião egípcia ou grega, hoje denominadas mitologias.
Gustavo Barreto, Renato Kress

Camisinha de Platão

Na política, temos a impressão de que boa parte de nossa História pode ser analisada do ponto de vista do “façamos a revolução antes que o povo a faça”. Nestes momentos, a classe dominante percebe que o poder estabelecido passa por uma crise e vê a necessidade de realizar uma simulação de mudança de rumo apenas para manter tudo como está. Esta apropriação do discurso de contraposição à hegemonia dominante obtém sucesso por conta de um fator que é entendido e utilizado por qualquer corrente de pensamento representativa: a coesão.
Renato Kress

Afim de saber a verdadeira verdade

A verdade depende, de um lado, da veracidade, da memória e da acuidade mental de quem fala e, de outro, de que o enunciado corresponda aos acontecimentos. A verdade não se refere às próprias coisas e aos próprios fatos, mas ao relato e ao enunciado, à linguagem. Seu oposto portanto é a mentira ou a falsificação. As coisas e os fatos ou são reais ou imaginários; os relatos e enunciados sobre eles é que são verdadeiros ou falsos. Não há nenhum espaço para o perspectivismo, pontos de vista ou liberdade interpretativa, a ‘verdade’ é em si e não a partir da visão do sujeito.
Renato Kress

Nós, homens, somos todos iguais!

A alteridade pertence ao universo feminino. Talvez com tanta intensidade que elas procurem uma fuga se igualando pela moda. Mas encaremos a realidade: só elas podem ser diferentes. São seres agraciados, divinos, unos em si mesmos e não nos outros. A mitologia grega prova isso. Os deuses, homens, eram todos iguais. Lascivos, vergonhosamente eróticos, pútridos, uns brutos. Tinham mil mulheres cada um. Porque eram os mesmos.