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Marisa Bueloni

Começar de novo…

O que é que muitos de nós faríamos, se nos fosse dada a chance de viver de novo a nossa vida? Parece fazer mais sentido perguntar a quem já viveu, pelo menos, meio século. Do alto de 50 respeitáveis anos, é permitido olhar para trás e cofiar o queixo. Passar a mão no cabelo. Tirar uma lasca de unha. Suspirar. Deixar correr uma lágrima. Mas para um jovem que deu um mergulho num lago, bateu a cabeça numa pedra e ficou paraplégico, a pergunta também caberia. Se ele pudesse viver novamente a sua vida, naquele momento do salto, ele não teria pulado, sem antes indagar a alguém da vizinhança se havia pedras no fundo.
Marisa Bueloni

Inspiradora vida

A vida é o que me inspira. Lembro a escritora Clarice Lispector, ao afirmar que não se acostumava a uma vida fácil. De fato, acabamos nos adaptando às múltiplas dificuldades da nossa caminhada e, num dado momento, se tudo parecer fácil ou simples demais, o santo desconfia... Quem já se acostumou a lutar, sentirá falta da peleja diária se, de repente, as coisas começam a ficar suaves demais pela estrada a fora. As repetidas tensões do cotidiano formam em nós a espada necessária para combater o bom combate. Terminar a corrida, guardar a fé.
Marisa Bueloni

Aprendendo a respeitar

Antigamente (permita-me essa licença poética), havia dois sexos: o masculino e o feminino. De certa forma, ainda é assim. Em qualquer formulário, aparecem apenas os dois sexos para colocar a cruzinha. Nas compras pela internet, estão lá os dois sexos, e clicamos num deles. Até a internet mantém esta regra binária para o universo da sexualidade. Mas o mundo mudou. Os tempos são outros. Embora o padrão da matriz biológica seja a heterossexualidade, ninguém mais fecha os olhos para a diversidade sexual que se impõe cada vez mais na mídia e em toda parte.
Marisa Bueloni

Da matéria dos sonhos

Gosto muito desta frase de Shakespeare: “Somos feitos da mesma matéria dos sonhos”. Este dito me faz sonhar. Creio que nossos sonhos são a nossa esperança, desde o momento do nascimento. Vamos crescendo, reconhecendo as diferentes etapas da vida e os sonhos estão presentes em todas elas. Jamais deixar de sonhar, eis um lema fundamental para cumprirmos bem nossa caminhada terrena, sem perder o interesse pela vida e a curiosidade que nos faz vivos, a cada respiração de nossa caixa torácica.
Marisa Bueloni

Memória

O que dizer dos dias que passam como se não passassem? O que pensar da estagnação que, às vezes, toma conta de nossa existência, causando desalento? É quando procuramos pela poesia da vida, presente em toda parte, em todos os momentos. Ela sinaliza que estamos vivos e interessados em viver. A poesia do cotidiano apresenta-se tão bela e tão pequenina. Pode passar despercebida e então teremos perdido um grande espetáculo. Drummond escreveu sobre as coisas lindas, muito mais que findas. Afinal, são as que ficarão.
Marisa Bueloni

Menos é mais…

Aposto sempre na simplicidade. A verdade é que os tempos estão bicudos e não podemos brincar. Temos de administrar muito bem nossos ganhos, nossos proventos, ainda que modestos, ou corremos o risco de nos dar mal. Penso nos momentos da vida em que a simplicidade é sempre a melhor escolha. Uma espécie de “morte do eu”, do nosso inflado e exigente “ego”, mortezinha vital para enxergarmos um pouco além da própria imagem e resistir ao que nos seduz de forma quase irracional.
Marisa Bueloni

O planeta tem sede

Há muitas formas de fome, de sede e de carências neste mundo de Deus. Contudo, a pior delas deverá ser sempre a que é interpretada literalmente, a verdadeira sede, aquela que nos lembra a água, em primeiro lugar. Hoje, com a difusão de conceitos ligados à preservação do meio ambiente, temos conhecimento de práticas que podem interferir negativamente no ciclo natural da vida. Se tivermos a consciência de que os elementos da natureza são vitais para a nossa sobrevivência, passamos a vê-los com outros olhos. E quando a escassez destes recursos se faz sentir de forma dramática, atingindo-nos em nossas necessidades e atividades diárias, maior se torna a nossa preocupação.
Marisa Bueloni

O mar e eu

Numa viagem recente, fui ver o mar, oceânico dono de mim. Pisei numa praia linda, senti o calor das areias. Sonhei. E repito aqui meus versos plenos de amor. Mar, identificado o teu perfil, ali fundear meu coração marinho. Minha alma, um navio insubmergível, rompendo a textura da água. Onde começa tua genealogia? Deus criando a vida? Ares se condensando, vapores, fumegante paisagem do tempo. Crescente plano de águas, fervuras, matriz de rendas brancas. À tona, a luminosidade, límpida evidência de cores, marulhares. No desvão das marés, a densa história de tua aventura. Que é mito, saga, água. Fértil de naturezas, pródigo de intimidades, na pele de tua superfície, quem mergulhou o mais fundo de ti? Não contabilizo a proposta de invasão, não sei fazer amor contigo. Apenas te desejo, na areia.
Marisa Bueloni

Sala de jantar

Minha sala de jantar completou 38 anos. Foi comprada em maio de 1977, destinada à casa nova, para a qual nos mudamos naquele ano. Ela chegou com pompa e alegria. Solene e forte, robusta e importante, mas simples na sua função primeira: a de ser a mesa sagrada em volta da qual uma família se reúne. Se já pensei em trocá-la, em mudar estes móveis? Sim, muitas e muitas vezes. Os modismos vieram e se foram e eu continuei com a mesma mesa, por mais de 30 anos. Em geral, quando alguém compra uma mesa de jantar, adquire também uma espécie de bufê ou arca, que acompanha o móvel. Há quem prefira utilizar um armário, combinando na mesma madeira. Outros optam apenas por um aparador e um espelho na parede, num estilo mais limpo e despojado. Há quem goste de uma cômoda antiga, sobre a qual se exibem porta-retratos da família. Ou ainda uma cristaleira. Fica ao gosto de cada um.
Marisa Bueloni

Inspirações de abril

O que fazer agora, se já passou da hora? Prefiro a dor da ausência ao dogma da ciência. Fique em minha alma a sugestão da calma. O que mais desejo? De Deus, o Seu beijo. Assim desejo saudar o leitor nesta crônica de abril. Para encantar os corações. Para abraçar Marias Eugênias, Lucinhas e tantos queridos que me enviam e-mails amorosos e gentis. Na crônica de abril derramo meu coração febril. Aqui no condomínio de casas onde moro, saio lá fora na rua e espio o céu noturno. As estrelas profundas tremeluzem serenas. Um vento suave percorre o casario e eu rezo. Rezo pela Rua Um, rezo pela Rua Dois. São apenas duas ruas, no recanto de conto-de-fadas onde moro. Rezo pela paz!
Marisa Bueloni

Livros & dores

Quando achei que seria capaz de escrever um livro “sobre a dor”, vieram-me à memória os inúmeros livros que já lera na vida. Aprendi algo com eles? Creio que sim. Comecei a ler muito cedo e, ao terminar a Escola Normal, aos 18 anos, eu já tinha lido quase todos os bons autores brasileiros e toda a trilogia “O Tempo e o Vento”, de Érico Veríssimo, pela qual me apaixonei. Aprecio os romances e biografias, mas textos na primeira pessoa e relatos autobiográficos são os que mais me fascinam. Nos anos 80, editei uma coluna literária num jornal local e as editoras me presenteavam com livros: literatura brasileira e estrangeira, poesia, psicoterapia, publicações diversas, coleções, lançamentos especiais que eu ia devorando dia após dia. Aquilo caía do céu direto às minhas mãos.
Marisa Bueloni

Tempo pascal

Caro leitor, já viu o preço do ovo de Páscoa? Já viu os preços dos demais produtos e alimentos que precisamos consumir? Com uma nota de cem reais enchíamos um carrinho de compras. E hoje? O que conseguimos trazer para casa? Não fosse este tempo pascal, a vida transcorreria comum e corriqueira. Mas surge uma febre outonal, de quando se sente pequenino demais diante do assombro. Elevo os olhos para o vasto céu e vasculho o infinito. Na grandeza cósmica, professo o apagamento, a pobreza no espírito, a solidão mil vezes abraçada. O silêncio é a minha religião.
Marisa Bueloni

Teoria da dor

Sou uma pessoa tocada pela dor. Desde muito cedo. Refiro-me à dor física. Seria eu uma “alma eleita” para sofrer? Não sei. Já tive um pouco de tudo. Quando menina, dores de dente de uivar, dores de barriga, dores insuportáveis pelo corpo. Passava noites em claro, minha mãe esfregando um paninho com álcool nas minhas pernas. Peguei caxumba, sofri com furúnculos, terçóis (hordéolo) de não abrir o olho. Entre nove e dez anos, tive a boca queimada pela ingestão de um remédio para giárdias. Esvaziei a caixa d´água, de tanto lavar os lábios pegando fogo. Andava com um lenço, pois eu babava sem parar. Nessa idade, brincando com meus primos, próximo dos materiais da reforma de uma casa vizinha, um prego arrancou a unha do dedão do meu pé direito.
Marisa Bueloni

Eu canto um salmo

Reina no mundo um desenfreado apelo de sedução e confusão, não condizente com as coisas do espírito. Meninos hipnotizados por jogos de morte; meninas que deixam para trás a infância e a inocência, para requebrarem lascivas e precoces. Casamentos destruídos por traições, ciúmes doentios, mortes dolorosas. Famílias sacrificadas na sua missão primeira de educar e ser aconchego para os filhos. Lares desestruturados, ausência de caridade e de sacrifício. Em tempos de consumo, como falar de renúncia e desapego? Como levar às pessoas uma mensagem de luta, mas também de resignação, quando o gesto de mortificar-se já não tem nenhum sentido?
Marisa Bueloni

Fragmentos de um sábado

Fico assim, sem saber por onde começo. Que dia é hoje? E ouço a música do tempo. Acordo do sono dos séculos. Sou alguém atípica. E rezo para que o tempo sacie minha sede de fé. Pode crer. Onde está a margarida e o "paz e amor"? Ficaram lá atrás, quando o sonho existia e havia aula na faculdade, no sábado à tarde. O coração não sabia direito o que era o amor, mas, ah, como a gente amava! Banho tomado, cabelo lavado. O perfume do creme está na pele e a pele é o sábado. Sábado tem a textura corpórea do que existe. Metafisicamente. O que vestir no sábado? Não sei. O que pensar? Não sei. Quero esquecer que é sábado. E que, num sábado, eu te beijei.
Marisa Bueloni

Enquanto a chuva não vem…

Comecei a escrever um texto nos dias anteriores às chuvas de fevereiro. Enquanto a chuva não vem... Pensava nas estiagens da vida, na aridez de tantos gestos, nas mortes de quem morre tão inocentemente, nas dores e lutas de todos nós. Desde que começamos a enfrentar a atual situação de escassez hídrica, houve uma espécie de consciência popular, preocupação real com o assunto, um interesse verdadeiro pelas causas deste desastre e como combatê-lo. Tanta gente importante e competente já deu seu parecer. Teve grande impacto a entrevista do biólogo que explicou o fim do cerrado e o quanto isso implicará na falta de chuvas para a região sudeste. Já não há mais dúvidas de que o desmatamento da floresta amazônica também desviou de nós as chuvas abençoadas e necessárias.
Marisa Bueloni

Spazzio de La Pace

O ser humano é alguém de difícil convivência na face da Terra e, em algumas situações, não há o que fazer. O dono do cão sai, deixa-o durante horas, sozinho dentro de casa, e os vizinhos que aguentem. Será que o dono suportaria o seu próprio cão latindo durante uma tarde inteira? Algo me intriga: pessoas doces com animais e grosseiras no trato com o próximo. Por isso, tenho um sonho. Reunir um grupo de pessoas com capacidade de empreendimento. Comprar uma área de terra bem localizada, uns 30 ou 40 mil metros quadrados e construir um condomínio gracioso, pequenino e bem cuidado. Ruas contornando toda a área para que as casas não se “encostem” no muro que o delimita. Equipamentos antilatidos para alguma residência neste setor que viesse a ouvir algo como au-au. Paz, paz, paz!
Marisa Bueloni

Um olhar para o futuro

Temos abordado, freqüentemente, as contradições do nosso tempo e refletido sobre a inversão de valores, que acaba por confundir e promover equívocos irreparáveis. Os paradoxos são gritantes. Pregamos a necessidade de uma vida saudável e não respeitamos nosso próprio solo, produzimos poluição de forma desumana e criminosa. Em tempos de massacres anunciados, os desafios são inúmeros e exigem nosso permanente estado de alerta, diante de conceitos que nos são praticamente impostos, embalados com o selo do bem e da legitimidade. Hoje, discute-se muito a liberdade de expressão. Peço licença para opinar: liberdade de expressão, sim; respeito às religiões também. Respeite-se a fé, a crença das pessoas.
Marisa Bueloni

Quando entardece…

É no entardecer que a vida se torna mais intensa e ousa perguntar se, até aqui, tudo correu bem. Depois das três horas da tarde (a Hora em que tudo foi reconciliado em Deus), um novo movimento se faz notar por entre os sussurros diurnos. A tarde recebe do céu um vento ornado de promessas. Entre as alvíssaras, um anúncio nos assombra. “Jesus está voltando”, eis a frase escrita nas pedras dos caminhos, nos muros da vida, nas camisetas dos crentes e na fé dos que suspiram pela vinda gloriosa do Senhor. Viria Ele purificar esta terra de horrores; viria para deter o banho de sangue na Nigéria; viria em socorro dos pequeninos e dos que carregam cruzes pesadas. Viria para curar e salvar. Alguém pode aguentar mais um pouco só de violência e de corrupção? Quem consegue tomar conhecimento das notícias, sem sentir um profundo desprezo pelo gênero humano?
Marisa Bueloni

Pobre mundo rico

É lamentável, mas faltam aos nossos tempos os consistentes valores que dão suporte ao desenvolvimento de uma sociedade justa e humana, de bases fortes e dignas. A prática generalizada da corrupção é um exemplo maligno. Hoje, impera a lei da esperteza e escasseiam-se os elementos e conceitos formadores da boa educação. Há um franco relaxamento em toda parte e esta frouxidão é a tônica que vai se tornando regra de vida. As sociedades modernas se pautam pelo hedonismo e pela satisfação dos prazeres, na corrida consumista, no desejo de riqueza e poder. Todos querem ter o que é de última geração, sobretudo o celular mais poderoso. Seja para usar, seja para ostentar. A ordem é ter.
Marisa Bueloni

Um canto de paz

Minha alma deseja cantar um canto novo. Uma dessas harmonias benfazejas, capazes de nos fazer sonhar e revolucionar o mundo, o universo eternamente em expansão. Busco compreender o sentido da perene recriação cósmica, e o assombro é colossal. Jamais alguém conseguirá decifrar o grande mistério de Deus. É Ele o Alfa e o Ômega, o início e o fim. Assim, fico tranqüila ao pensar que “Deus está no comando”, como se diz, e tento descansar. Penso que de nada irá adiantar me afligir por isso e por aquilo, pois há um plano superior para toda e qualquer situação.
Marisa Bueloni

Velho ano novo

Não. Não há feliz ano velho e parece não haver nem mesmo feliz ano novo. Ano vai, ano vem, e as mesmas coisas estão aí: o perigo dos conflitos entre países, a crise mundial, violência e muita corrupção. Além de atiradores enlouquecidos que matam vidas ainda florescendo ou que praticam atos de terrorismo. Feliz ano novo. Mas há nações em guerra civil, onde as insurreições não cessam. Israelenses e palestinos continuam em luta; há refugiados pelo mundo todo, à procura de um lugar para viver, catástrofes naturais deixando um rastro de desolação e milhares de desabrigados.
Marisa Bueloni

Deus sabe o que faz

É ano novo. Frei Saul diria: “Gente, não muda nada, apenas a data na folhinha”. Eu também acho. As nossas batalhas são insignificantes perto das vitórias de Deus. Não temos ideia da Sua grandeza. Todo o universo é pouco para a extensão do Seu poderio. É Ele quem manda no ano novo. Depois que os cientistas descobriram a “partícula de Deus”, julgam estar a um passo de desvendar os mistérios da cosmogenia, da origem da vida e seus assombros. Contudo, chega-se num ponto onde não é mais possível avançar. Ali é território divino, impenetrável e, talvez, profundamente simples. Ou complexo demais para a inteligência humana?
Marisa Bueloni

As primeiras letras

Na época dos vestibulares, é comum a divulgação na mídia das “pérolas” guardadas pelos colecionadores destas espécies genuinamente nacionais: os trechos de provas que se notabilizam, senão pela hilaridade, então pela tragédia que se abateu sobre o ensino como um todo. De fato, é difícil achar graça na desgraça. E o que tem ocorrido com a alfabetização e o saber, em geral, é algo lamentável. Se o aluno chega ao vestibular praticamente semi-analfabeto, como completar a prova?
Marisa Bueloni

A força da fé

É maravilhoso pensar no auxílio divino e na maneira como o Senhor nos dá o livramento. Quando chegamos ao limite do insuportável, Ele vem e nos salva, levanta-nos com Sua mão poderosa. Se nossa dor é moral ou espiritual, liberta-nos de alguma forma, transformando uma situação aparentemente incontornável. Quando estamos sofrendo de modo sobre-humano, não mais resistindo às limitações físicas e ao sofrimento da carne, o Senhor nos dá o alívio da morte.
Marisa Bueloni

Os cães não têm culpa

Às vezes, penso que sou uma “alma-vítima”, cuja expiação é ter de conviver com latidos de cachorros. Nada tenho contra animais, ao contrário, sempre tive profundo amor por eles. Contorcia-me de pena ao vê-los sofrendo em picadeiros de circos e cresci respeitando a vida de qualquer bicho. Morei duas décadas num bairro onde, por algum tempo, desfrutamos de certa tranqüilidade. Aos poucos, o cenário sonoro foi se transformando. Durante o dia, eram os latidos na casa ao lado, a ponto de pegar meu carro e precisar sair, para aliviar a dor de cabeça. À noite, gatos correndo pelos telhados, miados agudos de felinos no cio.
Marisa Bueloni

Surto do bem

Bom, meus “melhores textos”, se os tenho, foram escritos em um surto que eu chamo “do bem” (ui!). Sim, aquele. É uma maravilha quando se tem consciência e controle sobre ele. Alguém perguntou que febre me ataca em certas crônicas. É o surto amigo que me assalta e o teclado todo não é suficiente para meus dez dedos ágeis, pois digito com os dez, fiz datilografia aos 12 anos, pratiquei em máquina de escrever até o surgimento do computador e tive uma Olivetti Lettera 32, cor-de–rosa, companheira e cúmplice. Se eu fosse pra cadeia um dia, levava ela comigo.
Marisa Bueloni

A água nossa de cada dia

Quando olhamos para um rio, vemos apenas o curso d’água que corre, deslizando poeticamente por entre pedras, carregando o murmúrio das águas e o eterno sonho dos peixes. Nossa visão, quase sempre, para aí. Um rio, em si, continuará sendo belo e profundamente inspirador, pelo que representa na natureza, como recurso para o fornecimento de água. Mas sua beleza precisa ser mantida, a qualquer preço. E não basta ser belo para compor o cenário dos cartões postais. Precisa ser limpo, fornecer água de qualidade, alvo de carinho e zelo da comunidade que dele se serve.
Marisa Bueloni

Pobreza imoral

Desde que o mundo é mundo, as diferenças sociais existem e as pessoas habituaram-se a elas. Ainda que saltem aos olhos, firam a dignidade humana e causem indignação profunda, pobreza e miséria fazem parte da história da humanidade. Os sistemas políticos estão organizados de forma a privilegiar determinados segmentos, exatamente os que dão suporte e continuidade a uma estrutura que tem suas garantias asseguradas. Algo que se pode traduzir pela palavra “poder”. Por causa dele, reinos inteiros já foram destruídos ou conquistaram a glória absoluta.
Marisa Bueloni

O tempo de vida

A idade, nosso tempo de vida na Terra, confere-nos alguma autoridade. Ou um pouco de rigor moral, para saber emitir juízos de valor, onde a noção de certo e errado, do bem e do mal, esteja fortemente alicerçada. A idade e a contabilidade das nossas lutas e vitórias, dos erros e fracassos, emergem de um ponto onde as nossas forças se destacam solenemente. Aprecio, com imensa gratidão a Deus, os momentos em que nos encontramos combalidos, seja por uma simples gripe, uma enfermidade mais grave, ou um quadro de saúde que passe a exigir uma decisão imperiosa de nossa parte.
Marisa Bueloni

O país da esperança

Assim, de esperança em esperança, vive a brava gente brasileira. Quantos governos prometeram “tirar as crianças das ruas”? Quantos prometeram mais escolas públicas e educação de qualidade? Quantos tiveram a preocupação com o saneamento básico e programas de auxílio aos estados e municípios, para que fossem feitas as obras necessárias? Foi lembrado, durante debates de campanha, que um grande contingente de brasileiros não possui um banheiro dentro de casa. Quando um governo sério e de palavra irá cumprir suas promessas?
Marisa Bueloni

Politicamente correto

Hoje, a ordem é ser “politicamente correto”. Trata-se de uma postura bastante desejável, sobretudo quando se observa a ética, a cidadania, praticando-se a justiça e a igualdade de direitos. De repente, tudo passou a sofrer uma vigilância exacerbada, um patrulhamento quase ideológico. Na verdade, em alguns casos, houve um acirramento da questão. Até mesmo os humoristas passaram a reclamar, pois piadas suspeitas tiveram de ser abolidas dos seus repertórios.
Marisa Bueloni

O sabor das maçãs

Não consigo comprar uma bela maçã doce, suculenta, com sabor de verdade. As maçãs de hoje estão pasteurizadas demais, sem gosto nenhum, algumas são difíceis para mastigar, outras possuem uma casca muito dura, impossível comer. Perdoe-me o saudosismo, mas já não se cultivam maçãs como antigamente. Ah, as maçãs da minha infância, aquelas que a gente via no mercado central, dentro de um caixote de madeira feito de ripas clarinhas, todas embaladas num papel de seda roxo, onde se lia “manzanas argentinas”.
Marisa Bueloni

A alegria da esperança

Encerrou-se parte do processo eleitoral de 2014 e, no segundo turno, iremos eleger a pessoa que irá governar o nosso país por mais quatro anos. Pode ser que não seja o seu candidato, tampouco o meu candidato. Paciência. O importante é a vitória da democracia. O direito de refletir, escolher e votar. Temos assistido a muita violência e assalta-nos a sensação de desamparo, de abandono. Ficamos indignados com a falta de políticas públicas voltadas para a segurança.
Marisa Bueloni

A religião do amor

Perguntaram-me se não haveria luxo demais em certas igrejas, com críticas à “riqueza do Vaticano”. Agora, o alvo é o tal Templo de Salomão, erguido pela Igreja Universal, em São Paulo. De fato, trata-se de uma obra colossal, de rica arquitetura, réplica do que teria sido o templo sagrado. Uma religião nos reúne numa mesma fé. Ricos e pobres, médios e remediados, todos conhecem o bem e o mal dentro de suas consciências. Quem tem muito sabe que deve repartir. E as religiões podem cumprir um papel social importante, quando pregam o amor, a caridade, a fraternidade, combatendo também as injustiças.
Marisa Bueloni

Realidade e fantasia

O que é razoável? A realidade tem sido bastante dura, reconhecemos. O cotidiano exige cada vez mais de nós, sobretudo pelo medo e insegurança com que vivemos. A violência nada tem de simbólica: ela é real e suas histórias são concretas. Casos de sequestros, assaltos e crimes se repetem à exaustão. Pessoas são mortas estupidamente; traficantes medem forças com a polícia, numa guerra que espalha pânico pelos bairros periféricos das grandes cidades. Vemos as cenas na tevê e elas parecem não nos atingir.
Marisa Bueloni

Vida encantada

Depois de sair pelas ruas perguntando se a vida é dura, concluo que este contato ao vivo com seres humanos é algo muito benfazejo e encantador. Em geral, as pessoas são educadas, portam-se muito bem numa abordagem e respondem com boa vontade. Falamos tão pouco com o próximo. Cultivamos uma fria distância, para não haver nenhum tipo de comprometimento. Quanto menos envolvimento, melhor. Como se diz: cada um na sua.
Marisa Bueloni

A vida é dura?

Um dia, observando um senhor maltrapilho, descalço, puxando uma tosca carrocinha de madeira, lotada de cacarecos, jornais e caixas de papelão, fiquei pensando em como teria sido a vida daquele homem. Tivera, alguma vez, um trabalho digno? Sem aposentadoria, certamente, precisando da pobre atividade para sobreviver. Para ele, a vida era dura. A fila de carros andou e o homem não saía da minha mente. Se a vida é mesmo dura, eu queria saber de verdade. E não somente para aquele idoso no meio da rua. Queria perguntar aos bem vestidos, os que vão sobre suas motos, nos seus carros, em seus diferentes trajetos e postos.
Marisa Bueloni

Sonhando…

Se o Senhor me permitir, desta vez pego carona no primeiro vislumbre da beleza. Sinto muito, eu vou. Num rabo de foguete. Numa subida vertiginosa e alucinante, sem dar tempo de pensar. Uma elevação destas em que o espírito não sabe por que subiu tão alto e por que a Terra brilha lá embaixo. Seguro firme no cordão prateado, entrelaçado de rosas, e vou ver de perto o sonho: o pote de ouro onde nasce o arco-íris. Se o Senhor me permitir, gostaria de desvendar o mistério. Que face ele tem. E o que quer de nós. Erguer só uma pontinha do véu. Ó, que fascínio, que estupendo entender coisas como nascimento, morte, vida, paixão. E jamais desistir de sonhar, caso não venha a entender absolutamente nada.
Marisa Bueloni

Fenômenos de aporte

Caro leitor, você já ouviu falar em fenômenos sobrenaturais e em aporte? Bem, minha crônica também é cultura. Aportes são, segundo o Google, “surgimentos repentinos de objetos provindos de locais diversos que não apresentam qualquer limitação perceptível em suas ocorrências: desde frutos até cães e pássaros, tudo parece ser passível de ser aportado”. Alerta-nos nosso bravo auxiliar Google que “os aportes não devem ser confundidos com transportes ou materializações”. Entendeu?
Marisa Bueloni

Vote em mim

Vote em mim, caro eleitor, que vou acabar com todo tipo de conflito, nem que seja no grito, e com toda tristeza na face da Terra. Assim, Terra com T maiúsculo, que é para impressionar as almas. Calmas!... Tristeza não mais haverá e a alegria imperará por toda a parte, como um toque de mágica e de arte. Como vou fazer isso? Não sei. Apenas prometo. Vote na Tereza, ela acaba com a tristeza. Você que está aí sofrendo com dívidas e contas. Ora, lontras! Eu serei para o meu eleitor um bravo lutador, do tipo radical. Prometo saírem rapidinho do cheque especial. Vote em mim, eu sou o Hilário, o rei do saldo bancário.
Marisa Bueloni

Meu reino por um travesseiro

Eu até havia “acertado” um bendito, de uma marca conhecida, aquele “da Nasa”. Lembro do meu primeiro contato com essa espuma que afunda e volta ao normal. Estava à procura de um bom e macio travesseiro e o vendedor mostrou vários modelos até chegar “ao da Nasa”. O artefato era feito com a mais moderna tecnologia espacial e educadamente recusei. Muito obrigada, moço, mas prefiro um daqui da Terra mesmo... Andei experimentando marcas e diferentes modelos recomendados, até provar um destes de espuma com tecnologia do espaço. Quem sabe a gente sonha que está nas nuvens, num céu cheio de estrelas? Vá lá. Comprei um. Eureka! Descobri a roda, a pólvora e inventei a lâmpada, que maravilha!
Marisa Bueloni

Santo Elesbão

Sou católica e feliz por ter nascido num lar católico, vendo meu pai e minha mãe rezando o terço de joelhos, todas as noites, diante das imagens dos Sagrados Corações de Jesus e Maria. Ser católico é ser universal e acolhedor. Tenho amigos evangélicos, espíritas, budistas, judeus, agnósticos e vejo que até mesmo os ateus creem num Ser Superior que rege todas as coisas. O católico de verdadeira fé, com profunda vivência dos valores cristãos, possui uma alma nobre, compreende e perdoa. Ama a todos, de todas as confissões religiosas, respeitando-os, como nos ensina o papa Francisco.
Marisa Bueloni

Bola pra frente…

Esta é uma expressão muito usual entre todos nós. Costumamos dizer “bola pra frente”, quando nos referimos ao contínuo ritmo das coisas que devem prosseguir, apesar dos pesares. O final da Copa foi trágico e amargo para a seleção brasileira? Pode até ter sido, mas deixou suas lições de que, em qualquer atividade ou profissão, é importante estar preparado, treinado, apto, capaz. Vimos, praticamente, a decadência do nosso futebol. Aquele futebol brasileiro que um dia encantou o mundo parece não existir mais. Contudo, pode ressuscitar, se houver gente disposta a apostar nele.
Marisa Bueloni

Venceu o melhor

Quase sempre, para amenizar os ânimos e deixar que um determinado resultado seja justo, dizemos “que vença o melhor”. Nesta Copa do Mundo de 2014, o melhor dos times já despontava, porque ouvíamos e líamos sobre tudo o que a seleção da Alemanha havia feito lá em Santa Cruz Cabrália, na Bahia, com o objetivo de vencer este Mundial. Os alemães construíram um complexo hoteleiro, um Centro de Treinamento aqui no Brasil e treinavam à uma hora da tarde, com sol a pino, para se adaptar bem ao clima tropical. Pavimentaram estradas próximas ao local, souberam conviver com os índios pataxós, encantando-se com a exuberante beleza nativa.
Marisa Bueloni

Conseguimos conquistar com braço forte

Penso eu que os do “contra a Copa” se renderam todos, depois da partida de sábado. É bonito ver raça, garra, espírito bravio e amor àquela camisa que todo jogador brasileiro sonha em vestir um dia. Creio que muitos não agüentaram permanecer diante da tevê, após a prorrogação, quando a decisão seria nos pênaltis. É brincadeira? Mas, havia um braço forte de um goleiro chamado Julio César, que já começara a derramar suas lágrimas antes mesmo de tomar posição junto às redes, para enfrentar as cobranças mortais. Emoção? Medo? Insegurança?
Marisa Bueloni

Depois da Copa…

A Copa começou, a seleção brasileira venceu o primeiro jogo, empatou o segundo e venceu o terceiro. É líder no seu grupo. E as partidas prosseguem. Seja o que Deus quiser, mas conforme prega o incrível Kajuru, do Canal Esporte Interativo, está tudo "certo e arranjado" para o Brasil. A taça já é nossa e queremos ver para crer. É bom lembrar que, após a Copa, haverá a preparação para as Olimpíadas de 2016. É fatal lembrar também das lágrimas de Lula e Pelé, emocionados com a escolha da Cidade Maravilhosa.
Marisa Bueloni

Mulher entende de futebol?

Em pleno mundial de 2014, essa Copa do Mundo não desce nem redonda nem quadrada, porque há muita coisa entalada em nossa garganta canarinho. Homem sempre acha que mulher não entende de futebol e da regra do impedimento. Nem sempre ela é aplicada com retidão pelo árbitro, que pode se enganar, anular gols legítimos ou marcar impedimento quando há condições legais de jogo. A beleza e a graça do futebol residem nos erros da arbitragem, dando faltas demais, marcando pênaltis duvidosos, expulsando injustamente. Ponham um chip na bola e o futebol perderá a graça. Não pode haver esse detalhamento de falhas, em busca da precisão: é vital para o nobre esporte o desempenho limitado do homem imponente de calção preto, em seu papel técnico e humano, para o bem ou para o mal.
Marisa Bueloni

Pessoa de fé

Acho que sou uma pessoa de fé, destas que acreditam na vida, nas outras pessoas e mantém acesa a chama da esperança e da caridade. Talvez, quem sabe, alguém meio fora de moda, que ainda reza, em descompasso com este louco mundo onde já não há lugar para o sagrado, para Deus, para a espiritualidade, para a partilha e o perdão. Nota-se, cada vez mais, a falta de bons valores, de princípios, de honradez, em muitas atitudes onde a lisura e a honestidade deveriam ser leis. A esperteza, sim, é um valor apreciado. Talentoso é quem é esperto, sabe passar a perna nos outros, sabe tirar vantagem de todas as situações e conseguir para si proveitos e regalias.
Marisa Bueloni

Amorosa consciência

Costumo cultivar uma tese relevante: a de que as coisas não devem ser tão facilmente descartadas. Muitas pessoas se cansam logo do que possuem e se atiram, irrefletidamente, à troca de tudo o que é passível de substituição. Fazem decoração nova na casa a cada ano, renovam também o guarda-roupa, compram e consomem de forma quase irracional, pondo de lado objetos e peças em perfeito estado de uso. Talvez por modismo, ou por pura veleidade. Hoje, a ordem é reciclar e aproveitar tudo o que pode ser reutilizado. Vivemos tempos críticos, onde a questão do aquecimento global tem inspirado alguns líderes políticos na cruzada em defesa do planeta. O consumo desmedido e irresponsável deverá ser repensado, pois ele tem sua parcela na contribuição ao aquecimento.
Marisa Bueloni

O poeta encontra a poesia

O que acontece quando o poeta encontra a poesia? Deve ser um evento de sublime natureza, creio eu. Penso que hoje deveria brindar os leitores com uma crônica de alta voltagem e trazer um pouco de reflexão a este nosso mundo caótico. Quem sabe, um texto poético, para este universo eclético? Teríamos tanto a dizer, a expressar, a escrever. Ficamos entre um tema e outro e, se não nos decidirmos logo, não sairemos do lugar. A vida urge. O tempo não para, já dizia Cazuza, que foi um destes poetas desgraçados que a vida acabou de desgraçar. Por uma escolha pessoal. Havia nele o perigoso amálgama de sonho, rebeldia, profecia e verdade. Soube misturar tudo isso, com segredos de liquidificador, assim como o fez Renato Russo, deixando à mostra o nervo exposto da sua dor e da sua angústia existencial.
Marisa Bueloni

Na longa estrada da vida

Se me perguntarem qual mês é mais bonito, se abril ou maio, hesitarei na resposta. Abril é todo feito de luz, prenúncio e confirmação da beleza outonal. A Terra se recompõe para um novo movimento e pode-se ouvir o rumor de seu eixo em rotação. Maio me traz uma parte linda da infância e do grupo escolar. É o mês dos casamentos, o mês de Maria, o mês do rosário. Relembro meu pai e minha mãe, rezando o terço, de joelhos, diante do quadro dos Sagrados Corações. Não sei se rezo mais em maio do que nos outros meses; acho que não. Rezo igual.
Marisa Bueloni

E abril passou…

Acabamos de celebrar a santa Páscoa e ainda é abril. Duas festas lindas para os nossos corações. Uma leitora querida me pediu um texto celebrando as tardes aprilinas. Espero não me perder em meio à crônica que encerra abril, pois eis que o mês mais lindo do ano termina. Abril passou e não o cantei, não o descrevi em suas tardes magníficas, não o exaltei em suas virtudes. Abril passou com um calor tropical atípico. De onde vem esta onda tórrida que nos obriga a pedir pela chegada do frio? Seria mesmo o propalado aquecimento global o grande causador das mudanças climáticas em nosso planeta?
Marisa Bueloni

Casar por amor

Recentemente, numa conversa, falava-se do casamento e dei um palpite acertado. O assunto era “casar por amor”. E o outro lado da moeda: “casar sem amor”, ou seja, casar por interesse, casar para juntar e preservar fortunas, patrimônios; casar para sair da casa dos pais e tantas outras razões. Não sei se nos dias atuais os jovens sentem pressa de casar. Parece que não. Os moços de hoje demonstram gostar bastante do ninho doméstico, ter o quarto deles, comida e roupa lavada, usufruindo de toda a estrutura da casa dos pais.
Marisa Bueloni

Benquerenças

Quero o sabor da infância, a bolsa de couro, novinha, do antigo primário, com um cheiro que impregnava a alma e os sentidos. Quero uma lancheira com alça de cruzar no peito e um bolo de fubá feito pelas mãos da minha mãe. Quero de volta a inocência da vida. Aquela que todos perdemos, um dia, quando se descobre a verdade. E aí, não tem mais volta. É preciso dignidade no contato com o assombro, e foi de rasgar a alma, não foi? Quero ter um dia na semana para ficar letargicamente deitada ao sol. Como um lagarto, espreguiçar-me no espaço solar da minha casa terrena. Que a pátria celestial espere um pouco, pode ser? Tem um montão assim de coisa que eu ainda preciso fazer.
Marisa Bueloni

A vida é feita de escolhas

Parece que o título acima constitui a frase campeã do Facebook, em todas as suas formas e estilos. A frase vem enfeitada de fotos apaixonantes e emblemáticas. Sim, a vida é feita de escolhas. Feliz de quem acreditar nisso e apostar toda a sua energia nesta verdade fundamental. Temos, dentro da nossa alma, um intrínseco conhecimento do que é correto e do que não é. Embora se afirme hoje, exaustivamente, que já não se consegue distinguir o certo do errado, pois estamos sob um bombardeio de falsos valores, a verdade é que sempre reconheceremos o bem em toda e qualquer circunstância e em sua inquestionável magnitude.
Marisa Bueloni

O bom combate

A vida é um poema. E não fui eu que inventei isso. Vejo em toda parte uma poesia que se exibe e se expõe. O mapa da noite é um só e desenha mais que continentes e litorais. A luz do dia maravilhoso me permite ver ainda melhor. Vejo poesia nos objetos que toco pela casa, no guardanapo que enxuga a louça, nas roupas que visto, no teclado do meu computador. Trata-se de uma poesia que permeia cada passo e cada momento, deixando gravada suas digitais no zelo com que se reconstitui a vida, em sua exata definição.
Marisa Bueloni

Ode ao Mar

Mar, identificado o teu perfil, reconhecido onde te espraias, ali fundear meu coração marinho. Alumbramento azul, azul. Minha alma, um transatlântico insubmergível rompendo a textura da água. À tona, a luminosidade, límpida evidência de tons, marulhares. No desvão das marés, a densa história de tua aventura. Que é mito, saga, água. Fértil de naturezas, pródigo de intimidades, na pele de tua superfície quem mergulhou o mais fundo de ti? Para onde vão as espumas desfeitas? Fundem-se, misturadas ao que deixou de ser? Como apreender a fugaz existência do que o olho cria?
Marisa Bueloni

Sem palavras

O dever me chama. Tenho um texto para redigir. Minha sagrada crônica. Diante do computador, penso em tanta coisa. Vasta é a temática da vida. Vasto é o mundo e sua história. Não sei se abordo a realidade brutal que nos assalta a cada momento, ou se elaboro um texto construído de metáforas e um pouco da necessária poesia, para encantar os corações de todos nós. Penso no rio Piracicaba tão seco, deixando à mostra a dureza de seus ossos; a foto do menino que andou sobre as pedras com sua bicicleta e a mortandade de peixes. É de chorar! A chuva veio por uns momentos e consta que não foi suficiente para encher os reservatórios. Começamos a pensar melhor sobre o que será do mundo, se um dia nos faltar a bênção da água.
Marisa Bueloni

Um dia…

Um dia, quem sabe, irei desejar a paz presente na respiração do universo. A paz dos riachos e das montanhas. A paz de uma praia deserta. Preciso de solidão e de quietude como do ar que respiro. Preciso da solicitude da vida, ou pereço. Quem sabe, um dia, meus pés tocarão a quentura das areias. Terei tempo? Uma praia gentil, não para longos banhos de sol e pele bronzeada. Esta vaidade já passou. Apenas uma praia graciosa e a delícia que dela emana. Não precisa ser linda demais, oh não. Pode ser uma beleza precária, de horizontes parcos, feitos de baixios, carecendo de oferecer à vista montanhas exuberantes ou entrecortes de lagoas azuis. Ainda que seja a plana paisagem insular, da avenida beira-mar com mato, está bom demais.