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João Montenegro

Mais pragmatismo, por favor!

Três trágicos acontecimentos recentes poderiam talvez ter sido evitados caso a sociedade brasileira fosse mais pragmática e menos apaixonada, ideológica e preconceituosa no tratamento de certas questões, o que, é claro, influencia as decisões políticas no país. Nossos governantes têm a obrigação de ao menos inserir essas pautas na agenda política do país, pois não podem fechar os olhos para as graves consequências de leis obsoletas que, hoje, sustentam-se mais por conta de interesses comerciais e religiosos do que por qualquer argumento lógico.
João Montenegro

Assunto de polícia

Estamos em 2014 e vemos que, depois dos programas de bolsa-auxílio (família, escola, etc.) e o “Minha Casa, Minha vida”, do governo federal, cuja legitimidade e funcionalidade são discutíveis, a política de governo mais badalada do momento são as Unidades de Polícia Pacificadora, no estado do Rio. Que o projeto representa um avanço em relação ao que (não) era feito antes, isso é inquestionável. Afinal, antes um braço (ainda que armado) do Estado presente nas favelas que apenas traficantes fortemente armados. Mas, no fim das contas, persiste a velha relação do Estado brasileiro com as camadas mais pobres da população via seu aparelho repressor, a saber a polícia militar, que, como está expresso em sua própria nomenclatura, consiste em um corpo militarizado treinado para enfrentar inimigos (não é por acaso que o batalhão de operações especiais da PM, o Bope, tem uma caveira como símbolo).
João Montenegro

O fundamentalismo que nos habita

A história da humanidade é repleta de casos de homens e mulheres que foram mortos simplesmente por dizer o que pensam. Hoje, graças à consolidação da democracia na maior parte do mundo, qualquer indivíduo é livre para expressar seus pensamentos sem o ônus de ser preso ou executado por conta disso. É o direito à liberdade de expressão que permite, por exemplo, que todos exponham suas ideias, por mais alucinadas que sejam, no Facebook, desde que não sejam interpretadas pelas autoridades como ofensivas, preconceituosas ou como apologia a práticas criminosas, por exemplo.
João Montenegro

Saneamento básico

Os jornais noticiam que mais de 40% dos lares brasileiros não têm acesso a saneamento básico. Isso mesmo: em 2013, quase 2014, o “país do futuro” ostenta essa marca medieval. Como infere a própria expressão, saneamento básico é um dos fatores básicos para uma vida social minimamente salubre, sendo imprescindível para o bem-estar da população. Mas, no festejado “país de todos”, que empresta dinheiro para organismos internacionais, compra caças de última geração e está prestes a realizar a copa do mundo mais cara de todos os tempos, coisas básicas não costumam ganhar o devido tratamento de nossos esmerados governantes. Afinal, investir em redes de esgoto subterrâneas ou estações de tratamento é trabalhoso e não tem o mesmo potencial midiático que a instalação de um teleférico em uma favela, por exemplo.
João Montenegro

O que mais falta?

Será que depois da mais nova pegadinha promovida pela Câmara dos Deputados, que, em histórica votação (secreta, claro), rejeitou a cassação do mandato do deputado federal Natan Donadon – condenado a 13 anos de prisão pelos crimes de peculato e formação de quadrilha –, governantes, jornalistas e conservadores e reacionários de plantão continuarão a se perguntar por que os cidadãos estão indo para as ruas protestar? E seguirão criticando o que entendem ser uma falta de foco em função da pluralidade de temas abordados pelas correntes reivindicações, mal comparando-as com movimentos como o das "Diretas Já"?
João Montenegro

Sim, a revolução machuca mesmo

Na última semana, cerca de 200 pessoas que protestavam contra a CPI dos ônibus no Rio de Janeiro fecharam a Avenida Rio Branco, uma das principais vias do centro da cidade. O acontecimento, que acabou prejudicando o já caótico trânsito da capital fluminense, foi o estopim para que alguns colunistas de jornais voltassem a clamar pelo fim dos protestos que vêm ocorrendo desde junho, sugerindo que a paciência da opinião pública já está próxima de seu fim. Eles criticam o fato de que, apesar de esvaziados, os movimentos de rua seguem gerando danos à cidade, seja ao patrimônio público/privado, seja inibindo o direito de ir e vir da população. A revolta com esse último caso foi tamanha que a Polícia Militar chegou a sugerir a criação de um espaço específico – uma espécie de “manifestódromo” – para as pessoas protestarem (uma ideia estapafúrdia, que fere, inclusive, o chamado “direito de reunião”, previsto pela constituição).
João Montenegro

Autoritarismo velado

Quando jornalistas são proibidos de participar de coletivas de imprensa organizadas pelas autoridades, e grandes portais de notícias, após repercutirem o caso, retiram a matéria do ar (obviamente porque sua publicação gerou algum tipo de mal estar), passo a questionar a ideia de que temos garantido o direito de informar e sermos informados, além de perder minhas já parcas esperanças no conceito de imparcialidade jornalística. À proporção que vejo a polícia militar agredindo e prendendo manifestantes que nada faziam além de protestar enquanto os tais “vândalos” depredavam o patrimônio público e saqueavam lojas tranquilamente – sem serem incomodados por nenhum policial –, deparo-me com essa mesma questão, pois não consigo pensar em outra hipótese que não a de que isso é parte de uma estratégia do governo para desqualificar as manifestações.
João Montenegro

Sem diálogo!

Não há desculpas para a forma como o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, reagiu, no final do mês passado, ao ser insultado por um cidadão em um restaurante da cidade. Na ocasião, segundo testemunhas, o dirigente carioca desferiu dois socos no músico Bernardo Botikay após uma discussão. Mas, se por um lado, o comportamento de Paes foi inaceitável – principalmente em se tratando de um prefeito –, por outro, pode-se dizer que a atitude de Botikay não foi das mais apropriadas: sua abordagem foi agressiva (ainda que em termos verbais) e um tanto quanto fora de hora, uma vez que o prefeito estava em um momento de lazer, com sua família.
João Montenegro

Entre a apatia e a baderna

Muito se fala sobre uma suposta apatia do povo brasileiro, que não teria o hábito de ir às ruas para protestar contra os absurdos vistos diariamente país afora, sejam eles casos de corrupção ou de desrespeito aos direitos básicos da população, como falta de acesso à saúde, educação e até mesmo à água e alimentos – sim, no “país de todos”, que se gaba por já ter emprestado dinheiro ao FMI, muitos ainda passam fome. Curiosamente, se muitas manifestações públicas sequer são pautadas pela mídia, tantas outras, ao se tornarem tema de reportagens, são majoritariamente tratadas como um transtorno social. Via de regra, matérias sobre protestos nas ruas se preocupam em destacar o caos que causam ao trânsito, bem como os embates entre manifestantes e policiais, que costumam usar de força desproporcional para intimidá-los.
João Montenegro

Sorria, você está no Rio, seu trouxa!

Sei não, mas beira, no mínimo, o deboche – na verdade, chega a ser meio repugnante – a veiculação de uma série de reportagens por um jornal do Rio de Janeiro sobre a felicidade do carioca (“Eu sorrio, eu sou Rio”) em um momento no qual, além da recorrência de problemas que sempre afetaram a cidade, como trânsito caótico, praias, rios e lagoas sujas, e oferta de péssimos serviços, os moradores da cidade se veem assolados por preços desproporcionais em todos os segmentos da economia local. Desde o anúncio de que o Rio sediaria a Copa de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016, o custo de vida na cidade encareceu sobremaneira, tornando praticamente intangíveis sonhos como a aquisição de um imóvel próprio, ou mesmo seu simples aluguel, a depender da localidade de que se está falando. Hoje, qualquer quarto e sala em um bairro da Zona Sul, por exemplo, não sai por menos de R$ 800 mil.
João Montenegro

Itamaraty, PT e Yoani Sánchez

Há alguns anos o Brasil vem recebendo críticas por manter uma postura relativamente branda em relação a países governados por ditadores ou governos extremistas, nos quais os direitos humanos são sistematicamente desrespeitados. Fazem parte desse grupo países como a Síria, cujo governo, chefiado por Bashar Al-Assad, é acusado de matar milhares de civis, e Cuba, onde há evidente cerceamento de liberdades individuais, como a censura à informação e o impedimento dos cidadãos de saírem do país. O assunto voltou a ganhar as páginas dos jornais em virtude da visita da blogueira cubana Yoani Sánchez ao Brasil. Depois de anos tentando emitir seu passaporte, ela foi autorizada a deixar Cuba e está, agora, de passagem pelo país. Ao chegar, contudo, Yoani foi recebida com protestos de manifestantes que a acusavam de manter relações de interesse com o governo dos Estados Unidos.
João Montenegro

Políticas de picadeiro

No último domingo, o jornalista Elio Gaspari reservou o principal espaço de sua coluna a um texto no qual critica a marquetagem política no Brasil. Intitulado “governos espetaculares fazem espetáculos”, o artigo parte de um filme de um minuto que louva as ações que o governo federal tem implementado para enfrentar a seca no Nordeste – embora muitos sertanejos estejam, hoje, sem o abastecimento de carros-pipa –, e fecha com o caso do Hospital Regional Euclides Ferreira Gomes, em Sobral, no Ceará, que, apesar de inaugurado em janeiro, só está funcionando como posto de saúde.
João Montenegro

Um câncer difuso

As mazelas são muitas, mas uma das piores pragas deste país é o corporativismo. Altamente nociva, principalmente quando se dá no âmbito público – já que, nesse caso, pode-se prejudicar um país inteiro –, a prática pode ser comparada a um câncer que impede a regeneração e, por consequência, o bom funcionamento, de um dado sistema. Correm na mídia situações emblemáticas, que envolvem acontecimentos absolutamente crônicos nos níveis municipal, estadual e federal das esferas política e policial brasileiras. Vide, por exemplo, o caso do embate entre o presidente da Câmara dos Deputados, Marco Maia, e o Supremo Tribunal Federal (STF) em torno da cassação automática dos mandatos políticos dos réus condenados no julgamento do Mensalão, decisão esta que o dirigente se nega a cumprir.
João Montenegro

Mensagem de fim de ano

Tiros em uma escola nos Estados Unidos; Sarney na presidência da república e Renan Calheiros perto de assumir novamente o Senado; políticos aumentando seus próprios salários; mortes nas rodovias brasileiras no recesso de natal; crianças morrendo de fome na África; ditadores comandando guerras para manter-se no poder… É, mais um ano que chega ao fim, inspirando novos desejos e expectativas, mas, em paralelo, trazendo notícias que, não fosse pela data registrada no alto da página, poderiam perfeitamente se passar por fatos há muito publicados.
João Montenegro

Uma questão de princípio

É difícil imaginar que um princípio como o dos Direitos Humanos não seja integralmente apoiado pela sociedade, onde, ao menos no plano teórico, todos os indivíduos são considerados iguais perante a Lei. Surpreendentemente, contudo, o que acontece na prática é que a causa segue alternando picos de popularidade que oscilam entre o céu e o inferno, seja por razões políticas, por conveniência ou ignorância mesmo. Se há denúncias de genocídio na África, matanças de civis na Síria ou indícios de abusos em Guantánamo, nos EUA, a população mundial, via de regra, aplaude de pé a atuação de grupos ligados aos Direitos Humanos, que se prontificam a protestar contra a covardia e o desrespeito à vida e à dignidade das vítimas.
João Montenegro

Um hábito que persiste

A polícia militar brasileira parece mesmo levar a sério o lema “Primeiro a gente atira; depois, pergunta”, passando por cima – como um verdadeiro rolo compressor – de um dos mais importantes princípios constitucionais: o da presunção da inocência ou da não culpabilidade. Na noite do último domingo (26/10), o sargento Márcio Perez de Oliveira matou o estudante Rafael Costa, de 16 anos, em Cordovil, na Zona Norte do Rio. O motivo? Um dos pneus do carro que o jovem dirigia (sem habilitação) estourou, levando o policial a confundi-lo com o de tiros. Assim, sem pestanejar, o “profissional de segurança”, que é pago com recursos públicos para preservar a vida dos cidadãos, decidiu executar aquela que deveria ser a última ação recomendada: atirar contra o veículo. E, como persiste o absurdo de armar policiais de plantão em qualquer esquina da cidade com fuzis usados nas mais violentas guerras, os tiros de grosso calibre não deram chances para o rapaz.
João Montenegro

A era dos memes

Que as criações audiovisuais estão cada vez mais sofisticadas, com recursos e efeitos especiais que intensificam o realismo das cenas, e atores e atrizes interagindo em sincronia quase que perfeita com as câmeras, em espantosa simbiose, não se discute. Que o conteúdo de produções como Avenida Brasil – telenovela da Rede Globo que vem atingindo picos de audiência surpreendentes – é realmente de qualidade, também não se questiona, pois apresenta, de fato, grande riqueza teledramatúrgica. Mas será mesmo que produtos da mídia como a novela de João Emanuel Carneiro se diferenciam tanto daqueles veiculados em anos ou décadas passados, a ponto de justificar tamanha discrepância em termos de índices de audiência ou repercussão país afora?
João Montenegro

No lucro

Embora já esperada, a derrota de Marcelo Freixo (PSOL) nas urnas cariocas vem sendo, claro, lamentada por seus eleitores. O próprio deputado, no entanto, já se mostrou bastante satisfeito com o resultado obtido nas últimas eleições municipais. Afinal, não seria exagerado considerar uma verdadeira vitória a obtenção de mais de 900 mil votos (cerca de 27% do total), além da ampliação de um para quatro representantes na Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro. Tudo isso contra um candidato que teve de fazer coligações com 20 partidos para garantir um espaço de 16 minutos de televisão, contra um minuto de Freixo, e contar com recursos milionários financiados por “doadores” que, certamente, cobrarão “juros” no futuro.
João Montenegro

Novas eleições, novas boçalidades

Como se não bastassem os discursos vazios – desconectados de qualquer esboço de programa político concreto e carentes de propostas claras e viáveis – que invadem a mídia e as ruas das cidades brasileiras em época de eleição, o eleitor, como sempre, se vê imerso em um mar de declarações boçais, essencialmente eleitoreiras e demagógicas. Para uns, claro, elas funcionam. Para outros, tais frases não surtem efeito ou, quando muito, geram reações negativas, prejudicando a imagem do próprio autor da pérola. No geral, contudo, o resultado é um sério prejuízo para o debate eleitoral e, por consequência, para o processo democrático em si.
João Montenegro

Cada medalha é um milagre

O que acontece nas Olimpíadas não deixa de ser uma fotografia bastante significativa de nosso país, onde um atleta dificilmente se sustenta sendo apenas um atleta – assim, em vez de treinar mais ou descansar e se alimentar quando não está se exercitando, não raro esses profissionais têm de se desdobrar em outros ofícios para manter sua estabilidade financeira. Não obstante o evidente potencial desta nação, indiscutivelmente rica em recursos naturais e humanos, a falta de cuidado com o povo – a começar pela criança e o adolescente – e a predominância de políticas de curto prazo inviabilizam, na prática, a execução de projetos que poderiam efetivamente gerar resultados à altura do Brasil.
João Montenegro

O Brasil que não evolui

Já há algum tempo que o Brasil vive um certo clima de otimismo: bons níveis relativos de crescimento econômico, atração de investimentos estrangeiros, ascensão das classes C e D, Copa do Mundo, Olimpíadas e pré-sal são alguns dos aspectos que vêm sendo incansavelmente destacados pelo governo e pela mídia, tanto em âmbito nacional quanto internacional, sustentando o sentimento de euforia. No entanto, muitos problemas do velho Brasil – aquele país do futuro, como cunhado por Stefan Zweig, que nunca deslanchava – parecem perdurar, sem dar indicativos de que não mais serão parte inerente da estrutura do país. São aspectos negativos clássicos, velhos conhecidos de nossa sociedade, tais quais péssima distribuição de renda, corrupção, falta de planejamento urbano, analfabetismo funcional, entre tantos outros.
João Montenegro

Desenvolvimento x histeria verde

Não é de hoje que, quando o debate político envolve questões ambientais, aqueles que se contrapõem ao ponto de vista dos ambientalistas se apoiam, via de regra, no argumento de que preocupações com o meio-ambiente não podem ser um obstáculo ao desenvolvimento socioeconômico. E vão além: alegam, explorando o caráter populista aí contido, que “é o povo que sairá prejudicado” caso a medida x ou y (de interesse do ‘pessoal verde’) seja aprovada – como se o que estivessem defendendo não fosse, em verdade, a posição do Grande Capital, como ocorre nos embates envolvendo o agronegócio.
João Montenegro

Tá difícil, Freixo…

Ao ser sabatinado no programa da TV Cultura, Freixo bateu tanto em tanta gente, que já deu a entender que não fará alianças político-financeiras com qualquer um, mesmo que isso implique em não vencer as eleições. Por isso mesmo, até agora, só garantiu cerca de um minuto na programação eleitoral. Ainda por cima, o deputado é notório combatente das milícias, que estão, há tempos, infiltradas no governo e farão de tudo para impedir qualquer tipo de ascensão política de Freixo.
João Montenegro

A favor da discussão

Como se sabe, está sendo discutida no Congresso Nacional a descriminalização do aborto. Polêmico, o tema costuma causar calafrios nos políticos, que temem se indispor com parte do eleitorado devido à delicadeza do assunto. No entanto, por envolver aspectos fundamentais como o direito à liberdade da mulher, passando pela questão do aborto em casos de estupro ou em situações em que a mãe não terá condições de criar a criança – quando viciada em drogas, por exemplo – a discussão termina por, invariavelmente, voltar à pauta, seja no âmbito judiciário ou parlamentar.
João Montenegro

O choro pelo Grande Líder

É claro que se deve respeitar o lamento dos norte-coreanos pela morte de seu líder, King Jong-Il. Mas não deixam de causar certa repulsa cenas como a daquelas senhoras caindo ao chão, histéricas, em função do ocorrido, entre outras imagens de choro compulsivo coletivo – um êxtase geral que beira o ridículo por seu ar teatral e bizarra organização. As cenas lembram, inclusive, as imagens dos torcedores da Coreia do Norte durante a Copa do Mundo de 2010, na Alemanha, cantando e fazendo coreografias como verdadeiros robôs, praticamente sem expressão pessoal e, consequentemente, sem nenhuma emoção correspondente ao que se passava em campo. Não importava se a seleção de seu país fizesse um gol ou sofresse cinco, as caras e bocas dos torcedores eram as mesmas.
João Montenegro

Tiro pela culatra

O estabelecimento de um discurso hegemônico baseado no paradigma científico é, sem dúvida, uma das razões que levaram a religião a não mais ocupar uma posição de autoridade junto à sociedade, como acontecia em tempos mais remotos. Essa disciplinarização científica e tecnológica da cultura também está por trás de eventuais perdas de fieis, de quedas nos índices que medem a porcentagem de religiosos no mundo ou de adeptos efetivamente praticantes, ou, simplesmente, de reformulações de igrejas e do aparecimento de novas, estas mais adaptadas aos “tempos modernos”.
João Montenegro

Um peso, duas medidas

Causa-me estranhamento, no entanto, ver tamanha reação quanto a esse comercial, quando há muitas outras peças publicitárias, a começar pelas veiculadas pelos fabricantes de cerveja, tão ou mais “ofensivas” que essa, no que se refere ao reforço do estereótipo da mulher como objeto sexual do marido, conforme alegou o governo federal. Isso sem contar os programas de auditório brasileiro que, desde sempre, ou, pelo menos, desde o Chacrinha – considerado um dos grandes comunicadores da TV brasileira –, mantêm mulheres de biquíni rebolando ao vivo para audiências de todas as idades.
João Montenegro

Egoísmo

Ao longo do tempo, no entanto, as pessoas aprendem a compartilhar e, graças à vida social, percebem que não é possível ter tudo o que querem no momento em que desejam. Além disso, sofrem consequências pelo mau comportamento de outros: na escola, uma turma inteira pode ser impedida de ir ao recreio pelo erro de uma só criança que não o admitiu publicamente; na vida adulta, somos restringidos pelo olhar da lei devido aos limites que precisam ser impostos por causa da irresponsabilidade de alguns.
João Montenegro

Corrupção sistêmica

O Brasil nasceu vendido duas vezes: primeiro, logo quando de seu descobrimento, por estar comprometido com o fornecimento de seus recursos naturais à metrópole (a troco de nada). Depois, em sua independência, quando foi obrigado a pagar à Inglaterra para ter sua soberania reconhecida – em consequência de dívidas econômicas e políticas de Portugal para com os britânicos
João Montenegro

O peso do voto

Assistindo ao teatro da “limpeza ética” no governo brasileiro, vemos reforçada a tese de que não reside exatamente no voto popular a responsabilidade pelo que ocorre nos corredores de Brasília e na Disneylândia das assembleias legislativas e câmaras municipais Brasil afora. Senão vejamos: o cidadão brasileiro vota, a cada quatro anos, em candidatos aos cargos de deputado estadual e federal, senador, governador e presidente. No entanto, quem nomeia os responsáveis pelos ministérios – pastas governamentais que administram serviços públicos da maior importância para o país – é o presidente, não o povo. E quem escala os secretários executivos, como o Sr. Frederico Silva da Costa, do Turismo, preso em recente operação da polícia federal, são os ministros. E assim segue até os mais baixos escalões do governo.
João Montenegro

Falem mal, mas falem de mim!

A crescente evidência do tema “homossexualidade” na agenda de discussões brasileira – seja pela natural evolução e consolidação de visões liberais e dos Direitos Humanos, seja pela organização de movimentos e passeatas relacionados à causa e consequente presença na mídia – vem gerando variados gêneros de resposta nos âmbitos político e social. A mais famosa das reações foi, possivelmente, a do Deputado Federal Jair Bolsonaro (PP-RJ) que, além de haver prestado declarações politicamente incorretas,
João Montenegro

Sem “heróis” para a Somália

Carente de governo, alimentos, segurança e sem perspectivas reais de mudanças, a Somália, que, no momento, enfrenta a pior seca dos últimos cinquenta anos não terá a mesma “sorte” de coleguinhas do grupo das calamidades terceiro-mundistas – inventadas ou não –, como Haiti, Iraque ou Afeganistão. Sem recursos naturais valiosos, tais qual o petróleo iraquiano e do próprio Afeganistão, ou posição geográfica de interesse estratégico, como no caso do Haiti, muito dificilmente os EUA ou alguma outra potência se prestará a “socorrer” o país africano.
João Montenegro

Luzes da enfermidade

Costumo associar aquelas fotos da Terra em que o planeta aparece recoberto por pequenos pontos de luz – cujos maiores focos representam as regiões mais “desenvolvidas” do mundo, principalmente no hemisfério norte – a um corpo enfermo; algo correspondente a uma imagem feita por microscópio de uma célula recoberta por bactérias ou infectada por algum tipo de vírus, pois, como se sabe, o estado natural do planeta não comporta dispositivos de iluminação que não o sol.
João Montenegro

Pasárgada

O mundo dos políticos brasileiros é mesmo fantástico; quase que uma realidade paralela, onde todos são amigos do rei, com o perdão do poeta. Na Pasárgada política brasileira, pune-se o “criminoso”, quando muito, com uma exoneração Midiática, espetacular. E, ainda assim, são sempre grandes as chances de retorno, com toda a pompa de direito.
João Montenegro

Máquina inchada x Estado mínimo

Em dez anos, a carga tributária do Brasil subiu cinco pontos percentuais do PIB. A observação foi feita por Míriam Leitão em programa na GloboNews (...). Ainda segundo a jornalista, entre os países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) – teoricamente os mais desenvolvidos do mundo –, o Brasil tem a 14º maior carga tributária, a frente de países como os EUA, Canadá e Espanha.
João Montenegro

Para além do bullying

Será mesmo que o bullying, termo da moda utilizado para designar perseguições e agressões psicológicas sofridas por crianças e adolescentes, está mesmo tão em voga que, dos anos 90 pra cá, vingar-se do cruel mundo em que vivemos, matando os colegas de escola e/ou faculdade, passou a ser mais comum? Seria, de fato, inquestionável que, até o fim do século passado, quando a expressão cunhada por especialistas era sequer conhecida, conflitos entre jovens em escolas e faculdades tinham menor intensidade?
João Montenegro

Sazomídia

Não há (tele)jornal, revista ou comercial que, em dias de esbórnia pagã, se atreva a deixar de mencionar em seu “enredo” algo sobre o carnaval. Seja em reportagens sobre as festas em todo o país e o êxtase geral – sentimento tão real quanto produzido e explorado pela mídia -, ou num comercial anunciando o “show de ofertas” do supermercado ao som de samba, o assunto carnaval está lá, firme e forte. Mas essa unitematização da pauta jornalística e publicitária é também recorrente em outras épocas do ano. A diferença, talvez, esteja no fato de que esses outros momentos não são tão relevantes para o jornalismo, com a exceção de matérias que fazem o balanço das vendas de ovos de chocolate, na páscoa, e bens de consumo em geral no dia das crianças, das mães, dos pais ou no natal
João Montenegro

Fim do show; hora do bode expiatório

Terminado o show de operações militares no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, após o qual, miraculosamente, todos os ataques terroristas cessaram (suspeito, não?), e o governo, como sempre, teve sua imagem fortalecida, “especialistas” começam a procurar razões fundamentais para explicar o problema da violência na cidade, principalmente no que tange ao tráfico de drogas.
João Montenegro

Mais do mesmo

Mais uma série de ações do crime organizado se abate sobre o Rio de Janeiro e, como sempre, nota-se mais do mesmo na reação de autoridades e população. Os primeiros, sobretudo para atrair visibilidade e mostrar trabalho, fazem incursões violentas nas comunidades carentes da cidade, tornando a vida dos moradores, que já é sofrida, ainda mais complicada. E que fique registrado: quando a onda de ataques do momento parar, todos os bandidos, armas e narcóticos apreendidos nessas áreas e exibidos na TV com o distintivo das delegacias à frente, estarão, como num passe de mágica, “regenerados” nas comunidades no dia seguinte, pois quem manda mesmo é o Capital e, claro, “time is money”.
João Montenegro

“Não é mais uma crítica de Tropa de Elite 2″

O filme já estreou faz quase três semanas, mas, ainda assim, acredito ser válido um breve comentário, não acerca de seu roteiro ou marcas ideológicas, mas quanto à reação de parte do público durante uma sessão de Tropa de Elite 2, abarcando ainda seus possíveis desdobramentos. Fico, antes de tudo, a lamentar profundamente o grau de ingenuidade e infantilidade de muitos dos espectadores do filme. É tragicômico notar como, ao início da trama, boa parte da platéia só faltava xingar o personagem do deputado que fazia de tudo para o Bope não sair matando os bandidos em Bangu I, e como, ao final, essas mesmas pessoas se davam conta de que o personagem era o verdadeiro herói da trama.
João Montenegro

Drogas sim e drogas não

Produtos inteiramente inseridos na celebrada lógica do consumo e busca pelo prazer, as drogas são uma consequência perversa do capitalismo, incorrigdrogasível estimulador daquele modelo de vida e bem-estar. A questão é que o que aparece nos comerciais é tão somente um ideal fantasioso em que todos consomem na justa medida o que quer que esteja sendo vendido. Senão vejamos: algum obeso aparece nos comerciais de verão do McDonald’s? Quantas barrigas de chop, acidentes de trânsito ou vidas destruídas são mostrados em anúncios de cerveja? Nas telenovelas, porém, aqueles que se aventuram pelas drogas ditas ilícitas acabam sempre no fundo do poço, como nas propagandas do Ministério da Saúde.
João Montenegro

Trabalho e trabalhos

É de praxe valorizar o Trabalho e qualidades geralmente associadas a essa atividade, como o esforço, a seriedade, a postura socialmente adequada, que contribuem de alguma forma para o bem estar coletivo. A princípio, nada mais justo, visto que a vida em sociedade, de fato, depende de uma série de serviços realizados em rede pelos indivíduos que a compõem.