<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?>
<rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>Debates Culturais - Liberdade de Idéias e Opiniões &#187; Fátima Venutti</title>
	<atom:link href="http://www.debatesculturais.com.br/autores/fatima-venutti/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>http://www.debatesculturais.com.br</link>
	<description></description>
	<lastBuildDate>Fri, 10 Feb 2012 15:25:30 +0000</lastBuildDate>
	<language>en</language>
	<sy:updatePeriod>hourly</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>1</sy:updateFrequency>
	<generator>http://wordpress.org/?v=3.2.1</generator>
		<item>
		<title>O famoso “causo” da bordadeira.</title>
		<link>http://www.debatesculturais.com.br/o-famoso-%e2%80%9ccauso%e2%80%9d-da-bordadeira/</link>
		<comments>http://www.debatesculturais.com.br/o-famoso-%e2%80%9ccauso%e2%80%9d-da-bordadeira/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 21 Dec 2009 02:01:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fátima Venutti</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fátima Venutti]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.debatesculturais.com.br/?p=3502</guid>
		<description><![CDATA[Aprendera a domar as linhas, esticar o tecido nos bastidores e a compor belíssimos e perfeitos desenhos desde menina moça. No início, era a mais pura obrigação, imposta pela mãe, para montar seu enxoval de núpcias. Com o passar dos anos, precisaram construir um “puxadinho” nos fundos do quintal pra guardar tantas e tantas peças bordadas, pois Madalena e o enxoval não conseguiam mais ocupar o mesmo espaço no quarto. Bordar acabou se tornando um vício em sua vida. Vez por outra um vizinho, saindo pra roçar logo cedo, a avistava já na varanda de agulhas e tecidos em punho, em plena 5 da manhã. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Bordadeira.JPG" alt="Bordadeira" title="Bordadeira" width="219" height="220" class="aligncenter size-full wp-image-3503" />As tardes sempre eram vazias quando Madalena não bordava. Já fazia parte do cenário da pacata vila de Coronel Feliciano do Araçá, a presença religiosa de Madalena, bordadeira das mais requisitadas, emoldurada pelos roliços pilares de Jequitibá da varanda de sua casa, vespertinamente de segunda a segunda, chovesse ou fizesse sol.</p>
<p>Aprendera a domar as linhas, esticar o tecido nos bastidores e a compor belíssimos e perfeitos desenhos desde menina moça. No início, era a mais pura obrigação, imposta pela mãe, para montar seu enxoval de núpcias. Com o passar dos anos, precisaram construir um “puxadinho” nos fundos do quintal pra guardar tantas e tantas peças bordadas, pois Madalena e o enxoval não conseguiam mais ocupar o mesmo espaço no quarto. Bordar acabou se tornando um vício em sua vida. Vez por outra um vizinho, saindo pra roçar logo cedo, a avistava já na varanda de agulhas e tecidos em punho, em plena 5 da manhã. </p>
<p>Enquanto Madalena bordava, o tempo passava à sua volta com uma rapidez cruel. Uma noite, durante o jantar, enquanto molhava o pão numa água com três batatas cozidas, seu pai levantou os olhos pra ela e declarou:</p>
<p>- Hoje vais conhecer teu noivo. Teje aprumada e não me faça passar vergonha.</p>
<p>Espantada, virou seu lindo par de olhos azuis pra mãe, pedindo socorro. De nada valeu. Noite dos infernos seria aquela. Já moça passada (como cochichavam na vila), Madalena teve um desarranjo nervoso que não conseguia se levantar da patente do banheiro. As batidas na porta e o ranger dos dentes de seu pai podiam ser ouvidos quase que no quarteirão inteiro.</p>
<p>O desarranjo custou-lhe um marido, além da oportunidade de finalmente inaugurar as peças do enxoval, ao invés de somente aumentar as dúzias dos bordados. E como em qualquer vila pequena, o causo do desarranjo ganhou fronteiras além do território de sua casa. Pior. O pai ficou tão desgostoso da situação que não conseguia mais pretendente pra Madalena. Ter uma filha encalhada numa família era pior que praguejar por mais de sete gerações. A vergonha só aumentava seu desejo de morrer. Até que um dia, o sino da igreja badalou fora de hora. Era a notícia que o pai de Madalena tinha ido desta pra melhor por puro desgosto.</p>
<p>Mesmo durante o velório, Madalena não largava o bastidor, as linhas e agulhas. Rezou o Terço inteirinho (sabia todos os Mistérios de cor) terminando um “caminho de mesa” de linho vermelho. Em um dos beirais, escreveu com perfeição: só Jesus salva. Quando fecharam o caixão, deu um jeito de colocar a peça bordada dentro.</p>
<p>Só cumpriu luto nos trajes. Continuou seus afazeres e alimentava seu vício com mais alegria de viver que antes. Era até de se estranhar. O tempo passou mais rápido ainda depois da morte do pai. Jamais se ouviu falar na redondeza de algum novo pretendente. Mas ela continuava a bordar um enxoval que nunca terminava (e nunca iria usar). O espaço no “puxadinho” já não era mais suficiente. A mãe, já pensava em abrir uma lojinha, um bazar pra vender as peças e ajudar nas despesas da casa e de gastos com mais linhas, mais tecidos e agulhas. E assim o fez.</p>
<p>A fama da riqueza, qualidade e perfeição dos bordados de Madalena correu mundo. Recebia encomendas de várias cidades da região, alguns estados e até do exterior. Bordava cada dia mais rápido, mais perfeito e tinha uma variedade de desenhos que impressionava qualquer um que chegasse a sua lojinha.</p>
<p>Aumentou o puxadinho, tornando-o um galpão. A mãe teve que aprender a dirigir e Madalena presenteou-a com uma Caravan 1980 muito conservada. Assim, ficava mais prático e rápido de fazer as entregas.</p>
<p>Um dia acordou com um mal estar e febre muito alta e depois da visita do médico, ganhou o diagnóstico de Dengue. Pronto. A cidade não falava em outra coisa senão na ausência de Madalena na varanda, bordando. Foram quase 15 dias de furdunço de gente frente ao portão da casa. A mãe acabou acostumando a servir um café com bolo de laranja todas as tardes pra aquele povaréu. Acreditava que estavam orando pelo restabelecimento de Madalena. Que nada! Sem Madalena na varanda da casa, bordando, a cidade ficava sem graça, perdia seu prestígio de Capital do Bordado (e olha que era só Madalena que bordava ali).</p>
<p>Por fim, ficou encalhada mesmo. Na vida, um único pretendente e ainda posto à prova pelo desarranjo nervoso da futura noiva. Quando fez 40 anos, perdeu a mãe (que já passava dos 80) por conta de uma pneumonia mal curada. Continuou bordando, mas como não dirigia, não entregava mais as encomendas. O galpão ia se enchendo a cada semana, a cada mês, a cada ano com mais e mais peças bordadas. Mas Madalena começou a se recusar a vender sequer uma toalhinha de mão.</p>
<p>Um dia, a cidade acordou mais cedo. Um clarão enorme cobria o céu naquele início de manhã. Fogo! Fogo! Gritavam os vizinhos assustados. O galpão da bordadeira queimava e labaredas vermelhas gritavam com o estouro de algumas pedras dos bordados. Precisaram chamar caminhão pipa de duas cidades vizinhas pra conter o fogo e não deixar que tomasse uma proporção maior e um estrago mais incalculável ainda. Foi então que se lembraram da bordadeira: onde está Madalena? Procuraram-na pela casa inteira meio a fumaça e fuligem que trafegava com o vento. Encontraram-na sentada em sua cadeira na varanda, olhos esbugalhados e o corpo balançando pra frente e pra trás sem cessar. As mãos vazias tinham o movimento do bordar, só que sem bastidor, sem linhas e agulhas. </p>
<p>Nunca mais Madalena segurou com firmeza uma de suas agulhas. Nunca mais bordou seu vício num caminho de linho. Encalhada e solitária, terminou seus dias arqueada na cadeira da varanda de sua casa, emoldurada pelos roliços pilares de Jequitibá. A cidade nunca mais teve o título de Capital do Bordado.</p>
<p>*<strong>Fátima Venutti</strong> é paulista de Osasco (1965). Reside em Blumenau desde dezembro de 2002. Formada em Letras, escreve desde os 11 anos e possui textos premiados em diversos Concursos literários; co-autora e organizadora de antologias da Sociedade Escritores de Blumenau-SEB (presidente em 2007); membro da Academia Catarinense de Letras e Artes (ACLASC), ocupando a cadeira nº 11, cujo patrono é o poeta Lindolf Bell. Publicou<strong> Último Beijo – poesias </strong>(Ed. THS Arantes, 2007) e <strong>Terceiro Apito -contos e crônicas</strong> (Ed. Nova Letra, 2008), ambas as obras bilíngue (português/espanhol). No prelo: <strong>Estação Catarina: O Trem Passou Por Aqui </strong>(contos e crônicas) – Ed. Nova letra – Blumenau/ SC. Lançamento em março/2010.<br />
.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.debatesculturais.com.br/o-famoso-%e2%80%9ccauso%e2%80%9d-da-bordadeira/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>A identidade da Fé.</title>
		<link>http://www.debatesculturais.com.br/a-identidade-da-fe/</link>
		<comments>http://www.debatesculturais.com.br/a-identidade-da-fe/#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 18 Dec 2009 02:01:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fátima Venutti</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fátima Venutti]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.debatesculturais.com.br/?p=3428</guid>
		<description><![CDATA[Ele era um homem sem fé. Na verdade, nem sabia o que era isso. A vida o tinha moldado com migalhas e constantemente mergulhava no álcool para fugir deste mundo. Na infância, a primeira notícia de seu pai veio com os palavrões da mãe, praguejando-o por infinitas gerações. Nunca teve Certidão de Nascimento, pois sua mãe dizia que dava muito trabalho e <em>“pra quê? Não sei o nome do seu pai mesmo...”</em>.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Fé.JPG" alt="Fé" title="Fé" width="219" height="220" class="aligncenter size-full wp-image-3429" />Ele era um homem sem fé. Na verdade, nem sabia o que era isso. A vida o tinha moldado com migalhas e constantemente mergulhava no álcool para fugir deste mundo.</p>
<p>Na infância, a primeira notícia de seu pai veio com os palavrões da mãe, praguejando-o por infinitas gerações. Nunca teve Certidão de Nascimento, pois sua mãe dizia que dava muito trabalho e <em>“pra quê? Não sei o nome do seu pai mesmo&#8230;”</em>.</p>
<p>Até completar oito anos dormia durante o dia com a mãe. Ela trabalhava a noite, madrugada dentro e chegava pela manhã, trazendo a primeira fornada de pães da padaria da esquina. As noites, enquanto D. Jurema, uma senhora cega de um olho e que era paga pra cuidar do menino, esparramava sua gordura pelo velho e remendado sofá da sala, ele se perdia nas horas debruçando seu queixo no peitoril da janela, controlando o céu, as estrelas e o movimento barulhento dos carros e pessoas na vida noturna. Era o terceiro andar de um velho prédio de paredes sem reboco na Rua Mauá. Mal sabia que já aprendia a ser só.</p>
<p>Aos nove, mesmo não sabendo ler e escrever, já conhecia as notas de dinheiro e todas as moedas, seu valor e se orgulhava de brincar de “dar troco” com D. Jurema, essa a única forma que ela sabia de ensiná-lo a viver por aí. Foi então que numa manhã chuvosa de janeiro sua mãe chegou do trabalho com uma caixa de drops Garoto e outra de chocolate Chokito. O menino arregalou os olhos, começou a esboçar um largo sorriso de alegria quando, imediatamente, sua mãe mandou-o vender as guloseimas na sinaleira. Enfim, não eram pra ele degustar e se lambuzar. </p>
<p>Começou no dia seguinte, num cruzamento próximo do prédio onde morava. Levou muito chingamento, desaforo e foi aprendendo a se defender dos garotos mais velhos e maiores que vez por outra vinham roubar seu objeto de trabalho. Já não cruzava a madrugada avistando estrelas de sua janela. Trocou o sono do dia pelo da noite e D. Jurema sentia falta de “ensiná o minino a contá”.</p>
<p>Um dia, sua mãe não voltou do trabalho pela manhã, como de costume. Ele saiu com as últimas unidades de chocolate pra vender, voltou pra casa mais cedo, cochilou no velo sofá e foi acordado por D. Jurema com a notícia de que sua mãe tinha sido levada pelo Menino Jesus. Nem sabia quem era esse tal e de onde ele tinha aparecido pra levar a mãe embora dele. Esbravejava perguntando o endereço do Menino pra D. Jurema, que calmamente, mas com os olhos marejados de lágrimas, tentava explicar ao menino um mundo, um universo que ele desconhecia.</p>
<p>- Mas tia Ju, se esse tal de Deus não aparece, ele não existe. Como é que a senhora quer que eu acredite numa coisa assim?</p>
<p>Uma semana após o enterro, a velha Jurema juntou os poucos trapos que o menino vestia, embolou tudo numa trouxa de lençol sujo e levou, junto com menino, pro seu quarto e cozinha na zona leste da cidade. </p>
<p>Não vendia mais guloseima na sinaleira. Ano seguinte, começou a freqüentar a escola. Era o último da fila, pois os demais colegas só tinham sete anos. Mas aprendia com rapidez as letras, e se orgulhava de já conhecer os números e de fazer conta de somar e dividir. Dizia que era a experiência com as balas.</p>
<p>Aos quatorze, tia Ju colocou-o pra trabalhar de embalador num mercadinho de bairro. Teve que aprender a andar de bicicleta, pois algumas madames queriam a entrega em casa. No começo, ganhou uma cicatriz de 6 pontos no joelho esquerdo, tombo feio num bueiro aberto. </p>
<p>Tia Jurema passou a ser a “véia Ju”. Ensinou o menino a rezar antes de dormir e das refeições, mas não o levava à igreja. Dizia <em>“os padres são todos tarados por crianças”</em>.</p>
<p>Um dia o menino acordou, olhou pro despertador e viu que estava atrasado pra escola. Olhou pro outro lado da cama e viu a “veia Ju” ainda dormindo. Chamou, chamou e chamou. Não se mexia, não respirava mais. Percebeu então que aquele tal Menino Jesus tinha de novo levado alguém que ele gostava. E sentiu um ódio imenso. Chorou pela primeira vez uma perda e engoliu em seco o golpe certeiro da vida de que estava definitivamente sozinho.</p>
<p>Não concluiu a quarta série. Certa manhã foi chamado no escritório do dono do mercadinho. Nunca tinha entrado lá. Disseram que ele não podia mais trabalhar ali, pois não tinha documentos e nem “responsável”. Caso ele conseguisse os tais RG e Carteira de Trabalho, poderia voltar sem problema.</p>
<p>Ficou mais de um mês sem sair de casa. Abria as janelas do quarto só pra sair aquele cheiro de mofo. Não tinha vontade de acordar, de tomar banho, de ver pessoas do lado de fora de seu mundo sem identidade. A comida acabou e numa tarde a Senhoria veio cobrar o aluguel. Sem documento, sem trabalho e sem dinheiro, teve que juntar poucas peças de roupa, um par de tênis e um retrato de tia Ju, quando era moça, dentro de uma mochila velha e sair do quarto e cozinha, sem olhar pra trás e sem destino. Na rua, passou fome, frio e foi agredido. Virou andarilho sem rumo por meses, anos até. Vez por outra fazia um serviço, um “bico” pra comprar uma cachaça e esquentar a noite em seu colchão de cimento. Vez por outra, fazia um esforço na mente pra lembrar seu próprio nome. Sabia que mês era pelas vitrines das lojas quando anunciavam Dia das Mães, Namorados, Dias dos Pais, Das Crianças e Natal.</p>
<p>Devia ser dezembro, pois havia muita iluminação nas ruas à noite, o que atrapalhava até pra dormir, e os postes estavam decorados com aquele velho gordo de barbas e vestindo um terno vermelho em pleno verão (isso ele nunca entendeu). Numa dessas noites, perambulando pela calçada da estação Julio Prestes ouviu uma cantoria diferente vindo de dentro da estação. Ele nunca tinha ouvido algo parecido, pois o que conhecia vinha do que escutava na rua e quando ficava próximo de alguma loja de CDs. Umas diziam que era sertanejo e outras, pagode. E tinha aquelas estrangeiras também que ele nunca entendia nada do que cantavam.</p>
<p>Caminhou até entrada principal da estação, de onde poderia vir aquela música. E viu, bem ao fundo algumas pessoas em pé, vestindo uma capa branca e segurando uma pasta. Foi a primeira vez que ele via e ouvia um coral. Ficou ali, recostado num dos pilares de entrada. O local estava cheio de gente sentada, ouvindo atentamente aquelas vozes que entravam em seu ouvido com uma calma, uma paz, sentia como se fossem remédios pra suas dores no corpo. Quando a música acabava, um homem que estava à frente se virava e todos aplaudiam. Ele os acompanhou. Num desses intervalos foi que o avistei. Havia naquele olhar de vislumbramento algo de muito triste e solitário. Eu via uma criança num corpo de homem descobrindo a beleza da música sacra numa noite de dezembro, comemorando o Natal. Havia um lugar vago na minha frente. Tive que chamá-lo por três vezes para se sentar ali, antes de começar a próxima música. Duvidoso, aceitou o convite e timidamente pousou seus trapos sujos sobre a cadeira colonial estofada de vermelho. Do meu acento, eu o olhava e imaginava o que se passava em sua mente ao ouvir aquelas vozes tão angelicais. Cabelos escuros, despenteados e empoeirados sem corte definido, vestia uma camisa pólo azul escuro com um rasgo do lado esquerdo da barra; bermuda de sarja marrom e tênis sem cor definida, mas devia ser branco ao sair de fábrica. Ele não se movia, por um momento inclinei minha cabeça para observar sua expressão facial. Estava completamente embriagado pela música e esboçava um sorriso inconsciente de prazer e satisfação. A audição durou mais trinta minutos e a cada intervalo, aquele homem aplaudia efusivamente, vez por outra virava a cabeça pra traz e me encontrava sorrindo com ele. </p>
<p>Quando finalmente terminou e ele viu que todas as pessoas se levantaram pra aplaudir, imitou-as, olhando novamente para traz como se a pedir minha permissão. Na sequência, as pessoas foram saindo calmamente e eu não pude deixar de desejar conhecer mais sobre aquele homem tão pobre fisicamente, mas com uma riqueza de pureza humana impressionantes. Puxei assunto, perguntando se gostara do que vira. </p>
<p>- Moça, nunca ouvi uma música tão linda e que me deixasse tão feliz.</p>
<p>- É. Realmente a música sacra nos aproxima muito mais de Deus – respondi.</p>
<p>Foi então que ele arregalou os olhos com uma aparência tão raivosa que imediatamente senti-me em perigo. Mas a feição no rosto foi acalmando, abaixou o queixo e me pediu com uma voz de criança para falasse pra ele sobre esse tal Deus. Sentamo-nos num dos bancos da praça em frente à estação, emoldurados pela claridade da iluminação daquele monumento. Iniciei meu contato perguntado sobre a vida dele, da qual em meia dúzia de frases resumiu sem prazer algum. Mas ouviu-me falar sobre o que desconhecia com o mesmo vislumbramento com que ouvira há pouco o coral natalino. Estava realmente interessado em saber sobre o lado espiritual que movia as pessoas em dezembro, os porquês, como e quando. As horas se passaram e eu me sentia numa profunda paz por ter conhecido aquele ser humano tão sofrido e chagueado pela vida e, mesmo que singelamente, ter levado algo de bom ao seu coração. Ao despedir-me, perguntei se iria ficar bem aquela noite, já que morava na rua, debaixo de uma marquise próxima à Rua Mauá. Respondeu balançando a cabeça positivamente e sorriu deixando escapar uma luz especial em seu olhar. Estava feliz e nem sabia.</p>
<p>A noite de Natal chegou e com minha família brindei o aniversário de nascimento do Menino Jesus. Pensei naquele homem, o andarilho e em certos instantes sentia-me aflita pela incerteza de onde e como estaria, se ainda o veria uma vez mais.</p>
<p>Dia seguinte uma notícia inusitada ilustrava os jornais da cidade. Um homem havia sido encontrado morto deitado na manjedoura de uma praça pública, agarrado ao Menino Jesus estilizado. O detalhe ficava por conta de um bilhete que ele carregava nas mãos com os dizeres: <em>“Desta vez, o Menino Jesus não vai levar mais ninguém que eu gostar. Eu é que vou me encontrar com ele, ouvindo aquelas músicas”</em>. </p>
<p>Dezembro de 2009</p>
<p><em>*<strong>Fátima Venutti</strong> é paulista de Osasco (1965). Reside em Blumenau desde dezembro de 2002. Formada em Letras, escreve desde os 11 anos e possui textos premiados em diversos Concursos literários; co-autora e organizadora de antologias da Sociedade Escritores de Blumenau-SEB (presidente em 2007); membro da Academia Catarinense de Letras e Artes (ACLASC), ocupando a cadeira nº 11, cujo patrono é o poeta Lindolf Bell. Publicou <strong>Último Beijo – poesias</strong> (Ed. THS Arantes, 2007) e <strong>Terceiro Apito -contos e crônicas</strong> (Ed. Nova Letra, 2008), ambas as obras bilíngue (português/espanhol). No prelo: <strong>Estação Catarina: O Trem Passou Por Aqui (contos e crônicas)</strong> – Ed. Nova Letra – Blumenau/ SC. Lançamento em março/2010.<br />
</em></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.debatesculturais.com.br/a-identidade-da-fe/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Procura-se</title>
		<link>http://www.debatesculturais.com.br/procura-se/</link>
		<comments>http://www.debatesculturais.com.br/procura-se/#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 25 Oct 2009 13:00:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fátima Venutti</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fátima Venutti]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.debatesculturais.com.br/?p=2773</guid>
		<description><![CDATA[A rolha de um tão guardado cabernet chileno foi quebrada pelo sacarrolha. Brindei a mim, foi-se o primeiro gole. Abri o armário dos anos e busquei, em cada prateleira, os planos não concretizados. Alguns amores não resolvidos saltaram da quina da gaveta. Novamente o amargo das lágrimas subiu pela garganta. Fiz um nó bem bolado com cada um deles, abri o saco plástico de cem litros e joguei dentro, bem ao fundo.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Vinho.JPG" alt="Vinho" title="Vinho" width="165" height="220" class="aligncenter size-full wp-image-2774" />Inda ontem fiz faxina em minha vida.</p>
<p>A rolha de um tão guardado cabernet chileno foi quebrada pelo sacarrolha. Brindei a mim, foi-se o primeiro gole. Abri o armário dos anos e busquei, em cada prateleira, os planos não concretizados. Alguns amores não resolvidos saltaram da quina da gaveta. Novamente o amargo das lágrimas subiu pela garganta. Fiz um nó bem bolado com cada um deles, abri o saco plástico de cem litros e joguei dentro, bem ao fundo.</p>
<p>Foi quando meu braço esbarrou na caixa de fotografias. Infância, parentes, valores e descobertas se confundiram com adolescência. Em meio a amigos de escola, desaparecidos pelo traço da vida, momentos de desencontro comigo mesma desfilaram pelas sombras de versos amassados desprezados no auge dos hormônios. Destilando imagens, filtrei poucas gravuras, rasguei algumas paisagens e ateei fogo nos rostos indefinidos. Mais um tanto pro saco de cem litros.</p>
<p>Avistei os cabides com meus dias positivos e de glória, meus desejos irreais personificados perpetuando no espaço de um imenso rolo compressor de histórias, mentiras e verdades estudadas. Hoje, a maioria não me é mais necessária. Outros tantos valores escolhi e me esqueci de abrir espaço nessa caixa. Outros nós e mais calor das labaredas a consumir o que conquistei. Tornado pó, engolido pelo saco de cem litros.</p>
<p>Prateleiras de vidro vazias. Armei fogueira com meu conhecimento das artes, literatura, cinema, esporte e tudo o mais que com orgulho organizei e adquiri; nela vomitei a bílis de minhas noites de boemia e minhas solitárias manhãs de ressaca cultural. Minha mente ferveu e fedeu a soberba da hipocrisia social. Tudo pro saco.</p>
<p>Horas passadas, o cabernet está quase no fim. Ainda falta o pior: o hoje. </p>
<p>Cores cítricas para os amigos; tom pastel para família (ou o que restou dela); os de tom terra acolhem-se nas barreiras, dificuldades e projetos frustrados. Vista e viva, a magenta toma toda a forma de minha mente: restou-me somente o verbo amar. Sons, odores, sabores e cores. Banhei-me na fuccia dos orgasmos escondidos, aspirei todo o ar aparente, bati as portas do armário da minha vida. Deslizei as costas e sentei-me no chão, enquanto o cabernet era sorvido até a última gota. Então chorei toda minha infância pobre.</p>
<p>Mês passado fiz faxina em minha vida. Ao trancar o armário, esqueci a chave da memória dentro. Inda olho o saco de cem litros e recordo o quanto eu respiro pra me manter só.</p>
<p><strong><em>(1º lugar 4º Concurso Literário Internacional Mulheres Escritoras – Casca/ RS – 2009)</em></strong></p>
<p><em>*<strong>Fátima Venutti</strong> é paulista de Osasco (1965). Reside em Blumenau desde dezembro de 2002. Formada em Letras, escreve desde os 11 anos e possui textos premiados em diversos Concursos literários; co-autora e organizadora de antologias da Sociedade Escritores de Blumenau-SEB (presidente em 2007); membro da Academia Catarinense de Letras e Artes (ACLASC), ocupando a cadeira nº 11, cujo patrono é o poeta Lindolf Bell. Publicou <strong>Último Beijo – poesias</strong> (Ed. THS Arantes, 2007) e <strong>Terceiro Apito -contos e crônicas</strong> (Ed. Nova Letra, 2008), ambas as obras bilíngue (português/espanhol). No prelo: <strong>Estação Catarina: O Trem Passou Por Aqui </strong>(contos e crônicas) – Ed. Nova letra – Blumenau/ SC. Lançamento em março/2010.</em><br />
.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.debatesculturais.com.br/procura-se/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>2</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Novos órfãos da cultura!</title>
		<link>http://www.debatesculturais.com.br/novos-orfaos-da-cultura/</link>
		<comments>http://www.debatesculturais.com.br/novos-orfaos-da-cultura/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 19 Oct 2009 03:01:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fátima Venutti</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fátima Venutti]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.debatesculturais.com.br/?p=2643</guid>
		<description><![CDATA[Nesse sentido, a cultura de Blumenau está perdendo mais uma vez. A literatura e as artes plásticas estão prestes a ficar órfãs em decorrência do progresso e da total falta de interesse público em resgatar e investir numa arte secular: a linotipia. O linotipo, inventado em 1890, é uma máquina que funde em bloco cada linha de caracteres tipográficos, como o da máquina de escrever.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Linotipo.JPG" alt="Linotipo" title="Linotipo" width="199" height="224" class="aligncenter size-full wp-image-2644" />Além de substantivo feminino, a palavra cultura traz a definição de <em>“Conjunto das estruturas sociais, religiosas, etc., das manifestações intelectuais, artísticas etc., que caracterizam uma sociedade”</em>. Nesse sentido, a cultura de Blumenau está perdendo mais uma vez. A literatura e as artes plásticas estão prestes a ficar órfãs em decorrência do progresso e da total falta de interesse público em resgatar e investir numa arte secular: a linotipia.</p>
<p>Décadas atrás, outra “máquina” secular passou da Cultura Popular à Museológica. A Macuca, primeira locomotiva a cruzar a região do vale do Itajaí&#8230; Lembram dela? Hoje, estacionada na Praça do Cidadão (a mesma da Prefeitura) tomando sol, chuva e intempéries sem proteção. Aos cidadãos com menos de vinte e cinco anos, observam a “peça” sem nenhuma vida ou emoção. Já para quem passou dos trinta anos, os trilhos ainda tremem na alma e o aroma do óleo queimado persegue a memória sentimental. Ao Arquivo Histórico Municipal, restaram as fotos, algumas sem data e muita poeira.</p>
<p>Agora, é a vez da Gráfica da Editora Cultura em Movimento, braço da Fundação Cultural de Blumenau, desligar-se das tomadas e iniciar o processo de tornar-se definitivamente “peça de museu”.</p>
<p>O linotipo, inventado em 1890, é uma máquina que funde em bloco cada linha de caracteres tipográficos, como o da máquina de escrever. Suas matrizes (superfícies impressoras) são em baixo-relevo, justapostas em um componedor (utensílio no qual o tipógrafo vai juntando à mão, um a um, os caracteres que irão formar as linhas de composição). O próprio operador despacha para a fundição, a 270ºC. Mesmo com a quase extinção da técnica, com a chegada da imprensa offset, a cidade de Blumenau ainda era difundida como uma das únicas no país a trabalhar com o maquinário. </p>
<p>Técnica obsoleta aliada a profissionais com qualificação em máquinas digitais. Eis a “causa mortis”. Quem prefere máquina de escrever ao teclado de um computador?</p>
<p>Sem interesse na formação profissional por novos linotipistas e com a aposentadoria dos mestres nessa arte, as máquinas param enquanto a tecnologia toma conta da memória cultural da cidade. Perde a cultura e os artistas de um modo global, pois a Gráfica utilizava o linotipo para difundir vários projetos culturais importantes como Pão &#038; Poesia, Doce Poesia, convites e material de divulgação de eveentos da Fundação Cultural além da edição de livros (inclusive do Arquivo Histórico). Em decorrência dessa falência natural de mão-de-obra, os trabalhos deverão ser terceirizados e consequentemente, as máquinas tornar-se-ão peças de Museu e de futuras visitas de alunos da rede pública.</p>
<p>Hoje, uma grande parte da memória cultural de nossa cidade está com seus dias contados.  É o preço que pagamos pelos chips.</p>
<p><em>*<strong>Fátima Venutti</strong> é escritora e vive em Blumenau, Santa Catarina.</em></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.debatesculturais.com.br/novos-orfaos-da-cultura/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>8</slash:comments>
		</item>
	</channel>
</rss>

