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	<title>Debates Culturais - Liberdade de Idéias e Opiniões &#187; Marco Antonio Coutinho</title>
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		<title>Teoria da conspiração: a sociedade secreta dos médicos</title>
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		<pubDate>Sat, 10 Dec 2011 03:02:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marco Antonio Coutinho</dc:creator>
				<category><![CDATA[Marco Antonio Coutinho]]></category>

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		<description><![CDATA[Num mundo como o nosso, em que cada coisa supostamente clara, cada transparência parece ter algo de secreto ou estranho por trás, as teorias da conspiração desempenham um papel de ponta. Pelo menos como uma forma de se arrumar explicações pra coisas que a gente não consegue entender. Dentre as mais fascinantes teorias da conspiração que conheço, há uma que envolve os médicos, e que fiquei conhecendo recentemente. Médicos sempre foram intrigantes para mim. Aquelas figuras de branco, cheias de autoridade, sabendo sobre a gente um monte de coisas de que a gente nem desconfia, alternando frases lapidares com longos e simbólicos silêncios... 
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			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Benjamim-West-Saul-and-the-Witch-of-Endor-detalhe-B.jpg"><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Benjamim-West-Saul-and-the-Witch-of-Endor-detalhe-B.jpg" alt="" title="Benjamim West- Saul and the Witch of Endor - detalhe B" width="220" height="207" class="aligncenter size-full wp-image-15107" /></a>Num mundo como o nosso, em que cada coisa supostamente clara, cada transparência parece ter algo de secreto ou estranho por trás, as teorias da conspiração desempenham um papel de ponta. Pelo menos como uma forma de se arrumar explicações pra coisas que a gente não consegue entender. Dentre as mais fascinantes teorias da conspiração que conheço, há uma que envolve os médicos, e que fiquei conhecendo recentemente.</p>
<p>Médicos sempre foram intrigantes para mim. Aquelas figuras de branco, cheias de autoridade, sabendo sobre a gente um monte de coisas de que a gente nem desconfia, alternando frases lapidares com longos e simbólicos silêncios&#8230; </p>
<p>Claro, a expressão reverente de minha avó e de minha mãe, enquanto o doutor as examinava — ou a um de nós, quando éramos crianças — sempre me pareceu meio exagerada, quase religiosa. E era coisa da cultura da época mesmo. Um pouco como a admiração do analfabeto, diante daquele que lê “de carreirinha”. Mas eu custei a perceber que também tinha por eles um certo temor respeitoso do qual não me dava conta antes, e que aquilo me causava algum incômodo. Aqueles papos entre médicos, que a gente escutava sem querer, quando um pedia a opinião do outro sobre um determinado problema, só serviam pra piorar as coisas. Não basta o jargão, ainda tinham de complicar? <em>“Há indícios de alopecia androgênica”</em>, dizia um. <em>“Não tenha dúvida, vai ter de fazer uma laparo”</em>, sentenciava outro. Ou <em>“não se pode desprezar uma possível glicosúria”</em>, considerava um terceiro. Frases soltas que a gente colhia aqui e ali, e ficava com a impressão de que eles, apesar de salvarem vidas, falavam de fato uma língua morta. </p>
<p><strong>Teoria da Conspiração</strong></p>
<p>Com os anos (e a idade), me esqueci um pouco disso tudo. Achei que, enfim, estava exagerando. Médicos passaram, então, a ser&#8230; médicos! Gente que estuda pra consertar gente, e para adiar o máximo possível o descarte de nossas carcaças, mas que são humanos, limitados em seus poderes, como todo mundo. Aquela visão incômoda deles como personagens até misteriosos, quase sobre-humanos, que viam através da gente, acabou se esvaindo pelo caminho, até não restar mais nada daquilo.</p>
<p>Bem, em termos. Recentemente fiquei a par de uma teoria da conspiração que renovou meus temores a respeito dos homens e mulheres de branco. Alguém me segredou ao ouvido que eles, claro, não são seres sobrenaturais, mas integram uma temível sociedade secreta internacional, encarregada não apenas de curar, ou salvar vidas, mas também, dentre outras coisas, de castigar-nos por nossas faltas e nosso pouco caso com a saúde. Essa sociedade, segundo a teoria, seria um emaranhado de células secretas, misteriosas câmaras subterrâneas e corredores sombrios e clandestinos, que, na superfície, manifestam assépticas clínicas, consultórios, hospitais (às vezes não tão assépticos assim), laboratórios e até setores significativos da indústria farmacêutica. Tudo fachada&#8230;</p>
<p>A princípio achei exagero. Mas meu interlocutor tinha excelentes argumentos. <em>“Já reparou como os exames que os médicos nos solicitam são quase sempre uma fonte de sofrimento”?</em> Não pude deixar de levar em consideração aquelas palavras. Isso é castigo mesmo&#8230; Quando me lembro dos exames preventivos das mulheres, por exemplo, afasto rapidamente aquelas imagens da minha imaginação, temendo pesadelos à noite. Sempre que elas me narram como se lhes apertam, amassam os seios, eu peço pra mudarem de assunto. E nós, homens de mais de cinqüenta, que temos de fazer o nosso preventivo anualmente? Antes, havia apenas a constrangedora prática dos médicos, entrando com o dedo onde não são chamados, para examinar a próstata pelo método Braille&#8230;Tá, tá certo, não demora tanto tempo assim, é coisa rápida, sem dúvida. Mas já poderia ter sido abolido, com as novas tecnologias, os exames químicos e tudo mais que está agora à disposição dos urologistas. Hoje em dia, eles podem fazer uma leitura quase perfeita de nossa situação hormonal, por exemplo — por exames clínico-químicos. Ou mesmo dar uma sacada no jeitinho da próstata, que a ultrassonografia revela claramente e sem maiores problemas. Pra que o dedo, gente? Não adianta, a prática Braille continua. <em>“É ainda muito confiável”</em>, asseguram maleficamente os doutores&#8230; </p>
<p>E olha que nem precisava mais do dedo, para castigar o infeliz. A tecnologia atualmente em uso pelo urologista já traz um duplo avanço: tanto mostra claramente a próstata, quanto castiga exemplarmente o paciente. Ficar uma hora sem urinar, depois de haver ingerido cinco ou seis copos com água, um imediatamente seguido do outro, sem intervalos, tanto facilita a observação da próstata (pela dilatação da bexiga, sei lá!), quanto traz indizível sofrimento e exemplar castigo para o paciente, algumas vezes causando conseqüências surreais, que não ficaria bem examinar aqui.</p>
<p><strong>A tecnologia aperfeiçoa tudo&#8230;</strong></p>
<p>A coisa da ressonância, então&#8230; Já viu o que é você entrar naquela máquina, com o ferreiro do inferno martelando aquela lataria, e ainda sem poder se mexer? Se rolar uma coceirinha, corre o risco de ser advertido. Se não for chegado a dormir fechado num caixão, como Drácula, aí então a coisa piora ainda mais. Tem gente que nunca entra numa engenhoca daquelas. E há exames ainda mais cascudos, como aquele em que o proctologista (por que alguém escolhe uma especialização dessas, meus deuses?) examina o você-sabe-o-que enfiando literalmente uma câmera, sei lá se fazendo algum documentário tipo <strong>Nat Geo</strong> explorando os submundos do Umbral, ou algo assim.</p>
<p><a href="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Coubert-DP-o-pobre-médico-pesadas-ameaças.jpg"><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Coubert-DP-o-pobre-médico-pesadas-ameaças.jpg" alt="" title="Coubert, DP - o pobre médico, pesadas ameaças" width="220" height="180" class="aligncenter size-full wp-image-15110" /></a><em>&#8220;(&#8230;) o pobre médico sofreu pesadas ameaças (&#8230;)&#8221;</em></p>
<p>E há ainda muitos outros exemplos. Alguns deles na medicação que os homens e mulheres de branco receitam. Não sei se a indústria farmacêutica tem a sua própria sociedade secreta, ou se é um ramo avançado da misteriosa sociedade dos doutores. <em>“Não leia a bula!”</em>, advertem alguns deles. Aí você espera chegar em casa e, pá!, vai ler a bula. Imprudente paciente! Os eventuais efeitos paralelos desses remédios maravilhosos variam desde prosaicas diarréias, até convulsões, cegueiras temporárias e perda de memória e de cabelo. Perda de dinheiro não, que a maioria deles já traz isso embutido no preço pra gente, e nem precisa constar na bula. </p>
<p><strong>O braço acadêmico da misteriosa sociedade</strong></p>
<p>Meu interlocutor — que prefere manter-se no anonimato, pelo menos até o seu próximo check-up anual — me revelou algo ainda mais espantoso. Um aspecto do ensino em medicina que, ao que tudo indica, é a cereja no bolo da rotina prática médica. Na fase final dos estudos, no último semestre da faculdade de Medicina, eles freqüentam aulas de uma cadeira que é obrigatória e absolutamente secreta: Anticaligrafia. As aulas constituem-se, praticamente, em exercícios para piorar a letra de quem quer que tenha cometido a imprudência de tentar a carreira de médico, tendo letra legível. Eles aprendem a ter letra de médico, aquela mesma com que escrevem as receitas e pedidos de exame, que precisamos fazer decifrar na farmácia ou no laboratório, onde há especialistas nesse tipo de criptografia.</p>
<p><a href="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Odilon-Rredon_egg-A-SOCIEDADE-É-ONIPRESENTE.jpg"><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Odilon-Rredon_egg-A-SOCIEDADE-É-ONIPRESENTE.jpg" alt="" title="Odilon Rredon_egg - A SOCIEDADE É ONIPRESENTE" width="250" height="326" class="aligncenter size-full wp-image-15111" /></a><em>“(&#8230;) a sociedade secreta tudo sabe, tudo vê (&#8230;)”  </em></p>
<p>Há tempos, meu cardiologista revoltou-se contra esse estado de coisas e, num gesto comovente de solidariedade para com seus pacientes, passou a fazer tudo pelo computador. Até mesmo as receitas. Tinha, inclusive, um programa especial pra isso&#8230; Mas a sociedade secreta é onipresente. Tudo sabe, tudo vê. De repente, de uma hora pra outra, ele voltou à antiga prática da letra ininteligível. Quando perguntávamos o porquê daquilo, sempre desconversava. Diz o meu interlocutor que o pobre médico sofreu pesadas ameaças da Sociedade, que iam desde promessas de duas horas sem urinar, depois de doze copos d’água, a três horas ininterruptas dentro da máquina de ressonância  magnética, sob a égide do ferreiro do inferno&#8230;</p>
<p><strong>Entendi que estava sendo ridículo</strong></p>
<p>Mas&#8230; quer saber? Aos poucos percebi o tanto de bobagem que eu vinha falando, com essa história de sociedade secreta, teoria da conspiração e tudo mais. Pra falar a verdade, eu nunca acreditei muito nisso. Foi má influência de Julio, meu irmão mais velho. É ele o meu misterioso “interlocutor”, e foi ele que inventou essas bobagens, só de onda, pra provocar minhas neuroses e pirar a minha cabeça. Brincadeira de mau gosto em cima da minha paranóia.</p>
<p>Saquei isso há pouco tempo, quando conversei com uma querida amiga, ela mesma médica, a respeito dessa temível teoria da conspiração, tecida em torno dos médicos. Foi bom, porque ela me tranqüilizou, e seu bom humor me fez ver o quanto eu estava paranóico. Cheguei a me achar ridículo. Ela riu muito e fez piada com aquilo, dizendo que até que não seria má idéia, que eles, médicos, precisavam mesmo domar a gente, porque nós éramos muito irresponsáveis com a saúde, etc. </p>
<p>Mas quando eu entrei no detalhe da cadeira de Anticaligrafia, ela ficou séria de repente. Simulou um abraço, abriu um sorriso amarelo e forçado, e segredou ao meu ouvido:</p>
<p><em>— Por favor, mude de assunto. Nós não estamos autorizados a falar sobre isto&#8230;</em></p>
<p><strong>Créditos das ilustrações</strong> (por ordem) </p>
<p>— Saul and the Witch of Endor, de Benjamim West. Detalhe<br />
— Coubert, sem título<br />
— Egg, de Odilon Redon</p>
<p><em>*<strong>Marco Antonio Coutinho</strong> é escritor, mora no Rio de Janeiro e anima o blog <strong><a href="http://eporfalarnisto.blogspot.com">“E por falar nisto&#8230;”</a></strong> (http://eporfalarnisto.blogspot.com). Suas crônicas são publicadas aqui com autorização expressa do autor.</em></p>
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		<title>Porque não vou à manifestação contra a corrupção</title>
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		<pubDate>Sat, 24 Sep 2011 03:03:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marco Antonio Coutinho</dc:creator>
				<category><![CDATA[Marco Antonio Coutinho]]></category>

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		<description><![CDATA[Essa manifestação, portanto, é parcial demais para que eu deixe meus afazeres, meu trabalho e minha família, e pense estar protestando contra a corrupção, quando, na verdade, acabo por protestar contra ‘um tipo’ de corrupção, contra a corrupção ‘até certo ponto’, contra corruptos que são quase abstratos, simbólicos, não localizados. Protesto contra a corrupção não como os fatos que lhe dão origem, ou as conseqüências que nela têm raízes. Mas a corrupção como algo genérico, do tipo “os poderosos são ladrões”, que não toca na real ferida. É muita perda de energia por nada.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Manifestante-com-bandeira.JPG" alt="Manifestante com bandeira" title="Manifestante com bandeira" width="199" height="230" class="aligncenter size-full wp-image-13622" />Sempre participei de todos esses movimentos, manifestações, passeatas, sempre lutando contra a opressão, com esperança e consciência.</p>
<p>E é exatamente em nome dessa tríade — esperança, consciência e luta contra a opressão — que me abstenho de participar hoje. Explico porque, e em poucas palavras.</p>
<p>À cabeça desse movimento estão pessoas, instituições, lideranças, forças e tendências políticas que pregam e deseja a retirada do Exército lá do Complexo do Alemão, sob o pretexto de que é anti-constitucional, e que é uma expressão de ditadura militar em plena democracia, em pleno estado de direito. </p>
<p>As mesmas que se omitem e não lutam para que os poderes públicos cumpram a sua função, sobretudo na saúde, na cultura e educação e na segurança, estes sim, obrigatórios constitucionalmente.</p>
<p>As mesmas pessoas que não lutam, tampouco, por uma reforma penitenciária, e, sobretudo, por uma reforma no Código Penal, e/ou no Código Penal de Execuções, e, portanto, colaboram para enfraquecer o braço da justiça, paternalizar os criminosos e sacrificar o povo.</p>
<p>Que trabalham contra a internação compulsória de dependentes químicos e menores infratores, em nome de um direito de ir e vir que, muitas vezes, atenta contra o do cidadão comum, trabalhador, e outro tanto de vezes, contra os próprios menores, sua saúde sua vida, seu presente e seu futuro.</p>
<p>As mesmas que ajudam a permitir que criminosos saiam das penitenciárias, em datas festivas, para visitar a família, enquanto o trabalhador honesto muitas vezes não tem condições de viajar nessas datas — de São Paulo ou Rio para o Nordeste ou o Norte, por exemplo.</p>
<p>Isto também não é, direta ou indiretamente, uma forma de se favorecer a corrupção? Como poderemos combater a corrupção sem leis conseqüentes, proporcionalmente severas? Apenas com discursos moralizantes? Com manifestações que só impressionam e motivam a nós mesmos, enquanto provocam risos e deboche dos corruptos?</p>
<p>Essa manifestação, portanto, é parcial demais para que eu deixe meus afazeres, meu trabalho e minha família, e pense estar protestando contra a corrupção, quando, na verdade, acabo por protestar contra ‘um tipo’ de corrupção, contra a corrupção ‘até certo ponto’, contra corruptos que são quase abstratos, simbólicos, não localizados. Protesto contra a corrupção não como os fatos que lhe dão origem, ou as conseqüências que nela têm raízes. Mas a corrupção como algo genérico, do tipo “os poderosos são ladrões”, que não toca na real ferida. É muita perda de energia por nada. A mim não basta esse tipo de “fiz a minha parte”. Sobretudo quando a minha parte acaba não tendo força nenhuma, nem qualquer resultado.</p>
<p>Respeito as convicções de vocês, mas não. Não vou à manifestação. Esse tipo de coisa só vale a pena fazer quando se acredita nela. Não sou correia de transmissão nem massa de manobra pra ninguém.</p>
<p><em>*<strong>Marco Antonio Coutinho </strong>é escritor, mora no Rio de Janeiro e anima o blog <strong>“E por falar nisto&#8230;”</strong> (<strong><a href="http://eporfalarnisto.blogspot.com">http://eporfalarnisto.blogspot.com</a></strong>). Suas crônicas são publicadas aqui com autorização expressa do autor.</em></p>
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		<title>Como se ouvisse um piano</title>
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		<pubDate>Sat, 10 Sep 2011 03:02:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marco Antonio Coutinho</dc:creator>
				<category><![CDATA[Marco Antonio Coutinho]]></category>

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		<description><![CDATA[É como se eu ouvisse ao longe um piano. Não sei o que pensar, acordando assim, no meio da noite. Mas a música me parece real e não pára. Toda a noite se cala, para que ela a invada e me surpreenda, atraindo-me para onde não conheço. Às vezes é como se tocasse dentro de mim, como se conhecesse cada um de meus segredos e se risse disso. Ou como se tentasse ela própria evitar a lembrança do abismo, pela observação da minha dor.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Pintura-de-Franz-von-Stuck-detalhe.JPG" alt="Pintura de Franz von Stuck - detalhe" title="Pintura de Franz von Stuck - detalhe" width="220" height="215" class="aligncenter size-full wp-image-13066" /><em>Acima, pintura de Franz von Stuck &#8211; detalhe.</em></p>
<p>É como se eu ouvisse ao longe um piano. Não sei o que pensar, acordando assim, no meio da noite. Mas a música me parece real e não pára. Toda a noite se cala, para que ela a invada e me surpreenda, atraindo-me para onde não conheço. Às vezes é como se tocasse dentro de mim, como se conhecesse cada um de meus segredos e se risse disso. Ou como se tentasse ela própria evitar a lembrança do abismo, pela observação da minha dor. </p>
<p>Mas sei que estou acordado. E essa música me traz alguma coisa, alguém, uma lembrança. Quase palpável, prestes a surgir ali, diante de mim, como uma aparição assombrando-me gentilmente. Alguém de quem bebo o nome e adivinho o perfume. Alguém de quem amo e celebro o sorriso. Epifania do que busco sem conhecer. Mas não a temo, chego a desejá-la, e ela então não aparece. Ou não a vejo.</p>
<p>Quase entendo porque não vê-la. O que antes via, agora pressinto. E se é doloroso não ver mais, é desconcertante sentir tão proximamente real. Acordar na noite, de repente, desorientado, o coração aos pulos, querendo acreditar estar despertando de um sonho ruim, é o impacto maior com que a realidade imediata pode brindar um homem nos seus limites. Versos para um piano que inventa uma melodia sem palavras. Mas, enfim, um sorriso me consola, e — como uma canção, que o piano não fez senão introduzir — uma brisa me vem, de uma distância que não sei avaliar. Terna, me sorri, afaga-me para me consolar e diz que me ama.</p>
<p><em>*<strong>Marco Antonio Coutinho</strong> é escritor, mora no Rio de Janeiro e anima o blog <strong>“E por falar nisto&#8230;”</strong> (<strong><a href="http://eporfalarnisto.blogspot.com">http://eporfalarnisto.blogspot.com</a></strong>). Suas crônicas são publicadas aqui com autorização expressa do autor.</em></p>
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		<title>De volta, à noite</title>
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		<pubDate>Sat, 23 Jul 2011 03:01:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marco Antonio Coutinho</dc:creator>
				<category><![CDATA[Marco Antonio Coutinho]]></category>

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		<description><![CDATA[Já faz tempo que anoiteceu. Apenas chego de volta à casa e a olho sem conseguir me surpreender muito. Deveria estar mais perplexo do que me sinto agora, porque, de certa forma, ela me causa alguma estranheza, assim a meia distância, enquanto chego, encaminhando-me à porta de entrada. E, no entanto, tudo reconheço, mesmo antes de ter entrado... Mas é estranho sentir como se as coisas dissessem palavras sem sentido onde tudo devesse ter um sentido. É estranho como procuro sentido em todas as coisas. Penso que talvez o sentido que eu vejo nas coisas, e que faz-me reconhecê-las, seja uma espécie de hábito nascido da ilusão de conhecê-las. Talvez eu não conheça nada e apenas esteja perdido. Talvez seja melhor olhar tudo pelo menos mais uma vez.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/À-noite.JPG" alt="À noite" title="À noite" width="220" height="223" class="aligncenter size-full wp-image-12220" />Já faz tempo que anoiteceu. Apenas chego de volta à casa e a olho sem conseguir me surpreender muito. Deveria estar mais perplexo do que me sinto agora, porque, de certa forma, ela me causa alguma estranheza, assim a meia distância, enquanto chego, encaminhando-me à porta de entrada. E, no entanto, tudo reconheço, mesmo antes de ter entrado&#8230; Mas é estranho sentir como se as coisas dissessem palavras sem sentido onde tudo devesse ter um sentido. É estranho como procuro sentido em todas as coisas. Penso que talvez o sentido que eu vejo nas coisas, e que faz-me reconhecê-las, seja uma espécie de hábito nascido da ilusão de conhecê-las. Talvez eu não conheça nada e apenas esteja perdido. Talvez seja melhor olhar tudo pelo menos mais uma vez.</p>
<p>Enquanto me aproximo penso, então, na absurda possibilidade de nada reconhecer, quando entrar na casa. De estar enlouquecido, confundindo fantasias com lembranças que posso ou desejo ter de onde moro. Da mesma forma que tenho confundido pessoas, esperado delas o que não entendem, que tenho misturado sentimentos. Da mesma forma que, às vezes, tenho acreditado viver certas histórias, para depois perceber que, na verdade, vivi outras. Lembro-me do poeta, dos poetas, de mim. E rio de tudo isso. Os poetas sempre vêm em meu socorro, perguntando, sem preocupação, <em>“e se for assim mesmo, no que mudam as coisas?”</em></p>
<p>Afinal, tranqüilizo-me. Possivelmente não mudam em nada mesmo&#8230; Talvez tenha sido apenas eu que mudei muito rápido, ou o breve giro na noite tenha me mudado, e a adversidade tenha agido como estímulo. Talvez ela me tenha testado e aguçado. Talvez apenas tenha agido como instrumento para revelar o que já estava ali, aguardando Coragem e Fé. Ou então, mais uma vez, foi o Amor que me invadiu francamente, sem aviso, buscando-me, com clareza e em paz, curando-me de velhas feridas, a língua úmida direta ao Coração. </p>
<p><em>*<strong>Marco Antonio Coutinho</strong> é escritor, mora no Rio de Janeiro e anima o blog “E por falar nisto&#8230;” (<strong><a href="http://eporfalarnisto.blogspot.com">http://eporfalarnisto.blogspot.com</a></strong>). Suas crônicas são publicadas aqui com autorização expressa do autor.</em></p>
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		<title>Vinho &amp; chocolate, camarada!</title>
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		<pubDate>Thu, 30 Jun 2011 03:01:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marco Antonio Coutinho</dc:creator>
				<category><![CDATA[Marco Antonio Coutinho]]></category>

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		<description><![CDATA[O dia cai, e acabo de me levantar, para fazer o café. No outono anoitece mais cedo, e apenas a tarde finda, a noite adianta-se, soberana. Este ano faz mais frio do que de hábito. Na TV, ligada ao acaso, Dr. Jivago segue quase no final, e enquanto hesito em deixar a cama, recém saído da sesta prolongada, surpreendo-me ao ver na tela Julie Christie (tão linda!) Geraldine Chaplin, Omar Sharif, Rod Steiger... Chego a estranhar-me, e pergunto-me não onde estou, mas quando estou, porque é curiosa a sensação que me toma por inteiro, mas suavemente, nesta tarde já adiantada de domingo. Enquanto afasto as cobertas, para sair da cama baixa, e olho pela janela o céu escurecer aos poucos, tudo me evoca os tempos em que assombrava-nos a luta,]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Vinho-chocolate.jpg" alt="Vinho &amp; chocolate" title="Vinho &amp; chocolate" width="194" height="259" class="aligncenter size-full wp-image-11747" />O dia cai, e acabo de me levantar, para fazer o café. No outono anoitece mais cedo, e apenas a tarde finda, a noite adianta-se, soberana. Este ano faz mais frio do que de hábito. </p>
<p>Na TV, ligada ao acaso, Dr. Jivago segue quase no final, e enquanto hesito em deixar a cama, recém saído da sesta prolongada, surpreendo-me ao ver na tela Julie Christie (tão linda!) Geraldine Chaplin, Omar Sharif, Rod Steiger&#8230; Chego a estranhar-me, e pergunto-me não onde estou, mas quando estou, porque é curiosa a sensação que me toma por inteiro, mas suavemente, nesta tarde já adiantada de domingo. Enquanto afasto as cobertas, para sair da cama baixa, e olho pela janela o céu escurecer aos poucos, tudo me evoca os tempos em que assombrava-nos a luta, a onipresente revolução que nos consumia a alma, ao mesmo tempo em que, no corpo, fratri carissimo, crucificávamos a rosa semi-aberta, e alumbrávamo-nos na paixão espiritual dos loucos de Deus.</p>
<p>Malgrado tanta luta e metafísica, a casa resiste e ainda agora dormita, preguiçosa. E preparo o café, lembrando-me de que hoje, após o almoço &#8211; a massa deliciosa ao azeite &#8211; consumi com chocolate o que restava do vinho tinto alentejano com o que fizera a refeição. Acho graça. Sempre soube que não se deve misturar diferentes bebidas alcoólicas. Mas surpreendo-me com o fato de que minha curiosa mania de degustar certos doces com o melhor vinho possa deslocar-me tanto no tempo, e alucinar-me. Fazer-me sentir próximos aqueles que viveram conosco as aventuras, mas que, na verdade, já imergiram em estranhas névoas, deixando para trás apenas recordações e o perfume inequívoco de sua realidade. Saber distantes, inda que tão próximos, os amigos e os momentos que eram realidade em torno de outras mesas de café e de catedrais imaginárias que tornavam imaginário o mundo que hoje acreditamos real, e que buscávamos transformar pelos combates no céu e pelos combates na terra.</p>
<p>Mas é preciso andar. Sair da cama, sair dos sonhos, do que não existe mais. É preciso deixar em paz memórias que são histórias, lembranças que são crianças perdidas nas dobras do tempo. Revoluções adiadas, luz insuspeita, o coração em chamas, espreitando-nos num anoitecer de domingo. Saber o que fazer ainda um dia com isto.</p>
<p>Olhando adiante para uma das portas internas da casa, inquieto-me. Eu a conheço. Mas é como se depois dela, nos corredores já obscurecidos pela noite, vibrassem, silenciosos, novos segredos, e alguma coisa ainda me falasse.</p>
<p><em>*<strong>Marco Antonio Coutinho</strong> é escritor, mora no Rio de Janeiro e anima o blog <strong>“E por falar nisto&#8230;”</strong> (<strong><a href="http://eporfalarnisto.blogspot.com">http://eporfalarnisto.blogspot.com</a></strong>). Suas crônicas são publicadas aqui com autorização expressa do autor.</em></p>
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		<title>Pergunta-me o Demônio</title>
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		<pubDate>Sat, 21 May 2011 03:01:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marco Antonio Coutinho</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Pergunta-me o Demônio por que tanto atribuo aos artistas. Por que choro, às vezes, diante da obra de arte, e por que é a arte todo alimento que desejo nesses pequenos pedaços de eternidade. Pergunta-me não sem ironia, o sorriso não exatamente cínico, mas sarcástico, o alento materializando-se sobre as barbas, forte como o de um animal. Diz-me o Demônio que, então, peco por soberba, já que de mim mesmo faço artista, poeta e escritor, tenso e extático sobre o teclado, respirando arte sem reservas, tentando ser o que são os melhores, os deuses, semi-deuses e daimons que volitam no Empíreo e se precipitam à noite no mundo, para assombrá-lo com beleza e força.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Demônio01.jpg" alt="Demônio01" title="Demônio01" width="229" height="220" class="aligncenter size-full wp-image-11253" />Pergunta-me o Demônio por que tanto atribuo aos artistas. Por que choro, às vezes, diante da obra de arte, e por que é a arte todo alimento que desejo nesses pequenos pedaços de eternidade. Pergunta-me não sem ironia, o sorriso não exatamente cínico, mas sarcástico, o alento materializando-se sobre as barbas, forte como o de um animal. </p>
<p>Olho-o mover-se nas vestes negras, o manto, o rosto soberbo, olhos amarelos revelados sob o capuz depois descido às costas e confesso: &#8211; é a ti que busco, meu amigo, aos deuses, semi-deuses, <em>daimons</em> que se alimentam do sublime, em que êxtase e transgressão conquistam não delícias imediatas, mas o Paraíso Absoluto. E, então, caminho por lugares que não consegues alcançar. Ou não alcanças mais. Teatros sombrios às duas da tarde, poeira das cortinas e sombra dos dançarinos. A Rua da Carioca, o violonista negro sentando diante do shopping, os dedos nervosamente libertando a perfeição. Mulheres &#038; homens em máscaras, vivendo um outro si mesmos; poetas, pintores, cinema luminoso avançando no mais fundo de mim mesmo e revelando-me meus próprios segredos, e os que eu ainda não buscava conhecer. Imagem &#038; Luz. Música. Assim me emociono, e toda a vida pulsa incontrolável, generosa e bela diante de mim. Para além disto, o indizível.</p>
<p>Diz-me o Demônio que, então, peco por soberba, já que de mim mesmo faço artista, poeta e escritor, tenso e extático sobre o teclado, respirando arte sem reservas, tentando ser o que são os melhores, os deuses, semi-deuses e daimons que volitam no Empíreo e se precipitam à noite no mundo, para assombrá-lo com beleza e força.</p>
<p>É de mim apenas ousadia, respondo. É um movimento em direção ao que me seduz, à saudade, ruptura e fruição. Não sou eu mesmo, sou meu irmão em transubstanciação. Sou teu gêmeo, Demônio, o outro ti mesmo, e a arte é, então, a minha prece, religião. Hidromel, delícias, sentidos, o mais contundente do exercício é não se saber até onde ou no que resulta. É, por si mesmo, iluminação &#038; arte.</p>
<p>E ele, silencioso, senta-se à janela, e ouve-me, olhando além, para onde não há senão negror e estrelas.</p>
<p><em>*<strong>Marco Antonio Coutinho</strong> é escritor, mora no Rio de Janeiro e anima o blog <strong>“E por falar nisto&#8230;”</strong> (<a href="http://eporfalarnisto.blogspot.com">http://eporfalarnisto.blogspot.com</a>). Suas crônicas são publicadas aqui com autorização expressa do autor.</em></p>
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		<title>Vitor Belfort x Anderson Silva</title>
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		<pubDate>Thu, 24 Mar 2011 03:01:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marco Antonio Coutinho</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Tem muita gente que fica confusa e até desapontada comigo, quando sabe que eu gosto de MMA (Mixed Martial Arts), que nada mais é do que o nosso antigo ‘Vale-Tudo’, devidamente industrializado, comercializado e elevado à categoria de esporte emergente, nos EUA. Fazer o que? Não sou chegado ao futebol, nunca fui. E violência por violência, prefiro aquela sincera, sem disfarces, mas elegante e bela, sob controle e dentro de um código de honra, como é a praticada marcialmente nos eventos de Vale-Tudo, do que a desenvolvida “crocodilianamente” nos campos de futebol, fora do contexto,]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/MMA.jpg" alt="MMA" title="MMA" width="227" height="222" class="aligncenter size-full wp-image-10400" />Por quem torcer?</p>
<p>Tem muita gente que fica confusa e até desapontada comigo, quando sabe que eu gosto de MMA (Mixed Martial Arts), que nada mais é do que o nosso antigo ‘Vale-Tudo’, devidamente industrializado, comercializado e elevado à categoria de esporte emergente, nos EUA. Fazer o que? Não sou chegado ao futebol, nunca fui. E violência por violência, prefiro aquela sincera, sem disfarces, mas elegante e bela, sob controle e dentro de um código de honra, como é a praticada marcialmente nos eventos de Vale-Tudo, do que a desenvolvida “crocodilianamente” nos campos de futebol, fora do contexto, e com prolongamentos para os arredores dos estádios. É razoavelmente rara a pancadaria de torcidas dos eventos de Vale-Tudo&#8230; Neles, a briga não é briga, é luta, e ocorre dentro dos ringues e octógonos. E pronto. Ficamos melhor assim.</p>
<p>Muitos daqueles que sentiam aflição, quando me viam torcendo pela TV, em torno de lutas clássicas — como as do quase mitológico Rickson Gracie, no Japão, de Wanderley “Cachorro Louco” Silva, Alexandre Pequeno e Jacaré, também na terra do sol nascente, ou de Minotauro, Minotouro, Carlão Barreto e Vitor Belfort, na Inglaterra, Japão e EUA, e, mais recentemente, Lyoto Machida, Thales Leites, Tiago Silva, Tiago Alves, Shogum e Anderson Silva, na terra do Tio Sam (todos brazucas) — passaram a admirar os lutadores e sua arte, com apenas uma ou duas olhadinhas nos combates, a meu convite. Lembro-me de uma namorada que, aflitíssima, perguntou-me como eu tinha coragem de assistir aquilo, logo eu, que era um cara sensível, do bem, artista, escritor, etc. Era uma luta de Royler Gracie, contra um estadunidense cujo nome não me lembro agora. Convidei-a a ver alguns momentos do combate, para entender melhor o porquê do meu interesse. Ela sentou-se ao meu lado, aflita, e a meio de caminho, ainda se afligia, mas aí já torcendo pelo mais técnico e mais elegante da família Gracie. E quando ele finalizou o oponente com um arm lock, ela simplesmente fez um oooh!!!! , enquanto arregalava os olhos, completando depois com um bonito isso aí, cara&#8230;</p>
<p>Já minha irmã, Verinha, a princípio também perplexa com meu interesse nos combates livres, aceitou meu convite para assistir a uma luta&#8230; a partir da qual viu uma segunda, uma terceira, e terminou assinando um canal de TV especializado em esportes marciais. Hoje, ela está mais por dentro do que eu, e conhece a maior parte do jargão de lutas, qual lutador é mais ou menos técnico, acompanhando fielmente o melhor dos campeonatos, sem descuidar de ver os programas de comentários, e comentar, ela própria, as lutas e até as bobagens que, algumas vezes, quase nocauteiam a gente, vindas de alguns comentaristas que nem sempre sabem muito o que falar, e dizem qualquer nota, nos intervalos dos socos, chutes, chaves e quedas.</p>
<p>Embora os eventos de vale-tudo tenham tido início no Brasil e se desenvolvido no Japão, o maior evento mundial de MMA é o Ultimate Fighting Championship, criado nos EUA, nos anos 1990, por Rorion Gracie, o maior empreendendor da família criadora do estilo brasileiro de ju-jutsu, hoje conhecido e reconhecido como Brazilian Jiu-Jitsu (BJJ), ou Gracie Jiu-Jitsu. De início, os brasileiros ganhavam praticamente todas as edições, principalmente por causa do Jiu-Jitsu dos Gracie, que os americanos, ingleses, franceses, russos, japoneses, ninguém entendia direito o que era. Com o tempo, os gringos foram pegando a manha, vendo os vídeos de BJJ, e eles mesmos praticando a chamada arte suave, de modo que a coisa das vitórias retumbantes meio que se democratizaram. Os brasileiros continuaram destacados nos combates, mas agora sem aquela exclusividade dos primeiros tempos.</p>
<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Carlson_Gracie_contra_Waldemar_Santana.JPG" alt="Carlson_Gracie_contra_Waldemar_Santana" title="Carlson_Gracie_contra_Waldemar_Santana" width="300" height="394" class="aligncenter size-full wp-image-10397" /><em>Carlson Gracie contra Waldemar Santana nos momentos pioneiros e heróicos do Vale-Tudo brasileiro.</em></p>
<p>O evento evoluiu, tornou-se mais vendável. De campeonato por chaves que era, sem luvas ou categorias de peso, e extremamente violento, passou a evento de lutas casadas, organizado por categorias, utilizando as luvas de dedos (40 onças) e se transformando no esporte que mais cresce nos Estados Unidos. Inclusive freqüentado por celebridades de outras modalidades esportivas, e até do teatro, do cinema, da literatura, e outros quetais. A essas alturas, Rorion Gracie já havia vendido a sua parte no Ultimate, e no final da história ficou tudo sob a presidência de Dana White, o homem de gênio que deu ao campeonato free style mais famoso do mundo o seu formato atual, palatável, altamente vendável , respeitável e milionário.</p>
<p> Sempre gostei de vale-tudo, e isto desde menino, quando via as lutas de Carlson Gracie contra desafiantes estrangeiros, no Maracanãzinho, ou os Heróis do Ringue, na antiga TV Continental, canal 9 e na TV Rio, canal 13. Eu era menino, nessa época, por volta dos oito anos de idade. Meu irmão, Julio, dois anos mais velho, praticava judô. Depois, em casa, treinava comigo, ensinando-me um judô “mexido” e não muito “cavalheiresco”, que logo batizamos “Jiu-Julio”, e usamos muito, pra lutar entre nós (“à brinca ou à vera”), e que pra mim teve grande validade pra me defender dos provocadores, na escola. Coisa de menino mesmo&#8230;</p>
<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Rickson_Gracie_vs_Bud_Smith_Japan_Vale_Tudo.JPG" alt="Rickson_Gracie_vs_Bud_Smith_Japan_Vale_Tudo" title="Rickson_Gracie_vs_Bud_Smith_Japan_Vale_Tudo" width="375" height="250" class="aligncenter size-full wp-image-10395" /><em>Rickson Gracie sobre Bud Smith no Japan Open</em></p>
<p>Ultimamente não tenho acompanhado muito os eventos de Vale-Tudo. Verinha é que é a torcedora de plantão, de modo que é ela quem me informa, de tempos em tempos, a respeito do ranking atualizado, das subidas e descidas dos melhores lutadores (brasileiros ou não) e de quem está de posse do cinturão de qual categoria.</p>
<p>Foi por Verinha mesmo que fiquei sabendo de uma luta, que acontecerá na madrugada deste domingo, envolvendo dois dos melhores e maiores lutadores de MMA de todos os tempos: Vitor Belfort e Anderson Silva. Enquanto o evento não chegava, eu adiava uma decisão importante, que era escolher pra quem eu iria torcer. Como ficamos sabendo disso no ano passado, há alguns bons meses, deixei a coisa rolar. <em>“A luta é só em fevereiro do ano que vem”</em>, eu pensava, e não me preocupava mais com aquilo.</p>
<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Royler_finaliza_Asahi_Japan_Open_III.jpg" alt="Royler_finaliza_Asahi,_Japan_Open_III" title="Royler_finaliza_Asahi,_Japan_Open_III" width="400" height="165" class="aligncenter size-full wp-image-10393" /><em>Royler Gracie finalizando Asahi no Japan Open III</em></p>
<p>Acontece que o ano que vem chegou. E com ele, logo logo, fevereiro e a luta&#8230; Mas quem disse que eu consegui tomar uma decisão? Sou (muito) fã dos dois e ambos são carne de pescoço (ou casca-grossíssima, como se diz nos eventos de MMA). De modo que fico sem saber por quem torcer. E dá mesmo pra escolher? Olha só&#8230;</p>
<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/vitor-belfort.jpg" alt="vitor-belfort" title="vitor-belfort" width="276" height="320" class="aligncenter size-full wp-image-10391" />— <strong>Vitor Belfort</strong>, trinta e cinco anos incompletos, peso médio, começou a lutar muito jovem. Aos dezenove anos já era considerado um fenômeno e estreeou no MMA internacional, derrotando Jon Hesse, no SuperBrawl, nocauteando-o nos primeiros doze segundos de luta. Transferiu-se depois para o Ultimate Fighting, conquistando uma série de espetaculares vitórias, e sofrendo poucas derrotas em sua carreira. Passou por problemas bastante graves, de ordem familiar, e andou afastado dos ringues e octógonos, voltando a lutar depois na Inglaterra, no hoje extinto Cage Rage. De lá para cá, vem treinando para voltar em grande estilo à carreira. Sua forma de lutar sempre foi impactante. Profundo conhecedor da luta de solo, por meio do BJJ que lhe foi transmitido pelo lendário Carlson Gracie, ele, no entanto, prefere utilizar os punhos extremamente rápidos e afiados (é especialista também em boxe inglês), em geral levando o adversário ao solo, para nocauteá-lo com golpes demolidores, rapidíssimos e muito precisos.</p>
<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/anderson_silva.jpg" alt="anderson_silva" title="anderson_silva" width="240" height="320" class="aligncenter size-full wp-image-10389" />— <strong>Anderson Silva</strong>, trinta e sete anos incompletos, vem da Chute-Boxe, uma academia de Curitiba que deu origem a alguns dos maiores compeões do mundo, como Wanderley “Cachorro Louco” Silva, por exemplo, que fez fama no Japão e foi o único brasileiro a derrotar Sakuraba, o japonês que nenhum brasileiro conseguira “botar pra baixo” antes. Anderson tem um estilo único. Elegante — especialista no Muay Thai, o temível boxe tailandês — braços e pernas longas (que contribuíram para o seu apelido Spider), luta como se dançasse. O combate mais violento vê sempre Anderson Silva como um bailarino que movimenta-se com uma leveza e elegância que surpreendem pela rapidez e impacto, com os quais o jovem brasileiro negro, de origem humilde, põe pra dormir os bem nutridos estadunidenses, japoneses, europeus, e quem mais conseguir chegar perto dele, no ranking dos pesos médios e no ringue. É talvez o único lutador que consegue manter a coreografia cinematográfica nos combates em que realmente se golpeia e derruba, sem ficção. É o detentor invicto do cinturão da categoria. Mas, vez por outra, deu-se ao luxo de ganhar peso, para enfrentar, em combates sem valer cinturões, lutadores bem mais pesados do que ele, vencê-los e voltar a seu peso, para defender o cinturão dos médios, contra ousados mas frustrados desafiantes.</p>
<p>Nesta madruga, por volta da 1h da manhã, no canal Combat Sport e, talvez, no Sport TV, esses dois gigantes das arte marciais mistas enfrentam-se no octagon do Ultimate, montado desta vez em Las Vegas. Por qual deles você torceria? Qual deles você esperaria vencer, para celebrar a vitória que só os gênios do combate, semi-deuses das artes marciais, conseguem conquistar?</p>
<p>Eu ainda não sei. Até lá, ou até daqui a pouco (o evento está começando), se eu não me decidir, que vença o melhor. Pelo menos o melhor da noite, porque, mesmo ao final do combate, dificilmente saberemos qual desses dois guerreiros é realmente o melhor.</p>
<p> (&#8230;)</p>
<p><strong>E deu&#8230; Anderson Silva!</strong></p>
<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Anderson-Silva.jpg" alt="Anderson Silva" title="Anderson Silva" width="307" height="400" class="aligncenter size-full wp-image-10387" /><em>Spider vence mais uma vez, mantém o cobiçado cinturão dos pesos médios e o título de melhor do mundo, peso a peso.</em></p>
<p>Sabe que eu fiquei surpreso? Fiquei mesmo. E não foi pelo Vitor ter perdido não. Isso aí era uma incógnita. Ainda que The Spider fosse o favorito, Belfort tinha condições de derrotá-lo, sem dúvida. Mas poderia também ser derrotado, ninguém sabia o que iria acontecer. Minha surpresa foi no como a coisa aconteceu.</p>
<p>Iniciada a luta, os dois ficaram tempo demais se estudando, a ponto de levar o comentarista a dizer o que todo mundo já estava pensando: que a luta poderia surpreender e ser aquele combate chocho, em que ninguém toma a iniciativa, e ficam ambos tentando acumular pontos. O público, em Las Vegas, talvez tenha pensado o mesmo, porque embora tenha aplaudido a ambos, quando de sua entrada, agora começava a ensaiar uma vaia impaciente de quem quer ver luta e sabe que quem está no octógono é de ação e não de hesitação.</p>
<p>Belfort tomou a iniciativa,chutando Silva, e chegando a acertar-lhe um soco no rosto. Depois levou-o ao chão, golpeando-o rapidamente, mas sem muito sucesso. Spider não se impressionou com aquilo. Levantou-se rapidamente e continuou estudando o adversário. Só agora a gente vê que ele estava era sentindo a distância média em que deveria atuar.</p>
<p>Se era isso ou não, a gente não tem certeza. Mas o fato é que, antes dos quatro minutos do primeiro round, Anderson Silva chutou pra frente, com a canhota e simplesmente nocauteou o desafiante. Fim de luta.</p>
<p>É aí que eu me surpreendo. Rápido demais. No final da história, o dançarino nocauteou sem firulas o adversário, que é conhecido por ser dos lutadores mais rápidos e objetivos do mundo.</p>
<p>Mais uma vitória para o grande campeão, que mantém o cinturão, contra tudo e contra todos, e continua sendo, como insiste em afirmar the boss Dana White, o melhor lutador peso a peso (em todas as categorias) do mundo, em todos os tempos.</p>
<p>Evoé, Anderson! </p>
<p><em>*<strong>Marco Antonio Coutinho</strong> é escritor, mora no Rio de Janeiro e anima o blog “E por falar nisto&#8230;” (<strong><a href="http://eporfalarnisto.blogspot.com">http://eporfalarnisto.blogspot.com</a></strong>). Suas crônicas são publicadas aqui com autorização expressa do autor.</em></p>
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		<title>Falou, bateu, ficou: inesquecíveis!</title>
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		<pubDate>Sun, 06 Feb 2011 02:01:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marco Antonio Coutinho</dc:creator>
				<category><![CDATA[Marco Antonio Coutinho]]></category>

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		<description><![CDATA[E põe inesquecíveis nisso! Pelo menos pra mim. Ao longo do tempo, tenho escutado frases que bateram e ficaram, que se tornaram realmente inesquecíveis. Não estou falando daquelas frases edificantes, ou que nos levam imediatamente à reflexão filosófica. Não são frases como as dos grandes estadistas, por exemplo, tipo Winston Churchil, ou dos filósofos, como Pitágoras... Claro, adoro essas frases, mas não é delas que estou falando aqui. Tampouco são aquelas de efeito, engraçadas e originais, como as de Groucho Marx ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Frases-inesquecíveis.JPG" alt="Frases inesquecíveis" title="Frases inesquecíveis" width="227" height="194" class="aligncenter size-full wp-image-9641" />E põe inesquecíveis nisso! Pelo menos pra mim. Ao longo do tempo, tenho escutado frases que bateram e ficaram, que se tornaram realmente inesquecíveis. Não estou falando daquelas frases edificantes, ou que nos levam imediatamente à reflexão filosófica. Não são frases como as dos grandes estadistas, por exemplo, tipo Winston Churchil (A maior lição da vida é a de que, às vezes, até os tolos têm razão), ou dos filósofos, como Pitágoras (Se o que tens a dizer não é mais belo do que o silêncio, então cala-te)&#8230; Claro, adoro essas frases, mas não é delas que estou falando aqui. Tampouco são aquelas de efeito, engraçadas e originais, como as de Groucho Marx (Eu não freqüento clubes que me aceitem como sócio), ou Keith Richards (Não tenho problemas com as drogas, meu problema é com a polícia). Não. São frases que escuto no dia a dia (anoto tudo!) e que, por um motivo ou outro, me espantam, ou me fazem rir e perceber o quanto cada um de nós é único na sua percepção das coisas e de si mesmos, e na sua expressão do que puderam perceber.</p>
<p>Quer ver um exemplo? Há muitos anos — eu era casado naquela época — voltei pra casa e dei de cara com a filha adolescente de minha mulher, sentada à mesa, cercada de seus babilaques de estudante. Pelo tanto de cadernos, canetas, livros, etc, ela parecia estar estudando. E estava mesmo. Só que em torno da mocinha havia uma balbúrdia dos diabos: a TV e o rádio estavam ligados, aos berros, os dois. Um com um programa qualquer de variedades, e o outro tocando música pop daquelas bem baticum mesmo. Assim, tudo ao mesmo tempo. Eu falei que não ia adiantar nada estudar com aquele barulho todo. “Não é melhor desligar isso?”, sugeri. E ela, a sério:</p>
<p>— Não, Marquinho. Se desligar, vai ficar o maior silêncio. Ai eu me concentro e acabo errando tudo.</p>
<p>Não é demais?</p>
<p>Uma outra dessas frases veio do irmão dela. Bem mais velho do que a menina, e na época com vinte e poucos anos de idade, trabalhando e tudo mais, ele tomara nas mãos um texto cuja leitura eu lhe havia recomendado. Não me lembro do que se tratava, só que era algo filosófico, uma leitura meio mística, algo por aí. Esqueci-me daquilo, mas no momento em que o rapaz pegou o texto pra ler, eu passei em frente ao quarto dele, que estava com a porta aberta. Olhei distraído, e vi que a figura tinha nas mãos os tais textos, mas não os estava lendo. Mirava o nada, com uma expressão vazia, algo triste, e parecia ter os olhos marejados. Aquilo me preocupou e interrompi o mais delicadamente possível os seus pensamentos, perguntando se estava tudo bem, se o texto o havia comovido demais&#8230; Ele moveu a cabeça devagar, na direção de onde eu estava, olhou-me e disparou, emocionado:</p>
<p>— Não sei, não tem nada a ver com esse livro aqui não. Mas me deu uma nostalgia não sei de que, uma vontade de chorar&#8230;</p>
<p>Parou de repente de falar, com uma expressão de surpresa, os olhos arregalados, como se estranhasse o que ele próprio havia acabado de dizer e arrematou:</p>
<p>— Iiiih&#8230;será que eu tô virando viado?</p>
<p>Qualquer truque contra a emoção&#8230; A gente faz tanto isso&#8230; em geral pra negar a dor&#8230;</p>
<p>Mas há quem decida as coisas mais rápido, sem ficar teorizando demais. Assim é Conceição, que trabalha pra mim há algum tempo, ajudando sua tia Lucinda a cuidar da minha casa, cozinhando, limpando e tudo mais. Conceição, que regula de idade comigo, é pessoa simples, valente, batalhadora, e trabalha incansavelmente pra ganhar a vida. Talvez por isso mesmo não goste muito de perder tempo. É direta, sem frescuras e sem meias palavras. Minimalista mesmo. No finalzinho da Copa do Mundo de 2006, com o Brasil já de fora, depois de uma campanha poser de eterno campeão do mundo, estávamos todos decepcionados aqui em casa. A maioria de nós já não ligava pra quem levaria a taça, já que a seleção brazuca tinha dado aquele vexame, desfilando garbosamente pelo campo, sem jogar nada. Mas a maioria de nós acompanhou tudo até o final, embora sem saber por quem torcer. Menos Conceição que, como sempre, sabia o que queria e foi objetivíssima:</p>
<p>— Entre mortos e feridos, eu prefiro a Itália.</p>
<p>Grande Concessa! Comentário mais do que apropriado para o final de uma guerra perdida, né não? Uma forma, também, de aceitar a dor, a derrota e já partir pra outra, sem reclamações e sem chorar o leite derramado.</p>
<p>Simples também era Maria, uma outra empregada que tive, muitos anos antes dessas considerações filosófico-esportivas de Concessa. Ao contrário dela, que gosta de conversar, Maria era silenciosa, observadora. Parecia preferir ouvir, prestava atenção a tudo, sem descuidar de seus afazeres.</p>
<p>Certo dia, eu havia recebido um telefonema importante, da França, e fiquei ao telefone, por pelo menos uns quinze minutos. Conversando em francês, claro, porque meu interlocutor não falava português. Depois desse tempo trocando idéias, desliguei o aparelho e encaminhei-me para a cozinha, em busca de um copo d’água, ou de um café, não me lembro agora. Quando entrei, dei com Maria parada no meio da cozinha. As mãos na cintura, ela me olhava com um misto de admiração e orgulho. Fiquei sem entender o porquê daquela atitude, mas ela não demorou muito a exteriorizar seus pensamentos:</p>
<p>— Puxa, seu Marco, o senhor fala bem estrangeiro!</p>
<p>Maria não ficou com a gente por muito tempo, não sei por que. Mas ficou na minha memória, devo confessar que mais pelo elogio do que pelos seus dotes de cozinheira.. Falar francês eu sabia que falava. Mas pareceu-me bem mais importante e erudito saber falar estrangeiro. Só você, Maria&#8230;</p>
<p>E talvez tenha sido exatamente pelo fato de eu ser não apenas um homem de texto, mas também falar uma língua tão exótica, que o jornalista Mário Willmersdorf Jr., meu querido amigo de tantas batalhas, tenha me chamado para participar de um projeto muito importante: a pesquisa e redação de um super-livro sobre artes. O projeto era uma idéia brilhante de S.L, um homem de cultura cujo nome prefiro não declinar no momento, por ser por demais conhecido nos meios culturais mais sofisticados. Um gentleman, acima de tudo, homem erudito e realmente um connaisseur, S.L é extremamente bem relacionado. O tal livro tinha tudo pra dar certo. Tivemos uma reunião muito produtiva, e se o projeto não seguiu adiante, ficou, pelo menos, uma frase memorável do bom homem. Inquirido sobre as dificuldades de trabalho, orçamento e cronograma do projeto, ele demonstrou tranqüilidade, em relação às competências da equipe que estava montando, e deu a entender que havia outras coisas mais difíceis de se obter:</p>
<p>— As partes mais complicadas a gente sabe fazer. As outras partes é que são complicadas.</p>
<p>E eram mesmo. Talvez por isto o projeto tenha gorado&#8230; Complicações&#8230;</p>
<p>Às vezes sobra para a secretária&#8230;</p>
<p>Aliás, complicado também é contatar certas personalidades, principalmente empresários, que nem sempre gostam de ser entrevistados. Seja por falta de tempo, ou por timidez, o fato é que eles nem sempre sabem dizer não e às vezes sobra pra secretária. Recentemente, eu passei por uma experiência dessas. Precisava entrevistar um empresário da construção civil, para uma matéria a respeito da saúde dos homens de negócios, a ser veiculada numa revista especializada do macrossetor. Depois de muito insistir (sempre que telefonava, ele não estava), e ali pela enésima ligação, perguntei à secretária se ele estaria na empresa no dia seguinte. A resposta da boa senhora foi de uma precisão impressionante:</p>
<p>— Em princípio sim&#8230; em princípio ele vai estar&#8230; não sei amanhã&#8230; Mas hoje, a princípio ele estará aqui amanhã&#8230;</p>
<p>Bem mais articulada do que a experiente secretária foi a pequena Tóia, de cinco anos de idade&#8230; Indagada pela mãe, Daniela, sobre o que desejava ser quando crescesse, ela surpreendeu:</p>
<p>— Quando crescer, quero ser mãe&#8230;</p>
<p>Daniela, executiva importante do mundo da moda, pavoneou-se toda e perguntou, ainda,se Tóia queria ser uma mãe como ela mesma, Daniela&#8230;</p>
<p>Tóia foi direto ao ponto:</p>
<p>— Quero sim, quero ser uma mãe igual a você, mas de cabelo liso&#8230;</p>
<p>Já viu melhor maneira de dizer “eu amo você, mas o seu cabelo é horrível”? Isso sim, é inteligência. E embala, numa mesma levada, todos os níveis de inteligência que hoje os especialistas dizem existir. Inclusive a celebradíssima “inteligência emocional”.</p>
<p>Menos sorte teve aquele escritor, que, ao discutir a relação, com a namorada, escutou dela que ele deveria entendê-la melhor, já que sabia tanto, era tão talentoso e tão inteligente. Mas pra ele dependia muito de qual inteligência ela estava falando.</p>
<p>— Emocionalmente eu sou uma besta, justificou.</p>
<p>Agora&#8230; o nome desse aí eu não falo não. Nem sob tortura. </p>
<p><em>*<strong>Marco Antonio Coutinho</strong> é escritor, mora no Rio de Janeiro e anima o blog “E por falar nisto&#8230;” (<a href="http://eporfalarnisto.blogspot.com">http://eporfalarnisto.blogspot.com</a>). Suas crônicas são publicadas aqui com autorização expressa do autor..</em></p>
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		<title>Uma aventura na morada do poeta</title>
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		<pubDate>Sun, 09 Jan 2011 02:01:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marco Antonio Coutinho</dc:creator>
				<category><![CDATA[Marco Antonio Coutinho]]></category>

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		<description><![CDATA[Caminhar sempre leva a gente a algum lugar... Parece óbvio, né não?... E é mesmo! Mas, apesar de tudo, já reparou com que freqüência a gente se esquece disso, e como nos deixamos levar pela imobilidade? Ficamos a sós com nossa experiência, imóveis, até que, aos poucos, a experiência envelhece, estiola-se. É quase como se morresse. Pelo menos chega perto disso, deixa de ser uma referência razoavelmente segura, e confunde-nos. Deixamos de perceber que há todo um universo que se desenrola lá fora. E aqui dentro. Moribunda, a experiência silencia, porque não há mais nada diante dela com o que possa comparar-se, contrastar.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Os-passos.JPG" alt="Os passos" title="Os passos" width="260" height="186" class="aligncenter size-full wp-image-9151" />Caminhar sempre leva a gente a algum lugar&#8230; Parece óbvio, né não?&#8230; E é mesmo! Mas, apesar de tudo, já reparou com que freqüência a gente se esquece disso, e como nos deixamos levar pela imobilidade? Ficamos a sós com nossa experiência, imóveis, até que, aos poucos, a experiência envelhece, estiola-se. É quase como se morresse. Pelo menos chega perto disso, deixa de ser uma referência razoavelmente segura, e confunde-nos. Deixamos de perceber que há todo um universo que se desenrola lá fora. E aqui dentro. Moribunda, a experiência silencia, porque não há mais nada diante dela com o que possa comparar-se, contrastar. Portanto, é preciso movimento, sempre movimento. E esse movimento inclui, claro, o caminhar, o mover-se, deslocar-se, mesmo que esses gestos nos levem de volta para onde já estivemos. Não há problema, é sempre lucro. Mesmo de volta, é uma primeira visita, uma primeira vez, porque o caminhar, via de regra, transforma o olhar do caminhante. E, uma vez transformado, é o olhar do caminhante que transforma o mundo.</p>
<p>Meus passos deste 25 de dezembro levaram-me à casa de meu querido Vade, poeta inspirado e amigo de longa data. Isto desde aquele dia em que subimos a serra na carroceria de um caminhão, tocando violão e bebendo cachaça (há tantos anos que parece uma outra encarnação!), na companhia de nosso queridíssimo Chico Ferraiolo, que, anos mais tarde, voou para longe e fixou residência no País que Não Fica em Parte Alguma. </p>
<p>Mas isto foi há muito tempo. Desta vez, eu caminhava pelas ruas de Botafogo, juntamente com Mansur, o inquieto poeta e rapper de Minas, que veio passar o Natal no Rio Janeiro, ao lado do tio (que, aliás, sou eu)&#8230; Caminhamos, dois poetas, para a casa do poeta anfitrião, que havia prometido um almoço dos melhores (Vade faz poetagem também na cozinha).</p>
<p>Chegados, foi vinho, cerveja e poesia. Mas poesia extra-literatura, feita de olhares, abraços e conversas pra lá de entusiasmadas, reencontros. Revi Patrícia, sempre linda, charmosa, que conheci menina ainda, ela que, hoje, é antropóloga e escritora. E ainda mais bonita. Reencontrei também a bela Érica, há muito mais tempo ainda fora do alcance de minha vista, e rimos muito, lembrando dos tempos em que a militância nas então nascentes associações de bairro (naquela época uma ousadia, quase uma transgressão) nos fazia olhar para os lados, um pouco paranoicamente, ao ouvirmos nossos companheiros nos tratarem por&#8230; companheiros! Mais subversivo do que isto, seria camarada, mas esse aí a gente não usava, era soviético demais&#8230;</p>
<p>O almoço saiu tarde. Na verdade, virou jantar, porque já era noite, quando nos sentamos à mesa. Meus companheiros e eu mesmo, de um lado; Mansur e Luluza, de outro, a molecadinha girando em torno, e a presidência daquele caos por conta de Dona Nenzinha. Matriarca que, serenamente, nos sintetizava, com a mesma paciência, sabedoria e tolerância com que me recebeu, há tantos anos, visivelmente alterado, ao lado do filho poeta, Vade, chegando daquela inesquecível viagem na carroceria do caminhão.</p>
<p>Mais vinho e cerveja, regando aquela irrepreensível carne de carneiro, mais o bacalhau, a salada e um delicioso pudim de não-sei-exatamente-de-que-se-trata, que não pude deixar de repetir, mesmo sem conhecer a sua real identidade, e pronto. Foi o suficiente para que eu ficasse numa espécie de êxtase. Não pelo vinho, que foi comedidamente ingerido, nem por qualquer outra substância mais ou menos suspeita. Mas pela poesia — concreta e vivente — que se manifestava ali, naquele olhar renovado, que incluía o jovem Mansur (ele que nem sonhava em nascer, na época da minha jornada serra acima, sobre o caminhão), Luluza e a molecadinha, e tudo aquilo e aqueles que eu já conhecia, havia tantos éons, e que se renovava agora, antes que, por pouco, eu deixasse aquilo tudo envelhecer, esvair-se e perder-se.</p>
<p>Descemos depois a rua, Mansur e eu, e foi ali que o círculo se fechou. Vade pedira que eu voltasse mais tarde. “Isto aqui não vai terminar tão cedo”, prometeu. Eu sabia. Aquilo não termina nunca. Apenas some, parece desaparecer, mas ressurge renovado. E então, é tudo como se fosse uma nova aventura. Vade, Patrícia, Érica, a molecadinha e Luluza, Jorge, Mansur, no meio daquilo, e, claro, Dona Nenzinha. Eu sabia que já conhecia aquilo, mas meu olhar mudou tudo, e minha aventura estimulou-me e deixou, mais uma vez, perplexo e surpreso o poeta. </p>
<p>Custo a crer que aquilo era uma porta. Uma passagem para outros dias — para dias ainda desconhecidos — à qual eu chegava, depois de tantos anos e tantos passos. E, no entanto, era uma volta, um retorno. Voltei para maravilhar-me e para descobrir o que eu pensava já ter conhecido. Passei por aquela porta e encontro-me agora em outro tempo, em outro futuro. Não voltei mais tarde, como sugeriu Vade. Mas nem precisava&#8230; a gente sempre volta mesmo&#8230; E desde cedo eu sabia que isto era uma questão de tempo. Sei que vou voltar por lá. E que tudo, então, será espantosamente novo outra vez. </p>
<p><em>*<strong>Marco Antonio Coutinho</strong> é escritor, mora no Rio de Janeiro e anima o blog “E por falar nisto&#8230;” (<a href="http://eporfalarnisto.blogspot.com">http://eporfalarnisto.blogspot.com</a>). Suas crônicas são publicadas aqui com autorização expressa do autor..</em></p>
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		<title>A bandeja de prata do escritor e o olhar do velho pianista</title>
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		<pubDate>Mon, 13 Dec 2010 02:01:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marco Antonio Coutinho</dc:creator>
				<category><![CDATA[Marco Antonio Coutinho]]></category>

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		<description><![CDATA[Ontem, domingo, topei com dois lances que me tocaram muito. O primeiro deles foi um documentário, que peguei já do meio pro fim, na TV a cabo, e que parecia fazer parte de uma série de filmes sobre escritores. Esse que eu vi era com Luis Sepúlveda, premiadíssimo e talentoso escritor chileno, morando atualmente na Europa, que viveu grandes e significativos momentos, desde a ascensão e queda do governo revolucionário de Salvador Allende, em seu Chile natal — eventos dos quais ele participou ativamente, — até encontros pessoais com artistas notáveis, como o escritor argentino Jorge Luis Borges. Sobre tudo isto, o entrevistado contou histórias muito interessantes. Algumas engraçadas, outras emocionantes, todas encantadoras.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ontem, domingo, topei com dois lances que me tocaram muito.</p>
<p>O primeiro deles foi um documentário, que peguei já do meio pro fim, na TV a cabo, e que parecia fazer parte de uma série de filmes sobre escritores. Esse que eu vi era com Luis Sepúlveda, premiadíssimo e talentoso escritor chileno, morando atualmente na Europa, que viveu grandes e significativos momentos, desde a ascensão e queda do governo revolucionário de Salvador Allende, em seu Chile natal — eventos dos quais ele participou ativamente, — até encontros pessoais com artistas notáveis, como o escritor argentino Jorge Luis Borges. Sobre tudo isto, o entrevistado contou histórias muito interessantes. Algumas engraçadas, outras emocionantes, todas encantadoras.</p>
<p>No entanto, das histórias que Sepúlveda conta no documentário, a mais bela de todas, ao menos para mim, foi a que encerrou o programa, e que fala de uma velha bandeja de prata. O escritor explica que a tal bandeja era um dos poucos objetos que os seus avós trouxeram da Espanha, quando migraram para a América ou, mais especificamente, para o Chile. A bandeja de prata era pau pra toda obra. Nela se conduzia refeições daqui pra ali, ou as taças de vinho para a família, quando esta jogava cartas sob um caramanchão antigo, e assim por diante. Estava presente nas festas, nas comemorações, nos dias e noites dos Sepúlveda. Embora fizesse parte do cotidiano da família, ou talvez até mesmo por isto, a bandeja, passada de geração para geração, foi sumindo da percepção e da memória imediatas dos mais novos. Luis Sepúlveda lembrava-se dela sendo utilizada para levar a refeição para uma das crianças da família, mas depois esqueceu-se também daquilo. </p>
<p>Foi no casamento de um dos filhos do escritor, que ela apareceu novamente. O rapaz, que é músico, mora na Suécia, com uma moça adorável, e os dois resolveram se casar, viajando até o Chile, para realizar a união junto à família do noivo. “Casamento tem de ser na casa dos velhos”, brinca a respeito Sepúlveda. E assim foi. O casal viajou da Europa para o Chile e casou-se lá, em meio a uma linda festa.</p>
<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Luis-Sepulveda.jpg" alt="Luis-Sepulveda" title="Luis-Sepulveda" width="320" height="247" class="aligncenter size-full wp-image-8855" /><em>Acima, Luis Sepúlveda e a bandeja de prata.</em></p>
<p>Foi a avó do rapaz, mãe do escritor, quem apareceu novamente com aquela velha bandeja. Ela entregou a peça ao casal, como um inesperado presente de casamento. Tão inserido, tão intrincado estava aquele objeto na vida da família, que poderia facilmente ter-se banalizado, e seria compreensível que fosse esquecido num armário qualquer, ou que se estranhasse a sua entrega, como regalo, para o casal de noivos. No entanto, no ato mesmo, no gesto da velha matriarca, a bandeja emergiu de seu quase esquecimento, e resplandeceu como em seus dias mais memoráveis. Ali ficou patente que a avó passava adiante, para as novas gerações, um testemunho, uma corrente viva, a bandeja, carregada de vida, de energia, de memórias, histórias e História. Com aquela verdadeira liturgia, simples, mas comovente, a boa senhora cumpria sua missão de transmissora e assegurava que a alma, a egrégora dos Sepulveda seguisse adiante, intacta e enriquecida, para que as gerações seguintes velassem por ela e construíssem, por sua vez, a sua parte da história.</p>
<p>O outro lance que me emocionou ontem foi um vídeo que recebi pela Internet, enviado pela minha irmã [veja o vídeo depois, mais abaixo]. Trata-se de um espetáculo oferecido em honra ao incrível Dave Brubeck, uma das figuras maiores do jazz moderno. Hoje idoso e com uma vasta obra manifesta em discos, espetáculos e performances inesquecíveis, Brubeck recebeu uma belíssima homenagem, por seu trabalho e pelo aniversário de 90 anos, que completará logo logo, em 6 de dezembro. Tudo isso em noite de gala, que contou com a presença de celebridades e personalidades importantes, tais como Bruce Springsteen, Meryl Streep e Ben Harper, por exemplo, e até mesmo o Presidente Barak Obama e sua esposa. É tocante ver a alegria do velho Brubeck, a vida transbordando de seus olhos, enquanto ele ouve a orquestra tocar os seus grandes sucessos.</p>
<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Brubeck.jpg" alt="Brubeck" title="Brubeck" width="320" height="229" class="aligncenter size-full wp-image-8854" /><em>Acima, Brubeck hoje e em 1954.</em></p>
<p>Mas particularmente emocionante é o momento em que, em plena execução de Blue Rondo a la Turk, abre-se um biombo, e lá estão os seus filhos, também executando o inspiradíssimo jazz de Brubeck. A alegria do velho pianista transforma-se, então, em surpresa e encantamento. Naquele momento, é quase como se pudéssemos ver a sua alma, pressentir a luminosidade daquilo que se expressava de forma que melhor se percebe quando se sente, de coração a coração. Também ali, alguém parecia ter passado adiante, amorosamente, o maior tesouro que possuía, a sua arte e a sua história, de modo a possibilitar que ela seguisse adiante e fosse usufruída ainda por gerações e gerações, no futuro.</p>
<p>Talvez por estarmos ainda em novembro — que é o mês em que se celebra o Dia de Finados — lembrei-me de meus mortos. Daqueles que me antecederam no “país que não fica em parte alguma”. Tantos amigos, tantas pessoas queridas — minha outra irmã, mais velha, meus pais, alguns primos, avós e tios&#8230; E também tantos outros que conheci tão superficialmente, tão rapidamente — às vezes por não mais do que um instante — mas que, em algum momento, com um olhar, um toque, por breve que fosse, esbarraram em algum ponto de minha existência, transformando-a para sempre. Sem que nem eles, nem eu, soubéssemos, naquele instante, que isto havia acontecido&#8230;</p>
<p>Fiquei matutando. Pensando em o quanto é importante o corpo que tanto desprezamos. Na maioria das religiões e mesmo no espiritualismo de fachada que assola a nossa modernidade, o corpo tem sido considerado apenas isto, apenas aquilo. Seja “apenas um veículo”, “apenas uma veste para a alma”, e tantos outros apenas que apenas demonstram quão pouca sensibilidade temos para sentir quem ou o que realmente somos. Talvez não se apercebam esses amigos — quando, muitas vezes, teorizam “espiritualmente”, em torno de quem lamenta a falta física dos seus, e criticam seu “apego” — que, para uma percepção isenta, o corpo pode ser a alma condensada e tornada visível. E que mesmo eles, ainda que não se apercebam claramente disto, podem chegar, mais cedo ou mais tarde, a ter de pressenti-lo, seja pela partida de alguém muito amado, seja pelo amor a si mesmos. </p>
<p>Por que teria esse espiritualismo excludente deixado há tanto tempo de me convencer? Seria porque passei a entender o corpo como expressão da alma, como sombra passageira, mas real — como reais são as sombras — reflexo do Ser verdadeiro, e não mais como “apenas isto”, ou “apenas aquilo”? Seria por ter começado a pensar, de algum tempo pra cá, que tanto a alma constrói o corpo, como expressão de si mesma, como o corpo constrói a alma, à medida em que lhe dá identidade e noção de si própria? Sobre isto, aliás, argumentei, há pouco tempo, num debate na TV, com outro dos entrevistados, que se apressou em corrigir-me, trazendo tranqüilidade aos demais, e desviando-os do que talvez lhes parecesse uma ofensa aos paradigmas espiritualistas em vigor.</p>
<p>Volto-me, então, antecipadamente agradecido, aos meus vivos. Às pessoas, aos seres que estão no mundo, visíveis e palpáveis, como a porção da alma discernida pelos cinco sentidos, de que nos falou Blake. Se guardo, daqueles que se foram — e cujas sombras da alma desvaneceram-se — a herança que me passaram com suas palavras e pensamentos, sim, mas também com seu toque, sua presença física e sua realidade material, recebo, daqueles que ainda alcanço, inspiração e aprendizado, por seu contato, seu olhar e sua corporeidade. De todos, guardo a sabedoria que não vem necessariamente de uma reflexão, ou de um ensinamento formal. Mas da percepção em bloco de sua vivência e de seu percurso. Aprendo que têm para me ensinar a música luminosa de suas almas — como vi nos olhos de Brubeck — e a corrente poderosa de sua experiência e sua história, como a que carrega e enriquece a velha bandeja de prata dos Sepúlveda.</p>
<p><em>*<strong>Marco Antonio Coutinho</strong> é escritor, mora no Rio de Janeiro e anima o blog “E por falar nisto&#8230;” (<a href="http://eporfalarnisto.blogspot.com">http://eporfalarnisto.blogspot.com</a>). Suas crônicas são publicadas aqui com autorização expressa do autor..</em></p>
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