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Leonardo Rezende

Segunda chance

Errar nos faz aprender a buscar novos caminhos e experiências que só serão possíveis quando tentamos e não dão certo. Adquirir o perdão de alguém que você magoou pode ser difícil, mas acho que o pior é tentar mostrar que você é digno de ser perdoado. Erramos, não tem jeito, faz parte da essência do homem. Só aprendemos quando quebramos a cara, por mais que isso possa doer. Algumas vezes, pode ser tarde demais para tentarmos mostrar que estamos livres de todo o mal. É muito comum você magoar alguém que você ama, inconscientemente, e de repente, ao tentar voltar atrás, a pessoa mudar de ideia e não querer mais nada.
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O peso da realidade

Muitos não acreditam nos finais (in)felizes. Eu prefiro acreditar em recomeços. Não podemos deixar de lado as coisas ruins que acontecem com a gente, pois precisamos sempre quebrar a cara para aprender. Por isso, não custa nada tentar levar o lado negativo das coisas de uma forma positiva. Particularmente, eu sempre gostei de filmes com finais dramáticos e tristes. Nunca gostei da mesmice de sempre sabermos o que vai acontecer no final da história. O clássico herói que se casa com a mocinha e vivem felizes.
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A encruzilhada

Com todo esse clima de guerra civil que está acontecendo atualmente, temos visto que o sentimento anarquista só tem crescido. Assim como foi mostrado na TV, uma grande parte das pessoas que estão indo aos protestos não pertencem e nem se sentem representadas por nenhum partido político. Todos nós sabemos que o Brasil não é nenhum exemplo de política limpa e honesta. Mas se não tivermos uma posição para tomarmos nossas decisões e protestos, ficará difícil lutarmos o tempo todo permanecendo na linha do meio, nos mantendo neutros.
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O caminho do amor

Entre tropeços e vacilos constantes, percebi a tua permanência sempre ali, me amparando pelos braços. E mostrando que o caminho do meu erro poderia ser consertado de outras formas, menos radicais e severas. Sempre tentei correr contra o tempo para tentar buscar respostas que eu nunca encontrava. Acho que este foi o meu maior erro, de não ter me permitido ser. E acabei não te permitindo ser também. Aliás, poderíamos ter sido tantas outras coisas, mas, enfim, tudo teve o seu tempo certo para ser ou ter sido. De tudo o que vivi, nada mais valia do que a tua presença, sempre ao meu lado. Mesmo sem concordar com todas as outras coisas que ficaram para trás. Como um livro esquecido dentro de uma cabeceira.
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Encontrar-se

É preciso morrer para encontrar-se. Eu não falo da morte física, que deve ser a primeira coisa a vir na tua cabeça. A morte citada vem das coisas que deixamos pra trás em diversos momentos da nossa vida. E esperamos, talvez, que estas coisas continuem enterradas a sete palmos. Nós vivemos de ciclos. A partir daí vamos nos reciclando sempre que achamos necessário. E a cada reciclagem ocorre uma nova morte. São inúmeras as vezes que matamos o nosso passado a fim de querer fingir que ele não existe e começar tudo novamente, tentando viver apenas o presente. O que não deixa de ser algo impossível de fazer. Mas a grande questão é: Quando começamos a nos encontrar?
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Pinturas urbanas

Atualmente a arte não tem nenhum tipo de comportamento certo. Cada artista procura novas formas de criações. A arte não tem mais nenhuma relação específica, ou seja, ela pode se relacionar com qualquer outra coisa. O homem está se tornando livre no modo de criar, mas a arte também ganha a liberdade. A arte moderna está criando vida sozinha. O artista está sendo apenas um instrumento a ser utilizado, enquanto as pinturas e quadros já falam por si, sem precisarem de traduções.
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Sabiá verde e amarelo

Falar do conceito de brasilidade seria tornar adjetiva a questão de ser brasileiro, expressando qualidades no puro sentido nacionalista. Gonçalves Dias sempre buscou recriar nos seus poemas a verdadeira identidade brasileira, afirmando a ideia com um sentimento de honra. O Brasil já tinha sua identidade formada através da cultura indígena desde antes da chegada dos portugueses em nossas terras. O que favoreceu a miscigenação, pois, ambas as culturas, brasileira e europeia, puderam se adaptar de forma recíproca. Sendo assim, criou-se uma cultura tão única, que hoje em dia fica difícil distinguir o que veio de cada lugar.
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Anjos

São pequenos os fatos que me fizeram acreditar em destino. Muitas pessoas que passaram em minha vida, hoje, mesmo estando distantes, continuam sendo importantes. Estas pessoas são como anjos, nós podemos não vê-las sempre que precisamos, mas sabemos que elas estarão sempre por perto para nos transmitir segurança. Todo indivíduo pode construir a sua base de felicidade. Mesmo sabendo que haverá coisas que o fará querer desistir pelo caminho. O segredo está em querer encontrar o sentido do que o faz feliz. A resposta estará sempre dentro de nós e não pelo que está ao nosso redor.
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Ser ou não ser? Eis a questão…

Todos têm segredos. Isso é um fato. Mas nem todos conseguem esconder algo durante a vida inteira. O ditado diz que a mentira tem pernas curtas. E o que for apenas um segredo, qual será o tamanho das suas pernas? Freud fala que não adianta tentarmos esconder algo, pois o nosso corpo também fala através de nossos gestos. Assim, acabamos revelando o que não deveríamos apenas por um olhar, ou com um simples movimento das mãos. E tudo vai por água abaixo. Mentira não é um dos pecados capitais, mas é o motivo de muitos procurarem a ajuda divina. Em minha opinião, recorrer ao lado espiritual não melhora em nada o que foi dito, ou melhor, o que deixou de ser dito. Você pode aliviar sua culpa, tentando deixar a mente mais tranquila. Mas o que ficou omitido continuará do mesmo jeito.
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Amor monetário

Já se foi o tempo em que os pais escolhiam o futuro “par perfeito” para os filhos. Os pares eram escolhidos pelo nível social da família e seu comportamento diante de todos. O que nem sempre foi motivo de agrado. Casar sem gostar, ou melhor, conhecer melhor a conta bancária do que o pretendente é coisa do passado. Certo? Bem, nem tanto... Hoje em dia cada um tem o livre arbítrio e se torna responsável por suas próprias decisões. As uniões duram cada vez menos, o que deveria ser o contrário, pois não há mais impedimentos sobre o assunto. Ninguém mais se casa a fim de procriar a “espécie”. Afinal, nem é mais necessário qualquer tipo de cerimônia para se ter um filho. Só é preciso juntar as escovas de dentes – em alguns casos nem isso – e sua família já estará constituída.
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Luxúria

O sexo é algo que nunca sairá de moda e do gosto comum. Dizem que os quietinhos são os piores, disso eu não posso ter certeza. Mas eu tenho certeza que não adianta tentarmos ser beatos quando a opinião é unânime. Sexo é bom e todo mundo gosta! Todos param para ler qualquer texto que fale sobre sexo. Duvido que você tenha lido esse artigo por algum outro motivo. (...) Muitos nem consideram a luxúria um pecado, tratam-na como uma necessidade, e isto não está errado, pois todos sentem a mesma necessidade algum dia. E não é à toa que esta necessidade também criou a profissão mais antiga do mundo, como muitos acreditam. Acho que sobre essa parte a Maria Madalena poderá nos explicar melhor.
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Uma vida inteira

Quanto tempo pode durar “uma vida inteira”? É um pouco difícil, para não dizer impossível, nós não passarmos por situações em nossas vidas que queremos que durem a vida inteira. Algumas coisas acabam permanecendo, outras não. O que determina o período de validade é difícil de prever. Acho que a resposta para a questão do tempo está em ser ou não necessário, ou melhor, o que se torna essencial é o que permanece. Há momentos que duram apenas uma fração de segundos e são guardados para a vida toda, outros são apenas relembrados como uma folha de rascunho arrancada e sem utilidade.
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Proust e o romance moderno

Proust veio quebrar esta estigmatização. Mostrando através de seu romance, que o tempo é algo quase ilusório, ele se mistura a todo momento com o que é o real. E, num dado momento, já não sabemos mais onde conseguimos dividir essa temporalidade. A rememoração faz parte a todo momento de nossas vidas. A sociedade burguesa do século XIX já entrou em decadência. Hoje não somos mais controlados de forma escravizada. Com o romance moderno, o próprio autor não tem mais domínio sobre a sua obra. Portanto, ao lermos um romance moderno, qualquer semelhança com o autor/leitor pode não ser uma mera coincidência.
Leonardo Rezende

Dicotomia política

Basear-me-ei em uma simples dicotomia política, se assim posso dizer. Socialismo x Comunismo. São duas visões distintas, mas que se cruzam até certo ponto no modo de pensar. O que pode causar conclusões nada agradáveis em algumas situações. Mas como eu não tenho medo de causar algum tipo de polêmica, explicarei um pouco de cada definição a seguir. O socialismo é considerado um sistema que luta pela igualdade das classes sociais. Acabando com a desilgualdade em qualquer que seja o sentido. Contrapondo-se em relação ao Governo. E contra toda forma de políticas ditatoriais.
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Carpe diem!

Pensar nas coisas simples é uma ótima maneira de olhar o mundo. Preocupamos-nos com muitas coisas durante o nosso dia-a-dia. E nos esquecemos dos pequenos detalhes, que podem fazer toda a diferença. Um simples beijo, abraço ou até mesmo um “bom dia”, podem mudar todo o nosso humor. Enquanto o tempo passa, ficamos cada vez mais egoístas. Olhamos apenas para nós mesmos, e deixamos de perceber quem está ao nosso lado. Queremos tanto, mas não dá para conseguirmos tudo o que queremos. Tentamos sempre enxergar o topo, e nos esquecemos do percurso que virá antes.
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O estranho

Pensar na palavra ‘estranho’ nos remete a algo negativo. Trata-se de uma palavra que, dependendo de como for usada, pode nos causar algum certo medo, devido ao sentimento de estranhamento. Tudo que não nos for familiar, ou seja, estranho, torna-se algo desconhecido. Mas é exatamente a partir daí que vem a base da reflexão. E se pensarmos o contrário – se o que denominamos estranho, for exatamente aquilo que nos parece familiar e conhecido – poderia parecer mais estranho. Mas não é. Nem sempre sabemos lidar com o que não conhecemos, por isso pensamos dessa forma. De acordo com a psicanálise, todo afeto transformado em impulso emocional, e que acaba sendo reprimido, transforma-se em ansiedade. A partir do momento que, o elemento amedronta o sujeito, pode esse ser visto como uma forma de retorno, através da repressão. Tudo que consiga satisfazer essa condição, é considerado estranho.
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Fantasmas do passado

Será que o passado realmente é algo que já se findou? Em alguns casos, ele está mais vivo do que pensamos. Ou melhor, o passado pode se tornar o presente, novamente. E um presente como esse, às vezes é necessário rejeitarmos. Mas, infelizmente, não temos total controle sobre isso. Depois de algumas marcas que nos tornam calejados, sempre pensamos que estaremos curados de toda dor. Mas sempre corre o risco do calo fraquejar. E todo o incômodo de antes retorna como se nunca tivesse aparecido. Todos temos alguns fantasmas que nos assombram de vez em quando. Só que quando você chega na fase adulta, descobre que eles não estão escondidos debaixo da cama. Estão em todo lugar. Basta olhar para o lado e poderá esbarrar com algum deles.
Leonardo Rezende

Sem título

Talvez seja por não ter um assunto determinado, que eu me inspirei em escrever este artigo. O nada nunca estará isento de sentido. Mesmo que não seja esse o sentido que as pessoas pensam sobre essa palavra. Por isso que não consigo expor alguma opinião. Por que quando se escreve algo, é necessário estar preenchido de alguma forma. Existem sentimentos a serem sentidos e transmitidos. A palavra é apenas um forma de comunicar ao mundo esses sentimentos. Tudo não passa de um simbolismo abstrato que nem nós mesmos conseguimos decifrar. Não existe o vazio na escrita. Cada palavra tem um motivo para estar ali. Basta saber ler as entrelinhas. O texto tem vida própria, as palavras não são escritas, elas apenas brotam. Como uma semente de uma planta, que cresce sozinha, sem precisar da intervenção de alguém. O autor é apenas um objeto de transmissão. O texto nunca será o objeto do autor.
Leonardo Rezende

Que seja eterno enquanto durar

Falar em amor virou algum sinônimo de fast-food. Não existem mais relacionamentos duradouros. Qualquer relacionamento com um pouco mais de dois anos já é motivo para casamento. Acho que seja por um método para tentar prender o parceiro por mais tempo. Porque achar alguém que realmente vale a pena hoje em dia, é como achar uma agulha num palheiro. São encontros e desencontros a partir de uma rotina diária que fazem as pessoas se distanciarem de qualquer tipo de relacionamento sério. Muitos não não querem se sentir pressionados em certos aspectos. Isso gera uma atitude egoísta, quando ambas as partes não querem ceder. Acaba gerando atritos desnecessários por não entrarem em um acordo em comum. E o que falta nos relacionamentos hoje em dia é isso, um acordo. Não precisa ser selado com contrato e assinaturas. Apenas com a palavra dita e a confiança de um pelo outro, que é o essencial.
Leonardo Rezende

Política afirmativa ou publicidade pública?

Não estamos em um bom tempo para pensar em publicidade afirmativa no momento. Estamos em época de eleições, pensar nisso como algo afirmativo não é algo tão simples a ser feito. Então, o que viria a ser publicidade afirmativa? Seria todo tipo de publicidade que não visa induzir o consumo de algum produto para quem a assiste, tenta apenas mostrar a realidade social do mundo, usando a mídia como objeto manipulador, só que para o bem. Tentar mostrar para as pessoas os detalhes que elas não enxergam – ou fingem não enxergar – e ter uma atitude que o Sistema não tem, de reconhecer a realidade.
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Amor atemporal

Alguns dizem que o amor é um verbo atemporal. Outros dizem que o tempo cura tudo. Eu prefiro acreditar que o tempo também pode causar destruições. Principalmente no amor. Sempre nos rodiamos de expectativas ao querer encontrar a pessoa perfeita, mesmo sabendo que ela não existe. Nós conhecemos alguém, nos enchemos de esperanças, planejamos todo um futuro ao lado dela e, no fim, acabamos nos arrependendo, porque nem tudo sai como imaginamos. Na maioria das vezes, é nesta ordem que as coisas acontecem. Aí vem as frustrações e o medo de se machucar novamente. Infelizmente, tudo isso é inevitável.
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Uma pedra no caminho

Alguns acreditam em destinos e outros acreditam em sorte. Mas o que realmente faz as coisas não saírem do jeito que planejamos? Todos nós já fizemos ou ainda iremos nos fazer esta pergunta, não importa em qual momento da nossa vida. Frequentemente encontramos desventuras pelos caminhos que seguimos, basta apenas nos desviarmos e tentarmos dar a volta por cima. Como diz em um dos mais famosos poemas de Carlos Drummond de Andrade: “No meio do caminho havia uma pedra.” O que nos resta a fazer é apenas chutar a pedra! Para bem longe, se possível, só assim não nos preocuparíamos em encontrá-la novamente na nossa frente. Apenas preste atenção antes no tamanho da pedra, você poderá machucar o pé!
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O terceiro sinal

Ele estava atrás da coxia, aguardando o terceiro sinal para a sua entrada. Enquanto isso ouvia sussurros e cochichos que vinham da plateia, que parecia estar cheia, naquela noite de estreia. Não havia cenário nem qualquer coisa que pudesse usar como artifício para a interpretação. Tinha apenas corpo e voz, achava que nada mais era necessário. A tensão do seu corpo era provocada por arrepios e frio na barriga. Sua ansiedade aumentava a cada instante. Começou a contar até dez para tentar se acalmar.
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O que os olhos não veem

Lidamos o tempo todo com as aparências. Tentamos sempre adequar nosso comportamento de acordo com a ocasião e com as pessoas que lá estarão. Dentro deste contexto, esquecemos de nos perguntar até que ponto estamos agindo naturalmente. Por mais que digamos que não, sempre acabamos nos preocupando sobre como a nossa imagem é passada diante da sociedade. Agimos do mesmo modo como os outros querem que façamos. Dificilmente temos vontade própria. Posso estar parecendo exagerado e tentando dizer que somos manipulados o tempo todo, como uma espécie de cobaia em um laboratório. Não foi essa a intenção, mas até que não seria uma ideia tão absurda... Um exemplo típico é só parar para pensarmos em várias coisas que já tentamos fazer, mas acabamos desistindo da ideia por nos preocuparmos com a opinião de quem está do lado de fora. E mais uma vez perdemos um pouco de nossa identidade.
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A quarta parede

A quarta parede é quebrada desde o nosso nascimento, para termos o contato com o mundo. Não muito diferente do ator, nós precisamos atuar inúmeras vezes ao dia. Talvez seja por uma forma de sobrevivência ou talvez por não termos capacidade suficiente de sermos tão sinceros durante todo o tempo. Seja lá qual for a resposta, a questão é apenas saber onde tudo isso pode nos levar. Interagir com o público, entrar em contato com ele, mesmo interpretando um personagem em cena, faz o ator quebrar toda essa parede dividida entre o palco e a vida. Mas será que é apenas o ator, capaz de ter contato com este elemento? Lidamos com isso o tempo todo em nossa rotina. Nós quebramos a quarta parede mesmo sem nunca termos pisado em um palco.
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Pensar em movimento

Já parou para pensar no que você pensa quando está parado, ou melhor, em movimento? Muitos passam rotineiramente, várias horas do dia dentro de algum tipo de transporte público. Seja ônibus, metrô, trem... etc. Você sabe que o trajeto o levará a algum lugar. E seus pensamentos, para onde o levará? Durante o percurso que fazemos em nosso dia-a-dia, nos deparamos com flashbacks que passam por nossa mente. Alguns flashes trazem à tona a nostalgia das coisas boas e das ruins também, e estas nós sempre tentamos esquecer. Nossa função é apenas canalizar esses pensamentos. Tirar tudo que não vale a pena, que faça algum mal e jogar fora. Devemos fazer isso com todos os aspectos que nos trazem algum tipo de negatividade. Mas, quando você está sentado ao lado de uma janela, dentro de um ônibus, esteja ele lotado ou não, os seus pensamentos vão se encaixando no ritmo da viagem. Se a viagem está lenta, você pensa com calma. Se a viagem estiver rápida, você corre junto com ela. Mas se o ônibus parar ou se o trânsito engarrafar, você se vê diante da realidade. Parece que tudo ao redor começa a ser reparado pelos mínimos detalhes. As pessoas, o lugar, o que está do outro lado da janela e até mesmo aquela paisagem que nunca tinha sido reparada antes.
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Visão periférica

Ter uma visão periférica e enxergar a favela em sua realidade deixa de ser uma utopia e passa a fazer parte do cotidiano. Cada um tem a sua opinião em relação à sua visão. Mas esta visão jamais poderá ser distorcida, como faz a mídia. Ninguém é tão feliz, livre de problemas e vive em um mundo de faz-de-conta. Pois é assim que a favela é mostrada nas novelas. Na verdade, é 08 ou 80. Ou a mídia mostra a violência, causadora das mortes no dia a dia desses meios ou mostra a dignidade e simplicidade do povo trabalhador nas comunidades. Por que não juntar as duas visões? Na favela existem sim, pessoas que trabalham e levam uma vida digna, porém simples, mas sempre conseguem buscar o melhor conforto que podem se oferecer. Existem bandidos? Sim, é evidente. Mas isso justificaria homogeneizar toda a população e achar que todos também são bandidos?
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O som do silêncio

O que há para ser dito quando nada está sendo dito? Talvez você nunca se deparou antes com tal questionamento. Mas, pense bem, olhe ao redor e reflita. Consegue perceber o som do silêncio? Pois é, ele está em toda parte. Às vezes com um volume altíssimo, quase ensurdecedor. Precisamos apenas prestar atenção, para nos guiarmos ao seu encontro. Quando estamos diante de uma peça de teatro em que não há qualquer diálogo em cena. Mas o ator consegue mostrar para o público toda a emoção e transmiti-la apenas através dos gestos e expressões faciais. Alguma palavra foi necessária para a cena transmitir toda a sua força? Isso é uma prova do silêncio fazendo todo o seu trabalho com perfeição.
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Tempo e angústia

A angústia criada pela ansiedade a partir da espera, nos mostra que somos objetos do próprio tempo. Nós criamos a nossa própria “coisificação”. Melhor deixarmos o tempo nos levar. Nessa inquietante repetição dos dias. "Time is life". Será que teremos consciência disso algum dia? Prefiro deixar em aberto a pergunta através do tempo, sem me angustiar por isso... “Quem espera sempre cansa!” Acho que esta deveria ser a forma correta do famoso dito popular. Afinal, quem realmente gosta de esperar por alguma coisa? A resposta seria, no mínimo, negativamente unânime. Estamos sempre buscando o imediato. Tudo aquilo que não nos faça perder tempo. "Time is Money". Foi a frase ensinada durante as aulas de História na escola, a qual levamos para a vida.
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Última parada: solidão

Sentada ao lado da janela do ônibus, ela parava para pensar na vida do lado de fora. Todos os dias ela fazia uma nova reflexão, uma filosofia que só viria junto com o barulho de toda a estrutura metálica daquela máquina ambulante. Suas visões eram de um mundo completamente distinto. No qual ela não se encaixava. Ela adorava fazer planos para o futuro, sonhando em ter uma história feliz ao lado de alguém que a amasse. Mas isso parecia estar tão distante... Uma utópica imagem de uma família perfeita vinha em sua mente. E se lembrara de que não tinha ninguém. Sua solidão já se tornara parte essencial de toda a sua existência.
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Espelho, espelho meu…

Até que ponto a beleza do ser amado se torna essencial? Quem nunca procurou beleza em alguém, que atire a primeira pedra! Pois é, e nem todos a encontraram. Muitos buscam, numa briga incessante, o tal ideal de beleza. Como os corpos sem face dentro de uma vitrine, exibindo apenas o modelo ideal da moda. O valor de um rostinho bonito é como um troféu na mão dessas pessoas. Estas acham ótima a sensação de poderem andar com seus bonequinhos perfeitos no meio da rua e sentirem-se elogiadas por isso. Alimentando o ego que crescerá, cada vez mais.
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Infeliz sonho novo

Olhou para o horizonte, admirou a longa visão panorâmica da escuridão. Aquilo lhe afetara, de alguma forma sentia um sentimento de familiaridade com o local deserto. A ausência de luz, pensou, seria uma representação do rancor guardado em seu peito. Seus sentimentos esvaíram-se. Como as ondas do mar que se refazem a cada momento, atingindo um limite de distância de toda a areia, ele mantinha distância de qualquer ser vivente ao redor. Ao seu lado, havia a garrafa de champagne que ele bebera há algumas horas atrás. A areia sob seus pés o fazia ter a certeza da única ação que o mantinha caminhando: a esperança de renovação. Olhou para o relógio em seu pulso, faltavam apenas cinco minutos para a virada do ano. Cinco últimos minutos para esquecer toda a vida conturbada que tivera e começar tudo de novo. Desta vez, sem grandes expectativas em relação a fatos e pessoas.
Leonardo Rezende

Quarto de dormir

E na fria madrugada, lá estava ela, sozinha, sentada na poltrona. Estava escuro, não havia nenhuma luz, exceto o céu iluminado, pelo lado de fora da janela. Ela estava seminua, as linhas sinuosas de seu corpo mostravam a forma de uma mulher. Não parecia sentir frio, apesar da neve que caia naquele fim de inverno. Não parecia se preocupar com coisas tão pequenas, como o clima ou sobre como seria a próxima estação... Aparentava ter uns 20 anos de idade. Jovem, sedutora, madura, independente e desgraçada. Sua vida era condicionada ao ócio. Não era feliz há muito tempo. Vivia todo o tempo, trancada naquele apartamento. Isolada do mundo lá fora. Nada mais fazia sentido. Às vezes, quando bebia demais, tinha certos momentos de nostalgia. Lembranças de uma mulher que tivera tudo um dia. Mas que hoje, sobram-lhe apenas algumas fotos antigas e alguns sentimentos guardados no peito. Enquanto ela continua sentada na poltrona, pega o isqueiro na mesa ao lado e acende um cigarro. O cigarro e o álcool são formas encontradas para relaxar. Para esquecer a infeliz vida da qual levava.
Leonardo Rezende

Dois barcos

Procuro um amor inacabável, como um orvalho que a cada dia de manhã se renova, num ciclo constante. Poder criar raízes fortes o suficiente para não serem levadas por um vento qualquer. Quero a divina melodia de um sussurro, me dizendo coisas belas, por mais que não sejam ditas verdades. Não pretendo criar cercas, como em um campo de concentração. Deixarei apenas uma brecha no portão, o suficiente para alguém passar, sem precisar fazer algum esforço. Sinta-se à vontade, se acomode, sem medo. Apenas peço para que, antes de ir, deixe um bilhete ou uma lembrança qualquer. Para que eu possa acordar no dia seguinte e ter a certeza de que ocorreu tudo bem. Ter a certeza de que a sua, ou melhor, a nossa caminhada continuará por caminhos limpos, sem dores ou arranhões.