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Maria Cristina Castilho de Andrade

Abuso e máscaras

Creio que o abuso sexual infantojuvenil é assunto a ser comentado em todas as oportunidades. Mesmo que não deixe marcas no corpo, fere a alma e as lembranças para sempre. Algumas coisas não compreendo: por que um pedófilo, que tem consciência do que é certo e do que é errado e condições de buscar ajuda para se superar, não o faz? Por que, inúmeras vezes, os que se encontram no entorno do abusador, em lugar de inocular mais máscaras para defendê-lo, não o ajudam a assumir a verdade e, a partir dela, perseguir caminhos que salvam?
Maria Cristina Castilho de Andrade

Assuntos polêmicos

Discordo da “ideologia de gênero”, assunto rejeitado no Plano Nacional de Educação (PNE) e que ressurgiu no dos municípios (PME). É a negação da identidade biológica masculina ou feminina, tornando-a uma função social. Considero ofensivo o uso pejorativo de vestuário e símbolos religiosos em parada gay, desfile carnavalesco, baile à fantasia etc. Não deixa de ser uma intolerância contra os que vivem a sua fé. Falta nobreza de atitude.(...) Sou contra a redução da maioridade penal. O sistema carcerário brasileiro é falido. A superlotação dificulta que o ser humano passe por um processo de mudança.
Maria Cristina Castilho de Andrade

A arrogância racista

Não fosse a arrogância de incontáveis brancos, seríamos preparados a olhar os negros como iguais, com reconhecimento por aquilo que fizeram e fazem pelo Brasil e com um pedido de desculpas pelos horrores da escravatura e das desigualdades que atravessam os séculos. As leis contra as consequências funestas da segregação racial avançaram em nosso país, porém para inúmeros os sentimentos permanecem empedernidos. Perversidade dos que se julgam superiores por sua raça. Sinto-me muito à vontade para escrever sobre este assunto, pois meu sangue vem de Portugal e depois da Espanha e do povo Karajá da Ilha do Bananal. Além disso, minha descendência é afro-brasileira, através dos filhos que Deus enviou do coração d'Ele ao coração de minha cunhada e meu irmão.
Maria Cristina Castilho de Andrade

Meninos do tráfico

Meninos desconhecidos ou não que se tornam notícia na página policial me comovem e apontam a impossibilidade quase total de trazê-los de volta. Há estágios para adentrar ao mundo da criminalidade e, atualmente, a maioria dos meninos chega a ele através do tráfico. Em casa, aquela, aquele ou aqueles que deveriam ser guardiães deixam as portas destrancadas e não cuidam como deveriam. Geram filhos do acaso e depois não os reconhecem como responsabilidade própria. Sei que existem pais e mães que carregam, ao nascerem, conflitos familiares mais intensos não solucionados. Trazemos como legado a visão, as atitudes e os valores de ascendência.
Maria Cristina Castilho de Andrade

Julgar sem ouvir

A menina possui responsabilidades de mocinha. Leva o irmão mais novo à escola e, em casa, cuida dos três menores, enquanto a avó realiza tarefas diversas. Estuda também. A mãe sai cedo para o trabalho. Às vezes, um dos irmãos – nem todos do mesmo pai – passam dias com familiares. Interessante, jamais ouvi falar que ela se encontra na residência de algum parente. Permanece de janeiro a dezembro no mesmo espaço, com o sorriso franco e o abraço macio. Prefere os dias de semana, para não ficar trancada nos dois cômodos em que residem cinco adultos e cinco crianças.
Maria Cristina Castilho de Andrade

Roubo e devolução

O abuso sexual infanto-juvenil é um roubo da essência da criança e do adolescente, que pode desequilibrá-los por uma vida inteira. Devolver o que é inerente ao seu ser, nessa época de sua vida, é dever do Estado e de todos os indivíduos avessos à omissão. Incomoda-me demais saber que no silêncio de algumas casas ou em outros locais, neste instante, alguém machuca o físico e/ou o emocional infantil, para liberar seus instintos bestiais. Incomoda-me demais inteirar-me de que não existe uma campanha eficiente que detenha os abusadores - muitas vezes abusados na infância - através de encaminhamento médico, antes que gerem novas vítimas. Incomoda-me demais observar o estímulo à sexualidade precoce na sociedade atual, bem como à volúpia sexual que explode nos mais frágeis. Mas voltando à sala da DDM, pequenos de diferentes idades são ouvidos, através de palavras, desenhos ou atitudes, que demonstram ter ou não algo de mal acontecido com eles, enquanto a mãe ou o pai ou o responsável esclarece o fato à Delegada.
Maria Cristina Castilho de Andrade

Afogada em pedras

As pessoas entram no coração pelo olhar, pelo abraço, pelo sorriso, pela palavra, pela música, pela compaixão... É assim comigo. Independem das aparências, das escolhas, das quedas, das vitórias, dos fracassos, do que possuem ou deixam de possuir. Tornam-se queridas minhas. Nós a conhecíamos, aqui de casa, faz anos. Creio que desde o final da década de oitenta. Tocava a campainha, encostava-se ao canto do portão e me chamava pelo nome. Pedia algo: um pacote de bolacha, um quilo de açúcar, um pedaço de bolo nos dias de festa ou ajuda em dinheiro. Gostava quando lhe oferecíamos balas ou bombons. Sem murmúrios, não insistia nas negativas e não deixava de perguntar sobre como a mamãe se encontrava. Às quartas-feiras, era comum estar na calçada, no aguardo de meu retorno da reunião da Pastoral da Mulher – Santa Maria Madalena, para a qual lhe fiz inúmeros convites. Mansa de coração. Delicada nos gestos. Breve nos contatos.
Maria Cristina Castilho de Andrade

Meninas para a boca

Tenho piedade das meninas, da periferia geográfica e existencial, com corpos de pele tenra, manipuladas por adultos inescrupulosos ou pela ignorância dos que não sabem que carícias impróprias emporcalham o emocional. Condoo-me ao ver pequeninas dançando com trejeitos sensuais sob aplausos dos grandes, que as consideram “evoluídas” para a idade. Apiedo-me das menores, com trajes diminutos, à mercê de homens e mulheres ébrios. Lastimo ao saber que crianças assistem a filmes pornográficos e/ou a relacionamentos sexuais de adultos ou jovens que as rodeiam. Lastimo ao saber que veem as novelas que escarnecem dos valores que alicerçam o ser humano.
Maria Cristina Castilho de Andrade

As delicadezas de Deus

Considero Deus de delicadeza extrema. Clarice Lispector, certa vez, escreveu sobre isso: “Um dia uma folha me bateu nos cílios. Achei Deus de uma grande delicadeza”. Quando Ele me propõe algo, não usa de voz grossa e de prepotência, embora seja o Senhor. Fala mansinho, sem imposições, no livre arbítrio. E tenho experimentado que os planos d'Ele são melhores que os meus.
Maria Cristina Castilho de Andrade

Apesar de tudo…

Surpreendi-me com a força da honestidade e da verdade no livro “EU, CHRISTIANE F., A VIDA APESAR DE TUDO”, de Christiane V. Felscherinow com Sonja Vukovic, lançado em 2014 pela Bertrand Brasil. Christiane, nascida em Hamburgo, na Alemanha, viu, há 35 anos, o seu primeiro livro, traduzido em várias línguas, se tornar bestseller. Em nosso país recebeu o título de “Eu, Christiane F., 13 anos, drogada, prostituída...” Neste segundo relato, conta o que se passa posteriormente.
Maria Cristina Castilho de Andrade

Passagem do ano

Para inúmeras pessoas, as festas de dezembro e da passagem do ano despertam seus pesares. Existe um luto que caminha entre luzes coloridas, cânticos e euforia. E quanto mais tempo passa no relógio de sol, maiores as perdas, maiores a dores da ausência, maior a saudade de alguém e/ou de acontecimentos. Há aqueles que partiram e, pela bondade em nossa existência, de alguma forma, se perpetuam em presença que enternece. Trazem-nos nostalgia agridoce. Existem, porém, os que, embora de corpo presente, reavivam as cinzas que provocaram. Falta respiração aos “queimados”, com o propósito de assoprar os restos sem centelhas das labaredas.
Maria Cristina Castilho de Andrade

Natal e doçura

Em todos os meus natais, desde pequenina, prevaleceu a imagem do presépio: o Menino, Maria, José e a gruta tão simples, aquecida pelo hálito dos animais. A chegada do Menino interrompeu as trevas e vieram de imediato os pastores e, mais tarde, os reis. A emoção da primeira vez que compreendi o que significava o Natal permanece comigo. E sempre a celebração desse acontecimento único, em casa, aconteceu e acontece sem a euforia que escorre em seguida, mas na fé, na paz e na felicidade pelo sucedido, que salva o ser humano do despenhadeiro.
Maria Cristina Castilho de Andrade

Alternativas e esperança

Preocupa-me a menina de quase dez anos, que decompõe os vínculos. Abraça sem se entregar à meiguice do instante e desacredita na ternura. Seus olhos amendoados, embora brilhem como os de outras crianças sofridas, parecem-me transbordar impossibilidades. Não caminham para outras paisagens. São olhos que se detiveram, talvez por questões pessoais estéreis sufocarem as que florescem.
Maria Cristina Castilho de Andrade

Anseios e líderes

Dentre as histórias contadas por ela a respeito dele, escrevo sobre aquela em que passou com seus cabras por uma fazenda e nela se deteve ao ver uma criação de aves. A dona da casa, assustadíssima, o acolheu. Pediu almoço apetitoso com peru assado a que ela, de pronto, acatou. Junto às serviçais, prepararam a refeição. Todos na mesa, saboreando os quitutes quando, com humildade, quis saber de Virgulino se o atendera bem. Disse que sim e agradeceu. Um dos jagunços, contudo, concluiu que se tivesse colocado sal na comida seria melhor. Nervosa, ela se esquecera desse ingrediente. De imediato, Lampião recomendou que lhe trouxesse dez pedras de sal. Entregou-as ao pistoleiro que reclamara e o fez comer todas.
Maria Cristina Castilho de Andrade

Realidade interior

Recentemente, tive acesso a um texto do Frei Savério Cannistrà, pregador da Ordem dos Carmelitas Descalços, a respeito da pedagogia de Santa Teresa de Ávila no contexto cultural e atual na Europa. Chamou-me a atenção o que ele diz sobre formação: “dar forma a uma identidade”. Sem dúvida sem moldes planejados. Explica que “a forma não é o revestimento externo de alguma coisa, independente e preexistente, mas é a manifestação de uma realidade interna, a qual, atingindo a maturidade, floresce em uma forma externa, isto é, em um modo característico e orgânico de viver e de pensar, de falar e de agir”. Diz o Frei que é o “não ‘se deixar viver’, mas tomar em mãos a própria vida e o próprio ser, e auscultando-o, ajudar a ‘formar-se’. (...) Dar à pessoa humana uma base segura, um espaço interior no qual esta possa existir, desenvolver-se e agir livremente no mundo”.
Maria Cristina Castilho de Andrade

Pedofilia e tratamento

Observo que crianças, vítimas de pedófilos, se tornam “rançosas”, com dificuldade em se integrar consigo mesmas e com o seu entorno. Ficam, de certa forma, oxidadas. Aquilo que as envolve carrega um sabor acre. Talvez os medos, acumulados pelos anos do abuso ou do estupro, as façam assim. É necessário, quando a situação vem à luz, oferecer-lhes encantos próprios para a idade. Adultos, violados na infância e adolescência, a quem não foi oferecida a oportunidade de terapia adequada, sobrevivem no azedume, com a crença de que era destino ou que provocaram o agressor, despertando-lhes os instintos selvagens.
Maria Cristina Castilho de Andrade

Sobre o abuso sexual

O abuso sexual é uma perversidade. E existe, na minha concepção, mais de um tipo de abusador. Há os com desequilíbrios mentais aparentes, do quais, quase sempre, é possível se proteger; há os com perda das faculdades psicológicas pouco visíveis e os com desvio de caráter, conscientes de seus atos. Os últimos possuem uma grande chance de procurar ajuda, a fim de tratar o que é condenável e machuca as pessoas por toda a vida. Por que será que não o fazem, antes de macular o abusado?
Maria Cristina Castilho de Andrade

O silêncio e o olhar

Eu, que sempre fui conversadeira, me surpreendo com o quanto o silêncio e o olhar falam. Faz poucos dias que um jovem, meu conhecido há nove anos, chamou-me para sua amiga no Facebook e escreveu que os conselhos que lhe dera, em diversos episódios de sua vida, o ajudaram bastante. Encontra-se em um caminho de resistência ao uso de drogas e, também, não furta mais, com o propósito de se exibir. De aparência divertida, contudo, na época, desencontrado, por duas vezes passou pelo presídio. Na segunda vez, viu um motoboy entregando pizza. A chave ficara no motor de partida. Não teve dúvida, pegou a moto e foi dar um “rolê”, como disse, no bairro onde reside, a fim de fazer sucesso em meio aos de seu convívio.
Maria Cristina Castilho de Andrade

Pela liberdade…

Na primeira ocasião que a moça passou pela cadeia, após um furto, teve um impacto ao receber, no dia seguinte, o alvará de soltura. Explicou, à responsável pela carceragem, que não estava preparada para voltar à rua. As demais, no pátio, riram e questionaram, indignadas, como seria imaginável alguém, em são consciência, não aplaudir a possibilidade de sair da cadeia pela porta da frente. Depois disso, reencontrei-a inúmeras vezes, logo pela manhã, sozinha, na parte externa do estacionamento de um supermercado. Surgia dentre o carros, o jeito envergonhado de sempre, com seu sorriso tímido e me perguntava se poderia lhe dar uma moeda para o café da manhã. Em nenhum momento me abordou com ar de vítima ou discorreu sobre danos em sua história, com filhos passando fome, mãe doente, dinheiro para fraldas, leite, botijão de gás ou remédios...
Maria Cristina Castilho de Andrade

Na era da tecnologia

Ao ouvir a respeito de “um tempo para cada coisa debaixo do céu”, diante de seus conceitos sobre a sexualidade, a mocinha, que faz pouco atingiu a maioridade civil, respondeu, de imediato, que está na era da tecnologia. E, para ela, viver esse período lhe permite a troca constante de parceiros, não importa quem sejam eles, desde que a atraiam. Vale até mesmo, embora se questione um pouco, aqueles que se encontram em um engajamento sério. Penso nessa era de tecnologia digital que aproxima as pessoas de lugares longínquos, no ciberespaço interativo, nos recursos da computação. Reflito sobre a área da informática e a tecnologia da informação, que podem contribuir para alargar ou reduzir a liberdade do ser humano.
Maria Cristina Castilho de Andrade

Olhares que vencem

Há uma colocação no livro “História de uma alma: Manuscritos autobiográficos” de Santa Teresinha do Menino Jesus e da Sagrada Face, que me chama muito a atenção. Conta, a autora, que se recorda de um sonho, mais ou menos aos quatro anos de idade, que calou fundo em sua imaginação. Sonhara que uma noite, em que saíra a passear sozinha pelo jardim, chegando ao pé dos degraus que precisava subir, deteve-se tomada de pavor. Diante dela, rente ao caramanchão, havia uma barrica de cal e sobre a barrica dançavam, com espantosa agilidade, dois medonhos diabinhos. De imediato, lançaram sobre ela seus olhares chamejantes, mas ao mesmo instante, parecendo muito mais assustados do que Santa Teresinha, precipitaram-se da barrica abaixo e foram esconder-se na rouparia defronte.
Maria Cristina Castilho de Andrade

O filho eterno

Acabo de ler o romance “O Filho Eterno” do escritor Cristovão Tezza. Trata-se, a obra, de um pai, cujo primeiro filho, Felipe, nasce com Síndrome de Down. Tece considerações sobre o parto como “desmantelamento físico da mãe até o último limite de resistência” e a respeito do filho, conforme outras crianças que “jamais chegarão à metade do quociente de inteligência de alguém normal; que não terão praticamente autonomia nenhuma; que serão incapazes de abstração”. Sente uma vergonha medonha do menino. A mãe, ao observar o comportamento do marido, exclama que ela acabou com a vida dele, enquanto ele suspira concordando e “sente-se misteriosamente mais tranquilo”.
Maria Cristina Castilho de Andrade

Vítima e vitimismo

Vítima e vitimismo são diferentes. Vítima é uma pessoa: ferida, que sucumbe a uma desgraça, sacrificada aos interesses ou paixões de outrem, vencida, dominada. Vitimismo é um estado de quem se considera prejudicado em todos os acontecimentos. Em uma ou mais experiências de sofrimento, se acovarda em lugar de resistir com coragem. Fica de braços cruzados, à espera que alguém se prontifique a resolver os seus problemas, incluindo os emocionais. A psicóloga Miriam Maion Codarim explica que o vitimismo demonstra uma personalidade com autoestima reduzida. Quem se vitimiza deseja que o outro o compreenda no quanto ele sofre, embora seja bom. E coloca um terceiro como aquele que faz mal a ele, o culpado por suas frustrações e fracassos. Muda-se essa forma de ser somente no autoconhecimento, na compreensão de que não é vítima.
Maria Cristina Castilho de Andrade

Atmosfera de violência

Existe uma atmosfera de violência que impregna os ambientes. Não se consegue ficar inerte. Situações próximas e longínquas. Cotidiano de inúmeros, culpado ou inocente, interrompido por um rastro de sangue. Existem pessoas de meu conhecimento e de pouco contato com trabalhos de promoção humana que me perguntam sobre a razão de tanta violência. Não sei responder com rigor, porém tenho certeza de que a falta de Deus e a desestrutura familiar, além de desajustes psicológicos, se encontram dentre as maiores razões da agressividade crescente que fere o outro. E as apologias? Apologia ao consumismo, ao poder ditatorial, ao prazer... Apologia em letras de música, em programas televisivos, em propagandas. Apologias em todas as classes. Apologias que sufocam os sonhos e a lucidez. Aliás, creio que vivemos numa ditadura de apologias que tomaram o lugar das virtudes.
Maria Cristina Castilho de Andrade

Emoções de outono

Experimento, no outono, emoções diferentes. Cessa um tempo de euforia e brilho, que ofusca os olhos, para dar lugar a uma realidade que, às vezes machuca, sem perder a poesia. Carrega, o outono, muito mais saber e eternidade que o pierrô e a colombina que passam abraçados pelas ruas e voltarão, no ano que vem, envoltos em confete. Penso que comecei a vivenciar, em plenitude, o outono há 27 anos, na despedida de meu pai. Doeu muito. Embora já tivesse experimentado outras partidas, a dele me sacudiu no cais de minha história; a dele me despertou para as impossibilidades em deter alguém. Havia entre ele e a mamãe um fio azul que indicava o céu e nos mantinha unidos, pela renúncia, cuidados e carinho, nos vendavais e nas celebrações.
Maria Cristina Castilho de Andrade

A respeito da obediência

A obediência está dentre os pilares que, se destruídos ou danificados, provocam a ruína do ser humano. E obedecer não significa ser subserviente, mas coerência como norma de conduta. A cada ano aumenta o desrespeito com as leis, com as regras, com as posturas que elevam o ser humano. Inúmeras e inúmeros se posicionam como se a felicidade ou o sucesso estivessem em ser esperto. Astúcia no trânsito, no pagamento de impostos, no enriquecimento ilícito, em benesses...
Maria Cristina Castilho de Andrade

O olhar deles e o meu

Tarde quente de terça-feira. Ainda de férias. Após o teste ergométrico com o propósito de avaliação cardiológica, optei por voltar a pé para casa. Bem distante um ponto do outro. Desejava pisar sobre um fato da véspera, que me apertava em excesso o peito. Considerava que a caminhada me ajudaria. Existem, não obstante os locais serem de meu cotidiano, novas cenas, que ao passar de carro não percebo. Nas minhas andanças a pé, não importa o motivo, busco paisagens diversas. Às vezes, nesse cenário há uma flor esquálida que brotou na sarjeta e me emociona. Um pouco mais da metade do percurso, decidi entrar na lanchonete de um supermercado e tomar um suco. Minutos depois, vi que me observavam seis meninos de faixa etária aproximada de oito a onze anos, vestidos com simplicidade. Detive-me no olhar deles. Incomodam-me em demasia meninos e meninas com olhos de fome. Mexem com minhas entranhas. Fome de colo, de proteção, de meiguice, de compreensão, de brinquedo, de mar e de montanha, de paz, de aconchego.
Maria Cristina Castilho de Andrade

Prejuízos e dádivas

Estamos a um mês do Natal. Desde outubro, porém, os primeiros indícios da festa aparecem em vitrines decoradas, propagandas, ofertas, imagens do Papai Noel... A possibilidade de um lucro maior antecipa os apelos de compra e venda à vista ou em prestações que se estendem até a véspera do evento no próximo ano. A violência e os assaltos nesse período me parecem aumentar. Presumo que o estímulo que vise unicamente ao prazer de consumir ou ter, sem o espírito que eleva, faz com que o vazio do dia anterior prossiga com maior intensidade no dia seguinte. Não sou contra presentes, assustam-me os excessos que divinizam a matéria em uma data que é da alma em manjedoura. Além disso, embora soubesse, ando impressionada com a mudança do perfil das pessoas, a partir da ganância, testemunhada, dentre outras situações,
Maria Cristina Castilho de Andrade

Liberdade ainda que tardia

“Libertas Quae Sera Tamen”, expressão que adorna a bandeira do estado de Minas Gerais, traduzida como “Liberdade ainda que tardia”. O texto em latim, proposto pelos inconfidentes para marcar a bandeira da república, que idealizaram, no final do século XVIII, foi retirado da primeira Écloga de Virgílio e me traz sempre a figura intensa e imensa de Tiradentes, que reverencio por sua coragem em enfrentar os grilhões do poder da época. “Liberdade ainda que tardia”. Semana da Pátria. Desfile da Independência no bairro. Houve na casa, onde reside a moça, um burburinho diferenciado das filhas. Durante a noite acordavam sobressaltadas pelo medo de perder hora. A escuridão lhes respondia que não chegara ainda o momento de vestirem as roupas com brilho e o calçado que lhes reportava aos sapatinhos de cristal da Cinderela. Na avenida ensolarada nada trouxeram da Gata Borralheira, história dos Irmãos Grimm, cuja personagem principal dormia junto às cinzas com suas dores pelos desagrados dos acontecimentos, até que surgiram os sapatinhos de cristal. A professora de ginástica artística, em cada ritmo,
Maria Cristina Castilho de Andrade

Histórias que me habitam

Quando alguém me entrega sua história, além de me comover, me responsabiliza. Peço a Deus pela pessoa e vivencio uma maternidade de cantiga de ninar. Mais do que confiança, de quem me entrega a sua história, é um ato de ternura em busca de acalanto. Conhecemo-nos há dez anos. Acompanhei alguns acontecimentos de seu cotidiano. Ignorava, contudo, o nó que a emperrava em determinados passos. Nasceu com o parque de diversões em atividade. Um trailer em andanças, pintado de amarelo ouro com cortinas vermelhas, se tornou sua casa. As paisagens, a cada um ou dois meses, mudavam. Ao crescer um pouco, surgiram as perturbações e dentre elas a falta de raiz, que a tornava sem resistência nas tempestades pelas quais os indivíduos passam.
Maria Cristina Castilho de Andrade

Com dor no coração

Sobre alguns fatos escrevo ou descrevo com emoção imensa. Há acontecimentos que me fazem chorar pela beleza que contêm, outros ao perceber a esperança transformada em realidade. Diversos chegam de uma hora para outra, envoltos em saudade terna, mas existem aqueles que doem demais em mim, são os que me trazem as pessoas em decadência. Comumente, ao me deparar com os excluídos, imagino-os ainda bebês, em colo materno, dando os primeiros passos; na escola, um pouco perdidos de início, sem as pessoas que lhes são próximas. Angustia-me não saber o que acontece, em algum momento da história de cada um, que o desvia e impele aos desencontros. São tantas as causas: a tentativa de abafar o Deus da Revelação nos rumos da sociedade; as diferenças sociais, poucos em situação privilegiada e tantos na miséria; desagregação familiar; falta de políticas públicas de acordo com a vocação das pessoas, a fim de fortalecê-las e fazê-las felizes; evasão escolar; os desvalores transmitidos pela mídia; o culto ao prazer; a impunidade para os que possuem muito e o sistema carcerário falido para os empobrecidos; a falta de preocupação com a saúde mental na infância; o comércio do sexo que se agiganta; o consumismo de coisas e gente; os preconceitos; a falta de motivação para mudanças em um mundo repleto de desesperança.
Maria Cristina Castilho de Andrade

Visita do Papa e jornada da juventude

Milhões de cristãos do Brasil, em meio aos quais me incluo, estão atentos e com a alma voltada para a visita do Papa Francisco, sucessor de Pedro, ao Rio de Janeiro e Aparecida, motivado pela Jornada Mundial da Juventude, que acontece de dois em dois anos, com testemunho vivo e vibrante da fé. O encontro, que já aconteceu na Itália, Espanha, Polônia, Estados Unidos, Filipinas, França, Alemanha, Austrália e Argentina, tem como tema: “Ide e fazei discípulos entre todas as nações”. Nossa Diocese acolheu na “Semana Missionária da Juventude” – precede a Jornada -, de 13 a 19 de julho, diversos jovens de países mais ou menos distantes que, junto com os daqui, se preparam para a peregrinação no Rio de Janeiro, em oração, reflexão sobre a Palavra, participação na Eucaristia e anúncio do Kerigma.
Maria Cristina Castilho de Andrade

Por uma fresta

Morreu da mesma forma que transcorreram os seus dias a partir da puberdade: na violência. A primeira brutalidade que experimentou foi a do preconceito, ainda menino. Mesmo que permanecesse em um canto na sala de aula, consideravam-no incompatível com as demais crianças da escola. Ou ele ocultava os seus trejeitos, ou se distanciava. Apostaram nas providências da mãe e no pai. Os dois entendiam de seringal. Andavam nas trilhas das seringas, em cujos troncos aplicavam cortes diagonais. Imaginaram que surras com hemorragia fariam o menino mudar.
Maria Cristina Castilho de Andrade

Quando a vida faz diferença

O menino apegou-se à mamãe à primeira vista. Amor de bisneto à bisavó. Estava com seis anos e ela com 82. Passou a tratá-la de Vozinha. O menino se fez para ela, nos dois dias da semana em que ensinava artesanato, experiência de acalanto. A tal ponto que chegava a abdicar de brincadeiras infantis para permanecer ao seu lado. E teimava em ser seu aluno. A mamãe lhe trouxe uma tela de tapeçaria, com a figura do Mickey, que ele bordou com esmero. É o quadro que possui na cabeceira da cama. Intenso na afetividade, mas também nas peraltices. Ao se aproximar a adolescência, considerava-se com direito a ser livre, no horário de volta para casa, na frequência ou não à escola, nas amizades com garotos mais velhos, envolvidos com a clandestinidade. Passou a se rebelar ao ser corrigido por um adulto, alguém mais próximo ou mais distante. Não o perdíamos de vista, por crermos que é possível, sem deixar de insistir nos limites, trazer de volta ao equilíbrio pelo fio da afeição.
Maria Cristina Castilho de Andrade

A vida e o direito à sua dignidade

Duas notícias, na semana passada, pelo respeito que tenho pela vida humana, me incomodaram e muito. Uma foi sobre o Conselho Nacional de Direitos da Mulher (CNDM) estar elaborando um documento com argumentos contrários a um projeto de lei que prevê a criação do Estatuto do Nascituro. O regulamento classifica que o embrião já é um ser humano desde sua concepção, e que ele tem direitos como qualquer pessoa, mesmo que não tenha nascido. Não tenho dúvida alguma de que, a partir da fecundação, já existe um novo ser, mesmo que oculto nas entranhas maternas. Alguém surgiu sem a fecundação do óvulo? Provocar a morte de um bebezinho, que ainda não veio à luz, seja na circunstância que for, é barbárie, assim como defender e legalizar que o útero materno se transforme em filial de campos de extermínio.
Maria Cristina Castilho de Andrade

Os Narcóticos Anônimos e a vida dele

Ligou-me. Costuma fazer isso quando vem a Jundiaí. Quer saber como estamos e, em seguida, comenta sobre o tempo em que se encontra limpo das drogas. Percebo que cada dia na lucidez é uma vitória. Não deve ser fácil esse exercício, que supera a vontade maculada, para se manter sóbrio. Na época em que começou a frequentar o NA, na cidade em que reside, já dava mostras de que havia encontrado o caminho que mais lhe fortalecia a razão e o coração. No contato atual, pediu-me que escrevesse uma crônica sobre seus desatinos, já que o acompanhara, nem tão próxima e nem tão distante, em diversos acontecimentos. Notícia não mais em página policial. É a terceira que escrevo a seu respeito: a primeira por emoção minha e a segunda por ele solicitada. Deseja testemunhar, a partir do que era, a importância dos Narcóticos Anônimos – NA – em sua história de reconstrução. Uma irmandade real, sem fins lucrativos, unida por um problema comum: a doença da adicção. São homens e mulheres para quem as drogas se tornaram um problema maior e buscam se recuperar. O único requisito para ser membro é o desejo de estancar o uso de entorpecentes. Não se interessam por quanto a pessoa usou, quais eram os seus contatos, o que fez no passado. Fixam-se, somente, naquilo que a pessoa deseja fazer com seu problema e como podem ajudá-la.
Maria Cristina Castilho de Andrade

Canção de alma indígena

Observo-a adquirindo contornos e emoções de menina-moça. Vem-me a impressão que tive ao notá-la na graciosidade dos seus quase quatro anos. O olhar dela, silente e profundo, me perscrutava. Desejava decifrar quem seria a estranha que conversava com os que lhe eram próximos. Naquela época, embora se envolvesse com folhas em branco, lápis de cor e bonecas, sabia também de dores, como as da oscilação da mãe entre presenças e ausências e as de ter pouso uma hora aqui e outra ali.
Maria Cristina Castilho de Andrade

Celibato e pedofilia

Desde o pedido de renúncia do Papa emérito Bento XVI, tenho lido e ouvido, com maior frequência, comentários a respeito de que o novo dirigente da Igreja deva abolir o celibato para os sacerdotes. A justificativa, dentre outros motivos, é a prevenção da pedofilia. Nunca se sabe a intenção de quem se manifesta a respeito nesse aspecto: uma forma de denegrir o sacerdócio e a Igreja Católica Apostólica Romana, julgamento característico dos arrogantes - especialistas em todos os assuntos -, deleite em destruir, fraqueza para viver na castidade ou ignorância. Existem casos de padres pedófilos, assim como de pastores e de líderes em diferentes religiões. O número maior, contudo, está associado a relações incestuosas, como de pais biológicos, padrastos, avôs, irmãos, primos. De acordo com a Classificação Internacional de Doenças (CID 10), da Organização Mundial de Saúde (OMS), a pedofilia é um distúrbio que faz parte do grupo das parafilias ou transtornos de preferências sexuais, que inclui determinados tipos de comportamento como exibicionismo, necrofilia, sadomasoquismo. Grande parte repete o que aconteceu: foram abusados na infância. E qual seria a opinião, dos que se incomodam tanto com o celibato na Igreja, sobre homens e mulheres de vida sexual ativa, dentro ou fora do casamento, que se utilizam de crianças e adolescentes de seu entorno para saciar instintos doentios? Castrá-los? A poligamia?
Maria Cristina Castilho de Andrade

Cálculos na prostituição

E nesse tempo de comentários eufóricos sobre os Jogos Olímpicos e a Copa, ressurgem projetos de lei na Câmara dos Deputados com a proposta de regulamentar a prostituição como “benefício” a quem negociar o seu corpo para turistas estrangeiros. Avanço, na realidade, para legalizar a função de cafetão e cafetina, que não passam de sanguessugas. Se aprovado, será o exercício torpe, sob o amparo da lei, de inserir seres humanos em calculadoras.
Maria Cristina Castilho de Andrade

Imagens deterioradas

Presenteou-me, ao final de dezembro, com uma estatueta, um pouco danificada, de Nossa Senhora Aparecida. Não lhe perguntei onde a encontrou. Alguém, a pedido dele, uniu a cabeça quebrada ao corpo, envolvendo-a com filme de PVC transparente para alimentos. Como se ele, em pesca no rio Paraíba do Sul, tivesse encontrado a imagem da Padroeira do Brasil. Trouxe-a de seu jeito para me dizer sobre as pessoas de vida em mau estado, que necessitam do milagre da coragem, através do acolhimento, da verdade e da esperança, para atravessar de volta o deserto e redescobrir sua fonte. Na linguagem misteriosa do céu, a estatueta deteriorada me convidou a ver sempre, nas criaturas que se desequilibram no trapézio dos dias, a imagem e a semelhança de Deus a ser recuperada com o bálsamo da misericórdia.
Maria Cristina Castilho de Andrade

Cena de Natal

Há milênios, o profeta Isaías deu uma grande notícia ao povo que habitava na escuridão e nas sombras da morte: a vinda de uma luz resplandecente para fazer crescer a felicidade. Falava sobre o Menino com a marca da realeza nos ombros e cujo nome é: Conselheiro admirável, Príncipe da paz. Acontecimento do amor zeloso do Senhor. Alguns séculos depois, o evangelista Lucas (2.1-14) relata que no tempo de César Augusto foi publicado um decreto ordenando o recenseamento. Todos iriam registrar-se, cada um em sua cidade natal. O carpinteiro José, como era da cidade de Davi, partiu para registrar-se com sua esposa, que estava grávida, em Belém. Lá se completaram os dias para o parto e Maria deu à luz o seu Filho numa gruta onde os animais se escondiam das intempéries, pois não havia lugar para eles na hospedaria. Enfaixou-o e o colocou numa manjedoura. Os pastores, excluídos da época, presenciaram a claridade e o anjo que lhes disse: “Não tenhais medo! Eu vos anuncio uma grande alegria, que o será para todo o povo; hoje, na cidade de Davi, nasceu para vós um salvador, que é o Cristo Senhor”.
Maria Cristina Castilho de Andrade

O senhor do céu

Às vezes percebo que Deus, por instantes, me tira da terra para que eu entenda que ele, como o senhor do céu, não cabe em minhas conclusões medíocres, em meus sentimentos e decisões cinzas. Não é ele feito à minha imagem e semelhança e seu amor ultrapassa a compreensão humana. É amor que tira da cruz a claridade da ressurreição. Por aqui é diferente, pois Ele nos deu o livre arbítrio e a liberdade pode ser usada para o bem ou o mal, para a meiguice ou aspereza. Aconteceu na semana passada. Em uma de minhas leituras ao amanhecer, leitura com proposta de prece, encontrei de Santa Teresa D’Ávila: “Aprendei a discernir quais as coisas que se devem sentir e compadecer. E sempre que virdes qualquer falta notável, sintam muito. É ocasião de mostrar e exercitar concretamente o amor, sabendo sofrê-la sem se escandalizar. O mesmo farão com as vossas faltas, talvez muito mais numerosas, embora não as conheçais inteiramente”.
Maria Cristina Castilho de Andrade

Fístulas que explodem

Creio que todo ser humano está sujeito a fístulas no emocional, com maior ou menor frequência, de acordo com sua história e o seu agora. Nas situações passageiras, as fístulas podem murchar e o pus ser absorvido sem sequelas pelo pensamento ou por atos que enobrecem como o de perdoar. Quando um fato, contudo, embora sórdido, se incorpora no cotidiano de alguém, as consequências podem ser trágicas. Quantos casos de mulheres agredidas dentro de casa. Nada está bom. O companheiro, por certo mal resolvido, destila na mulher as suas frustrações através de palavras e hematomas. Não há nela algo que o agrade, com exceção de enxergá-la como um saco apropriado para ensaiar a luta de boxe de suas insatisfações. E a mulher, presa a um ou mais fios
Maria Cristina Castilho de Andrade

Pureza violada

Há décadas convivo com crianças e adolescentes na perspectiva da educação. E educar, penso eu, é fortalecer o educando no presente e para o futuro, a fim de que seja feliz, encontre o sentido de sua existência e possa, também, se fazer um dom para a sociedade. Dentre as virtudes, que constroem uma pessoa para o bem, se encontra a pureza, que consiste em transparência para ver, escutar, conviver, abraçar, brincar, ter as coisas, conquistar os seus sonhos, relacionar-se com os outros. Adultos desonrados por sua história ou escolhas não conseguem oferecer candura aos filhos. E virtudes negadas deformam o ser humano. Deus não mancha as obras de Sua mão. Suas obras são imaculadas. Os seres humanos que, na metamorfose dos dias, por seu livre arbítrio, podem torná-las com aspectos sórdidos. Do que é torpe nascem os descaminhos.
Maria Cristina Castilho de Andrade

Partilha da fé em Deus

Penso que as histórias que carregamos com desvelo, embora o tempo as coloque na distância, refletem o nosso interior. Meu pai gostava de repetir os fatos que o emocionavam. O relato de hoje soube há pouco através de minha mãe. O moço integrava o grupo de amigos de meu pai desde o início da juventude. Eram alegres, de sucesso nos bailes e de porte nobre a cavalo. As jovenzinhas suspiravam aos vê-los passar animados pelos sonhos e pela liberdade na descoberta do mundo. Buscavam constantemente novas paisagens. Alguns os consideravam rebeldes ao não se permitirem domar por determinadas normas sociais que nada acrescentam ao ser humano.
Maria Cristina Castilho de Andrade

“Cinquenta tons de cinza”

A trilogia “Cinquenta Tons de Cinza”, da escritora inglesa Erika Leonard James, que assina como E. L. James, vendeu, em seis semanas, 10 milhões de cópias. Obra de ficção, trata-se do relacionamento amoroso entre o sádico Christian Grey e a estudante Anastasia Steele, que se torna uma parceira submissa. Segundo a revista VEJA – edição 2288 de 26/09/2012 – pág. 105 –, o livro é “um romance bobinho, ao estilo das comédias românticas, costurado com cenas de sexo fetichista”. Justifica-se a predileção de Christian por algemas, surras, vendas, chicotes e tudo o mais que possa causar muita dor à parceira, pelo fato de sofrer abuso na adolescência. E a parceira aceita, gosta e quer mais.
Maria Cristina Castilho de Andrade

Pequeno grande homem

Fiquei pensando sobre as referências a Dom José Rodrigues de Souza, Bispo Emérito de Juazeiro da Bahia, que faleceu aos 86 anos no último dia nove de setembro, qual seria a melhor como título desta crônica: Bispo dos Excluídos, ou Profeta do Semiárido, ou Pequeno Grande Homem. Optei pelo último porque os grandes homens, não importa a estatura, possuem olhos para os marginalizados e são profetas. Todas as criaturas de Deus merecem respeito, sejam elas quem for, mesmo os nossos desafetos. Com algumas, contudo, menor ou maior número de afinidades nos coloca em comunhão. Foi assim que nasceu a amizade com Dom José, em 1985, quando lhe escrevi para saber mais sobre o trabalho, em Juazeiro, com mulheres aliciadas pelo comércio do sexo. A Pastoral da Mulher – Santa Maria Madalena, em nossa Diocese, dava os seus primeiros passos e desejávamos conhecer a caminhada de outros grupos da Igreja no submundo da prostituição. Depois disso, comumente, além da correspondência que trocávamos, passava conosco o dia livre da Assembleia dos Bispos em Itaici. Era simples, verdadeiro, de inteligência brilhante e comprometido com os mais pobres dos pobres. Certa vez, da janela aqui de casa, observando o morro do São Camilo, me disse que, por certo, Deus nos conduzira a habitar no morro em frente, para que nunca me esquecesse dos que se acotovelam na periferia das grandes cidades e olhasse para eles com misericórdia.
Maria Cristina Castilho de Andrade

Quando o perdão assusta

Surpreendeu-me a reação dela. Temerosa por um reencontro, aproximava-se da entidade quando a pessoa por ela agredida e as que testemunharam não se achavam. Fazia tempo. Na época carregava o poder da agressividade. Seu jeito valente, ao se deixar possuir pelo álcool ou pelas drogas, atemorizava os que vagavam, como ela, pelas ruas. Porte altivo, gíria da malandragem, fala com som estridente e faca na cintura intimidavam a ponto de lhe entregarem valores e objetos. Chegara a cobrar pedágio das mulheres que se prostituíam na praça. A quantia era estipulada para o início da madrugada. Procuravam um jeito, mesmo que a noite fosse deserta, a fim de “honrar o compromisso”. Promessa desfeita poderia se transformar em sangue. Seus olhos embaçados declaravam que era capaz de qualquer coisa se tivesse sua “autoridade” arranhada.
Maria Cristina Castilho de Andrade

Ary Fossem, o ser humano

Quando uma pessoa vai embora e, de alguma forma, faz parte de nosso mundo, fica um vazio que as lembranças ocupam, mas ninguém consegue preencher. Com o passar do tempo, esses vazios se multiplicam e a terra que habitamos se torna, em grande parte, molhada de saudade. Sei disso há tempo. Reflito sobre a partida do Sr. Ary Fossen como ser humano e aquilo que faltará dele na história que escrevemos neste tempo e neste lugar. A família bonita que ele construiu,
Maria Cristina Castilho de Andrade

Sob um olhar de crença

Os meninos fizeram doze anos no início do mês. Foram vários acontecimentos, além do bolo. Cresceram de repente. Quando os conhecemos, estavam com cinco anos. São meninos irrequietos. Antes, mais do que agora. Um deles possui dificuldade maior para respeitar regras. Interessante como as pessoas, pelo julgamento que fazemos delas, surpreendem, ao demonstrar aquilo que realmente são. Ousados na escalada das árvores e muros quando a pipa enrosca e ao andar de bicicleta, enfrentando obstáculos sem prudência, intimidam-se em conversas de olho no olho e nos agrados, contorcendo-se como os felinos que ronronam. Uma graça. Por mais áspera ou arisca que uma pessoa pareça, não existe quem não goste de agrado.
Maria Cristina Castilho de Andrade

Além dos preconceitos

Não ter a quem dar satisfação entristece. É uma experiência de solidão amarga. A pessoa olha ao redor e encontra apenas o deserto da noite. Lembro-me de que meu pai, nos meus já trinta anos, em dias de festa ou de lazer, perguntava-me com quem iria, voltaria e qual a hora prevista para o retorno. Uma vez, recordei-lhe minha idade e ouvi de imediato: “Um dia você poderá experimentar a falta de alguém que se preocupe com você”. Calei-me e não voltei a questionar. Grande verdade. Mas não falo a meu respeito. Agradeço a Deus pelo cuidado que tem comigo, tantas vezes denunciando que sigo por conclusões e sentimentos que não pertencem ao céu. Agradeço aos meus pais pelas inúmeras indagações que me fortaleceram e impediram, apesar dos tropeços e tombos, a queda em algum abismo de ilusões traiçoeiras.
Maria Cristina Castilho de Andrade

Matsunaga e Elize

O assassinato e o esquartejamento, em maio, de Marcos Kitano Matsunaga, executivo da Yoki, por sua atual mulher Elize Araújo, com quem tinha uma filha de um ano, chocou o país. Ele, um homem de posses, que se separou da esposa e da filha pequena para morar e, posteriormente, oficializar seu relacionamento com Elize. Conheceu-a em 2004, em um site na internet de comércio de sexo. Nascida na cidade de Chopinzinho, interior do Paraná, foi criada pela mãe, que trabalhava como empregada doméstica. Aos 18 anos, em Curitiba, a moça fez um curso técnico de enfermagem. Trabalhou em um centro cirúrgico, mas logo se mudou para São Paulo, onde ingressou no submundo da prostituição. Garotas de programa, com certo preparo, que se oferecem a executivos, normalmente são motivadas pelo consumismo que impera em nossa sociedade e exige quantias cada vez mais altas. Em nome do dinheiro muitas pessoas se vendem de inúmeras formas. A corrupção também é uma delas.
Maria Cristina Castilho de Andrade

Valentia e abuso sexual

A declaração da Xuxa de que, na adolescência, fora abusada sexualmente por três homens considerados íntegros, deu força às denúncias e ao debate sobre o tema. Comovi-me por saber que ela carrega esse acontecimento que machucou a sua história de menina. Era preciso abrir o cárcere para a claridade espantar a podridão que lhe impuseram e, no impacto do revelou, enxotar o uso de outras carnes tenras por transviados. Quantos anos de fortalecimento para conseguir dizer sobre o turbilhão de emoções amargas com o qual foi obrigada a conviver.
Maria Cristina Castilho de Andrade

Um reizinho de verdade

Parte do povo vive em situação de pobreza. Parece-me que a pobreza é tanta, ainda na infância, que, anos mais tarde, a pessoa não consegue reagir e se entrega a uma dependência resignada em nada ter. Talvez seja o constatar que, por seus limites de formação educacional ou técnica, por seu endereço, pelos fantasmas das dependências químicas e do ilícito que a cercam, a chance de se elevar não chega ao primeiro degrau de uma escada que ultrapassa fronteiras. Existe, também, um amortecer interno que amarra os passos. E romper as barreiras da sociedade do lucro, onde raros são sensíveis à fome, ao frio, ao desamparo, à ignorância, ao direito de acesso às necessidades básicas, não é fácil. Romper barreiras, sem vagas de oportunidade, estanca a respiração.
Maria Cristina Castilho de Andrade

“Diário ao anoitecer”

Ler Paulo Bomfim, o príncipe dos poetas brasileiros, me enternece. E palavras que despertam ternura melhoram o coração. Não é de hoje que o reconheço como poeta de sentimentos que não cabem nas palavras. Traduz-se com elas e o leitor compreende que aquilo que ele escreve vai além e se aloja no indizível. Encontrei-o em um livro de minha adolescência na virada da década de sessenta – já me manifestei a respeito em outra crônica – e, em seus versos, busquei decifrar o amor humano, que enlaça os casais e lhes propõe uma valsa de passos com o mesmo ritmo, na qual os pés saem do chão. Bonita essa força do amor em Bomfim, intensa em cada relacionamento, intensa em seus braços que abraçam sem distâncias, em sua mão que escreve e descreve desfeita de falsos pudores.
Maria Cristina Castilho de Andrade

Asas sem voo

Na região onde resido, circulam dependentes químicos – mulheres e homens, mocinhas e mocinhos -, de expressão fisionômica opaca e sem vida. Alguns se tornam conhecidos pela permanência e outros chegam por um dia e vão embora. Não se sabe de onde veem e muito menos para que lugar se dirigem. Possuem em comum o desejo de uma pedra de crack ou de um pino de cocaína sem perspectiva de construção. Aos moradores, quando questionados, contam histórias diferentes ou desviam das perguntas. Há, ainda, aqueles que, talvez pelos delírios ou pelo cansaço, oferecem respostas que não condizem com as indagações. Os moradores reagem de várias maneiras: existem os que os temem; outros que os repudiam pelos pequenos furtos, cujos produtos são transformados em uma porção de entorpecente; aqueles que, furtados, planejam vingança; os que se comovem; os que tentam interpretar a história de cada um, que leva à dependência química, e os que procuram um caminho para levá-los ao tratamento adequado.
Maria Cristina Castilho de Andrade

Deus arranca da lama

É fascinante fazer a via-sacra, pelas ruas do centro da cidade, com as integrantes da Pastoral da Mulher/ Magdala. Entende-se, com clareza, que Deus arrebata da morte pela ressurreição e que o caminho de Cristo, na obediência ao Pai, rumo à cruz, é de glória no reino que não é deste mundo, porque salva.
Maria Cristina Castilho de Andrade

Retrato de um viciado

O livro autobiográfico de Bill Clegg, “Retrato de um viciado quando jovem”, lançado no Brasil em 2011, pela Companhia das Letras, traduz o que se passa por dentro de um dependente químico de crack. Bill é um agente literário em Nova York bem sucedido, que, através das drogas, desceu a um mundo tenebroso, em que a angústia do instante era tratada com a fumaça do cachimbo de crack. Raras as situações, no viver em sociedade, em que se sentia melhor, com uma dobra de seu interior desamassada. O crack o tirou do trato íntimo com aqueles que amava e da sociedade em geral. Escondia-se cada vez mais dentro de si. Primeiramente, foi a bebida em excesso, com destaque para a vodka. Depois veio o crack. Após o uso, a cama e o chão ficavam repletos de migalhas. Acabadas as pedras, ajoelhava-se atrás dessas migalhas ou raspava o cachimbo para tentar mais uma tragada. Considerava que as verdades sombrias e preocupantes, que rugiam alto ao seu redor, desapareciam na cortina de fumaça. Trocou a angústia existencial, as questões mal resolvidas na infância pela agonia da dependência química. Mais de 20 minutos sem fumo era o seu limite. Para o pânico ir embora, entre as tragadas, bebia vodka. Fazia queimaduras feias nas mãos devido às intensas tragadas. Chegava a preparar três cachimbos ao mesmo tempo, a fim de que não precisasse esperar que um esfriasse para fumar a próxima pedra. O medo voltava, na ausência da fumaça. Não conseguia parar de telefonar aos traficantes. A paranoia e o nervosismo o afetavam cada
Maria Cristina Castilho de Andrade

Cracolândia

Estão no noticiário local as duas cracolândias, uma em São Paulo e a outra em Jundiaí, nos arredores do Jardim São Camilo, com usuários se estendendo no entorno para conseguir como pedintes, em pequenos serviços ou através de furtos, a quantia ou o material de troca que possibilite a próxima pedra. É a busca do prazer de imediato que não escora a felicidade. Provoca, após os segundos de êxtase, de plenitude, em decorrência da droga, um vazio com sobressalto, que pede mais uma, duas, três... E a que “avanço” chegamos, a ponto de usar, na denominação do espaço, onde os usuários desse entorpecente se concentram, o sufixo -land (do inglês), que significa terra, territórios de determinados povos. O sufixo –ia, de origem latina, usado para formar locativos pátrios, designa igualmente terra, país, região. Cracolândia, portanto, terra dos usuários de crack. E quem instituiu oficialmente essa terra, onde as personagens aumentam e a droga – mistura da pior parte da cocaína com bicarbonato de sódio - é utilizada livremente?
Maria Cristina Castilho de Andrade

Pan, Guadalajara e excluídos

Noticia-se que, há algumas semanas, devido aos Jogos Pan-Americanos em Guadalajara, as autoridades locais iniciaram uma ação para que sejam retiradas prostituídas das zonas centrais da cidade, embora Aristóteles Sandoval, prefeito do município mexicano, negasse que adotaria esse tipo de conduta. O jornal “Milenio”, contudo, confirma que a expulsão começou pelo Parque Morelos. Segundo informações do provedor Terra, em 30 de setembro, no dia seis de maio deste ano, uma comissão da cidade apresentou um programa denominado Plano de Reordenamento Humano, no qual projetava “livrar” as áreas turísticas de Guadalajara de prostituídas, mendigos, meninos de rua e indígenas. Denominam esse posicionamento como “limpeza social” e entendem que essas personagens poderiam amedrontar os turistas.