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Pablo Morenno

DNA do amor

Famílias, podendo ou não ter filhos, ao querer adotar enredam-se em longa burocracia. Quase sempre, seu filho do coração adentrará à casa marcado pela violência e rejeição da família biológica, pelos anos de abrigamento sem vínculos afetivos, emocionalmente fragilizado e fisicamente doente. Por falta de amor, essas crianças, crescidas enquanto se tenta obrigar a biologia a gerar carinho, constroem ao seu redor uma muralha para novos laços. Aconteceu conosco. Esperamos quase cinco anos, o conhecemos com três anos e dois meses. Com esta idade, de genitora usuária de drogas, meu filho já havia passado por tentativas frustradas de inclusão em sua família biológica. Seu pai, então um desconhecido, demorou para ser encontrado e concordar com o processo.
Pablo Morenno

Um útero para elas

Ainda que a maioria dos super-heróis seja masculina, as super mamães existem. Talvez não sejam aladas, a não ser de ternura. Talvez não corram à velocidade da luz, mas disparam em máxima velocidade humana ante um choro de filho. Talvez não consigam salvar-nos dos alienígenas, mas podem gerar novos seres comprometidos com outro mundo. Só as mães têm o maior de todos os superpoderes: conseguir em segundos que desapareçam terríveis e enormes problemas de um filho. E sem magia. Simples resultado da imaginação, do tal de instinto materno, de não-sei-o-quê. Tudo do modo mais simples. E usam materiais à mão de qualquer um: palavras, um colo, um olhar, uma comidinha especial, um beijo, um sorriso, um afago, um cafuné, um não-foi-nada-meu-filho.
Pablo Morenno

Como se faz uma mulher

O mundo público é assaz masculino. É o mundo da razão, da lei, da guerra, da objetividade. Às mulheres o confinamento dos espaços privados. É preciso controle, e não apenas da fêmea como indivíduo da raça. Características femininas como a solidariedade e a amorosidade foram banidas da hierarquia e da lógica pública. Destruição do meio ambiente, guerras, racionalidade muita, ternura pouca. É o império patriarcal. Uma mulher não se faz sob jugo e desterro. Uma mulher se faz deixando-a bordar todos os tecidos sociais. Uma mulher se faz permitindo-a cozinhar tenra e ternamente política e ciência. Jamais haverá rosto humano sem a face feminina.
Pablo Morenno

O erro do rei

As redes sociais estão bombando contra a propaganda do rei Roberto para uma marca de carnes. O rei, que não era bem vegetariano, comia ovos e derivados do leite, revela numa cena em restaurante, desejar o bife de um outro comensal. Gagueja para dizer a marca, mas o garçom ajuda. A propaganda termina com um risinho falso do rei, mas ninguém toca no bife. Até agora não vi sequer um único comentário a favor. Todos contra o rei. "Si hay rey, soy contra". A reação à propaganda está tão negativa,que os comentários da página de Roberto no Facebook estão passando por monitoramento e a página da Friboi desabilitou o item “avaliação” de seu site.
Pablo Morenno

Causas ou negócios

“Eu não acho que seja nobre ter destruído minha própria vida e a vida das pessoas ao meu redor para buscar a verdade”, disse Roberto Saviano, jornalista, ao jornal “El País”, versão em português, em 15.02.14. Saviano publicou aos 26 anos o livro “Gomorra” sobre a máfia napolitana, que já vendeu 10 milhões de exemplares em todo o mundo. Ao divulgar seu novo livro “Zero, Zero, Zero” sobre o tráfico de cocaína, o dedica aos policiais de sua escolta 24 horas. Saviano declara ter arruinado a vida com um livro sobre mafiosos e anuncia outro sobre traficantes. Causa ou um negócio? A ativista, presa na Rússia querendo salvar o Ártico, aceitará posar nua. Causa ou negócio? Guerrilheiros com causas, mártires ou assassinos, são aceitáveis?
Pablo Morenno

Para Hitler, e Darwin

É bem possível que Hitler não aprove esta crônica. Darwin também pode se sentir incomodado, mas esse eu entendo. Cronista escreve para provocar, não para agradar gregos e troianos. Imaginem que vou perder o sono por Hitler ou Darwin. Apenas perco o sono por alguém a quem amo, por exemplo meu filho. Perco o sono e às vezes meu tempo (se é que o tempo com filho pode ser perdido) vendo filmes fora da minha lista. Por meu filho, fui ver Frozen, crônica da semana passada. Também por ele, fui ver “Caminhando com os Dinossauros”. Praticamente “obrigado” a ver esses filmes, sob pena de “cadeira do pensamento”, tento assisti-los com olhos de cronista. Cato metáforas, metonímias, hipérboles, e outros palavrões subliminares.
Pablo Morenno

Dia internacional da palavra

Neste sábado, acontece uma mobilização mundial, proposta pelo Museo de la Palabra, da Espanha, para se encaminhar à ONU que o dia 23 de novembro passe a ser o “Dia Internacional da Palavra.” Um dia especial para a palavra, tem por escopo reconhecê-la como instrumento de paz, como antítese da violência, como princípio de entendimento entre pessoas e nações. No mundo judaico-cristão a palavra é a dimensão mais importante. O Antigo Testamento começa com a criação do mundo pela palavra. E o evangelista João começa seu texto dizendo que a Palavra armou sua tenda entre nós. Claro, João evangelista abriu uma porta à interculturalidade. Escreveu em grego e utilizou o vocábulo “logos”. Para os gregos, “logos” era o princípio racional do universo. Era o “logos” quem colocava ordem no “caos”.
Pablo Morenno

Nova Lei de Trânsito

No século XX cerca de 35 milhões de pessoas morreram em acidentes de trânsito. Os feridos totalizaram 1,5 bilhão. A cada final de semana, aumentam as estatísticas de tragédias no trânsito. A Lei Seca teve pouco significado neste contexto todo. Passo Fundo, cidade onde moro, virou manchete nacional na última semana pela morte de pai e filho originada por desentendimentos no trânsito. E no Rio Grande do Sul, há pouco um jovem atropelou uma multidão e, há um pouco mais, um funcionário público do Banco Central direcionou seu carro contra um grupo de ciclistas.
Pablo Morenno

Leitores e eleitores

A importante revista inglesa "The Economist" anunciou em suas manchetes, há algum tempo, que a leitura no Brasil é uma vergonha. Para a revista, a situação das bibliotecas públicas e o baixo índice de leitura dos brasileiros constituem "motivo para vergonha nacional", juntamente com o crime e com as taxas de juros. Não por acaso, as sociedades menos desenvolvidas e mais dominadas são justamente as que menos lêem. São aquelas que admitem o analfabetismo com naturalidade. Aliás, um dos indicadores de desenvolvimento usados na atualidade é o número de televisores difundidos pelo país. Não é o número de livros publicados ou lidos pelo cidadão. Não devia nos estranhar que o deputado mais votado do Brasil nas últimas eleições seja alguém vindo da televisão, onde alcançou popularidade. E o pior, corre risco de não ter homologada a sua eleição, por supostamente ser analfabeto.