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Cristovam Buarque

A crise civilizatória e humanitária

O mundo atual não tem estadistas porque os políticos estão divididos entre aqueles prisioneiros da lógica do impossível crescimento econômico ilimitado e para todos e aqueles considerados “lobotomizados”, porque apresentam alternativas de outro futuro, negando as bases filosóficas e econômicas da civilização industrial. A nova encíclica do papa Francisco traz um raio de luz para o debate sobre o futuro desejado e possível para a humanidade. Sua fala vai provocar uma luz na escuridão do debate político no mundo de hoje. Ainda mais: ele oferece uma “teologia da harmonia” para substituir a “teologia do crescimento”.
Cristovam Buarque

O governo não caiu, mas mudou!

No parlamentarismo, o poder muda de partido e de líder sem mudar de presidente ou rei; basta nova eleição ou nova aglutinação partidária no Parlamento. No presidencialismo, mudar a composição do poder entre pessoas ou partidos pode ser considerado golpe, mesmo que dentro das normas constitucionais, se os que estão no poder fogem das promessas de candidato e das expectativas dos eleitores. Entre os dias 2 de fevereiro e 7 de abril, o poder mudou de mãos, como num pacífico e constitucional golpe de Estado.
Cristovam Buarque

O maior problema de uma crise é não ser vista

É como o câncer invisível, que não apresenta sintomas e quando é descoberto já é muito tarde para qualquer tratamento. Isso parece estar acontecendo. Os mais importantes personagens para enfrentar a crise que atravessamos, a presidente Dilma Rousseff e sua base de apoio, parecem não perceber o tamanho da crise. Na oposição muitos parecem não ver também a gravidade e que a culpa é do governo, mas o problema é de todos nos. Políticos apoiados e apoiadores do governo que tiveram seus nomes na lista do Ministério Público para inquérito não percebem o clima que a denúncia está provocando na credibilidade de todos os políticos, inclusive os que não estão na lista.
Cristovam Buarque

Educação de qualidade é questão de vontade política!

No Brasil, sempre que se propõe educação de qualidade, vem a pergunta: “Onde encontrar o dinheiro necessário?”. Para responder a essa pergunta, o relator de uma comissão do Senado, presidida pela senadora Ângela Portela, concluiu seu trabalho, ainda não debatido pelos senadores, mostrando que o Brasil dispõe dos recursos necessários. A primeira parte do relatório calcula que, para oferecer educação com a máxima qualidade, da pré-escola ao fim do ensino médio, seria necessário investir R$ 9.500 por aluno por ano.
Cristovam Buarque

Faltam pontes para o governo do PT mudar seus métodos

Em outubro, os discursos dos candidatos não estiveram à altura do que o povo gritou em junho de 2013. Os eleitores não encontraram nas urnas os desejos de mudanças que pediram nas ruas. É como se houvesse um divórcio entre a vontade dos pés caminhando e as pontas dos dedos votando. A campanha, especialmente no segundo turno, foi sobre o passado de cada candidato, não sobre o futuro que eles ofereciam ao país. Os discursos e as publicidades eram de louvação aos próprios candidatos ou de críticas e difamações sobre os opositores.
Cristovam Buarque

O futuro ausente nos debates do segundo turno

O debate na TV Globo é o ponto alto do processo eleitoral. Ali, cada candidato tem a última chance para dizer por que os eleitores devem optar por ele ou por ela. Em 2014, o eleitor que buscou o melhor candidato no primeiro turno ficou frustrado pela ausência do tema educação, jogado na vala comum, e o assunto não foi sorteado. Pior, apesar de a educação permear todos os temas sorteados, nenhum dos candidatos aproveitou cada questão para apresentar suas propostas de como fazer a revolução educacional que o Brasil precisa iniciar urgentemente.
Cristovam Buarque

O uso político do pré-sal

Apesar da dimensão de sua riqueza, o pré-sal não terá o impacto que o governo tenta passar. Explorá-lo é correto, concentrar sua receita na educação é ainda mais correto, mas é indecente usar o pré-sal como uma ilusão para enganar a nação e como mecanismo para justificar o adiamento dos investimentos em educação. O Brasil não cabe dentro de um poço de petróleo, nem deve esperar por ele.
Cristovam Buarque

A reforma política

Brasil precisa melhorar a qualidade de vida, eliminar a corrupção, criar bom transporte público, distribuir melhor a renda, erradicar a pobreza, eliminar o analfabetismo, controlar a violência urbana e a disseminação de drogas e superar o atraso educacional. As decisões de enfrentar ou não esses e outros problemas são tomadas pelos agentes políticos. E a política, como é feita hoje, tende a agravar, e não a resolver os problemas. Só com uma política melhor será possível fazer um Brasil melhor. Por isso, a Reforma Política deve ser do interesse de todos os brasileiros.
Cristovam Buarque

Os desalojados da utopia e dos abrigos provisórios

É antigo o apoio aos desalojados por causa de desastres naturais, raro o apoio aos desalojados pelos modelos econômicos e sociais. Ninguém com sentimento humanista deixa de reconhecer o papel positivo da transferência de renda para abrigar famílias pobres, que ficaram desalojadas ou excluídas dos benefícios do progresso. Sem essa ajuda, elas estariam na mesma situação das vítimas das tragédias naturais. Mas falta humanismo naqueles que veem os abrigos como a solução para as dificuldades que as vítimas de tragédias atravessam ou naqueles que comemoram o aumento no número dos que vivem em abrigos, fugindo dos horrores da pobreza.
Cristovam Buarque

A bagunça da democracia brasileira

A democracia brasileira é uma bagunça, tanto no funcionamento do aparelho do Estado (relações entre os Três Poderes e pequenas repúblicas cartoriais envolvidas no exercício da atividade administrativa no dia a dia) quanto no processo eleitoral propriamente dito. A última semana desnudou a vergonhosa realidade dessa bagunça: alianças feitas sem respeito às identidades ideológicas ou éticas entre os candidatos de uma mesma coligação. Como em toda bagunça, o eleitor fica desconsolado, e o aparelho do Estado, caótico. Em 2010, as eleições a todos os cargos custaram R$ 3,23 bilhões, cerca de 11 vezes mais do que os gastos dos presidenciáveis de então. Mantida a mesma proporção, em 2014 os gastos serão de R$ 9,7 bilhões, equivalentes ao pagamento de piso salarial para 100 mil professores ao longo de quatro anos. Nenhum regime pode ser considerado democrático se cada voto custa tão caro.
Cristovam Buarque

Os legados da Copa que os candidatos não percebem

Ainda é cedo para saber qual legado da Copa ficará entre todos que foram prometidos, mas é possível saber que um ficará: a percepção popular da corrupção nas prioridades. Faz anos, descobrimos a corrupção no comportamento dos políticos, mas ainda não tínhamos consciência da corrupção nas prioridades da política. Horrorizamos-nos com o roubo de dinheiro público levado para o bolso de políticos, mas ainda não nos horrorizávamos com o desperdício de prioridades que desviam dinheiro sacrificando os interesses da população e do futuro. É muito possível que seja descoberto roubo de dinheiro público durante as obras da Copa, mas desde já é possível perceber que houve desvio de outras finalidades mais úteis ao futuro do país e ao bem-estar da população de hoje. Um exemplo é o estádio de cerca de R$ 2 bilhões em Brasília.
Cristovam Buarque

A pobreza da aritmética para medir a pobreza

O Brasil passou a acreditar que 22 milhões de brasileiros teriam saído da pobreza extrema. Esse discurso se baseava na ideia de que essas famílias passaram a receber complemento de renda suficiente para ultrapassar a linha de R$ 70 por pessoa por mês. Essa visão aritmética da pobreza não resiste a uma análise social que efetivamente cuide da pobreza. Nada indica que uma família sem adequada provisão de escola, saúde, cultura, segurança, moradia, água e esgoto saia da pobreza apenas porque pode comprar aproximadamente oito pães por pessoa a cada dia.
Cristovam Buarque

A adoção federal das escolas municipais

Quando um banco entra em crise, o Banco Central intervém para evitar a falência; quando a segurança de uma cidade entra em crise, o governo federal aciona a Guarda Nacional; quando a saúde fica catastrófica, importam-se médicos; quando uma estrada é destruída por chuva, o governo federal auxilia o Estado; mas quando um município não tem condições de oferecer uma boa escola para suas crianças, o governo federal fecha os olhos, porque isso não é responsabilidade da União. Limita-se a distribuir, por meio do Fundeb, R$ 10,3 bilhões por ano, equivalente a R$ 205,00 por criança ou R$ 2,00 a cada dia letivo.
Cristovam Buarque

O concerto das monstrópoles

O Brasil tem graves problemas, nenhum tão difícil de resolver quanto consertar nossas grandes cidades: insegurança, inundações, vidas perdidas na lentidão ou nos acidentes de trânsito, soterramentos, assassinatos, assaltos e sequestros, pobreza, drogas e condomínios cercados. Durante algumas décadas, por ações ou omissões, tudo foi feito para induzir uma migração rápida do campo para a cidade, como símbolo de progresso. Não seguramos os habitantes no campo porque não distribuímos terra aos lavradores nem fizemos escolas e serviços médicos para suas famílias; e criamos um forte atrativo para as cidades por causa da industrialização e da construção civil.
Cristovam Buarque

A cor da mente que muda pela educação

Muito provavelmente, os 13 milhões de analfabetos de hoje são descendentes dos 6,5 milhões de analfabetos que povoavam o território brasileiro em 1889. Naquele ano, a elite republicana fez uma bandeira com um lema escrito, mesmo sabendo que seus cidadãos eram incapazes de reconhecê-lo porque não sabiam ler. E 125 anos já se passaram. A repetição genealógica do analfabetismo é causada pelo descaso com a educação das crianças, que deixa aberta a torneira por onde surgem novos analfabetos adultos, e pela falta de um programa concreto e persistente para a erradicação dessa tragédia entre os adultos.
Cristovam Buarque

Miscigenação social

O Brasil é um relativamente bem sucedido caso de miscigenação racial e um exemplo claro de segregação social. Ao longo de toda nossa história avançamos sem nos integrar socialmente. O resultado é um país com apartheid social, a apartação, que tem características raciais como resquício da escravidão dos negros. Durante décadas, a segregação foi mantida sem necessidade de distanciamento físico. Nossos avós diziam que os pobres e os negros sabiam o lugar deles. As moradias podiam ser ao lado, em bairros onde conviviam com relativa proximidade os patrões e seus serviçais. Ricos e pobres faziam compras nos mesmos centros das cidades. A explosão urbana, depois dos anos 60, forçou medidas de segregação para barrar a população pobre que “invadia” o território dos ricos. Criaram os shoppings e os condomínios fechados para as classes médias e altas e os centros das cidades, os bairros populares e as favelas foram deixados para as parcelas de classes sociais mais baixas.
Cristovam Buarque

A “cortina de ouro” que divide o Brasil

Somos um país dividido, com a população separada por uma Cortina de Ouro. A tarefa dos abolicionistas foi derrubar, por meio de uma lei, o muro que separa escravos negros de brancos livres. A Cortina de Ferro foi derrubada pelos martelos nas mãos dos moradores de Berlim Oriental. A derrubada da Cortina de Ouro só será possível com leis que assegurem ao professor brasileiro ser tratado com o máximo reconhecimento. Mas parece que estamos longe disso. Talvez não seja coincidência que, no mês em que morrem africanos fugindo para a Itália, nas vésperas do Dia do Professor, tenhamos mestres em greve no Brasil, em busca de pequenos aumentos salariais. Alguns deles sendo vítimas de violência policial.
Cristovam Buarque

Caiu a ficha de quanto a vida está inviável

As surpreendentes mobilizações dos últimos dias podem ser explicadas em dez letras: “caiu a ficha”. Não se sabe exatamente o que levou a ficha a cair neste exato momento, mas todos os ingredientes já estavam dados. A maior surpresa foi a surpresa. Caiu a ficha de que o Brasil ficou rico sem caminhar para a justiça: chegou à sexta potência econômica, mas continua sendo um dos últimos na ordem da educação mundial. Também caiu a ficha de que, sem educação, não há futuro, e de que, por isso, 13 anos depois de criada, o Bolsa Família continua necessário, sem abolir sua necessidade. Caiu a ficha de que, em 20 anos de governos social-democratas e dez anos do PT no poder, ampliamos o consumo privado, mas mantivemos a mesma tragédia nos serviços sociais, nos hospitais públicos e nas escolas públicas. Caiu a ficha de que o aumento no número de automóveis em nada melhora o transporte, ao contrário, piora o tempo de deslocamento e o endividamento das famílias. Caiu a ficha de que o PIB não está crescendo e, se crescesse, não melhoraria o bem-estar e a qualidade de vida.
Cristovam Buarque

Um dos problemas do Brasil é não fazer contas

Há oito anos, a população do Brasil se dedica à construção de estádios para a realização da Copa. Não se pode esperar coisa diferente em um país que já foi chamado de uma “pátria de chuteiras”. Se considerarmos o custo de todos os 12 estádios da Copa, atualmente orçados em R$ 7,2 bilhões, e que certamente será maior, deixaremos de formar cerca de 30.400 cientistas e tecnólogos da mais alta qualidade. Por mais benefícios que traga a Copa, não há dúvida de que investir em Ciência e Tecnologia (C&T) constituiria um melhor uso do dinheiro na construção do futuro do país. Alguns vão dizer que aproximadamente 4.000 trabalhadores receberam seus salários por terem emprego diretamente gerado pela obra no Distrito Federal, mas estes poderiam ganhar o mesmo construindo hospitais e escolas. Podem dizer também que as arenas vão permitir atividades esportivas e culturais, mas isso já seria possível com pequenas melhorias nos estádios anteriores.
Cristovam Buarque

A inflexão histórica que o Brasil precisa fazer!

Nos últimos 20 anos de governo social-democrata, o Brasil melhorou graças à continuidade de quatro pilares: a democracia, a responsabilidade fiscal, a generosidade das bolsas e uma política econômica de crescimento. Esses pilares estão se esgotando. A democracia se esgota porque não foi capaz de fazer a reforma política, não implantou um sistema ético para o financiamento de campanhas e não barrou a corrupção. A responsabilidade fiscal se esgota porque a reforma do Estado não foi feita, não houve controle dos gastos nem mudança na gestão pública.
Cristovam Buarque

Voto aberto e obrigatório

O voto secreto é um manto da mentira e precisa ser abolido. Além de vergonhoso e humilhante, tem permitido a aprovação de atos e leis sem o conhecimento dos próprios parlamentares, com artigos e parágrafos contrabandeados, por distração ou omissão dos parlamentares presentes, às vezes desconhecendo a pauta da votação naquele dia. A desculpa de que o voto nominal faria impossível aprovar qualquer coisa, porque os parlamentares nunca estão presentes, é ainda mais vergonhoso e injustificável. Se for preciso, que mudem as regras para obrigar a presença no plenário na hora da votação, como qualquer trabalhador, ou que apresente suas justificativas para a ausência, ou deixe o eleitor saber que estava ausente sem justificativa, mas jamais se escondendo debaixo do voto dito de liderança.
Cristovam Buarque

Pessoa é pessoa

Comece a ler o livro “Fernando Pessoa, uma quase autobiografia” pela frase: “Assim se contou, com suas próprias palavras, a vida gloriosa de meu amigo Fernando Pessoa”. Porque ela traz um resumo das características inéditas deste livro escrito por José Paulo Cavalcanti Filho, quase integralmente com as palavras do próprio biografado. E pelo fato de ser um livro de amor, que como dizia Pessoa, são todas ridículas, e grandiosas eu acrescentaria. Afinal, para o desavisado parece sem sentido concluir falando da amizade entre duas pessoas que não se conheceram, e grandiosa a percepção de que eles sempre se conheceram e se amaram.
Cristovam Buarque

Cinismo ou ceticismo

Diversos repórteres descreveram a rebelião em Canudos. Mas foi Euclides da Cunha quem ficou na história, porque no lugar de apenas descrever as aparências entre o que parecia um Conselheiro insensato e Generais sensatos, mostrou o que havia por baixo das aparências: a disputa entre Cidade e Campo, Império e República, Moderno e Arcaico. Cem anos depois, estamos repetindo a mesma forma superficial de fazer reportagens sem descrições mais profundas da sociologia da corrupção. As notícias giram em torno de denúncia dos fatos visíveis: vídeos, contratos, fotos e propinas. Ainda não surgiu o Euclides da Cunha da corrupção. Estamos vendo e descrevendo o superficial.
Cristovam Buarque

Saúde nota 10

O Brasil precisa de uma saúde “Nota 10” na vida dos brasileiros, mas estão querendo que a saúde tenha “10% do PIB” no Orçamento da União. Com esses 10% promete-se garantir Nota 10 para a saúde. Mas essa correlação não é verdadeira. Antes de definir quanto gastar em saúde, é preciso saber como gastar na saúde. Com o atual sistema, os gastos adicionais poderão ser úteis, mas poderão ser desperdiçados. Antes da decisão de vincular constitucionalmente mais recursos para a saúde, é preciso saber como será o Novo Sistema de Saúde a ser implantado. Hoje não há sistema único, porque o SUS é completamente diferente do SES (Sistema Especial de Saúde) para os que têm acesso aos serviços privados; o próprio SUS é diferente de um Estado para outro, entre um e outro município, até mesmo, de um bairro para outro.
Cristovam Buarque

Casamento maldito

A corrupção tem sido uma loteria ao contrário: o vencedor compra o bilhete e espera ser sorteado depois; o corrupto rouba primeiro porque sabe da pouca probabilidade de ser punido. A impunidade é o pai da corrupção, a mãe é a falta de valores morais: de compromissos sociais e sentimento pátrio entre os que se dedicam à política. A vocação política deveria nascer do sentimento de responsabilidade com a coletividade, com o país, com a humanidade. Quando essa vocação surge, a vida pública é um sacrifício com o prazer de realizar a obra da construção do mundo. O político é um escultor. A escultura é o mundo que ele transforma por sua ação; e sua biografia termina esculpida por suas ações. Joaquim Nabuco é um dos exemplos brasileiros. Sua biografia se fez enquanto ele esculpia a abolição da escravatura.
Cristovam Buarque

Economia colorida

Até recentemente, a ideia de "economia verde" era tida como um devaneio de ambientalistas, sem base teórica. Com o acirramento da crise ambiental, a "economia verde" ganhou legitimidade, apesar de ainda não ser analisada (desconsiderada) pelos economistas tradicionais porque, ao buscar alternativas sustentáveis para o processo produtivo, ela desrespeita os fundamentos da teoria atual. A utilização de preços diferentes do mercado de curto prazo e a restrição ao uso de certos recursos naturais ainda incomodam economistas. Mas a economia do século XXI não pode continuar amarrada, como a do século XX, à ideia de que a estrutura de preços momentâneos é capaz de orientar o futuro. Sabemos que as chamadas externalidades, os impactos externos à economia e ao imediato, precisam ser consideradas.
Cristovam Buarque

Quase 200 anos!

Mas não há dúvidas que o mais importante dos três dias foi a palestra de dois senhores que somam 184 anos de idade: Stéphane Hessel, com 94, e Edgar Morin, com quatro anos a menos, pois fará 90 no dia 18 de julho. O debate com eles durou quase três horas em auditório lotado. A primeira gratificação dos assistentes foi ver dois homens com essas idades chegarem caminhando rápido e subirem os degraus do palco, sem qualquer ajuda. Depois do debate, Hessel seguiu para um restaurante, onde jantamos até meia-noite. Morin não pôde ir ao jantar porque precisava viajar por duas horas e meia até Paris para cuidar de sua mudança à casa onde vai morar depois do casamento.
Cristovam Buarque

Aviso alemão

Neste momento, construir usinas nucleares é uma temeridade que beira o crime. Até mesmo manter as atuais é viver sob risco de tragédia em algum momento. Em vez de novas centrais nucleares, o Brasil precisa reduzir seu consumo de energia e investir em novas fontes, renováveis e menos perigosas. Em 2009 fui a Chernobyl. Trinta anos depois do acidente, ainda não foi fácil conseguir autorização para visitar o lugar e as ruínas do reator nuclear. Consegui permissão para ir até o local por, no máximo, seis horas de permanência.
Cristovam Buarque

A reinauguração de Brasília

Brasília chega a meio século, construída fisicamente e demolida moralmente. Com a imagem física de seus prédios orgulhando o país e sua imagem política desmoralizada em todo o Brasil. Parte disso é resultado do comportamento do Congresso, do Executivo, do Judiciário federal sediados em Brasília. Uma parte, porém, é responsabilidade nossa: de eleitos e eleitores brasilienses, uns mais outros menos. Por isso, deve partir de nós, brasilienses, fazermos a nossa parte.
Cristovam Buarque

Nós, escravocratas!

Há exatos cem anos, saía da vida para a história um dos maiores brasileiros de todos os tempos: o pernambucano Joaquim Nabuco. Político que ousou pensar, intelectual que não se omitiu em agir, pensador e ativista com causa, principal artífice da abolição do regime escravocrata no Brasil. Apesar da vitória conquistada, Joaquim Nabuco reconhecia: “Acabar com a escravidão não basta. É preciso acabar com a obra da escravidão”, como lembrou na semana passada Marcos Vinicios Vilaça, em solenidade na Academia Brasileira de Letras.