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Marcelo Henrique Marques de Souza

Sobre o livro ‘Violeta Velha e outras flores’

Acabei de ler o livro de contos do Matheus Arcaro, “Violeta Velha e outras flores”, que saiu recentemente pela editora Patuá. É o seu livro de estreia, mas é bom que pensemos nos perigos que rondam essa palavra, se a tratamos como uma classificação cristalizada demais. É o primeiro livro, sim, mas certamente não é o primeiro passo da caminhada do autor, o que uma leitura atenta faz perceber de forma mais ampla. (...) A história da palavra personagem é muito curiosa e rica. Ela deriva de uma linhagem de palavras que tentava dar conta, nos antigamentes, do papel das pessoas nas peças de teatro: o etrusco “phersu” (máscara teatral), o latim “persona” e os gregos “prosopon” (face, máscara) e “persona” (que era o nome do orifício que fazia o papel de boca nas máscaras de teatro, por onde “per-sonavam” as vozes dos atores). Ao que parece, aliás, personagem tem a mesma raiz da palavra pessoa, o que justifica a quantidade de ramificações e possibilidades que se embrenham pela estrada do termo. Desempenhamos papeis nas peças, mas também na vida, e as peças, assim como tudo o mais, também desempenham papeis na peça que somos.
Marcelo Henrique Marques de Souza

Bolsonaro e o efeito Cuba

Ora, diante da aproximação entre EUA e Cuba, esse argumento perde ainda mais força, o que elimina essa que talvez seja a única validade do Bolsonaro para os direitistas moderados: sustentar a caricatura do bravo e destemido lutador que combate o retorno do fantasma do socialismo, o outro-mesmo "exército de um homem só" do congresso e sua cantilena arcaica e com aquele aroma fascista que a gente conhece bem e de longe. Certamente, esse estranho Quixote de farda e coturno vai ter uma longa noite de insônia, pensando numa nova estratégia de defesa para os processos que pululam em sua mesa.
Marcelo Henrique Marques de Souza

O xadrez entre os meios de comunicação tradicionais e o Estado

Apesar de certas críticas da parte da direita que pouco ou nada lê, o projeto que é chamado de "regulação da mídia" talvez seja um dos mais "capitalistas" do PT. O Brasil é um dos poucos países do mundo que ainda mantém um sistema de mídia televisiva baseado em oligopólio (um mesmo canal em vários estados). Além disso, mais de dois terços dos políticos do congresso possuem alguma concessão de rádio ou TV (a maioria deles de partidos como PMDB e DEM, que historicamente servem de sustentáculo político dos coronéis). Essas concessões contribuem sobremaneira para o poder que esses caras têm, principalmente no interior do país, onde a internet ainda não chegou com força.
Marcelo Henrique Marques de Souza

Levy Fidelix e o estranho familiar

Num primeiro olhar, a gente, que tenta estabelecer uma relação inteligente com a vida, fica meio impressionado com o tamanho da burrice do Levy Fidelix. Vi que algumas pessoas sugeriram que ele merecia ir pra cadeia pelos comentários absurdos etc. Acho que, mais do que isso, vale a pena estudar a fala dele. Ou seja, escutar o que ele diz e tentar sacar o que há de sintomático ali. E esse “ali” não se resume ao Levy Fidelix e seu cérebro de azeitona, mas a todo o discurso que o sustenta, inclusive naquilo que parece que é “oposto”, sem o ser (o recheio da azeitona pode ser mais pesado que a própria azeitona, já ensinou a física quântica).
Marcelo Henrique Marques de Souza

A postura do PT na reta final

Engraçado ver como nessa reta final da campanha a maioria dos sites "pró-Dilma" fazem basicamente o mesmo papel dos sites "pró-Aécio" e "pró-Marina". Ou seja, limitam os seus espaços com 70 a 80% de divulgação das pesquisas e o restante deixam pra usar fazendo críticas vazias aos adversários (tipo um blog petista que li agora há pouco, que divulga uma notícia de um site francês, que supostamente estaria "desmascarando" a 'direitice' da Marina, por divulgar que ela recebe apoio do Itaú - como se o PT não recebesse apoio de nenhum banco).
Marcelo Henrique Marques de Souza

A falta de educação eleitoral!

Agora há pouco ouço a Dilma dizer que uma de suas medidas para a área da educação vai ser lutar pra diminuir o currículo do ensino médio (a outra é investir ainda mais na educação técnica). Segundo ela, o currículo é "muito grande", porque possui doze matérias, o que "não é atrativo para os jovens". E aí, ela diz que filosofia e sociologia seriam as primeiras a sair da grade. Essa moda de considerar sempre em primeiro lugar a "atração" que os alunos sentem pelo currículo - que nasceu com as correntes construtivistas - interfere diretamente na avaliação dos estudantes, que vem caindo ano a ano.
Marcelo Henrique Marques de Souza

O racismo e as misturas

Ultimamente tem rolado a divulgação de vários atos de racismo pelo Brasil afora: o pai e os dois filhos negros que são abordados pelos policiais acusados de roubo na porta de uma loja de sapatos; a menina que atacou verbalmente o goleiro Aranha do Santos, no jogo contra o Grêmio; o caso da foto dos dois namorados, a menina negra na frente e o garoto branco atrás, na qual várias pessoas fazem comentários racistas; e por aí vai. Não são poucos e merecem atenção e repúdio. E para além de exigir punições, que é a primeira medida, é preciso também elaborar a questão, porque, se a gente fica apenas na revolta e na acusação, acaba contribuindo com a lógica que rege a cabeça dos agressores. Elaboremos, então.
Marcelo Henrique Marques de Souza

Sobre as críticas à Marina Silva

Vejo alguns textos criticarem a posição da Marina de dizer que não é "nem esquerda nem direita", mas tenho cá meus senões quanto a essas críticas. Primeiro, porque realmente não existem posições rígidas de "um lado ou outro", em nenhuma proposta. O que existe são propostas que se autointitulam "esquerda" ou "direita" - como se o polvo tivesse só duas pernas. E já que a 'autocrítica' não é a única crítica possível do 'auto', podemos pensar para além do que os partidos dizem de si mesmos. Talvez fique mais interessante pensar em propostas "conservadoras" e propostas "progressistas".
Marcelo Henrique Marques de Souza

Robin Williams e o suicídio

Morreu o ator Robin Williams e tudo indica que tenha sido suicídio, decorrente de forte depressão. Difícil saber se ele ainda faria algum filme efetivamente marcante (os últimos trabalhos dele são bem fraquinhos), mas era, no meu entendimento, um bom ator. Lembro de pelo menos três bons filmes que vi dele: "Um gênio Indomável", "Sociedade dos Poetas Mortos" e o "Retratos de uma Obsessão". Mas é isso: o cara se matou. Suicídio. E aí agora não falta gente para, sutil ou diretamente, colocar o cara como um fracassado, que "perdeu a luta contra a depressão". Acho um diagnóstico apressado. A gente só "perde" coisas vivo. Aliás, a gente só 'existe' vivo. E nesse sentido, a morte talvez seja a grande fracassada da história, porque compra um corpo que fala, sente e sofre e só recebe mercadoria de segunda, carne podre e vazia de ideias. E o pior é que nem Procon ela tem pra reclamar.
Marcelo Henrique Marques de Souza

O mercado de notícias

Ótimo filme "O mercado de notícias", do Jorge Furtado. O filme mescla uma encenação teatral que representa o início do jornalismo, na Inglaterra do século XVII, com depoimentos de jornalistas brasileiros da atualidade. O jogo de cortes que o Furtado monta traz momentos de fina ironia, que articulam os comentários dos entrevistados com a peça, como a mostrar que estamos sempre no âmbito dos personagens, cenários e enredos, por mais objetivo que pareça o jogo. Interessante notar que todos os jornalistas que falam no filme oscilam o tempo todo entre a crença quase messiânica na tal "verdade factual" e a constatação inevitável, vez por outra, de que não existem verdades absolutamente objetivas e que toda notícia publicada é fruto também de um forte jogo de interesses.
Marcelo Henrique Marques de Souza

Torcendo o torcedor

Em tempos de Copa do mundo, vale refletir sobre o que é essa coisa de ser um "torcedor". O torcedor, é claro, é aquele que torce. É o que diz o dicionário. Ok, mas a gente sabe que nunca é só isso. "Aquele que torce" leva ao verbo "torcer", que tem 14 sinônimos, a maioria nada a ver com o futebol. Apenas um acata coligações mais diretas: "8. Simpatizar com um clube esportivo". "Simpatizar" fica bastante singelo, mas também parece que em muitos casos não é bem isso que rola. Muita gente leva a coisa à sério, tão à sério que a vitória do time pelo qual torce vira caso de vida ou morte. É o torcedor que, paradoxalmente ou não, 'torce reto', numa direção só, entorpecido pelo único destino que aceita: o sucesso do time "de coração" (a parte pobre do Romantismo explica essa fácil). Torcer é torcer por UM time, por UM lado, sem conversa. Ou então você é acusado de "vira casaca" pra baixo.
Marcelo Henrique Marques de Souza

Todo jogo é manifestação e toda manifestação é jogo

Sinto um curioso ar zombeteiro naqueles que sugerem, de uma forma ou de outra, mais abertas ou mais sutis, que apoiar as manifestações e assistir aos jogos da Copa ao mesmo tempo é uma contradição. Nada mais pobre, nada mais 'classe média', nada mais revelador do que temos de mais menos. A Copa do mundo foi um evento criado para que as nações pudessem experimentar, a cada quatro anos, a troca da guerra ao vivo e às balas por uma guerra mediada, com um mínimo de regras. E os jogos mais interessantes são justamente aqueles nos quais o improviso supera o esperado, deixando para a resenha aquele espanto que não cabe em regras. O que mostra a dinâmica do jogo.
Marcelo Henrique Marques de Souza

Sobre a abertura da Copa

Acho que dar como notícia que "a imprensa internacional" meteu o pau na abertura da copa é tão tosco quanto defender a Cláudia Leite apenas por ela ser brasileira. Vi as fotos aqui e li alguns textos. O mais sóbrio, na minha opinião, foi o de um músico que diz que o grande problema da festa de abertura foi ela ter sido feita com o dia ainda claro, já que é a presença de luz que amplia o impacto visual das coreografias e das alegorias. E ele dá um bom exemplo, que é o do desfile do carnaval: a maioria das escolas de samba prefere desfilar à noite justamente por conta desse efeito, que amplia a visibilidade dos carros e das fantasias.
Marcelo Henrique Marques de Souza

Desabafo sobre as passeatas dos professores

Já parou para pensar que esse papo de "protesto pacífico" é uma tremenda contradição em termos? As palavras dizem muito sobre as coisas. Quando o governo, os mafiosos e a mídia exigem "protestos pacíficos", é exatamente porque esses são os mais fáceis de controlar. E aliás, parte desse controle é feito exatamente pela disseminação de certas expressões marotas, que funcionam porque seduzem a preguiça a aderir. Portanto, vamos escolher. Ficar reclamando de tudo, sem situar melhor os contextos, não dá...
Marcelo Henrique Marques de Souza

‘Ela’ e ‘Sob a Pele': dois filmes e um espelho no meio

Os dois últimos filmes que assisti podem ser vistos como uma espécie de jogo de xadrez no qual as margens escapam da moldura, sem entretanto dispensar os arroubos militares que a presença das peças sustenta. "Ela", de Spike Jonze, e "Sob a Pele", de Jonathan Glazer, figuram como reflexos inversos de questões contemporâneas que se confrontam. No filme "Ela", um homem atormentado por angústias decorrentes do término do casamento descobre uma nova e inusitada relação com um programa de computador. A relação é um misto que enreda a ausência do contato corporal entre os dois com a ampliação constante de deslocamentos "simbólicos" experimentados pela máquina.
Marcelo Henrique Marques de Souza

Era uma vez uma banana

Como os índios que devoraram o bispo Sardinha na época em que o Brasil ainda engatinhava, com o objetivo de assimilar pedaços de sua personalidade, o jogador Daniel Alves devorou outro dia desses uma banana atirada ao campo por um torcedor racista do Villarreal. Antropofagia das maiores. No dicionário daquele instante, banana deixou de ser apenas uma fruta, ou apenas uma ofensa, para se transformar em mais um desses tantos ready-mades tupiniquins que existem por aí, ironia canibal que no ato descasca o casco de tartaruga da estupidez dos que ainda acreditam que a cor da pele representa algum tipo de superioridade repressora. A atitude do jogador do Barcelona enriquece a lista de deslocamentos que a brasilidade verdadeira produz em tudo o que toca.
Marcelo Henrique Marques de Souza

Crítica à ‘Utopia’, do Thomas Morus

A "Utopia" de Thomas Morus é um livro muito mais conservador do que parece. O "país perfeito" do pensador inglês se baseia no trinômio religião-família tradicional-trabalho de uma forma bastante moralista e com pouca abertura para posições mais ousadas. Alguns podem argumentar que o livro foi escrito em 1516, numa época que, apesar de ter o movimento renascentista como motor de arranque, ainda se debatia com as correntes do atraso medieval. Ok. Mas um contra-argumento é o de que Morus foi amigo de Erasmo de Roterdã (tendo inclusive hospedado o holandês em sua casa, em Londres, por várias vezes). Erasmo escreveu "O elogio da loucura", uma das obras mais questionadoras da época, no ano de 1509, o que leva a crer que Morus deve ter tido acesso às ideias de Erasmo, que poderiam tê-lo levado a reflexões mais amplas, em certos temas. De qualquer forma, a 'Utopia' possui méritos, a despeito de tudo.
Marcelo Henrique Marques de Souza

O retrato do artista de Joyce

"O retrato do artista quando jovem", de Joyce, é um retrato que me lembrou, por inúmeras vezes, os quadros nos quais Cezanne declarava, a pinceladas, as suas montanhas Saint-Victoire, lá das vistas do seu trem. Pelo menos num aspecto: Joyce mescla os diálogos e os devaneios de Stephen Dedalus, em idas e vindas de fluxos mentais, como Cezanne mesclava as sombras e as luzes nas suas descrições da tal montanha. Stephen Dedalus é um pincel que traça a angústia do jovem que se descobre herege e profano, num mundo que lhe cobra adesões e o servilismo da rotina. Angústia que Joyce mistura, como bom Cezanne, à sutileza observadora do protagonista.
Marcelo Henrique Marques de Souza

Os tentáculos do polvo vira-latas

Uma das facetas mais curiosas do complexo de vira-latas do brasileiro é esse lance que algumas pessoas, geralmente comerciantes, têm de chamar o consumidor de "patrão". É algo parecido com dois outros sintomas clássicos da viralatice autodepreciativa: tratar político como "chefe" e babar o ovo dos gringos. Entretanto, isso não parece ser absolutamente "sintomático". Em alguns casos, mais parece uma mistura de subserviência com cinismo, que merece observação mais aprofundada. Digo isso me lembrando de uma cena que vi sábado. Almoçava numa lanchonete, quando vi um estrangeiro, que arranhava o "portunhol" muito mais ou menos, pedir informações a um grupo de garotos que também almoçava ali (Ele queria saber aonde ficava o Maracanã - quase me levantei e disse "Agora é tarde, meu caro, o Maracanã já era", mas enfim, deixei quieto). O caso é que os garotos foram bastante solícitos com o cara, deram todas as alternativas pro cara chegar lá e tal. E então, assim que o cara saiu, começaram a sacanear o modo dele falar e os trejeitos do cara. Ou seja...
Marcelo Henrique Marques de Souza

A heterografia de uma opinião: o caso das biografias

Essa questão das biografias é interessante. Interessante porque esbarra numa sinuca de bico. Ou, como diz o Melamed, com a caçapa entrando na bola. A liberdade de expressão versus a liberdade de tal ou qual pessoa não querer expressar aquilo que considere inadequado. É um senhor imbróglio. Li as crônicas do Caetano, vi a entrevista da qual participou a Paula Lavigne, no Youtube, e também um depoimento do Wagner Moura a respeito, também no site de vídeos. E me lembrei de um texto bacana do Gerd Bornheim, a respeito...
Marcelo Henrique Marques de Souza

Jornalismo Facebook

Há mais de dois anos (dois anos e dois meses, mais precisamente), decidi fazer a experiência de viver sem televisão em casa. O tempo pode inclusive ser estendido, já que mesmo que ela estivesse fisicamente presente, ficava quase sempre desligada. Via um programa ou outro e os filmes no DVD. Com o aumento das possibilidades transmidiáticas do computador, decidi então abandonar de vez até mesmo a presença física da TV. Hoje, faço uma retrospectiva disso. Me deu vontade por conta dessas últimas manifestações, envolvendo a categoria dos professores (que me afetam diretamente, por conta de minha história recente como professor, e por conta também de ser grato aos grandes mestres que tive durante minha trajetória - não vou ser bairrista a ponto de não dizer que não tive professores péssimos também. Tive. Mas os grandes mestres valem mais que todos esses juntos - e é deles que me lembro agora). Todo dia acompanho as postagens da minha rede do Facebook, especialmente daqueles que estão antenados nesse problema tão sério, que afeta a todos, de uma forma ou de outra.
Marcelo Henrique Marques de Souza

Sobre a proibição das máscaras

Basta analisar bem pra sacar que, nos últimos anos, o único protesto que verdadeiramente funcionou foi justamente o das máscaras. E o sintoma pra sacar que funcionou é justamente essa lei (inconstitucional) que aprovaram proibindo as máscaras. Eles só atacaram as máscaras porque elas são um ótimo subterfúgio pra atacar os políticos bandidos sem o perigo de ser reconhecido e posteriormente perseguido. É só pensar um pouquinho pra entender que as únicas formas eficientes de protesto são justamente aquelas que são combatidas pelos poderosos. E o mais incrível é gente pedindo "protesto pacífico", que é, pasmem, a mesma bandeira deles. Claro (!!), eles pedem isso porque sabem que com isso nada muda. E a maioria faz coro.
Marcelo Henrique Marques de Souza

Clarice, o tempo e a eternidade

Clarice nos presenteia com um belo conto sobre as ambiguidades e contradições inerentes à questão do tempo, no livro que acabo de ler, "Onde estivestes de noite", da editora Rocco. "O relatório da coisa" é um jogo que a autora arma, afrontando os dois extremos do tempo através da consideração de vários objetos e aspectos da vida humana. O estopim da história é um relógio, que a narradora diz ser da marca "Sveglia" e o objeto serve pra refletir a angústia que rege a marcação do tempo, de um tempo que, como lembra a autora, não cabe em fronteiras:
Marcelo Henrique Marques de Souza

Hannah Arendt, o filme

Assisti ontem ao filme "Hannah Arendt", da diretora Margarethe von Trotta. O filme desenha um olhar sobre a relação da filósofa com o julgamento do nazista alemão Adolf Eichmann, capturado na Argentina, pelo Mossad, o serviço secreto de Israel, e levado a julgamento naquele país. Arendt foi até lá assistir ao julgamento e publicou um livro bem interessante a respeito, que saiu aqui pela Companhia das Letras. Chama-se "Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal". Já li e indico, vale a pena a leitura. O filme é bom e pra mim trouxe duas reflexões de maior amplitude. Uma, a relação entre a lei e o mal, que é o que choca a autora diante do desenrolar do julgamento; e a outra reside na dificuldade que ela encontra em ampliar o debate, por conta do excesso de apego religioso que encontra nos meios em que vive, tanto na vida pessoal, quanto na vida acadêmica e na mídia
Marcelo Henrique Marques de Souza
Marcelo Henrique Marques de Souza

O credo da credibilidade

O argumento da "credibilidade" é um dos grandes labirintos da tal democracia, porque geralmente se baseia na forma como a maioria enxerga a questão. Para esses casos, a maioria não é um bom referente, é o que a história mostra. Até porque, se pararmos pra analisar a palavra - sempre elas -, entenderemos que credibilidade tem algo de "crença", de "credo". Se um milhão de pessoas engolirem uma mentira, essa mentira passa a ter 'credo' suficiente pra ser vista como algo com "credibilidade" pela maioria apressada. Para mim, os que têm "credibilidade" devem sempre ser colocados em xeque. O rosto ou o nome da pessoa não podem ser parâmetros confiáveis pra se pensar em uma ideia ou um comentário. Ou os próprios comentários e ideias se sustentam nos argumentos, ou então devem ser deixados de lado, independente de quem os profere.
Marcelo Henrique Marques de Souza

A Rede Globo e a ideia de conflito

Todo mundo passou a ser um jornalista em potencial. E as pessoas continuam vendo TV, ao mesmo tempo em que filmam as coisas e entram em contato com filmagens de outras pessoas comuns na internet. E então, visões como as da Rede Globo, que são feitas pra serem repetidas por várias pessoas, não se sustentam mais durante muito tempo. O material de comparação, hoje, é muito mais vasto. E toda comparação é imediatamente um conflito. O que é sempre muito bom. Que continuem os conflitos.
Marcelo Henrique Marques de Souza

Dia de quem?…

No dia do professor, recebo a correspondência do sindicato aqui do Rio de janeiro, que noticia a abertura de uma CPI da Educação Superior Privada, que está funcionando desde o mês de junho, feita para investigar inúmeras irregularidades no setor. Quem preside é o deputado estadual Paulo Ramos, do PDT, que faz sérias denúncias ao jornal. Vale a pena prestar atenção nelas, porque dizem muito sobre como se pensa esse tema no Brasil de hoje. A primeira denúncia grave é a de que alguns professores da Cândido Mendes, que foram chamados a depor na comissão, foram demitidos por terem comparecido. O dono da instituição, Candido Mendes, foi convidado a depor sobre o caso e alegou ter outros compromissos.
Marcelo Henrique Marques de Souza

“Os incompreendidos”, de Truffaut

Acabei agora há pouco de ver o clássico "Os incompreendidos", do François Truffaut. A obra, de 1959, é um dos filmes que alavanca a chamada "Nouvelle Vague" e que muda definitivamente o cinema, que passa a adotar uma postura de autoria e de uso do lado psicológico dos personagens, como passou a ocorrer com a literatura do século XX, que se desprendia aos poucos da terceira pessoa. Outro fator importante do filme é chamar a atenção para os excessos do moralismo, que é constantemente satirizado pelo diretor. E com um olhar crítico, é possível também repensar o próprio excesso de amoralismo no qual caímos com o cinismo e a corrupção de hoje em dia, já que estamos a mais de cinquenta anos do filme. Ao invés de se adotar a gangorra, o mundo parece ter caído na esparrela de apenas descer para o outro lado.
Marcelo Henrique Marques de Souza

Navalha na carne da ignorância

O Facebook é realmente muito divertido, porque reflete bem o que é o mundo aqui fora. E às vezes a gente vê coisas muito inusitadas, que mostram vários detalhes do mundo em que vivemos. Ontem, por exemplo, vi uma postagem de uma página de ateus que propunha que o 11 de setembro dos EUA foi fruto, de fato, da eterna divergência entre cristãos e muçulmanos, uma espécie de "pós-cruzada invertida", na qual os terroristas sequestram um avião para jogar sobre Nova York e vingar alguma maldade dos ímpios ocidentais, que ousam acreditar num deus diferente do deles. Propus então que vissem o Zeitgeist, um documentário que mostra vários indícios de que o suposto atentado não passou de uma armação do governo estadunidense, que buscava uma justificativa desesperada para criar mais uma micro-guerra lá pelo Oriente Médio, para aumentar suas reservas de petróleo, já que consome muito mais do que produz, numa postura claramente parasita em relação ao resto do mundo. Não parece ter tido muito eco a indicação.
Marcelo Henrique Marques de Souza

A moeda de mil lados do mundo de hoje

No mundo de hoje, a fronteira entre a burrice e o cinismo é muito tênue. Muitas vezes é de fato impossível distinguir se é um dos dois ou os dois juntos. Mas a presença do cinismo denota (ou melhor, conota) algo sutil, que precisamos pensar. Quando um fanático religioso faz um outdoor defendendo a liberdade de expressão, isso realmente deve significar alguma coisa sobre o mundo em que vivemos. Quando o Bauman fala de uma "modernidade líquida", ele quer dizer que hoje em dia estamos numa época na qual as fronteiras entre os símbolos estão definitivamente borradas. Não há mais "solidez", portanto. E olha que divertido: no outdoor do tal bispo comparecem os efeitos extremos opostos dessa brincadeira contemporânea: a coerência de se defender a liberdade de expressão (a despeito dessa expressão não ser aprofundada o suficiente.. mas acatemo-la, na falta de uma melhor); e a nostalgia barata de vir dizer que é preciso defender a família tradicional. Ora, é nítido que são duas frases contraditórias, porque se o barato é defender o direito de se expressar livremente, então tenho que dizer que uma família não-tradicional é legítima, enquanto opção livre.
Marcelo Henrique Marques de Souza

Depois do trabalho

A distinção não é mais entre "trabalhadores" e "capitalistas". Ambos reproduzem o sistema. Mas o "sistema" não é apenas uma coisa só. O fato é que hoje há uma miríade imensa de ideologias se entrecruzando e se confrontando diariamente. A distinção hoje é, na verdade, a que sempre existiu: é entre os que aderem sem pensar e os que pensam. Há ainda os que se acham oposição à lógica dominante, mas apenas repetem a cartilha na estrutura: são os ateus que rezam pra São Ninguém. Gente que repete conceitos que não servem mais, porque acham que o sistema não mudou. Mudou, porque tuda muda, o tempo todo, no mundo, como dizia o Lulu Santos, em sua conhecida música.
Marcelo Henrique Marques de Souza

Paulo Coelho e os parâmetros objetivistas da mídia

Hoje pela manhã, quando fui tomar café na padaria, bato de frente com uma pequena matéria da televisão, sobre o Paulo Coelho. E dois pontos mostram como se trata de forma pobre certas palavras por aí. Um chato simplista pode vir me dizer que "tudo pode", "liberdade de expressão" etc. Então, deixa de ser chato e me deixa exercitar a minha liberdade de querer me expressar de uma forma um pouco mais rigorosa, por gentileza. Para a matéria, que parecia ser da Rede Globo, o Paulo Coelho é o escritor brasileiro "mais bem-sucedido de todos os tempos". E essa frase mostra como os parâmetros da mídia são pobres. Na verdade, essa gente adora defender os relativismos quando lhes interessa. Mas quando querem, de uma forma totalmente contraditória, adotam as certezas mais bestas e justificam com pretensas objetividades que nada dizem de mais amplo.
Marcelo Henrique Marques de Souza

Homo fobia. Existe isso?

As palavras são muito mais importantes do que se pensa. Existe uma ideia simplória que se repete por aí, e que é filhote de um certo pragmatismo bobo que vigora hoje em dia, que diz que "o importante é fazer e não falar". Porém, um olhar mais atento mostra a inocência dessa ideia, já que falar não é outra coisa senão "fazer algo". Inclusive gramaticalmente, já que é um verbo, designando assim uma ação. Não passa de mais um dos muitos mitos cotidianos que pululam por aí. As palavras são importantes não apenas por serem ações, mas também porque se cristalizam em "sentidos". Algumas palavras viram um sentido tão forte que resiste ao tempo e pode durar séculos, às vezes milênios. Além disso, podem servir tanto como mero veículo de apreensão das situações, quanto para fins ideológicos, tirânicos, ou mesmo para iludir indivíduos ou até multidões.
Marcelo Henrique Marques de Souza

Mais um pouco das mentiras da mídia sobre a greve dos servidores

Passando pela banca de jornal, vejo que o 'Extra', jornal aqui do Rio, traz hoje uma manchete daquelas imensas, com os seguintes dizeres: "Grevistas só punem quem paga o salário deles: o povo". E isso acompanhado de uma foto que destaca as filas que se formaram nas barcas, graças à operação da polícia rodoviária federal na Ponte Rio-Niterói. Pra quem sabe que o jornalismo não passa de mais um tipo de drama e pra quem sabe que tipo de linha segue o Extra, jornal das organizações globo, isso não é novidade. Mas vale desmembrar um pouco a questão.
Marcelo Henrique Marques de Souza

Sub zero de qualidade…

O "popular" está na moda. Depois que a religião democrática convenceu as massas de que o seu umbigo é rei, tudo agora tem que ser "pop". Mas não o pop da pop-art, de Andy Warhol e Richard Hamilton, que criticavam, através da arte, o consumo capitalista e a propaganda; hoje, o pop é muito mais inofensivo. É um pop absolutamente conectado ao mercado e que reflete cada vez mais a repetição de comportamento como regra a ser seguida. Para quem olha de fora, tentando desenhar aspectos críticos dessa coisa toda, não é tão difícil perceber a estrutura que move esse processo. Trata-se de uma época cínica, na qual as mensagens devem o tempo todo vir decodificadas na língua do receptor. É assim que funciona o mercado e a propaganda, já que para vender é preciso agradar o consumidor em primeiro lugar. A tal "comunicação virou mais um dos mantras da vez. Como dizia o bobão do Chacrinha, "quem não se comunica, se trumbica".
Marcelo Henrique Marques de Souza

Uma burrice democrática

Pouca gente sabe, porque a mídia não mostra, que o Wikileaks vazou um telegrama "diplomático" que os Estados Unidos enviaram pra cá, antes da Rio+20, com o objetivo de adiar o evento para o ano de 2017. Por que eles teriam esse objetivo? A pergunta foi feita pela revista Cult ao professor e historiador José Augusto Pádua, que é ex-coordenador da área de florestas do Greenpace na América Latina. Vejam a resposta: "Os EUA são hoje a principal barreira para uma transição global em direção à sustentabilidade. Há lá um padrão de vida extremamente individualista, consumista e dependente dos combustíveis fósseis. Uma enorme parcela do eleitorado não aceita questionar esse padrão e simplesmente nega as evidências empíricas que indiquem a necessidade de mudanças (como no caso do aquecimento global).
Marcelo Henrique Marques de Souza

O fantástico guru e os plenos de sentido

E promove a figura de um sujeito que aparece de terno e gravata, com cara de japonês e um sorriso brilhante, daqueles de Photoshop. E então começa a descrição do cidadão. Depois de dizer que ele nasceu no Japão em 1956, que se formou na Universidade de Tóquio, que trabalhou em uma empresa de comércio exterior no Japão e que foi para os EUA estudar finanças internacionais, a propaganda me presenteia. Impressionado com tão vasto currículo e com a promessa de uma sabedoria tão inquestionável, fui para as outras páginas, atrás de mais informações sobre a tão nobre figura. Aparecem, então, alguns dos coloridos livros do "mestre" Okawa, já publicados no Brasil. E passo então a analisar os títulos, que mostram a "fantástica sabedoria" de nosso pragmático guru
Marcelo Henrique Marques de Souza

É preciso aprofundar…

Anteontem li de uma tacada só o ótimo livro da historiadora Elisabeth Roudinesco, chamado "Freud - por que tanto ódio?". O objetivo principal da autora, com esse texto, é o de questionar um outro autor, chamado Michel Onfray, que publicou um outro livro, que chamou de "O Crepúsculo de um Ídolo", no qual ele questiona a importância dada ao criador da psicanálise no debate intelectual, através de acusações pessoais, muitas delas já exaustivamente debatidas nos meios intelectuais, durante toda a história do século XX. A defesa de Roudinesco é muito boa e fundamentada. Coloco apenas um porém, porque, em certo momento, acho que ela talvez tenha sido excessivamente moralista em certas posições, o que pode inclusive contribuir de uma forma negativa para a própria defesa em jogo ali. E isso ocorre num exemplo específico, quando ela defende o autor alemão das acusações, já históricas, de que teria mantido relações sexuais com a cunhada, irmã de sua esposa.
Marcelo Henrique Marques de Souza

As duas faces da orfandade brasileira

Diante da mais nova questão inócua da mídia, ou seja, esse pseudo-imbróglio entre o ex Lula e o tal Gilmar Mendes, pululam postagens na rede a respeito, umas atacando o ex, outras atacando o juiz. E como agora há pouco alguém colocou uma citando o filme que fizeram sobre o petista, "Lula, o filho do Brasil", senti vontade de escrever algumas linhas dissonantes, pra variar um pouco a mesmice. O fato é que, pra mim, de filho do Brasil, o Lula só tem a parte ruim, ou seja, nossa viralatice congênita, que nos impede de galgar uma postura que seja efetivamente independente. Não é à toa, inclusive, que a principal bandeira do Lulinha paz e amor, ao defender o seu governo, é justamente o seu "reconhecimento externo". Ora, quem entende um pouco de política sabe que muitas vezes o reconhecimento externo é o pior dos epitáfios de um governo, dependendo de onde vem esse reconhecimento. O Obama, por exemplo: Sustenta a prisão criminosa de Guantánamo, em Cuba; invadiu o Paquistão, para supostamente matar o Bin Laden, ferindo a soberania de mais um país;
Marcelo Henrique Marques de Souza

O brasileiro médio e a teoria

O Glauber Rocha já dizia que o Brasil é a pátria do assassinato cultural. Antes dele ainda, Nelson Rodrigues alertava para o vira-lata que temos, todos, dentro de cada um de nós, tupiniquins. E esse lado aflora diariamente no cotidiano do cidadão médio, que não percebe duas coisas importantes. Primeira: humildade é sempre importante, para que se possa aprender mais. E segunda: quando uma pessoa aprofunda de verdade algum assunto, está tentando produzir alguma coisa que seja para além do que já sabemos. E isso merece, no mínimo, um pouco de respeito.
Marcelo Henrique Marques de Souza

Os paraísos no meio do purgatório

Na leitura da "Privataria Tucana", fico sabendo de algumas coisas que não sabia e que são bastante curiosas. Uma delas tem a ver com os chamados "paraísos fiscais". A gente tem a ideia de que paraísos fiscais são países que apresentam atrativos para bandidos que desejam lavar o seu dinheiro sujo através de contas que eles chamam de offshores, abertas em bancos que seduzem esse tipo de cliente por que mantém sigilo sobre a identidade dos correntistas e as movimentações. Esse dado confere. Mas há detalhes que explicam muita coisa e que geralmente não aparecem no nosso entendimento comum. Um deles diz respeito à forma como o dinheiro é lavado. Para dificultar qualquer tipo de investigação futura, o dinheiro sujo passa por diversos bancos antes de "atracar" nas tais offshores. Ele viaja por vários bancos, às vezes de vários países diferentes, antes de chegar ao destino "paradisíaco".
Marcelo Henrique Marques de Souza

A leitura de qualidade no mundo de hoje (se é que ela existe…)

O 'Prosa e Verso' de 07 de abril traz uma pesquisa sobre a questão da leitura no Brasil. O trabalho se chama "Retratos da leitura no Brasil" e foi realizado pelo Instituto Pró-Livro. Está em sua terceira edição e vale trazer alguns comentários críticos sobre certos aspectos que me parecem importantes. Vamos primeiro aos dados claros, ou seja, aqueles que representam de forma mais simples aquilo que assinalam. Segundo a pesquisa, 85% dos entrevistados não compraram nenhum livro nos últimos 03 meses (em números gerais, 150,5 milhões de pessoas). 73% não usam nunca as bibliotecas do país, enquanto apenas 10% usam frequentemente. E a média de livros lidos por ano caiu, da última pesquisa, realizada em 2007, para esta de agora, que possui dados de 2011: entre os estudantes de maneira geral, o número de livros lidos por ano, que era de 7,2, caiu para 6,2; e entre os não-estudantes, caiu de 3,4 para apenas 2,3 livros por ano. Os alunos do ensino médio liam 4,5 e agora leem 3,9; e os do ensino superior, que chegavam a 8,3, desceram para 7,7.
Marcelo Henrique Marques de Souza

Um pouco sobre o monstro da “aprendizagem comercial”

Para quem gosta de teoria, um dos trabalhos mais interessantes do Roland Barthes está num livro seu que aqui ganhou o nome de "Mitologias". Nessa obra, o autor francês produz várias reflexões sobre a vasta mitologia burguesa de sua época, especialmente através das peças de propaganda e da mídia em geral. Depois que li esse livro, aprendi a enxergar a propaganda com outros olhos, não mais os de um consumidor seduzido, mas sim os de um cidadão crítico e com vontade de refletir o seu mundo para além das modas. Pois bem, hoje vi, no metrô aqui do Rio de Janeiro, mais uma dessas peças de propaganda que mostram direitinho como funciona a ideologia do nosso tempo. A peça é do SENAC do Rio de Janeiro e estampa a seguinte mensagem:
Marcelo Henrique Marques de Souza

Contra o monopólio? “O Globo” é contra!

Dentre outras críticas, "O Globo" acusa o governo argentino de querer "domesticar a imprensa profissional independente", através de medidas legais que, segundo o jornal brasileiro, seriam questionáveis. O que já é no mínimo uma análise limitada, porque esse papo furado de "imprensa profissional independente" só engana os infantilóides que ainda acreditam que o jornalismo nasceu para fazer o bem para a sociedade e investigar de forma isenta o poder. O jornalismo, especialmente esse de grandes corporações, como "O Globo" e similares, faz parte direta do poder e não tem a menor legitimidade para querer se posicionar como um tipo de ação independente. O Globo chega a dizer que existe uma "missão clássica" da mídia, que seria "fiscalizar o trabalho das autoridades em nome dos eleitores que os escolheram e dos contribuintes que os pagam". Eu não preciso de jornalista pilantra nenhum para fiscalizar o poder pra mim, porque minha consciência crítica já o faz, sem esse tipo de intermediário ilegítimo. Portanto, a mim não enrolam com esse papo de independência. "O Globo" critica ainda a presidente da Argentina por se unir a países como Venezuela, Bolívia e Equador no que o jornal chama de "ofensiva contra a liberdade de expressão, um dos pilares centrais da democracia". A democracia, para quem gosta de estudar, não passa de mais um sistema pautado pela lógica da visão única. Estamos mergulhados num tipo de discurso que só aceita símbolos contrários quando estes aparecem anestesiados pelo contorno estruturado da lógica do capital. Só é possível ser hippie se você comprar o estilo na loja do shopping; só é possível ser comunista se fizer acordo espúrio com o governo de direita do PT; só é possível fazer arte se você a transforma em mercadoria. É assim que pensa a democracia, como qualquer papo banal do cotidiano mostra bem.