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Renata Iacovino

Retratos de ontem e de hoje

Há pessoas que gostam de arrumar armários, desfazer-se de objetos, documentos não mais necessários. Notei que essas pessoas, geralmente, não se importam em jogar coisas fora, ao contrário, têm verdadeiro prazer. Estou na ponta oposta desse comportamento. Tenho extrema dificuldade em colocar no lixo elementos de quem sou. Começo a olhar tudo que vai passando pelas minhas mãos e percebo que minha história poderia ser contada apenas com o que tenho guardado... ou tinha. Desde que saímos da casa em que morávamos e fomos para um apartamento, boa parte do que estava enraizado ali... se foi. Pessoas que se desapegam facilmente não possuem este discurso nostálgico e lidam com as lembranças de maneira muito melhor. Tento racionalizar um pouco essa relação, mas confesso que não consigo. Se ainda muito jovem eu já me flagrava com uma nostalgia de velha, imagina agora!
Renata Iacovino

Fases e faces

As diferentes fases nos revelam faces diversas. Em suas facetas, o ser humano se modifica, se multiplica, encolhe-se, expande-se, esbraveja, silencia, indigna-se, conforma-se... tudo em nome de uma busca incessante. De fato, é um caminho que só se finda quando é finado o seu tempo. Tais fases, não raro, se apresentam de maneiras opostas, como que querendo demarcar a "nova" pessoa que somos. Não que a bagagem acumulada se torne obsoleta, ao contrário, nos dá guarida para visualizarmos o mundo à volta e o nosso universo interior por um outro ângulo. Ela está ali em momento integral nos servindo como alicerce de nossas novas escolhas e posturas.
Renata Iacovino

Informação ou intolerância?

Outro dia ouvi de uma conhecida que a era em que estamos vivendo, a da informação, é, em sua face real, a era da intolerância. Nenhuma novidade... Não obstante o movimento contrário também existir, ou talvez resistir, a força da intolerância mostra-se, boa parte do tempo, superior nesse braço de ferro. O excesso de informação às vezes atrapalha. Por sua vez, a intolerância não separa o joio do trigo. E assim vamos criando aspectos de pequenas - ou não tão pequenas - violências cotidianas. O aparthaid generalizado em que nos metemos vai comprometendo nossa capacidade crítica. Não é difícil observar situações em que o diálogo foi tomado por acusações; em que a argumentação foi engolida por frases de efeito, sem efeito benéfico, mas com resultados destruidores.
Renata Iacovino

Viver é administrar

Quem é capaz de discordar? Não à toa deparamo-nos com afirmações, aqui e ali, de que com quanto menos nos comprometermos... melhor! E qual seria esse compromisso? A meu ver, de toda espécie. Por exemplo: não carregar chaves, não cultivar pensamentos, não desenvolver conhecimentos, não (su) portar peso (nos múltiplos sentidos), não, não, não... Qualquer movimento, portanto, vida!, importa administrar! Seja um olhar, seja um andar, seja um refletir..
Renata Iacovino

O gosto que se discute

Alguns dizem que gosto não se discute. Outros que: gosto não se discute, lamenta-se. Penso que dá para discutir, ou melhor, falar a respeito. O problema é como... Afinal, é difícil levar uma conversa adiante, sobre bom ou mau gosto, que não envolva nosso juízo de valor. E consequentemente, nosso julgamento. Porque quando julgo o "mau" gosto de alguém, julgo-o a partir do meu suposto bom gosto. Que é "bom" para mim. E é bom, segundo a minha avaliação, os meus critérios, o meu olhar, a minha vivência, minhas experiências...
Renata Iacovino

A esperança em Suassuna

As histórias contadas e vividas por Suassuna nos aproximam, num momento ou noutro, de nossas raízes. Não raízes fabricadas, porque aí nem são raízes, mas por aquelas que, ao ter contato, nos tocam sem pedir licença, nos envolvem como que... falando nossa língua! É impossível não resgatarmos nossa autoestima ouvindo seus ensinamentos; é difícil não nos interessarmos por nossa história, nossos artistas, poetas, músicos e atores, quando apreendemos o que ele transmite.
Renata Iacovino

Angústia fora de moda

Em conversas aqui e ali, menos superficiais, com amigos, conhecidos e colegas, tem ocorrido de forma constante o pedido de desculpas quando o tom destas acaba se encaminhando para lamentações, angústias, desabafos... Parece que tais colocações se transformaram em algo proibido, em manifestações fora do contexto. Isto sempre me surpreende, pois considero esse diálogo, imbuído de desabafo, fundamental, aliás, vital! O problema é que estamos em busca de perder o sentimento de não ser feliz. E creio que o problema maior é tentarmos, em vão, varrermos tal atitude para debaixo do tapete, pois a sujeira se acumula, não vai embora.
Renata Iacovino

Falso ou verdadeiro?

Com frequência ouço, aqui e ali, que para obter algum destaque nas artes, em qualquer arte (artes plásticas, música, dança, poesia...) é preciso mais do que criar. É preciso trazer algo inovador. Só esta palavra, por si, põe-me já desconfiada... Quer dizer que basta ser inovador para ter garantido o ingresso a uma possível aceitação mercadológica? Não, claro que não. Mas onde se encontra exatamente a linha divisória daquilo que nos possibilita distinguir entre o que é uma farsa e o que é concebido de forma, digamos, verdadeira, respeitando o real sentido de inovação?
Renata Iacovino

Correndo da competição

Competição, até onde eu me lembro, nunca foi uma palavra que me atraiu. Nem a palavra, nem a ação. Se competimos, normalmente, é com o intuito de vencer. Necessitamos ser mais e melhor que o outro; precisamos estar à frente, mesmo que seja um mísero passo à frente.Competimos, enfim, conosco mesmo, pois estamos sempre em busca de atingir algo que não alcançaremos, que se encontra externo a nós... A busca feroz por algo que nos coloque num patamar que nos distinga dos outros, gera uma competição insana, porém, não nos faz sentir vencedores, mas fabrica a ilusão de que somos.
Renata Iacovino

Vícios reais e virtuais

A que ponto de escravidão chegamos! A nomofobia é o medo de perder o celular ou de ser incapaz de ficar sem ele por mais de um dia, afetando, principalmente, os viciados em redes sociais, que não suportam a ideia de ficar desconectados. Parece surreal, mas é – bem! – real! Desconectados estamos todos nós... da realidade! Trocando o real pelo virtual, a afetividade pelo individualismo, a busca do conhecimento pela crença no duvidoso, a reflexão pelo deboche, a maturidade pela infantilidade, a conversa pela supressão das palavras e por aí vai... Especialistas aconselham que crianças antes dos nove anos não tenham aparelho celular. Se adultos viciam-se com facilidade, imagine crianças... Mas se adultos são viciados, qual a competência temos para coibir tal atitude em menores impúberes?
Renata Iacovino

A utopia do silêncio

Somente ao cair da tarde, depois de todos se retirarem, é possível perceber a poluição sonora com a qual convivemos diariamente no ambiente de trabalho. Dezenas de aparelhos ligados ao mesmo tempo... computadores, impressoras, copiadora, ar condicionado, telefones fixos e móveis, falazar... a sala emudece após os equipamentos serem desligados. É quase possível ouvir o silêncio. E isto não se dá apenas ali, mas também em nossas casas, onde o barulho do trânsito invade as paredes, embora isto igualmente já seja rotina e, portanto, faz-se sorrateiramente imperceptível aos nossos ouvidos. Televisão, telefone, máquina de lavar, música, tudo paira por esse ambiente que não se cala.
Renata Iacovino

Temperando a vida

Amo temperos. Aquilo que dá sabor à vida. Vivifica o paladar, faz a gente ter um gosto... Vou revezando as temporadas. Ora me fixo mais no manjericão, ora no alecrim, ora no orégano, na sálvia, pimentas, ah, pimentas são um caso à parte. Temperar salada com cebola é muito bom, mas com alho bem picadinho, hummm. Sabe aquela expressão "pessoa sem sal"? Pois é, só agora compreendi o fundamento disto. Não é à toa. A mim me parece que as pessoas que não apreciam tempero são exatamente assim: sem sal. Insossas. Transmitem-me uma palidez de alma, um oco de espírito e... Bem, tudo isto são impressões minhas, apimentada que sou.
Renata Iacovino

Paixão pelos vinis

Entro no quarto e ao colocar minha roupa no mancebo, ao lado do aparelho de som antigo (antigo porque tem toca-discos, discos, gravador de fita K-7... enfim, elementos de minhas reminiscências), deparo-me com alguns plásticos que protegem minhas relíquias em forma de vinil, levemente triturados e as capas que os acompanham também levemente puxadas para fora do compartimento onde ficam guardados. A quantidade é grande, o espaço entre eles é nenhum. Supõe, pois, algum esforço – que não apenas o sobrenatural – para deixá-los naquele estado, salientes. Então lembro que outro dia já havia me deparado com tal mistério, porém... olhei e não observei. A correria, os zil problemas rondando a cabeça, talvez tenham sido responsáveis por essa distração, que já se tornou tão corriqueira, tão companheira.
Renata Iacovino

Variações sobre o mesmo eu

Em época de egos inflados e inflamados, atenção redobrada. Afinal, todos fazemos parte deste palco chamado vida, que ora nos presenteia com excelentes interpretações e ora nos decepciona com atuações que deixam a desejar... E cada um de nós, parte desse todo, vai se protegendo ou atacando como pode. Ora de plateia, ora de protagonista, vamos nos individualizando à luz dos percalços e arremedos mal feitos, remendos de nossa identidade maculada aqui e ali. Até que nos reencontramos com nós mesmos, com o eu de nós.
Renata Iacovino

Reverberações de ontem e de hoje

“Quando eu morrer voltarei para buscar os instantes que não vivi junto ao mar”. Conheci estes versos de Sophia Mello Breyner, assim como me choquei com “Eu vou te contar que você não me conhece, e eu tenho que gritar isso porque você está surdo e não me ouve. A sedução me escraviza a você e ao fim de tudo você permanece comigo, mas preso ao que eu criei, e não a mim.”, de Fauzi Arap, por meio de uma voz. Literatura e artes cênicas se entrecruzando. Quem me proporcionou isto... foi a música. O “Poema do Menino Jesus” acho que abriu esse leque, fértil e despretensioso; extraído do mestre dos mestres (Álvaro de Campos, “Mestre, meu mestre querido,/Coração do meu corpo intelectual e inteiro!/Vida da origem da minha inspiração!/Mestre, que é feito de ti nesta forma de vida?”): Alberto Caeiro, um dos Pessoa. Vários dos seus habituei-me a ouvir e, assim, conhecer.
Renata Iacovino

Vil racionalidade

Quanto mais o Homem exerce a racionalidade parece que mais perto fica da irracionalidade. Pergunto-me, todos os dias, qual animal, afinal, somos nós. Nós é que temos bom senso, sensatez? Nós é que agimos em conformidade com a razão? Qual? Existem mil razões, mas nenhuma contempla a coletividade. Há a razão de cada um. E por esta razão estamos violentando o outro, semelhante ou o diverso; estamos subtraindo a liberdade de quem está ao nosso lado; estamos massacrando de maneira discriminatória aquilo que não nos agrada, sem medir consequências, pois estas também já não importam.
Renata Iacovino

Paradoxos tecnológicos

Sempre soube que a tecnologia e a informática vieram para ajudar na organização da burocracia e até, e principalmente, para diminuí-la. Sim, um número considerável de papéis é extinto de nosso dia a dia em contrapartida à quantidade de arquivos virtuais que se proliferam em nossas máquinas, pen drives, CDs, DVDs, nas nuvens e em outros locais, também úteis para cópias de segurança, ou aquilo que muitas vezes poderíamos chamar até de arquivo morto. Mas estão ali, todos armazenados, embora não palpáveis. No entanto, de uns tempos para cá venho notando a existência de um fenômeno que decidi chamar de burocracia tecnológica. E como é tecnológica, está no campo virtual.
Renata Iacovino

Revolução e sensibilidade

Falar em pontualidade relacionada a horário, neste país, soa estranho. Ou melhor, ser pontual parece estranho, porque falar... todos falamos. Queremos pontualidade, criticamos a falta dela, mas parece que sempre corremos atrás de sermos pontuais. Não é de se admirar que conceitos básicos como "ser pontual", dirigir-se ao outro educadamente, e antes, lembrar que existe o outro, respeitá-lo em sua diferença, saber que há o diverso, inclusive... tornou-se atitude obsoleta.
Renata Iacovino

Surdos de alma

Estamos surdos. Ando relutando para aceitar essa tola constatação. Mais um atributo advindo destes estrangeiros tempos atuais. Tudo hoje é fabricado para poupar nosso tempo, para que precisemos utilizar minimamente nossas mãos, nossas pernas e infeliz e consequentemente, nossas mentes. Andamos emburrecendo por conta da tecnologia. Parece papo de quem está envelhecendo, mas é algo menos simplista do que isto. Por que “simplificar” também é uma característica desta era. A simplificação é tanta, tanta, que nos reduzimos, por vezes, a seres ininteligíveis, que agem por automação, ou por pura lógica, sem aventar qualquer possibilidade crítica. A crítica – a que nos faz refletir e nos abrir para um mundo diverso, e não a que nos acomete de arrogância, fazendo-nos pensar que somos donos da verdade – é a mãe do pensar e da maturidade intelectual. Mas a crítica se dá se nos relacionamos com o mundo, se participamos de situações que nos proporcionam experiências diversas, se atuamos em debates presenciais... Se nossa relação for com máquinas, tudo indica que nos tornaremos, igualmente, máquinas.
Renata Iacovino

Chegar e partir

Chegar e partir, esse é o ritmo da vida, já protagonizado por Fernando Brant, na música (parceria com Milton Nascimento) intitulada "Encontros e Despedidas". O vai e vem é a metáfora de morte e vida. Como escreveu Dolores Duran na canção "Olha o Tempo Passando", “a vida acaba um pouco todo dia”, pensamento disseminado em inúmeros outros contextos artísticos, religiosos e filosóficos. Assim, a efemeridade é mais do que uma sensação, mas uma constatação palpável e passível de identificação no campo prático.
Renata Iacovino

No improviso da vida

Era um sarau lítero-musical para alunos do ensino médio, em São Paulo. Acostumadas com públicos diversos e demandas ecléticas, iniciamos a apresentação que, como de costume, unia poesia/autores com músicas/compositores. Shakespeare, Adoniran Barbosa, Cecília Meirelles, Chico Buarque, Florbela Espanca, Fagner, Vicente de Carvalho, Vinícius de Moraes, Dorival Caymmi, Manuel Bandeira, Lulu Santos e Jayme Ovalle desfilavam em nossos microfones. Na plateia, interesse e surpresa. Entre uma canção e outra, elucidações acerca da importância de obras e autores que se perpetuam na história da cultura de países inteiros, transcendendo a resistência ou ignorância de gerações.
Renata Iacovino

Vida em coleções

Sempre tive mania de guardar. Objetos, papéis, lembranças, um pouco de mim. Tenho dificuldade em me desapegar dos meus pertences, afinal, sinto-os como parte de minha história. Então, o que parece inútil, em mim guarda um significado imenso. Mesmo assim, de tempos em tempos (e aqui, leia-se o conceito de "tempo" de quem nasceu no século passado), com a dificuldade que me é peculiar, arrisco-me a algum descarte. A relutância manifesta-se, inclusive, em pequenas mudanças de leiaute dentro de casa ou no trabalho. Gosto de manter tudo no seu lugar, por meses, anos. E se tiro algo de onde está, em seguida já tenho que guardá-lo. Minha tranquilidade é saber que outras pessoas são assim e que isto não é uma compulsão, mas um modo de encarar a vida, já que aí reside, também, nossa personalidade, nosso gancho para outras situações que vivenciamos, opinamos e nos colocamos.
Renata Iacovino

Protesto nas entrelinhas

Dentre tantas preciosidades poético-musicais que convergem, talvez a questão do exílio tratada no poema "Canção do Exílio" de Gonçalves Dias e na canção "Sabiá", de Chico Buarque e Tom Jobim, soem, até hoje, como um marco dialogal importante em nossa história. Este poema de Gonçalves Dias foi considerado responsável pelo reconhecimento do autor, como o primeiro grande poeta do Romantismo brasileiro. A distância da pátria, em razão de estar cursando Direito em Coimbra, inspirou-o a versos como:
Renata Iacovino

Assim caminhamos… a humanidade!

Comunicação rápida, excesso de informação misturada à desinformação e à informação equivocada, tudo caminha para uma aceleração incontida, uma rapidez no fazer e no ter, no ter material, no possuir superficial e fugaz, que desemboca numa frustração muitas vezes imperceptível, na infelicidade não buscada mas compulsória, num mundo às avessas, onde os valores são, agora, o não envolvimento, a não aproximação com o outro, a relação mecânica e fria, a não comunicação verbal, o assassínio da linguagem verbal, da palavra, do diálogo, da frase bem construída e pensada, refletindo a era do não pensar, da morte em vida, do crime legitimado contra o humanismo e a solidariedade, local onde o egoísmo impera, onde passamos a incorporar a máquina
Renata Iacovino

Na pauta de Rita

Minha paixão pela MPB começou por Rita Lee. Aquele famoso disco de 1979 com o hit "Mania de você" foi a porta de entrada para uma aventura sem fim. Até desembocar na paixão pelo canto, por compositores, intérpretes, poetas e escritores. Uma descoberta leva a outra... Dentre tantos, há um aspecto bem interessante nas histórias contadas por Rita, e que sempre me chamaram atenção. Talvez pelo tom autobiográfico, escancarado e sóbrio ao mesmo tempo. Em algumas letras podemos encontrar não só o humor inigualável que verte de sua verve, mas também uma sonora introspecção...
Renata Iacovino

Valor dos dias atuais

Não sei de onde vem a lenda de que artista exerce seu labor por lazer, entretenimento, ou algo do gênero. E, portanto, não precisa receber por aquilo que faz. A arte alimenta, não é mesmo? Certo e errado. A arte alimenta a minha e a sua alma. A alma de quem executa e a de quem recebe. Mas o corpo precisa sobreviver para ter forças e continuar fazendo arte. A mente precisa de energia para renovar suas ideias e saber como colocá-las em prática. Tudo isso tem um preço. Nem digo “valor”, pois acredito que o trabalho de um artista seja imensurável, mas como é necessário ter um preço, algo às vezes até simbólico é tido como o valor daquela obra, daquele labor, daquela criação.
Renata Iacovino

A liberdade da regra

Regras possuem dois lados, como praticamente tudo que nos cerca. Por um lado elas nos beneficiam, por outro, parecem nos ameaçar. Enquanto os animais irracionais possuem suas regras sem precisar criá-las, pois a natureza dá conta dessa harmonização, nós, animais racionais, precisamos, desde os primórdios, inventar formas de nos organizar, de nos civilizar, de conseguir meios para convivermos, um com o outro.
Renata Iacovino

Dos salões à periferia

O termo “sarau”, ao contrário do que pensam ou supõem alguns, não foi deturpado na atualidade, tampouco sua prática, que ganha novas dimensões sem perder a essência. A definição de sarau diz respeito à “reunião festiva, geralmente noturna, para ouvir música, conversar, dançar; reunião noturna, de finalidade literária; concerto musical noturno”. Porém, o conceito ampliou-se, na prática, principalmente em grandes capitais, onde a vanguarda aponta para novos caminhos que, via de regra, são seguidos pelos menores centros.
Renata Iacovino

Cortando o cordão com o mundo

O comportamento que reveste as relações (ou a ausência delas) é um olhar para si próprio. Mas não um olhar para dentro de si, onde poderia haver algum conteúdo, uma quem sabe reflexão, um pensamento um pouco mais aprofundado... É um olhar para o nada de si, pois vazios nos contentamos em ser. O oco tem sido o bastante para nós. E digo nós, pois somos todos responsáveis... No seu discurso prevalece sempre a palavra "eu", dita ou implícita. O umbiguista tudo sabe, tem a verdade sempre na ponta da língua, mesmo que seja uma falsa verdade, capturada em algum comentário duvidoso.
Renata Iacovino

Aplausos ao Hino Nacional

Aplaudir ou não aplaudir? Eis uma pergunta que muitos de nós já nos fizemos: se é correto aplaudir após a audição do Hino Nacional Brasileiro. Se aplauso é aclamação, louvor, elogio, por que será que carregamos a tradição de que é “proibido” aplaudi-lo? A Lei Federal nº5700 de 1º de setembro de 1971, que dispõe sobre a forma e a apresentação dos Símbolos Nacionais, nos diz em seu Capítulo V-Do respeito devido à Bandeira Nacional e ao Hino Nacional, Art. 30, Parágrafo único: “É vedada qualquer outra forma de saudação.” Isto porque o referido artigo menciona que “todos devem tomar atitude de respeito, de pé e em silêncio(...)”.
Renata Iacovino

Que poesia tem Clarice?

Autora de romances, contos, livros infantis, crônicas e ghost-writer. Ficção e não-ficção tão bem exploradas e aprofundadas por sua verve. O talento de Clarice Lispector - escritora que estreou em 1944, aos 19 anos, com o romance "Perto do coração selvagem", ganhando o prêmio Graça Aranha - não parou aí, como acreditávamos até há pouco. Sua poesia recém-descoberta nos remete a mais uma Clarice, dentre tantas esboçadas entremeadas a enredos ficcionais.
Renata Iacovino

Seja humano

Humildade, solidariedade, companheirismo, desprendimento e altruísmo são bens que muitos de nós não possuímos. Em tempos de egoísmo e narcisismo, perdemos a noção do que é bom e do que é mau. A convivência com os animais nos dá esse parâmetro, essa maturidade, devolve-nos a nossa essência. Se Deus existe certamente condena atitudes que afrontem os animais. Mesmo assim, muitos racionais que acreditam ser superiores, acham que os irracionais estão excluídos desse universo. A razão, infelizmente, vira-se contra nós, pois apenas com os óculos que ela nos oferece não é possível enxergar o que vai além.
Renata Iacovino

Saudade

“Depois que eu me chamar saudade/Não preciso de vaidade/Quero preces e nada mais”. Estes versos, familiares aos bons apreciadores do samba e da verdadeira MPB, estão na composição “Quando eu me chamar saudade”, apenas uma das inúmeras parcerias dos geniais Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito. Este último, por sinal, tive o privilégio de assistir ao vivo, num dos boêmios bares da seresteira cidade de Conservatória, no estado do Rio de Janeiro. Momento inesquecível, congelado em minha memória. Gênios da arte, aliás, são espécie em extinção. Parece que quase tudo hoje é insuportavelmente igual, cansativo, entediante, sem expressão, artificial...