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	<title>Debates Culturais - Liberdade de Idéias e Opiniões &#187; Gustavo Barreto</title>
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		<title>Violência sexual no México: indígenas exigem cumprimento de sentença contra o país</title>
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		<pubDate>Mon, 21 Nov 2011 03:02:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gustavo Barreto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Gustavo Barreto]]></category>

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		<description><![CDATA[Duas indígenas mexicanas tentam há décadas justiça contra seus agressores. Inés Fernández Ortega e Valentina Rosendo Cantú foram estupradas em 2002, em ataques diferentes, por soldados mexicanos. A violência sexual, entendeu uma corte internacional, foi praticada por agentes do Estado mexicano, em serviço. A impunidade persiste até hoje. Em agosto de 2010, as indígenas ganharam dois processos contra o Estado do México na Corte Interamericana de Direitos Humanos, órgão que interpreta e aplica a Convenção Americana de Direitos Humanos e outros tratados. Foi ordenado que o país fizesse uma investigação completa sobre o caso, bem como reparações e reformas no sistema judiciário militar.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Violência-sexual-no-México.jpg"><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Violência-sexual-no-México.jpg" alt="" title="InÃ©s FernÃ¡ndez Ortega and Valentina Rosendo CantÃº" width="179" height="159" class="aligncenter size-full wp-image-14748" /></a>Duas indígenas mexicanas tentam há décadas justiça contra seus agressores. Inés Fernández Ortega e Valentina Rosendo Cantú foram estupradas em 2002, em ataques diferentes, por soldados mexicanos. A violência sexual, entendeu uma corte internacional, foi praticada por agentes do Estado mexicano, em serviço. A impunidade persiste até hoje.</p>
<p><em>“É muito difícil denunciar, mas se ficamos caladas é ainda mais doloroso do que continuar lutando. Se seguimos lutando, temos a esperança de que algum dia os militares que nos estupraram serão punidos. Sei que há esperança, uma luz no fim do túnel”</em>, afirma uma delas à Anistia Internacional, que faz campanha por justiça, no vídeo abaixo.</p>
<p>Em agosto de 2010, as indígenas ganharam dois processos contra o Estado do México na Corte Interamericana de Direitos Humanos, órgão que interpreta e aplica a Convenção Americana de Direitos Humanos e outros tratados. Foi ordenado que o país fizesse uma investigação completa sobre o caso, bem como reparações e reformas no sistema judiciário militar.</p>
<p>A Anistia Internacional e entidades do México pedem a aplicação da sentença.</p>
<p>Acompanhe o caso <a href="http://www.amnesty.org/en/library/asset/AMR41/050/2011/en/d9f64926-4e42-4dcf-b1d9-fc714dbfd843/amr410502011en.pdf">aqui</a> e <a href="http://justiciaporinesyvalentina.wordpress.com/">aqui</a>. Outros casos <a href="http://www.amnesty.org/en/individuals-at-risk">aqui</a>.</p>
<p><strong>Texto publicado em 16/11/2011 às 09:40 na(s) seção(ões) Indígenas, Mundo da revista <a href="http://www.consciencia.net/violencia-sexual-no-mexico-indigenas-exigem-cumprimento-de-sentenca-contra-o-pais/">Consciencia.net</a>.</strong></p>
<p><em>*<strong>Gustavo Barreto</strong>, jornalista, radialista e produtor cultural, coordena a Revista <strong>Consciência.Net</strong>.</em></p>
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		<title>O casamento do príncipe William e o divórcio da razão</title>
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		<pubDate>Fri, 29 Apr 2011 03:03:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gustavo Barreto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Gustavo Barreto]]></category>
		<category><![CDATA[Príncipe William]]></category>
		<category><![CDATA[Reino Unido]]></category>
		<category><![CDATA[Somália]]></category>

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		<description><![CDATA[Parte da mídia internacional tenta estimar os custos do casamento do príncipe William, um garoto que é sustentado pelo povo britânico. Em média, calculam algo em torno de 40 milhões de dólares. Enquanto isso, a análise mensal do Escritório das Nações Unidas de Coordenação Humanitária (OCHA), de março de 2011, afirma que a ajuda humanitária para a Somália, país que sofre com conflitos em pelo menos três regiões (entre as quais a capital Mogadíscio), diminui 41% desde 2008.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/William.jpg" alt="William" title="William" width="253" height="199" class="aligncenter size-full wp-image-10976" />Parte da mídia internacional tenta estimar os custos do casamento do príncipe William, um garoto que é sustentado pelo povo britânico. Em média, calculam algo em torno de 40 milhões de dólares.</p>
<p>Enquanto isso, a análise mensal do Escritório das Nações Unidas de Coordenação Humanitária (OCHA), de março de 2011, afirma que a ajuda humanitária para a Somália, país que sofre com conflitos em pelo menos três regiões (entre as quais a capital Mogadíscio), diminui 41% desde 2008. Foram 429 milhões de dólares em 2008, 342 milhões em 2009 e 251 milhões em 2010.</p>
<p>Ficam comprometidos, por exemplo, os dias nacionais de imunização de cerca de 1.8 milhões de crianças com até cinco anos, realizados anualmente de 20 a 28 de março.</p>
<p>Outro relatório, também de março de 2011, também detalha estes custos, destacando quem são os doadores e o progresso das doações. O Reino Unido – cujo povo sustenta o casamento do príncipe com sua futura esposa – doou em 2010 apenas 28 milhões de dólares para a Somália. O relatório aponta ainda, por exemplo, que os EUA reduziram em 88% suas doações – de 237 milhões de dólares em 2008 para 29 milhões em 2010.</p>
<p>No total, há atualmente 2.4 milhões de pessoas que dependem desta ajuda humanitária – a maioria crianças que sofrem com problemas como malária e desnutrição. <a href="http://ochaonline.un.org/Default.aspx?alias=ochaonline.un.org/somalia">Você pode acessar aqui</a> as informações sobre estas pessoas.</p>
<p>No total, há atualmente 1.900 convidados para o casamento do príncipe William – a maioria adultos ricos que não sofrem problemas graves de saúde e contam com os melhores médicos do mundo. <a href="http://www1.folha.uol.com.br/mundo/906907-elton-john-esta-entre-convidados-do-casamento-real-veja-lista.shtml">Você pode acessar aqui</a> a lista de convidados deste casamento.</p>
<p><strong>Texto publicado em 26/04/2011 às 17:35 na(s) seção(ões) Opinião da revista <a href="http://www.consciencia.net/o-casamento-do-principe-william-e-o-divorcio-da-razao/">Conciencia.net</a>.</strong></p>
<p><em>*<strong>Gustavo Barreto</strong>, jornalista, radialista e produtor cultural, coordena a Revista Consciência.Net.</em></p>
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		<title>Eu, no mínimo, tomaria cuidado com um sujeito desses!</title>
		<link>http://www.debatesculturais.com.br/eu-no-minimo-tomaria-cuidado-com-um-sujeito-desses/</link>
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		<pubDate>Sun, 17 Apr 2011 03:02:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gustavo Barreto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Gustavo Barreto]]></category>

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		<description><![CDATA[Desde que Deus perdeu seu status de formulador único dos conceitos da maior parte das sociedades humanas, o sujeito (“Homem”, “ser humano”, “as pessoas”) é o centro de todas as atenções contemporâneas. No senso comum, a contraposição ao sujeito é o “objeto”. Na raiz latina (’objectu’) ou alemã (’Gegenstand’), é o que está posto adiante, tudo aquilo que é sensível, perceptível por qualquer dos sentidos humanos.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Abismo1.JPG" alt="Abismo" title="Abismo" width="257" height="220" class="aligncenter size-full wp-image-10813" />Desde que Deus perdeu seu status de formulador único dos conceitos da maior parte das sociedades humanas, o sujeito (“Homem”, “ser humano”, “as pessoas”) é o centro de todas as atenções contemporâneas. No senso comum, a contraposição ao sujeito é o “objeto”. Na raiz latina (’objectu’) ou alemã (’Gegenstand’), é o que está posto adiante, tudo aquilo que é sensível, perceptível por qualquer dos sentidos humanos.</p>
<p>Eis que surge um debate sobre o desarmamento que usa esse artifício cultural: quem é responsável pelas mortes a partir do uso de armas de fogo: o sujeito ou o objeto?</p>
<p>A resposta recorrente é o sujeito. É o que diz o argumento conservador, por exemplo, de que <em>“armas não matam pessoas, pessoas matam pessoas”.</em> Nada mais do que dizer: o sujeito é ativo e o objeto (técnico, pois apropria um saber secular, a técnica belicista) não faz nada sozinho – tal como seria absurdo (porém é constante) dizer que <em>“a Internet mudou o mundo”</em>. São as pessoas, sempre, claro, que mudam o mundo. E não Deus ou a tecnologia.</p>
<p>Paulo Freire dizia algo parecido: <em>“Educação não transforma o mundo. Educação muda pessoas. Pessoas transformam o mundo”.</em></p>
<p>O debate é, no entanto, falso. Pura filosofia para manipular desavisados (e, conforme alertaram no século XVIII, a filosofia pura é inútil). Quem questiona que somente sujeito, e não objeto, poderia agir conscientemente? Ninguém especificamente, mas certamente a ideologia hegemônica, que coloca na conta da “tecnologia” todas as mudanças da contemporaneidade. Daí surgem os que afirmam que as armas são objeto, e não sujeito, para se “contrapor” a esta ideologia tecnicista, com o objetivo de defender a ação armada por parte de civis.</p>
<p>Onde está o truque, portanto?</p>
<p>Está em colocar no mesmo nível todo e qualquer objeto técnico. “Arma”, “tecnologia”, “educação”. É tudo a mesma coisa, afirmam. O que está sendo dito é que não haveria nada de errado em encher o mundo de armas, desde que todos saibam usá-la. Supondo que todos os propósitos são corretos. Supondo que todos concordam com o que é correto. Supondo que… bom, para isso surge o contrato social. O Estado. A ordem social. O fracasso do liberalismo está na sua negação, no limite do argumento, do coletivo. Um argumento perfeito para a indústria bélica – que, entre outras façanhas, depositou 5,6 milhões de reais no referendo sobre o desarmamento de 2005, no Brasil, para fazer valer este argumento.</p>
<p>O mesmo vale para a educação, às avessas: todos podem tê-la (“educação universal”), desde que ninguém a use para pôr em prática ideias que estejam fora do padrão do capital, consumista e financeirista da vida. É a educação bancária da qual falava Freire. É a Discovery Kids ensinando matemática financeira para crianças de 0 a 4 anos.</p>
<p>O principal equívoco, no entanto, está na própria contraposição de objeto e sujeito. A arma é um objeto técnico que está naturalizado em nossa sociedade. Se existe, então sempre vai existir. Ocorre que a nossa “natureza” é mutável, diversa, histórica. O natural e o cultural se mesclam, bem como o sujeito e o objeto. O teste é de simples verificação: algumas pessoas são um sujeito ao volante e outro sujeito distinto fora do volante. A relação não é dicotômica (sujeitoXobjeto) e sim relacional (sujeito e objeto em constante interação social e cultural).</p>
<p>As armas são instrumentos de perpetuação da violência. Em uma sociedade estatutariamente violenta, isto é ainda mais verdade, por conta deste mecanismo relacional. As pessoas são os sujeitos. São elas que matam – e aí vem o esquecimento proposital: também são as que morrem, e não as armas. As armas, ao contrário, ficam “vivas”, visto que uma única arma pode matar várias pessoas, mas não é um ser vivo (e, portanto, não pode morrer, pois nunca nasceu). Nas mãos de crianças, maus policiais, assassinos em potencial, contrabandistas. Tanto faz. Sem elas, morre-se menos, por toda a subjetividade que nela reside – os sujeitos a desenvolveram para que cause a morte, e não para que distribua flores em um belo dia de sol.</p>
<p>Dois tipos de sujeitos defendem o contrário. Um dos sujeitos é social: a indústria bélica, que lucra não só com as mortes mas igualmente com a sensação de medo generalizada. O outro sujeito é uma espécie de arquétipo sublime da modernidade tardia: o liberal pleno. Este é dono de si e tudo pode resolver. Ele se alimenta bem e cuida de sua higiene como ninguém (para garantir sua saúde), é um autodidata (não precisa de mestres nem da educação formal) e pode inclusive matar, desde que ache necessário.</p>
<p>Eu, no mínimo, tomaria cuidado com um sujeito desses.</p>
<p><strong>Texto publicado em 08/04/2011 às 12:28 na(s) seção(ões) Cidadania, Opinião da revista <a href="http://www.consciencia.net/eu-no-minimo-tomaria-cuidado-com-um-sujeito-desses/">Consciencia.net</a>.<br />
</strong><br />
<em>*<strong>Gustavo Barreto</strong>, jornalista, radialista e produtor cultural, coordena a Revista Consciência.Net.</em></p>
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		<title>Uma visita a Friburgo</title>
		<link>http://www.debatesculturais.com.br/uma-visita-a-friburgo/</link>
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		<pubDate>Tue, 18 Jan 2011 02:03:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gustavo Barreto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Gustavo Barreto]]></category>

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		<description><![CDATA[Estive este final de semana em Friburgo, para localizar parentes que moram na Estrada do Amparo, a 4 km do centro. Faço algumas observações sobre a situação. Em Friburgo, o número oficial de vítimas na região, de pouco mais de 600 pessoas, é motivo de riso. “São 1.000 só em Friburgo, no mínimo”, afirma uma fonte que trabalha na busca de corpos. Não consigo entender a neurose em torno das “atualizações” constantes da imprensa em torno do número. Não seria melhor contar as histórias das pessoas?]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Friburgo01.jpg" alt="Friburgo01" title="Friburgo01" width="360" height="270" class="aligncenter size-full wp-image-9423" /><em>Acima, rua no centro de Friburgo.</em></p>
<p>Estive este final de semana em Friburgo, para localizar parentes que moram na Estrada do Amparo, a 4 km do centro. Faço algumas observações sobre a situação.</p>
<p><strong>1.</strong> Em Friburgo, o número oficial de vítimas na região, de pouco mais de 600 pessoas, é motivo de riso. <em>“São 1.000 só em Friburgo, no mínimo”</em>, afirma uma fonte que trabalha na busca de corpos.</p>
<p>Não consigo entender a neurose em torno das “atualizações” constantes da imprensa em torno do número. Não seria melhor contar as histórias das pessoas?</p>
<p><strong>2. </strong>A imprensa fez um trabalho péssimo. Passavam de helicóptero com o intuito exclusivo de mostrar desgraça – eu assisti essa lógica na Record e na Globo, ouvi relatos de outros. Os moradores querem saber:</p>
<p>(i) de onde falam;<br />
(ii) quem são as pessoas, a família, o sítio;<br />
(iii) de que forma podem ajudar, pois o momento é de crise.</p>
<p>Um helicóptero da Globo chegou a descer num local isolado e encontrou uma mulher em trabalho de parto. Pediram o veículo. A Globo cedeu, mas não sem explorar ao máximo o caso. Chegaram a entrevistar a mulher – repito, em trabalho de parto! – no caminho para o helicóptero.</p>
<p>A mulher sofria, soprava, e a repórter da Globo perguntava insistentemente: <em>“É menino ou menina? Qual o nome dela?”</em> e por aí vai. Jornalismo esgoto da melhor qualidade. É o que, via twitter, Isabella Lychowski (@be11a_) classificou como sadojornalismo.</p>
<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Friburgo02.jpg" alt="Friburgo02" title="Friburgo02" width="360" height="270" class="aligncenter size-full wp-image-9425" /><em>Acima, entrega de 300kg de donativos no posto comunitário da polícia, comprados pela Obra Lumen de Evangelização. A solidariedade foi o ponto positivo da crise.</em></p>
<p><strong>3. </strong>O cenário em Friburgo é desolador. Algumas pessoas desceram de carro só por curiosidade, uma atitude inacreditável. Há relatos de assaltos (mas nenhum arrastão, um dos mitos). Alguns comerciantes mereciam ser presos, vendiam caixas de leite a 7 reais, garrafa de água a 20. Eu fiquei deprimido em saber que existem pessoas assim, por mais que não seja uma novidade.</p>
<p>O boato da suposta barreira que teria cedido e estava prestes a inundar toda a cidade não fazia sentido, pois não havia sequer barreira no local apontado. O pior de todos os boatos era o de que uma creche com 60 crianças havia sido levada pela chuva. Outra mentira.</p>
<p>Os bombeiros fazem um excelente trabalho, mas imagine você o que é ficar retirando corpos o dia inteiro e não ter o seu trabalho reconhecido. O salário de policiais e bombeiros está entre os piores do Brasil, e o Governador se nega a apoiar a PEC 300. <em>“Os políticos vão para a TV falar do trabalho exemplar deles nestes momentos, mas em 3 anos meu marido recebeu aumento de 0,5%”</em>, me conta uma esposa de um bombeiro.</p>
<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Friburgo03.jpg" alt="Friburgo03" title="Friburgo03" width="360" height="270" class="aligncenter size-full wp-image-9429" /><em>Acima, uma casa de três andares está claramente em risco, próximo à Estrada do Amparo, mas moradores se negam a deixá-la.</em></p>
<p><strong>4.</strong> A demagogia do governador Sergio Cabral terá de ser registrada para a história: sua base eleitoral é uma das responsáveis pelo caos na questão da habitação. Não há política firme de combate à especulação imobiliária, uma das principais responsáveis pelo cenário visto em Friburgo e outras localidades. Ele denuncia o que ele mesmo representa: o político eleitoreiro.</p>
<p>Pessoas endinheiradas compram a seu bel prazer imóveis para lucrar futuramente (às vezes imediatamente), aumentando custos de locação e, consequentemente, expulsando a população mais pobre para as áreas de risco. O governo pode fazer algo imediatamente: IPTU progressivo para quem especula. Já dá certo em muitos lugares. Mas muita gente poderosa vai perder eleitor e dinheiro se fizer o correto. É melhor deixar morrer. A mídia pouco fala disso, só no momento da crise e olhe lá.</p>
<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Friburgo04.jpg" alt="Friburgo04" title="Friburgo04" width="360" height="270" class="aligncenter size-full wp-image-9430" /><em>Acima, região central de Friburgo.</em></p>
<p><strong>5. </strong>Inúmeros especialistas criticam a política urbana na área de moradia, apontando que a ênfase maior deve ser na organização do que já existe (áreas de risco, encostas etc) e no combate à especulação imobiliária. A presidenta Dilma não respondeu à seguinte questão: se o programa de habitação der todos os bilhões necessários para construção de novas casas, onde serão construídas? Sob qual critério serão cedidos os terrenos? Sob qual plataforma legal? A especulação será combatida?</p>
<p>Dilma chegou e saiu perdida da região serrana. Na correria, prometer bilhões e bilhões é fácil para qualquer governo federal. Mas para fazer o quê? Pouco foi dito sobre isso.</p>
<p>Além disso, é da base dela, Dilma, o relator do projeto de alteração do Código Florestal. As mudanças de responsabilidade do deputado Aldo Rebelo, que pertence a um partido dito “comunista” (o PcdoB), ampliam ocupações de áreas como as que conheci em Friburgo. Pretende, sem meias palavras, <em>“legalizar o que já é fato consumado”</em>, afirmam defensores das mudanças.</p>
<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Friburgo05.jpg" alt="Friburgo05" title="Friburgo05" width="360" height="270" class="aligncenter size-full wp-image-9431" /><em>Acima, moradias em encostas foram uma das causas da morte de mais de 1.000 pessoas na Região Serrana do Rio. O deputado Aldo Rebelo quer legalizá-las, a pedido do agronegócio e dos ruralistas. Se conseguir, preparemo-nos para a intensificação das tragédias.</em></p>
<p>Aldo Rebelo fecha com os ruralistas para vender essas áreas para o agronegócio – ele efetivamente negocia do lado dos ruralistas –, ataca o Greenpeace e outros movimentos sociais na luta contra o desmatamento e divulga em sua página artigo de gente como Denis Lerrer Rosenfield, “filósofo” gaúcho que, entre outras coisas, afirma que o Brasil não precisa de reforma agrária. Em outros tempos, Rosenfield só conseguiria publicar seus artigos em meios como <strong>VEJA</strong> e <strong>Estadão</strong>. Hoje está do lado de “comunistas” como Rebelo.</p>
<p>Se aprovadas, as alterações promoverão pelo menos mais 10 anos de tragédias como esta, ano após ano. Grande trabalho, deputado Rebelo. Procurado hoje o dia todo, Rebelo usou uma velha tática dos políticos da extrema-direita: <em>“Não foi encontrado”</em>, <em>“Não retornou as ligações”</em> e por aí vai.</p>
<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Friburgo06.jpg" alt="Friburgo06" title="Friburgo06" width="360" height="270" class="aligncenter size-full wp-image-9432" /><em>Acima, a força da água foi tão forte que as bombas do posto da Petrobras, no centro de Friburgo, não resistiram.</em></p>
<p><strong>6.</strong> Os governos preferem fazer o que sempre fazem: como existem muitos “responsáveis”, eles apontam as responsabilidades alheias. É claro que existem muitos moradores que insistem em ficar em área de risco.</p>
<p>O que não costumam comentar – imagine o leitor o porquê – é que seria necessário aumentar a fiscalização para lacrar essas casas em áreas de risco. Para isso, precisaria acabar também com os políticos que dão cobertura, em troca de voto. E são, veja só, estes mesmos governantes que fazem e fiscalizam as leis. Que coisa, não? Cabral é fruto dessa configuração política, e não um opositor, como gosta de se colocar.</p>
<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Friburgo07.jpg" alt="Friburgo07" title="Friburgo07" width="360" height="270" class="aligncenter size-full wp-image-9433" /><em>Acima, a maior parte das ruas em Friburgo precisa de apoio e está coberta de lama.</em></p>
<p><strong>7. </strong>Eu tenho muitas histórias horríveis de mortes de famílias, tragédias inacreditáveis. De que adianta contar? Eu não me formei jornalista para ficar tocando o terror. Se não tem qualquer informação válida, não tem porque noticiar.</p>
<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Friburgo08.jpg" alt="Friburgo08" title="Friburgo08" width="360" height="270" class="aligncenter size-full wp-image-9434" /><em>Acima, área de acesso à Estrada do Amparo e à Chácara do Paraíso, em Friburgo.</em></p>
<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Friburgo09.jpg" alt="Friburgo09" title="Friburgo09" width="360" height="270" class="aligncenter size-full wp-image-9435" /><em>Acima, área de acesso à Estrada do Amparo e à Chácara do Paraíso, em Friburgo.</em></p>
<p><strong>8.</strong> Uma curiosidade. Comentam em uma roda: <em>“Paulo Azevedo morreu”</em>. Umas quinze pessoas se alegram. Ele é ex-prefeito de Friburgo e o comentário é de que ficou rico com tragédia parecida em 2006 e assassinou um vereador à luz do dia (e não foi preso). Posso afirmar que todas as pessoas que conheci e visitei estão felizes com o acontecimento, <em>“uma notícia boa entre tantas ruins”</em>, comentam.</p>
<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Friburgo10.jpg" alt="Friburgo10" title="Friburgo10" width="360" height="270" class="aligncenter size-full wp-image-9436" /><em>Acima, área do acampamento da Assembleia de Deus, km 4 da Estrada do Amparo. Por lá também houve vítimas, cujos corpos estavam sendo resgatados dentro do possível pelos bombeiros.</em></p>
<p><strong>9.</strong> Existe uma consequência óbvia e uma consequência em geral ignorada.</p>
<p>A consequência óbvia é o risco de doenças, tema em que as autoridades sanitárias estão, ao que me pareceu, tratando bem.</p>
<p>A consequência em geral ignorada é o trauma. Depois de apenas um dia em meio à tragédia, não conseguia dormir. Cada vez que fechava o olho, começavam as imagens de terror a povoar a noite. Era estradas que caiam, corpos que sobrevoavam os sonhos, mantimentos destruídos e casas pegando fogo. <em>“Fiquei três dias sem dormir”</em>, conta uma moradora de uma área isolada.</p>
<p>A reação da maior parte das pessoas não é adequada (e nem poderia ser): alguns bebem, outros perdem o controle, outros vão jogar ‘video game’ ou tentar ocupar a mente de qualquer forma, isso mesmo em meio ao caos. Alguns reagem com maestria, ajudando quase que 24 horas por dia quem precisa, mas a maioria não consegue reagir imediatamente. É um momento de fato traumático. Não é nada fácil reagir. Aos poucos todos vão acordando do que parece ter sido um grande pesadelo.</p>
<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Friburgo11.jpg" alt="Friburgo11" title="Friburgo11" width="360" height="270" class="aligncenter size-full wp-image-9440" /><em>Acima, visão do carro em uma rua próxima à Estrada do Amparo, Friburgo. Esta região foi destruída e isolada, mas com menos vítimas do que em outros lugares. O bairro de Córrego Dantas, por exemplo, praticamente desapareceu.</em></p>
<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Friburgo12.jpg" alt="Friburgo12" title="Friburgo12" width="360" height="270" class="aligncenter size-full wp-image-9441" /><em>Acima, a mesma estrada.</em></p>
<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Friburgo13.jpg" alt="Friburgo13" title="Friburgo13" width="360" height="270" class="aligncenter size-full wp-image-9442" /><em>Acima, na região próxima à Estrada do Amparo, quase todas as famílias ficaram isoladas, sem luz, sem água e sem informação sobre o que estava acontecendo.</em></p>
<p><strong>10. </strong>Por fim, perceba que a crise expõe pelo menos uma situação: a sociedade sabe reagir. A solidariedade é gigantesca. Em poucas horas, o Brasil inteiro está doando todo tipo de recursos. Centenas de voluntários estendem as mãos. Bombeiros e outros agentes públicos, mesmo mal pagos, correm para socorrer vítimas e minimizar danos. Neste ponto, estamos bem.</p>
<p>O que devemos nos perguntar, no entanto, está relacionando ao que vem pela frente: além de reagir, saberemos agir para o bem comum? Mais do que na reação, é decisivo que a ação seja permeada de solidariedade. Principalmente na união contra os demagogos de sempre, que invariavelmente tentam se passar por redentores da pátria.</p>
<p>Outro ponto pertinente é pensarmos sobre as implicações ambientais ao qual todos nós estamos submetidos. É possível continuar “crescendo” do ponto de vista econômico sem levar em consideração os riscos ambientais que são inerentes à destruição do meio ambiente? Manteremos o mesmo padrão de consumo irresponsável?</p>
<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Friburgo14.jpg" alt="Friburgo14" title="Friburgo14" width="360" height="270" class="aligncenter size-full wp-image-9443" /><em>Acima, a empresa de energia fez um bom trabalho em Friburgo, após os deslizamentos.</em></p>
<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Friburgo15.jpg" alt="Friburgo15" title="Friburgo15" width="360" height="270" class="aligncenter size-full wp-image-9444" /><em>Acima, casa do governo próxima à entrada da Estrada do Amparo (RJ-150), em Friburgo. O acesso foi totalmente destruído.</em></p>
<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Friburgo16.jpg" alt="Friburgo16" title="Friburgo16" width="360" height="479" class="aligncenter size-full wp-image-9445" /><em>Acima, casa do governo próxima à entrada da Estrada do Amparo (RJ-150), em Friburgo. O acesso foi totalmente destruído.</em></p>
<p><strong>Texto publicado em 16/01/2011 às 22:33 na(s) seção(ões) Brasil, Opinião, Rio de Janeiro da revista <a href="http://www.consciencia.net/uma-visita-a-friburgo/">Consciencia.net</a>.</strong></p>
<p><em>*<strong>Gustavo Barreto</strong>, jornalista. Todas as fotos de minha autoria e todas as fontes de minha responsabilidade. Lembro que comentários podem ser feitos livremente, abaixo, sem censura. Contato pelo @gustavobarreto_.</em></p>
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		<title>Documentário expõe condições trabalhistas desumanas de cortadores de cana</title>
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		<pubDate>Tue, 11 Jan 2011 02:03:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gustavo Barreto</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Filme fruto de parceria entre quatro universidades federais mostra a hipocrisia do discurso da “modernidade” no campo brasileiro e expõe realidade dos migrantes nordestinos. (...) Do Piauí, do Maranhão e de outros Estados, migrantes brasileiros deixam suas famílias e “desabalam para São Paulo”. Vai todo mundo “pro corte de cana”. Seu Luiz, do município de Codó, no Maranhão, é um deles. <em>“Não sei se eu vou, não sei se eu não vou, meu Deus. Aí fica naquela, sabe? Mas que vai resolvendo eu ir”</em>, conta.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Cortador-de-cana.JPG" alt="Cortador de cana" title="Cortador de cana" width="260" height="208" class="aligncenter size-full wp-image-9248" />Filme fruto de parceria entre quatro universidades federais mostra a hipocrisia do discurso da “modernidade” no campo brasileiro e expõe realidade dos migrantes nordestinos. Obra de 2007 está agora disponível no YouTube.</p>
<p>Do Piauí, do Maranhão e de outros Estados, migrantes brasileiros deixam suas famílias e “desabalam para São Paulo”. Vai todo mundo “pro corte de cana”. Seu Luiz, do município de Codó, no Maranhão, é um deles. <em>“Não sei se eu vou, não sei se eu não vou, meu Deus. Aí fica naquela, sabe? Mas que vai resolvendo eu ir”</em>, conta.</p>
<p><em>“Por mim ele não ia não”</em>, conta a bem-humorada sogra de Luiz, Tereza. <em>“Eu acho dificultoso ele pra lá e nós pra cá. A mulher dele fica aí sofrendo”</em>. Quando foi pela primeira vez, ela completa, chegou <em>“magrinho, magro demais”.</em> Luiz argumenta: <em>“Na idade que eu tô, pra ir não é porque eu queira. É por necessidade. Porque se eu não ir, aqui não tem como me ajudar meus filhos. De maneira alguma”.</em></p>
<p>A dura realidade de Luiz e de outros milhares de cortadores de cana-de-açúcar é tema do documentário <strong>“Migrantes”</strong> (2007), fruto de uma parceria entre a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Universidade Federal do Piauí (UFPI) e Universidade Federal do Maranhão (UFMA). O documentário pode ser acessado desde novembro de 2010 na página de vídeos YouTube.</p>
<p>Esta é uma realidade pouco conhecida. Os jornais, TVs e revistas costumam destacar a “modernidade do campo” e o desenvolvimento agrário brasileiro – automatizado, justo e sem grandes problemas, cuja principal ameaça seriam os grupos de trabalhadores politicamente organizados. Um belo roteiro de ficção.</p>
<p>A realidade é o foco deste documentário. Entre outros assuntos, trata dos “grandes fazendeiros”, que cercam a terra, expulsam a população local e não deixam ninguém mais produzir – mas também não produzem. A consequência é conhecida dos pesquisadores e trabalhadores rurais: migração e aumento da miséria nas grandes cidades.</p>
<p>Outra realidade pouco destacada na grande imprensa não pode ser contabilizada: as famílias são despedaçadas. A busca pela sobrevivência dá lugar, nas cidades de origem, à saudade e à tristeza de viver em uma família sem pais ou irmãos. Ficam apenas as mulheres, crianças e aposentados. São filhas, mães, esposas, cada qual sofrendo à sua maneira.</p>
<p><strong>Desrespeito a direitos humanos mais básicos</strong></p>
<p>Em 2008, pesquisadores da Universidade Metodista de Piracicaba (UNIMEP) <strong><a href="http://www.ecodebate.com.br/2008/06/06/desgaste-fisico-diario-do-cortador-de-cana-e-igual-ao-de-maratonista/">observaram</a></strong> que o desgaste físico diário do cortador de cana é igual ao de um maratonista. Um estudo sobre o corte manual da cana-de-açúcar no interior paulista sobre a ergonomia no trabalho do cortador afirmou que em apenas 10 minutos esse trabalhador corta 400 Kg de cana, realiza 131 golpes de facão e flexiona o tronco 138 vezes.</p>
<p>A extenuante jornada não conta com repouso. O objetivo é quase sempre garantir a sobrevivência das famílias dos cortadores. No entanto, nestas “modernas” usinas os trabalhadores são obrigados a cortar no mínimo 10 toneladas de cana/dia para permanecerem empregados. Além disso, são submetidos a condições de trabalho análogas ao trabalho escravo, tal como o endividamento contínuo na fazenda.</p>
<p>Segundo outro estudo, <strong>“Por que morrem os cortadores de cana”</strong> (2006), a morte dos trabalhadores assalariados rurais cortadores de cana está relacionada ao pagamento por produção.</p>
<p>Para Francisco Alves, que também é um dos diretores do documentário e professor do Departamento de Engenharia da UFAScar, os processos de produção e de trabalho vigentes no Complexo Agroindustrial Canavieiro foram concebidos objetivando a produtividade crescente do trabalho e, combinados ao pagamento por produção, <em>“provocam a necessidade de os trabalhadores aumentarem o esforço despendido no trabalho”. “O crescimento do dispêndio de energia e do esforço para cortar mais cana provoca ou a morte dos trabalhadores ou a perda precoce de capacidade de trabalho”</em>, <strong><a href="http://www.scielo.br/pdf/sausoc/v15n3/08.pdf">escreveu</a></strong> Francisco Alves.</p>
<p>Para Beto Novaes, outro diretor e roteirista, o filme serve para preencher uma lacuna quanto ao conhecimento da realidade vivida por esses trabalhadores. <em>“Há muita desinformação das pessoas quanto ao tema. Muitas vezes, a realidade está ao lado, mas ‘banalizada’ e ‘naturalizada’ na interpretação cotidiana. Nossa intenção é transformar isso em indignação, estimular o debate, socializar as informações”.</em></p>
<p><strong>Sobre o filme</strong></p>
<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/filme_migrantes.jpg" alt="filme_migrantes" title="filme_migrantes" width="237" height="301" class="aligncenter size-full wp-image-9246" /></p>
<p>A direção do documentário <strong>“Migrantes”</strong> é de Beto Novaes, Francisco Alves e Cleisson Vidal, com edição de Luiz Guimarães. O filme, com cerca de 40 minutos de duração, teve apoio do Ministério da Educação e do Núcleo de Estudos Agrários e Desenvolvimento Rural (NEAD), vinculado ao Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) do Governo Federal. A produção é da MP-2.</p>
<p>Lançado no final de 2007, durante Encontro Anual da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs), também teve lançamentos regionais. Na Bahia, foi exibido no <strong>Encontro da Associação Brasileira de Estudos sobre Trabalhos</strong>; em Sergipe, num encontro de formadores da Contag; na Câmara Municipal de Piracicaba (SP), o lançamento teve a presença de representantes de 28 municípios da região, e foi transmitido pela TV Câmara; além de ser lançado na cidade de Santo André (SP); na Universidade Estadual Paulista (Unesp); e Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).</p>
<p>O documentário pode ser comprado através da editora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que participou do projeto por meio de seu Instituto de Economia. Os pedidos podem ser feitos ao e-mail fernanda@editora.ufrj.br. Também é possível assisti-lo no YouTube, abaixo, ou fazer o download <strong><a href="http://rainbowdocumentarios.blogspot.com/2010/04/migrantes-e-teatro-de-mamulengo.html">aqui</a></strong>, <strong><a href="http://www.globo-telaquentefilmes.com/2010/04/migrantes-2008-dvdrip.html">aqui</a></strong> ou <strong><a href="http://baixandonafaixa.blogspot.com/2010/04/documentario-migrantes.html">aqui</a></strong>.</p>
<p><strong>Texto publicado em 03/01/2011 às 09:09 na(s) seção(ões) Questão agrária da revista <a href="http://www.consciencia.net/documentario-expoe-condicoes-trabalhistas-desumanas-de-cortadores-de-cana/">Consciencia.net</a>.</strong></p>
<p><em>*<strong>Gustavo Barreto</strong>, jornalista, radialista e produtor cultural, coordena a Revista Consciência.Net.</em></p>
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		<title>Campanha internacional pede proteção dos Guarani-Kaiowá no Mato Grosso do Sul</title>
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		<pubDate>Wed, 05 Jan 2011 02:01:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gustavo Barreto</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Guarani-Kaiowá]]></category>
		<category><![CDATA[mato grosso do sul]]></category>
		<category><![CDATA[Povos indígenas]]></category>
		<category><![CDATA[violência no campo]]></category>

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		<description><![CDATA[Trinta e cinco famílias Guarani-Kaiowá da comunidade de Laranjeira Ñanderu, entre as quais cerca de 85 crianças, estão vivendo em tendas improvisadas à beira da movimentada rodovia BR-163, no Mato Grosso do Sul. As condições em que se encontram são deploráveis. Além de tudo, elas vêm enfrentando ameaças e intimidações de seguranças armados contratados por fazendeiros locais.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Índios.jpg" alt="Índios" title="Índios" width="265" height="190" class="aligncenter size-full wp-image-9142" />Trinta e cinco famílias Guarani-Kaiowá da comunidade de Laranjeira Ñanderu, entre as quais cerca de 85 crianças, estão vivendo em tendas improvisadas à beira da movimentada rodovia BR-163, no Mato Grosso do Sul.</p>
<p>As condições em que se encontram são deploráveis. Além de tudo, elas vêm enfrentando ameaças e intimidações de seguranças armados contratados por fazendeiros locais.</p>
<p>A Anistia Internacional está promovendo uma ação coletiva, que pode ser acessada <strong><a href="http://br.amnesty.org/?q=node/1175">clicando aqui</a>.</strong></p>
<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Guarani_Kaiowa-400x196.jpg" alt="Guarani_Kaiowa-400x196" title="Guarani_Kaiowa-400x196" width="400" height="196" class="aligncenter size-full wp-image-9141" /><em>Acima, a comunidade Laranjeira Ñanderu foi expulsa de suas terras ancestrais em setembro de 2009. Após a expulsão, o proprietário da terra ateou fogo às casas e aos pertences das famílias. Agora, elas vivem em condições precárias à beira de uma rodovia. Foto: Egon Heck/arquivo CIMI.</em></p>
<p><strong>Entenda o caso</strong></p>
<p>Em setembro de 2009, as famílias foram expulsas de suas terras tradicionais. A Polícia Federal, que supervisionou a expulsão, informou ao proprietário que a comunidade retornaria ao local para recolher os objetos que tiveram que deixar para trás. Porém, o proprietário incendiou as casas e todos os pertences dos moradores. Agora, a comunidade está vivendo em barracas de lona reta, num lugar em que as temperaturas ultrapassam os 30º C.</p>
<p>A área sofre constantes alagamentos e fica repleta de insetos e de sanguessugas. Segundo membros da comunidade, fazendeiros locais costumam circular com seus carros em alta velocidade pela rodovia, direcionando os faróis contra as barracas para intimidar a comunidade.</p>
<p>Aproximadamente 30 mil Guarani-Kaiowá vivem no estado de Mato Grosso do Sul, no centro-oeste brasileiro. Há mais de um século, suas comunidades vêm sendo expulsas de suas terras pela expansão da agricultura de larga escala – um processo que continua até hoje. Para as comunidades afetadas, as consequências podem ser devastadoras.</p>
<p>O fato de as autoridades brasileiras não assegurarem o direito à terra dos povos indígenas do Mato Grosso do Sul só faz aumentar as dificuldades econômicas e o deslocamento social das comunidades Guarani-Kaiowá. Atualmente, mais da metade dos jovens Guarani-Kaiowá se vê obrigada a percorrer distâncias longínquas dentro do estado para trabalhar como cortadores de cana nas plantações, geralmente em condições severas e exploradoras.</p>
<p>Na medida em que a mecanização toma conta do estado e que o processo de demarcação de terras continua paralisado, a luta dos Guarani-Kaiowá por seus direitos torna-se mais urgente do que nunca. O governo federal deve tratar com seriedade os compromissos que assumiu com os direitos humanos.</p>
<p>Sobretudo, o país deve resolver todas as reivindicações por terras ainda pendentes e assegurar que o consentimento livre, prévio e informado dos índios seja um objetivo a ser buscado e conquistado com relação a todas as decisões que afetem suas terras tradicionais.</p>
<p>Um caderno especial com todas as informações sobre os Guarani-Kaiowá desta região foi produzido pela Anistia Internacional e está disponível online. <strong>“Sabemos dos nossos direitos e vamos batalhar por eles. Direitos indígenas no Brasil – os Guarani-Kaiowá”</strong> é o título da publicação de novembro de 2010, contendo 16 páginas, que pode ser <strong><a href="http://br.amnesty.org/sites/default/files/br_3333_Brazil_Indig_CD_lo_final.pdf">acessada aqui</a></strong>.</p>
<p><strong>Texto publicado em 26/12/2010 às 20:20 na(s) seção(ões) Indígenas da revista <a href="http://www.consciencia.net/campanha-internacional-pede-protecao-dos-guarani-kaiowa-no-mato-grosso-do-sul/">Consciência.net</a>.<br />
</strong><br />
<em>*<strong>Gustavo Barreto</strong>, jornalista, radialista e produtor cultural, coordena a Revista Consciência.Net.</em></p>
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		<title>Santa Claus S.A.</title>
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		<pubDate>Fri, 31 Dec 2010 02:03:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gustavo Barreto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Gustavo Barreto]]></category>
		<category><![CDATA[Humor]]></category>
		<category><![CDATA[Natal]]></category>
		<category><![CDATA[Papai Noel]]></category>
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		<description><![CDATA[Refundado pela Organização Mundial do Comércio, o Natal pós-moderno permite que o bem estar chegue a todos os cidadãos do planeta, ao garantir que o décimo terceiro dos trabalhadores possa ser resgatado pelos patrões, donos de multinacionais. Dessa forma, como se sabe, os patrões poderão generosamente conceder mais benefícios, empregar mais pessoas e melhorar a bebida da festa de fim de ano.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/megan-fox-fuchsia-dress-257x400.jpg" alt="megan-fox-fuchsia-dress-257x400" title="megan-fox-fuchsia-dress-257x400" width="257" height="400" class="aligncenter size-full wp-image-9046" /><em>Acima, a modelo Megan Fox foi a escolhida pela Santa Claus S.A. para lançar a nova cor do Natal. Ela aceitou participar da ação por apenas U$5 milhões, em consideração ao clima de solidariedade e fraternidade que permeia o Natal.</em></p>
<p>Refundado pela Organização Mundial do Comércio, o Natal pós-moderno permite que o bem estar chegue a todos os cidadãos do planeta, ao garantir que o décimo terceiro dos trabalhadores possa ser resgatado pelos patrões, donos de multinacionais. Dessa forma, como se sabe, os patrões poderão generosamente conceder mais benefícios, empregar mais pessoas e melhorar a bebida da festa de fim de ano.</p>
<p>A crise financeira internacional de 2008 provocou importantes mudanças no Natal, que já este ano começou em novembro e terá um preço mínimo por presente, de acordo com a renda. Para facilitar a vida do cidadão, a Receita Federal adotará o e-Governo e publicará as novas regras num portal na Internet. Para garantir que os presentes fossem entregues a tempo, o governo federal dispensou o pregão eletrônico e contratou empresas ligadas a idôneas lideranças do PMDB.</p>
<p>A cor das festividades deste ano será o fuchsia, muito mais viva e moderna do que o anacrônico e ultrapassado vermelho.</p>
<p>Papai Noel, por sua vez, há muito não mora mais na Lapônia, tendo mudado seu escritório para o vigésimo sétimo andar de um arranha-céu na fífiti avenú. De lá, administra 36 filiais em todo o planeta, sendo que o atendimento em áreas mais pobres é realizado por telefone, por meio de empresas tailandesas terceirizadas.</p>
<p>A Santa Claus S.A. negou veementemente, na semana passada, qualquer indício de trabalho escravo. Informou ainda, por meio de sua assessoria em Genebra, que qualquer desvio ético ou socioambiental será punido com a rescisão do contrato por dois meses.</p>
<p>Já a Taiwan Klaus Company informou que desconhece os cerca de trezentos imigrantes vestidos de Papai Noel que trabalhavam em regime de semi-escravidão e não soube dizer porque todos eles estavam com uma marca da empresa em suas mãos.</p>
<p>Em Nova York, a Santa Claus S.A. continua a gerar cada vez mais empregos diretos e indiretos, o que tem agradado o presidente Barack Obama no esforço de reerguer a economia americana. O primeiro presidente negro de toda a História dos EUA fez questão de comparecer à abertura oficial do Natal, que ocorreu no mês passado em Las Vegas.</p>
<p>O negócio cresceu tanto que, este ano, foi cogitada a possibilidade de o coelhinho da Páscoa pedir concordata ou, ainda, ter sua empresa comprada pela Santa Claus S.A.</p>
<p>O Conselho Econômico do Senado questionou, em outubro deste ano, o fato de a holding deter 96% do setor e pediu esclarecimentos ao seu diretor, que atualmente reside em Paris. Devido à proximidade das atividades deste ano, Santa Claus declarou que não poderia comparecer a nenhuma das 6 audiências públicas sobre o tema.</p>
<p>John Clark, diretor do Departamento de Relações Públicas da empresa, informou durante coletiva de imprensa em Londres que o Natal deste ano será sobre solidariedade, com o slogan <strong>“Paz e fraternidade: fazer o bem faz bem”</strong>.</p>
<p><strong>Texto publicado em 21/12/2010 às 10:52 na(s) seção(ões) Opinião da revista <a href="http://www.consciencia.net/santa-claus-s-a/">Consciencia.net</a>.</strong></p>
<p><em>*<strong>Gustavo Barreto</strong>, jornalista, radialista e produtor cultural, coordena a Revista Consciência.Net.</em></p>
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		<title>A estupidez. O horror. A barbárie. A guerra</title>
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		<pubDate>Mon, 27 Dec 2010 02:03:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gustavo Barreto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Gustavo Barreto]]></category>
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		<description><![CDATA[Entre outras informações, o WikiLeaks ajudou a divulgar um manual utilizado pelas tropas dos EUA que ensinava como humilhar e torturar seus detentos, de modo que revelassem informações para os americanos. Revelou ainda, por meio de um relatório confidencial de 2006, que a empresa multinacional Trafigura despejou resíduos tóxicos na Costa do Marfim, causando danos à saúde de dezenas de milhares de pessoas.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Guerra1.JPG" alt="Guerra1" title="Guerra1" width="225" height="225" class="aligncenter size-full wp-image-8978" /><em>– Julian, bem vindo. Foi noticiado que o WikiLeaks liberou mais documentos confidenciais do que toda a mídia mundial, junta. Isso não poderia ser verdade.</p>
<p>– Sim, não pode ser verdade. É preocupante, não é mesmo? Que toda a mídia mundial esteja fazendo um trabalho tão ruim. Que um pequeno grupo de ativistas possa ter liberado mais deste tipo de informação do que toda a imprensa mundial.</em> (Trecho do documentário <strong>‘Wikirebels’</strong>)</p>
<p>A estupidez. O horror. A barbárie. A guerra. A corrupção. Os crimes contra a Humanidade. Aqueles que, neste exato momento, desqualificam o trabalho do <strong>WikiLeaks</strong> não têm coragem, ou competência, para enxergar os documentos agora expostos. Estão aqui, abaixo. Não continue se não tiver estômago. <em>“Eu comecei a chorar, como fazem todas as pessoas que assistem ao filme”</em>, afirma uma jornalista da Islândia.</p>
<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Barbárie.JPG" alt="Barbárie" title="Barbárie" width="400" height="243" class="aligncenter size-full wp-image-8980" /></p>
<p>Os crimes estão expostos. Americanos que matam sem qualquer motivo. Inocentes. Crianças. Os documentos foram expostos. As cenas gravadas. O crime contra a Humanidade documentado, vazado, exposto. Assista aos documentários abaixo e tire sua própria conclusão.</p>
<p>E o que discutimos? Se é “correto” divulgar. Se Julian Assange é um estuprador ou não. Se ele é uma “ameaça”. Só há duas hipóteses para iniciar o debate nestes termos: ou você é ignorante, ou apoia tais crimes.</p>
<p>Entre outras informações, o <strong>WikiLeaks</strong> ajudou a divulgar um manual utilizado pelas tropas dos EUA que ensinava como humilhar e torturar seus detentos, de modo que revelassem informações para os americanos.</p>
<p>Revelou ainda, por meio de um relatório confidencial de 2006, que a empresa multinacional Trafigura despejou resíduos tóxicos na Costa do Marfim, causando danos à saúde de dezenas de milhares de pessoas. Assange <strong><a href="http://mirror.wikileaks.info/wiki/Ivory_Coast_toxic_dumping_report_behind_secret_Guardian_gag/">denunciou ainda, à época, uma mordaça</a></strong> imposta à mídia do Reino Unido.</p>
<p>Outro escândalo revelado foi a corrupção no sistema financeiro da Islândia, em 2008, causando sérios danos à economia do país. Em 9 de outubro de 2008, o Kaupthing Bank HF foi forçado à falência pelo governo – poucos dias após uma crise no Landsbanki ter o levado ao controle do governo. Devido à crise, que afetou todo o sistema financeiro islandês, todas as negociações nos mercados de capital do país foram suspensas em 13 de outubro de 2008.</p>
<p>No dia 29 de julho de 2009, no entanto, o <strong>Wikileaks</strong> <strong><a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Kaupthing_Bank">expôs um documento confidencial</a></strong> de 210 páginas revelando que o Kaupthing fez <strong><a href="http://icelandtalks.net/?p=535">empréstimos entre 45 milhões e 1.250 bilhões de euros</a></strong>. O documento vazado pelo site revelou que o banco havia emprestado bilhões de euros para os seus maiores acionistas, incluindo um total de 1.43 bilhões de libras para uma das maiores empresas do setor financeiro no país, a Exista, e filiais que possuem 23% do banco. Após a revelação, executivos foram presos e a <strong><a href="http://thelede.blogs.nytimes.com/2010/06/17/victory-for-wikileaks-in-icelands-parliament/">legislação pró-liberdade de imprensa evoluiu</a></strong>, se tornando um exemplo para o mundo.</p>
<p>Um dos mais espantosos vazamentos mostram cenas semelhantes às verificadas nas forças nazistas e fascistas do século XX: soldados norte-americanos matam a sangue frio, a partir de helicópteros, civis inocentes – incluindo dois repórteres da Reuters. <em>“Você de fato vê nos relatos crianças sendo torturadas até a morte. Não é algo que se pode ler sem se afetar pelo que se está lendo”</em>, diz um dos editores dos documentos da guerra do Iraque, em Londres. <em>“A falta de respeito pela vida humana corre normalmente em todo o material”</em>, aponta um documentarista.</p>
<p>Em um trecho, um helicóptero atiraria em um prédio vazio para destruí-lo. Subitamente, um homem se aproxima e passa pela calçada. Os militares americanos poderiam ter esperado. Eles não esperam. Em outro, um homem dentro de um carro é perseguido pelos militares no helicóptero. O homem sai e claramente se rende, de mãos para cima, deitado no chão. Os militares atiram.</p>
<p>Esses dados graves, que tiraram milhares de vidas em todo o mundo, são tidos por alguns analistas como “fofoca”.</p>
<p>Em outro filme – que também documenta com precisão o tema -, aos 17 minutos, é revelado que o jornal americano <strong>The Washington Post</strong> sabia das graves violações dos soldados americanos. E nada publicaram. O documentário foi produzido pela <strong>ABC Australia</strong> e distribuído pela <strong>Journeyman Pictures</strong> (<strong><a href="http://www.youtube.com/watch?v=kCmjmDXp7TI">assista clicando aqui</a></strong>).</p>
<p><strong>Texto publicado em 16/12/2010 às 19:12 na(s) seção(ões) Mundo, Mídia, Opinião da revista <a href="http://www.consciencia.net/a-estupidez-o-horror-a-barbarie-a-guerra/">Consciencia.net</a>.</strong></p>
<p><em>*<strong>Gustavo Barreto</strong>, jornalista, radialista e produtor cultural, coordena a Revista Consciência.Net.</em></p>
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		<title>Camisinha de Platão</title>
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		<pubDate>Sat, 18 Dec 2010 02:03:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gustavo Barreto e Renato Kress</dc:creator>
				<category><![CDATA[Gustavo Barreto]]></category>
		<category><![CDATA[Renato Kress]]></category>

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		<description><![CDATA[Na política, temos a impressão de que boa parte de nossa História pode ser analisada do ponto de vista do “façamos a revolução antes que o povo a faça”. Nestes momentos, a classe dominante percebe que o poder estabelecido passa por uma crise e vê a necessidade de realizar uma simulação de mudança de rumo apenas para manter tudo como está. Esta apropriação do discurso de contraposição à hegemonia dominante obtém sucesso por conta de um fator que é entendido e utilizado por qualquer corrente de pensamento representativa: a coesão.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Platão.jpg" alt="Platão" title="Platão" width="266" height="190" class="aligncenter size-full wp-image-8869" />Na política, temos a impressão de que boa parte de nossa História pode ser analisada do ponto de vista do <em>“façamos a revolução antes que o povo a faça”</em>. Nestes momentos, a classe dominante percebe que o poder estabelecido passa por uma crise e vê a necessidade de realizar uma simulação de mudança de rumo apenas para manter tudo como está.</p>
<p>Esta apropriação do discurso de contraposição à hegemonia dominante obtém sucesso por conta de um fator que é entendido e utilizado por qualquer corrente de pensamento representativa: a coesão.</p>
<p>O discurso progressista sob a óptica dos conservadores difunde-se necessariamente com a ajuda de reprodutores de informação que não se dão o trabalho de pensar e que, no entanto, são tidos equivocadamente como ‘formadores de opinião’.</p>
<p>Freud foi e é um dos pensamentos mais ‘estuprados’ de todos os tempos, e apenas a união de muitas pessoas pode explicar como uma única pessoa pôde ser tão mal interpretada como ele é. O freudiano acéfalo pensa que nossa sociedade é demasiadamente sexualizada, mesmo que Freud seguramente discordasse deste ponto de vista, já que para o autor a palavra certa seria ‘genitalizada’. O foco estaria muito provavelmente no fetiche da genitália, não sobre uma questão de gênero.</p>
<p>Esta é apenas uma ilustração que se assemelha a uma partícula de água em um mar de difusões equivocadas – se o prezado leitor quiser alcançar as raias da loucura interpretativa pode simplesmente penar um pouco sobre Marx, o “jovem” Marx, o Marx “maduro” e as diversas correntes do Marxismo, Marxianismo, Rosa Luxemburgo, Stálin, Lênin, Gramsci e outras beldades da sociologia –, iniciadas por pessoas de má-fé ou com posições díspares e impulsionada por gente que está mais preocupada em ter opinião do que formular uma.</p>
<p>Essa poderosa fórmula é capaz de se apropriar de qualquer autor, em qualquer momento da História, já que esconde ao máximo pensamentos dissidentes e, quando foge do controle, toma o raciocínio como seu, adequando-o à lógica vigente.</p>
<p>Faz-se um simples jogo de cortar e colar que nos ensinam nas academias, o famoso ‘recorte epistemológico’, que acaba sendo utilizado como uma ferramenta de manipulação do pensamento de determinado autor até que corresponda ao interesse do discurso hegemônico. Conta para isso com uma legião de ‘formadores de opinião’ vaidosos demais para aceitar que podem estar defendendo posição alheia sem perceber.</p>
<p>Nosso sistema de conhecimento sempre nos parece sistemático, provado, aplicável e evidente, pois é nosso. Por outro lado, todo e qualquer sistema alheio é contraditório, não provado, inaplicável, irreal ou místico, já dizia Fleck. É aqui que percebemos o quanto somos arrogantes.</p>
<p>Citando H.C.Beeching: <em>“Primeiro eu; meu nome é Jowett. Não há conhecimento senão o meu. Sou o senhor desta escola. O que eu não conheço não é conhecimento”.</em></p>
<p>Neste contexto está a importância do ego, em oposição ao coletivo. Me reconheço ‘eu’ por ser um ‘não-outro’. O excesso de individualismo hoje percebido não é uma característica em si, mas em parte um artifício para manter as pessoas afastadas de quase tudo o que já foi dito, fazendo acreditar de forma fantasiosa que podemos ser originais em um planeta cuja História do Conhecimento está muito além da nossa percepção, mesmo que voltemos nossas vidas apenas para a reflexão.</p>
<p>Esta riqueza é responsável pela máxima de que quanto mais aprendemos, menos sabemos. <em>“Na vida, o que aprendemos mesmo é a sempre fazer maiores perguntas”</em>, já dizia Guimarães Rosa.</p>
<p>Para além do ceticismo acadêmico, cabe lembrar que grandes pensadores foram responsáveis pela abertura de brechas importantes que mantiveram a dissidência viva e realizaram importantes avanços na História, apesar de todo o retrocesso.</p>
<p>Ou: quando sentir vontade de opinar, faça uma pausa e ponha seu cérebro para funcionar. Palavras mal utilizadas apenas o fazem um fantoche de sabe-se lá quem.</p>
<p><strong>Texto publicado na revista <a href="http://www.consciencia.net/2004/mes/03/kress-barreto.html">Consciencia.net</a> em 18/03/2004.</strong></p>
<p><em>*<strong>Renato Kress</strong> é escritor, autor de <strong>&#8220;Consciência&#8221;</strong> (Garamond, 2000) e editor da revista <a href="http://www.consciencia.net">Consciência.Net</a> [renatokress@consciencia.net]</p>
<p>*<strong>Gustavo Barreto</strong> é editor da revista <a href="http://www.consciencia.net">Consciência.Net</a> e mestrando de Comunicação Social da UFRJ. [gustavo@consciencia.net] </em></p>
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		<title>Você trocaria um parente por duas toneladas de maconha?</title>
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		<pubDate>Sun, 28 Nov 2010 02:17:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gustavo Barreto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Gustavo Barreto]]></category>

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		<description><![CDATA[Existem algumas afirmações que são difíceis de serem contestadas. Por que muitos militantes pelos direitos humanos condenamos o que o Secretário de Segurança do Rio José Mariano Beltrame e o Governador Sergio Cabral insistem em chamar de “efeito colateral”? Por um simples motivo: Para quê a Polícia Militar e seus grupos especiais (como o BOPE) “reagem” a incursões dos traficantes “na mesma moeda”? Por que, para resumir o argumento repetido insistentemente sem qualquer reflexão, “os ataques precisavam de resposta” por parte do Estado? O que seria uma “resposta” a queimas de carros pela cidade? Por que simplesmente esquecer o trabalho de “inteligência” – que, lembremos, não é entrar atirando em favela – e partir para a velha política burra de confronto, pondo em risco centenas de pessoas inocentes?]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Guerra-contra-o-narcotráfico.jpg" alt="Guerra contra o narcotráfico" title="Guerra contra o narcotráfico" width="400" height="266" class="aligncenter size-full wp-image-8687" /><em>Apesar de o narcotráfico movimentar, segundo dados conservadores, mais de US$ 400 bilhões todo ano, os governantes do Rio de Janeiro ainda creem que o problema está na favela.</em></p>
<p>Nesta quinta-feira (25/11), uma notável apresentadora da GloboNews, em meio ao cenário de violência veiculado pela sua emissora, questiona um “especialista” em segurança pública:</p>
<p><em>– O morador que acaba tendo sua casa invadida, que eu entendo que não é cúmplice, não acaba se tornando cúmplice?</em></p>
<p>O entrevistado, visivelmente constrangido, responde:</p>
<p><em>– Claro que não, este cidadão é refém.</em></p>
<p>Entendo que um exemplo pode demonstrar muito ou ser usado de forma manipuladora. Mas argumento: este é um momento clássico, comum, em que meios de comunicação buscam criminalizar a pobreza. Eu não preciso argumentar que, caso fosse a casa da própria apresentadora a ser invadida, ela seria refém. Como trata-se de um morador da Vila Cruzeiro, região sem a mínima atenção do Estado em áreas sociais, trata-se de um “cúmplice”. Como jornalista, já ouvi muito essa premissa.</p>
<p>Ela continua, pouco depois, e declara em mais uma “pergunta”:</p>
<p><em>– Eles têm que entrar atirando, porque eles não podem entrar pedindo licença.</em></p>
<p>No Brasil, como (ainda) existe Estado de Direito, a mal informada apresentadora precisa saber que é uma obrigatoriedade constitucional “pedir licença”. É como fizeram, por exemplo, com o banqueiro Daniel Dantas. Pediram licença e gentilmente algemaram ele.</p>
<p>Outro fator que podemos apontar como curioso não se dá exatamente pelo que foi dito, e sim pelo não-dito, o não-visível: o número de moradores de favelas convidados para as mesas redondas na TV nesta semana foi zero. Convidados são os notáveis “especialistas”, quase todos moradores da Zona Sul, ou autoridades da Polícia ou do Estado (todos da área de segurança). É sintomático.</p>
<p>Existem algumas afirmações que são difíceis de serem contestadas. Por que muitos militantes pelos direitos humanos condenamos o que o Secretário de Segurança do Rio José Mariano Beltrame e o Governador Sergio Cabral insistem em chamar de “efeito colateral”? Por um simples motivo: Para quê a Polícia Militar e seus grupos especiais (como o BOPE) “reagem” a incursões dos traficantes “na mesma moeda”? Por que, para resumir o argumento repetido insistentemente sem qualquer reflexão, “os ataques precisavam de resposta” por parte do Estado? O que seria uma “resposta” a queimas de carros pela cidade? Por que simplesmente esquecer o trabalho de “inteligência” – que, lembremos, não é entrar atirando em favela – e partir para a velha política burra de confronto, pondo em risco centenas de pessoas inocentes?</p>
<p>Devemos pensar o tema de acordo com os argumentos declarados e os não-declarados:</p>
<p><strong>Os declarados</strong> são o de que o Estado, “acuado” pelos ataques, tem um dever quase que “moral” de contra-atacar. É algo simbólico, porque a princípio bastaria reforçar o policiamento (com foi corretamente feito) e dar continuidade às investigações silenciosas da inteligência policial, que são muito mais efetivas. Por que sair correndo atrás de traficantes, com todo o tipo de recursos e de forma apressada?</p>
<p><strong>Os não-declarados</strong> são parecidos com o primeiro: ao reagir imediatamente, a Polícia precisa voltar com alguma coisa concreta – daí surge a importância de manchetes como “Duas toneladas de maconha apreendidas” – para dar algum tipo de satisfação à sociedade, que também não apoia plenamente a tática do “mata-esfola”. Eles precisam “mostrar trabalho”, mesmo que o próprio Secretário admita que isso não resolve o problema estrutural.</p>
<p>Perguntemos, agora, às centenas de vítimas da violência policial como se sentem ao esperarem que o Estado faça seu trabalho de dar soluções sociais para problemas sociais e serem recebidos com balas, com tiros e ficarem no meio de um tiroteio. Como se sentem? Não sabemos, porque eles não participam das mesas redondas. Só os “especialistas”.</p>
<p><strong>Creio que é fácil a resposta a esta pergunta. </strong>Todos os críticos cínicos nunca aceitariam, é evidente, que a polícia entrasse em suas regiões atirando. Não é preciso muito esforço “filosófico” para entender isso, não é mesmo? Se amanhã o BOPE – que credita oficialmente boa parte da culpa do narcotráfico aos usuários – decidisse entrar num condomínio da Barra da Tijuca atirando, pois ali moram centenas de usuários de maconha e outras drogas pesadas, a “comunidade local” permitiria? Então cá estamos, de novo, confrontados com hipócritas que não prezam pelo tão antigo mandamento da reciprocidade, um dos poucos conceitos comuns a todas as filosofias: Deseja para o teu próximo o que deseja para ti mesmo.</p>
<p>A “sede” por uma “resposta” é típico daqueles que são histéricos pelos motivos que já coloquei na primeira análise desde que teve início a atual crise (disponível aqui): aos se esquecerem completamente do problema, se veem diante de um novo monstro a cada crise e desejam, assim, uma solução rápida para que eles desapareçam. Quem é contra este tipo de dogma é “esquerdista”, “filósofo” etc, mesmo que tenha uma forte atuação social. Neste caso, não se trata de criticar a ação social em si, e sim de desqualificar um discurso indesejado.</p>
<p><strong>O real e a percepção do real</strong></p>
<p>Um dos mais claros indícios de que a mídia de fato vende bem seu “peixe da histeria coletiva” – o novo peixe urbano – é a impressão de que o número de arrastões têm aumentado, pelo fato de que o número de arrastões na Zona Sul aumentou. Quem mora ou já morou nas zonas Norte e Oeste da cidade do Rio de Janeiro sabe que esta é uma realidade cotidiana de alguns trechos e rodovias, como a Estrada Grajaú-Jacarepaguá, a Avenida Leopoldo Bulhões e tantas outras.</p>
<p>A diferença é que neste momento dois dos pontos focais foram a região da Lagoa e de Laranjeiras/Botafogo. Até hoje, veja só, as pessoas bem nascidas ainda ligam a palavra “arrastão” a “praias”, pela série de incidentes ocorridos há não muito tempo. Para uma outra parte da cidade, aquela que está longe das praias ‘pops’, a referência é outra.</p>
<p>O cenário seria outro se o jornalismo desonesto atualmente praticado no Brasil fosse substituído pelo jornalismo investigativo, que daria uma “resposta” mais inteligente. Digamos que eu sugerisse às grandes emissoras de TV que começassem uma investigação sobre quem são os financiadores do crime organizado, e que fizesse uma cobertura permanente sobre isso, com helicópteros sobrevoando a casa de empresários e políticos ligados ao narcotráfico e eventualmente descobertos. Os homens do andar de cima. Gente inclusive eleita no último pleito. São nomes que estão expostos em dezenas e dezenas de relatórios na própria Polícia, na Assembleia Legislativa, nos órgãos de controle interno. Façamos?</p>
<p><strong>O curioso da reação</strong> à nossa perene e humilde tentativa de argumentar que o verdadeiro crime organizado não está nas favelas é típico de uma época destinada a viver entre eufemismos e sofismas: todos concordam com a afirmação, mas os mais conservadores continuam apoiando a entrada violenta da Polícia na favela, mesmo que isso custe a vida de inocentes. O nobre leitor trocaria um parente por duas toneladas de maconha? Trocaria uma filha, uma mãe?</p>
<p>No que diz respeito à influência da comunicação neste processo, a ideia generalizada de que a “culpa” pode ser ora (I) da Polícia ora (II) da mídia tem a ver com o modelo midiático no qual estamos acostumados, que sugere que há um receptor e um emissor, e a relação entre estes deve ser discutida nestes termos.</p>
<p>A “realidade” é uma composição complexa entre a realidade “das ruas” e as mensagens emitidas pela mídia, uma influenciando a outra. Isto não é algo difícil de entender, visto que estamos passando neste momento por um notável exemplo. Enquanto escrevo, muitas áreas da cidade estão esvaziadas por conta do toque de recolher espontâneo, mesmo que os incidentes não tenham afetado nem 10% do Rio de Janeiro (10% é na verdade um exagero meu), e mesmo assim quase que sem vítimas (a maioria dos incidentes são queimas de automóveis sem perdas humanas, e nenhum morador da Lagoa ou das Laranjeiras morreu).</p>
<p>Entender o cenário é, neste sentido, tão importante quanto agir. Cada pessoa – incluindo aí todos os “filósofos”, policiais, políticos etc – tem um nível de contribuição diferente, mas notavelmente há pessoas designadas (por meio de competências administrativas legais) para resolver estes problemas. Este é o jogo da democracia. Cobrar – como faço – é um exercício que se espera de todo e qualquer cidadão. Mas, como já disse, encarar críticas duras contra um determinando modelo excludente e fascista de governar (quando é pobre atira, quando é rico investiga) não é fácil. Daí as reações do tipo “Você é um filósofo”, “Você só sabe criticar” etc.</p>
<p>As alternativas a este modelo tem sido colocadas por distintos atores sociais e estão em parte sendo efetivadas, em parte não. E há problemas graves. Por pontos:</p>
<p><strong>1. O objetivo de pacificar determinadas regiões</strong> e não outras é claríssimo: a violência evidente que existia na favela Santa Marta (por exemplo) e a proximidade desta com áreas turísticas fez com que o Governo do Estado visse o morro como estratégico para convencer autoridades internacionais de que o Rio de Janeiro era capaz de sediar grandes eventos. Isso não é dito por mim, e sim pelo próprio Secretário de Segurança, que declarou que o Santa Marta foi a favela-padrão exibida para membros do COI, por exemplo, para ganhar o direito de sediar as Olimpíadas.</p>
<p><strong>2. O modelo das UPPs</strong>, como falei, é um modelo de polícia comunitária, que o Governo do Estado tem toda a capacidade de estudar (por meio de institutos de pesquisa e parceria com universidades), para tentar integrá-lo ao conjunto de ações. É disso que se trata: a polícia deve ser comunitária, e não existir uma “polícia comunitária” versus a polícia-polícia. Esta é a realidade atual: duas polícias coexistem e agem de modo esquizofrênico.</p>
<p><strong>3. A polícia comunitária possui três características básicas:</strong> (I) A aproximação com a sociedade; (II) A valorização do policial (salário, preparação, atendimento de reivindicações de classe); e (III) Controle social.</p>
<p>No primeiro tópico, o avanço é mínimo, restrito às 13 UPPs (e mesmo assim há críticas em algumas delas pelo baixo grau de participação). No segundo, nem se fala: salários baixíssimos, estruturas de trabalho ruins (como foi exposto no artigo) e treinamento insuficiente para a maior parte das tropas (nesse caso seria necessário ouvir líderes trabalhistas da classe, o que é raro, perceba). No terceiro item, estamos falando da Ouvidoria da PM, cuja qualidade é sofrível (vide reclamações das vítimas da violência policial sobre instalação dos inquéritos policiais, os IPMs).</p>
<p><strong>4. Por último, por ser o mais importante: a favela é um problema social.</strong> A falta de estrutura na educação e na saúde dentro da favela, unido ao desrespeito aos pisos salariais e poucos incentivos de formação a profissionais, acaba por reforçar o papel dos criminosos, que se inserem justamente onde não há Estado.</p>
<p>Novamente, todos concordam com essa máxima, mas na hora de exigir escolas públicas de qualidade nas favelas, a bem educada “comunidade” do asfalto da Zona Sul deixa a histeria de lado e continua a beber seus vinhos importados e frequentar seus teatros e shows internacionais.</p>
<p>De modo que, pelo que foi exposto aqui, de fato não creio em melhorias substanciais, a não ser que estas questões comecem a ser tomadas como prioridade pela sociedade civil organizada e contempladas seriamente pelo Estado. Teorizar excessivamente sobre o caso seria pôr na conta da “desigualdade social” o que está acontecendo no Rio de Janeiro. Isso fazem os governantes, justamente aqueles que deveriam, por competência administrativa legal, tentar reverter esse quadro.</p>
<p>Mas entendo a angústia generalizada e, por isso, abrimos o diálogo neste espaço – já que, perceba, nas emissoras de TV não dá para dialogar, apenas receber a informação.</p>
<p>Como observou Antonio Gramsci, o modelo hegemônico é assim mesmo: opressão e consenso. A opressão o Estado cumpre bem, atualmente – tanto no descumprimento das obrigações sociais quanto na utilização da força policial contra os pobres. O consenso a mídia tenta criar (nem sempre consegue). Em tempos de Internet, podemos ampliar (um pouco) o debate e sugerir abertamente ações diretas, como o fiz humildemente aqui.</p>
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