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Gabriel Viviani

A porta sempre aberta do coração de Deus

Batemos persistentemente em diversas portas que se apresentam neste mundo, não obstante, é frequente que as encontremos trancadas. O mundo gaba-se de seguir certo tipo de seleção, e, nesta seleção, o que conta são o status social, a fortuna e o sucesso. Sem tais símbolos, ficamos no escuro e na solidão exterior. Porém, a entrada que conduz à essência mais íntima de Deus, esta se mantém aberta a todos aqueles que a buscam com sinceridade. Uns anos atrás, decidi visitar o mosteiro trapista que se estabeleceu no interior do Paraná. Combinei a data da chegada, minha estada na hospedaria, e comprei as passagens. Pretendia utilizar os dias do Carnaval para mergulhar em uma experiência de silêncio e oração contemplativa. Chegando à rodoviária de São Paulo, encontrei-a dominada por uma verdadeira balbúrdia de turistas sufocados pela urgência de embarcar rumo às festas ou ao descanso em alguma das praias do litoral brasileiro.
Gabriel Viviani

O marujo e o velho capitão

Nos dias que antecediam ao embarque, certo marujo ainda jovem costumava sofrer terrivelmente devido ao receio de enfrentar as águas glaciais e traiçoeiras do mar de Behing. Repetiam-se, então, pesadelos horríveis, e o marujo pensava em sua morte com frequência. Decidiu, assim, conversar com o velho capitão do navio.
Gabriel Viviani

Sobre a ousadia de navegar

Isso não me impediu de perceber o seguinte: aqueles que carregam em seu próprio ser o espírito de verdadeiros descobridores, em determinado momento – sabe-se lá por qual motivo – podem acabar perdendo completamente a fé em algo que é parte integrante de sua natureza. Passam, então, a aceitar com resignação a dificuldade de empreender todas as maravilhas realizadas antes, e mergulham, desse modo, num estado de melancolia. Enquanto visitava o Cabo de Sagres, percebi que o cenário era exatamente aquele mesmo da época dos navegadores. Nada se modificara. Se alguma coisa havia-se transformado ali tão substancialmente, era o espírito das pessoas.
Gabriel Viviani

O ser em conflito – análise da obra de Sá-Carneiro e Fernando Pessoa

Diz o poeta Mário de Sá-Carneiro, nuns versos sem título: “Eu não sou eu nem sou outro, Sou qualquer coisa de intermédio”. O jovem nascido numa família de militares não fingia a dor confessada: naquela personalidade corroía a angústia da afirmação do Ser. Apesar da origem burguesa, jamais conseguiu adaptar-se às convenções sociais. Abandonou o curso de direito na cidade de Coimbra, supondo encontrar em Paris a vida idealizada. Qual vida? Talvez nem mesmo o poeta soubesse definir. O que lá encontrou foi uma existência boêmia, em contraste absoluto com os desígnios originais
Gabriel Viviani

O mistério de Márai

Saio da leitura de Sándor Márai como quem acaba de sair de um processo de purificação. O romance do escritor húngaro se chama De Verdade, e é impossível para o leitor percorrê-lo sem se perceber confrontado por verdades que o autor vai expondo através de uma linguagem precisa. São raríssimos os autores que conseguem deixar tal impressão: aquilo que você um dia pensou ou sentiu, redigido com as palavras mais adequadas. Trechos como aquele que transcrevo a seguir, por exemplo, suspendem a nossa respiração, obrigando o leitor a confessar, numa mistura de encanto e perplexidade: É verdade!