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Cinthya Nunes Veira da Silva

Comer, comer…

Penso que nunca se teve tanta variedade de comida à disposição, mas também nunca se comeu com tanta culpa ou sendo alvo de tanta reprovação alheia. Temo, de toda forma, os excessos, os extremos. Deveríamos saber desfrutar de uma boa refeição, até porque ter o que comer é uma dádiva e porque poder comer também é sinal de saúde. E por mais que seja bom sentir-se bem com o próprio corpo, é mais importe estar bem com a alma e com o coração.
Cinthya Nunes Veira da Silva

Menos intolerância, por favor!

É fato que somos produto da época na qual vivemos, mas não gosto de pessoas que acreditam serem donas da verdade, que não admitem que é possível estar errado ou, ao menos, que pode haver vários pontos de vista ou posturas a se seguir. Quando penso em gente irredutível, hermética, radical, logo imagino o quanto Galileu deve ter sofrido. Creio, desse modo, que uma verdade não anula a outra e o ódio não produz senão mais ódio. Admiro quem defende causas de modo inteligente, mesmo que de forma ardorosa, enfática, mas tenho medo de quem faz isso com discurso de ódio, de olhos vendados para o bom senso. Gente assim sai bradando gritos de guerra sem sequer saber o significado ou conhecer a causa e acende fogueiras nas quais queima desconhecidos, incitando outros ignorantes a fazer o mesmo.
Cinthya Nunes Veira da Silva

O índice da maldade

Há um programa na televisão por assinatura no qual um estudioso, creio que comportamental, estabelece escalas para a maldade humana, criando gradações que vão desde os mais perversos até os nem tão maus assim. Não gosto de pensar ou escrever sobre coisas ruins, até porque acredito que a palavra, dita ou escrita, tem mais poder do que usualmente supomos. Os momentos que reservo para escrever costumam ser meus pequenos oásis de isolamento, partes que reservo primeiro para mim, sabendo que vou direcioná-la, depois, para pessoas que lamento não conhecer. E exatamente por serem especiais ocasiões nos meus dias, é que prefiro que tratem da leveza que a vida pode ter.
Cinthya Nunes Veira da Silva

Entre cães e gatos

Sei que muitos não gostam de animais e muito menos de gatos. Confesso que eu também não tinha lá as melhores impressões, mas é preciso dar a mão à palmatória, pois, como sempre ocorre com a maior parte das pessoas, julgue o que não conhecia de perto. Não planejei ter uma gata, tampouco agregar mais um animal à casa e a minha vida, mas aconteceu. Revi, então, vários conceitos e pré-conceitos e percebi que sempre é bom quando podemos nos dar a esse luxo, quando percebemos que parcela do que tememos pode ser tão somente ignorância. Recebo lições de aprendizado todos os dias e normalmente elas vem das pessoas mais simples, o que torna a lição ainda mais valiosa. Busco não desperdiçar essas chances que a vida me dá de ser alguém melhor e uma gatinha de rua, vira-lata, ensinou-me, nos últimos dias, que o destino é caprichoso e monta as artimanhas que quer. Ela me fez recordar também que amor a gente não escolhe, só sente....
Cinthya Nunes Veira da Silva

Um dia depois do outro

Como professora universitária, estou sempre em contato com jovens recém saídos do ensino médio e com aqueles que se preparam para deixar os bancos universitários, rumo ao mercado de trabalho. Todos os anos, uma turma entra e outra se despede. Todos os anos, vejo rapazes e moças, mas sobretudo as moças, sofrendo de ansiedade, desesperados com o porvir. Nesses momentos é inevitável que eu me lembre da jovem que também fui, sofrendo do mesmo mal... Agora, a distância no tempo, parece tudo muito mais simples, mais fácil de ser entendido, mais passível de ser aguardado, mas quando somos pouco mais do que crianças, crescidos por fora e um tanto pequeninos por dentro, parece-nos que se não pensarmos a respeito, tudo saíra do controle, do planejado e, assim, o desespero toma conta de nós, dos nossos sonhos, do nosso sono, da nossa paz de espírito.
Cinthya Nunes Veira da Silva

A vida do outro

Creio que a curiosidade seja algo inerente aos seres humanos. Provavelmente, inclusive, tenha sido a curiosidade o sentimento que impulsionou os primeiros homens e mulheres a descobrir o que havia para além das cavernas e a explorar o mundo. Assim, certa dose de curiosidade é imprescindível. Sem ela os bebês não se aventurariam a andar, não haveria navios, aviões e tampouco saberíamos o pouco que sabemos sobre as estrelas, sobre a vida. Naturalmente, também sou uma pessoa curiosa. Gosto de aprender tudo o que puder, bem como conhecer aquilo que está ao meu alcance. Interessa-me o mundo. Interessam-me as pessoas pelo que elas produzem, pelo que me fazem rir ou chorar. Não me interessa, contudo, a contemplação da vida alheia. Dar conta de viver a minha é muito mais do que sou capaz de fazer. Assim, cuidar da vida dos outros não é esporte que eu pratique ou aprecie.
Cinthya Nunes Veira da Silva

Contando ninguém acredita

Muitas vezes eu mesma não acredito em algumas coisas que vejo ou escuto, mas aprendi que o mundo é uma caixa de surpresas e que sempre haverá algo novo ou inusitado acontecendo por aí. Penso, inclusive, que essa é uma das boas coisas da vida. Lendo algumas notícias pela internet, encontrei uma que chamou minha atenção. Nos EUA, em Seattle, uma cachorra labradora, de nome Eclipse, decidiu que não ia mais esperar que o dono a levasse para passear. Assim, quase todos os dias ela se coloca diante do ponto de ônibus, entra no veículo assim que o mesmo para, procura um lugar vazio para ocupar e segue até que chegue o destino por ela almejado: um parque para cachorros. Ela desce no ponto correto e fica lá se divertindo até que seu dono chegue para buscá-la. Para além de ficar encantada com a inteligência do animal, fiquei surpresa em perceber que ninguém tenta roubá-la ou agredi-la, como lamentavelmente ocorreria em muitos outros lugares, como no Brasil, por exemplo.
Cinthya Nunes Veira da Silva

Falando sobre Deus

Fico pensando que Deus, seja quem for, criou os seres humanos quiçá por razões não tão louváveis como aquelas que a história afirma. Sem seres conscientes, Deus não seria objeto de infindáveis elucubrações, de clamores, de promessas, de disputas e etc. Sem que houvesse, na criação, criaturas que pensassem em Deus, Ele estaria condenado apenas à contemplação solitária e anônima, sem plateia. Quando se diz que Deus nos fez a sua imagem e semelhança, eu torço para que isso não seja verdade, pois esse Deus se pareceria mais como esse que descrevi acima, egoísta e egocêntrico, do que com um Deus de amor. Olho para a humanidade e tenho vergonha do que fazemos e fizemos a esse mundo e aos outros seres que conosco o dividem.
Cinthya Nunes Veira da Silva

Minhocas

Dia desses vi minha vizinha varrendo não apenas a calçada, mas também uma boa parte da rua e após cumprimentá-la, aproveitei para fazer um elogio pela iniciativa. Meio sem graça, ela agradeceu e falou que fazia isso também porque tinha interesse nas folhas secas, já que tinha uma composteira. Fiz uma cara de conteúdo e falei: “ah, que legal”. Disse tchau e fui tratar das minhas coisas, mas fiquei com aquela informação na cabeça. Eu já tinha lido sobre compostagem, mas não fazia exatamente ideia de como era uma composteira e, curiosa que sou, tratei de fazer uma pesquisa na internet. Alguns dias depois e lá estava eu buscando minha própria composteira, bem como uma porção “macarrônica” de minhocas.
Cinthya Nunes Veira da Silva

Tomara que chova três dias sem parar…

O tempo tem passado muito rápido ou sou eu que estou acelerada, mas já é Carnaval novamente e todos se preparam para cair na folia ou para simplesmente descansar. Confesso que não sou nada avessa à ideia do descanso, pois quem trabalha sabe o quanto um período de descanso pode ser um oásis, até para renovar as forças para os demais dias. No entanto, muita coisa no feriado de Carnaval, sobretudo, acaba me incomodando... Não vou e nem tenho cabedal suficiente para isso, entrar na questão história que deu origem às festividades de Momo, mas muitas razões pouco dignas me parecem convenientemente sustentar a ênfase que se dá esse período do ano.
Cinthya Nunes Veira da Silva

Crime e castigo

Desde sempre fui preocupada com a questão ambiental. Nunca concebi alguém jogar lixo no chão, nas praias, nos rios, bem como me entristece sempre que árvores são derrubadas ou a natureza é maculada de qualquer modo. Poucas vezes consegui mudar, com meu sentir ou com minhas palavras, qualquer pessoa que fosse, mas tenho feito a minha parte, embora isso pouco signifique. Agora, diante da crise hídrica que vivemos em vários estados do Brasil, parece-me que a natureza finalmente resolveu reagir às infinitas ofensas que lhe foram perpetradas. Como não houve planejamento e investimento, nada foi feito que pudesse, agora, amenizar a falta de água para consumo.
Cinthya Nunes Veira da Silva

Jardins da alma

Fico pensando nos jardins que amo e é quase inevitável fazer uma relação com a vida das pessoas. Muitas vezes passamos tempo demais a reclamar que beija-flores e borboletas não vem até nós, mas nem nos damos conta de que sequer preparamos um jardim para isso e vamos nos amargurando ao olhar os jardins alheios, repletos de vida, ressentidos de nossa “pouca sorte”. Assim também muita gente passa a vida olhando para o alheio, para a alegria do outro, sequer tendo investido tempo, paciência e trabalho para que o mesmo pudesse lhe acontecer. Tristes pessoas sem jardins em seus olhos, em seus corações e em suas almas.
Cinthya Nunes Veira da Silva

A pressa do outro

Os professores, por exemplo, sabem muito bem do que eu estou falando. Essa época de final de ano é especialmente conturbada. É todo um universo variado de pessoas, com interesses múltiplos, sendo que alguns deles são conflitantes. Há muito tempo desisti de me preocupar em agradar a todos. Aliás, quem sou eu para isso? Pensar que há quem nunca vai estar contente, não importe o que façamos, também ajuda a diminuir a cobrança sobre nós mesmos e sobre nossas fraquezas.
Cinthya Nunes Veira da Silva

Em um novo tempo…

Há anos em nossas vidas que passam meio insípidos, inodoros, mas esse não foi o caso de 2014, que se mostrou um ano particularmente intenso para mim. Foi um ano de muito trabalho, de várias preocupações, de muitos planos e de mudança de planos também. Passei alguns sustos com resultados de exames, passei raiva com algumas injustiças e me penitenciei por atitudes que tomei sem pensar, pelas pessoas que eu talvez tenha feito sofrer sem razão.
Cinthya Nunes Veira da Silva

O espírito dos natais futuros

Normalmente, nessa época do ano, sou tocada pelo Espírito dos Natais Passados, até por ser uma data que normalmente traz muitas recordações, lembranças da infância, de pessoas que o tempo tomou para si. Penso que isso, inclusive, não é um sentimento que apenas toque a mim, mas a todos que, em algum momento de suas vidas, tiveram ao menos um Natal especial. Para minha sorte, tive muitos, cada um feliz ou especial ao seu modo. Não é sobre eles, contudo, que escrevo hoje.
Cinthya Nunes Veira da Silva

Sobre a indignação

Já perdi a conta de quantos textos eu escrevi e dei o nome de indignação. Da mesma forma, também não sei mais quantas foram as vezes nas quais me indignei com algo, até porque prossigo me indignando todos os dias ou até várias vezes no mesmo dia. Eu penso que, quando nascemos, algumas paixões já nascem conosco. Chegamos a esse mundo como uma aparente página em branco. Muito do que vamos nos tornando vai sendo impresso nas páginas que vamos vivenciando, mas, como se fosse uma marca d’água, um desenho em segundo plano, estão gostos, amores e preferências que sequer sabemos explicar de onde surgiram e como chegaram até nós.
Cinthya Nunes Veira da Silva

Coisas de criança

Para minha sorte, as minhas recordações de criança são as melhores possíveis. Não vivi grandes perdas, não passei fome, não sofri agressões e cresci em meio a uma família normal, repleta de pessoas que me direcionam amor e proteção. Assim, lembrar da infância, para mim é sempre uma viagem íntima a um lugar de conforto, é uma volta a um tempo diferente, não menos feliz do que o presente, mas especial de muitas maneiras.
Cinthya Nunes Veira da Silva

Uma questão de respeito

Pode até parecer estranho dizer isso, mas uma das lições mais difíceis que aprendi foi respeitar a opinião alheia. Creio que quanto mais jovens somos, mais temos uma inclinação de desejar que nossa vontade, nossas crenças e nossos desejos prevaleçam. Aprender que é necessário manter distanciamento em certos momentos, que amar também é entender o outro e seu modo de ver o mundo, mesmo que se discorde de tudo, não é tarefa das mais simples.
Cinthya Nunes Veira da Silva

Candidatos e eleitores

O que tenho observado nessas décadas que começo a acumular de vida é que os candidatos, de um modo geral, mudam de discurso muito facilmente. É certo que é preciso ficar atento às mudanças da sociedade e saber que da mesma forma como se alteram os comportamentos, devem igualmente ser alteradas as leis, os programas sociais e a forma pela qual se governa. Se até as pedras são compelidas a mudar de lugar, o que se pode dizer dos seres humanos, criaturas inquietas por natureza?
Cinthya Nunes Veira da Silva

As boas coisas da vida

Há tempos preocupa-me bastante o fato das boas notícias não ocuparem, nas diversas mídias, a mesma quantidade de espaço e de destaque. Se a pessoa começar a acompanhar todos os noticiários do dia, pode começar a desenvolver sérios medos e até mesmo um pânico de existir nesse mundo. Alguns programas de televisão, sobretudo, parecem viver da energia que emana da desgraça alheia. Não apenas noticiam tudo de mais torpe, vergonhoso e asqueroso que se possa imputar a alguém, como fazem verdadeira autópsia nos sentimentos dos familiares, expondo, de maneira desnecessária e aproveitadora, a intimidade dos outros.
Cinthya Nunes Veira da Silva

A majestade, o sabiá

Assim, nunca imaginei que, ao morar em São Paulo, pudesse ter pássaros circulando por todos os lados, livres como deviam, adaptados a um mundo que alteramos para além do razoável. Fico imaginando, assim, onde os sabiás fazem seus ninhos, pois é certo que não cantam à toa, senão para seduzir as fêmeas e começar uma nova família. E a julgar pelos cantos que se intensificam a cada ano, suponho que a empreitada tem sido bem-sucedida. O Sabiá Laranjeira já é meu visitante contumaz. Várias vezes invadiu minha área de serviço para surrupiar ração de meus cachorros, bem como já acabou com minhas tentativas de uma horta, comendo todos os brotinhos tenros e recém-nascidos.
Cinthya Nunes Veira da Silva

Meu ipê amarelo

Há seis anos eu me mudei para casa onde atualmente moro, na cidade de São Paulo. Na frente de casa, um velho pé de ipê que, de acordo com o então dono da casa, era amarelo. Gosto muito de plantas, sobretudo daquelas que dão belas flores. Quando eu soube que se tratava de um ipê, fiquei feliz, imaginando-o repleto de flores, daquelas que, ao cair, transformam o chão em um lindo tapete colorido. Meu amigo, de quem vim a comprar a casa anos depois, avisou-me para não criar muitas expectativas, pois a referida árvore já era velha e nunca dera muitas flores, ao contrário de outras suas irmãs, habitantes do mesmo quarteirão e até da mesma rua. Embora a notícia tivesse me frustrado, alimentei a esperança de que eu poderia cuidar da árvore para que ela me presenteasse com suas flores.
Cinthya Nunes Veira da Silva

Malhando os neurônios

Malhação cansa. Ao menos eu me canso. Mas a ginástica que mais me cansa é a mental. Tenho a impressão que, em alguns momentos, minha cabeça pega fogo e se um filme se projetasse por ali, a cena seria de pobres neurônios buscando ficar marombados, transpirando como maratonistas. Quando eu estava na faculdade, inventei de fazer umas aulas de latim. Duas horas depois eu saía da aula e estava perdida para o mundo, mentalmente falando. Com exaustão cerebral, eu ainda me encontrava molhada de suor. Sem dúvida, meus neurônios, pequenos folgados, também não gostavam muito de “puxar ferro”, como, aliás, continuam não gostando.
Cinthya Nunes Veira da Silva

Como nascem as bruxas

Há alguns anos eu tenho uma teoria própria sobre bruxas. É aquela velha historio: não creio nelas, mas existem, infelizmente. Particularmente, no correr de minha vida, tive o desgosto de conhecer várias, para meu desgosto. Antes que alguém pense que estou falando sobre a existência de bruxos como Harry Potter, já aviso que não é sobre isso que escrevo, em absoluto. Sobre esses seres eu nada sei e apenas divirto-me com a ficção. Contudo, pensando com minhas caraminholas, eu acredito que de algum lugar deve ter saído o estereótipo da mulher encarquilhada, cheia de verrugas, que passa a vida a desejar e fazer o mal para os outros.
Cinthya Nunes Veira da Silva

Eu preciso dizer que te amo, tanto…

Amor algum se sustenta na gramática apenas, por certo. Amar requer mais do que só verbalizar, é claro; contudo, amante das palavras que sou, creio piamente que o ser objeto do amor precisa ouvir o que bate no coração alheio. Mas é um ouvir que se faz sem pedir, num falar dadivoso, daquele tipo que parece como um vento que nos assopra a nuca, com palavras que trazem cor à face. E eu falo de todo tipo de amor, até porque amor não se classifica. Apenas é. Mas mesmo assim, deveríamos envidar esforços frequentes para que o nosso amor não ficasse em silêncio, que fosse sabido e que fosse sentido, ainda que eventualmente não correspondido, pois o amor que se tranca no peito pode azedar e se transformar em fel. Há quem diga que amor é fazer, é um revelar sem palavras, mas em gestos. Eu sou obrigada a discordar. Ao menos em parte.
Cinthya Nunes Veira da Silva

Escrever para quê?

Dia desses, caiu-me às mãos um livro de crônicas do Miguel Falabella. Eu não sabia que ele era cronista, mas a cada página que eu lia, essa descoberta se transformava em encantamento. Li em piscares de olhos entremeados por algumas lágrimas furtivas. Em certos momentos, inclusive, cheguei a ficar tão próxima das lembranças por ele compartilhadas que eu tive a sensação de que era ele mesmo a me contar tudo, a me assoprar baixinho, nos ouvidos, suas dores e amores.
Cinthya Nunes Veira da Silva

Foi tudo real…

Ainda ontem eu passeava pela internet quando vi uma notícia sobre um senhor (Fred Stobaugh) de 96 que havia escrito uma música para a esposa com quem havia sido casado por 75 anos e falecera havia um mês. Assisti ao vídeo e, uns 10 minutos depois eu estava me acabando de tanto chorar e com meu coração pesaroso. Contava-se a história que, havendo naquela cidade um concurso de melhor música, esse senhor, que não sabia tocar ao cantar, ao invés de enviar um vídeo, mandou uma carta aos organizadores do evento, contando a sua história de amor e a homenagem que ele fazia, pela letra, àquela que fora sua companheira de tantas décadas.
Cinthya Nunes Veira da Silva

Cotas em concursos públicos

É claro que não se pode afirmar que não haja desigualdades sociais no país. Aliás, há e muita. Não se pode confundir desigualdade com diversidade, por outro lado. Somos o país da diversidade. Somos diferentes nos costumes, na cor de pele, na estatura, no tipo de cabelo, de olhos e mais outras centenas de detalhes. Somos o resultado de uma miscigenação entre escravos, dominadores, imigrantes, fugitivos de guerras, índios e de toda sorte de gente que apareceu por essas bandas. Como regra, ainda, somos, nesse quesito, um país tolerante, de um modo geral.
Cinthya Nunes Veira da Silva

Inocência e maldade

Nas últimas semanas, sobretudo nos últimos dias, ando chocada com a notícia da morte de um filho, criança, supostamente pelo próprio pai e madrasta, com auxílio de uma terceira pessoa. Por certo que a mídia televisiva tem um grande poder quando se trata de tornar pública e chocante determinada tragédia. Explico-me melhor. Estou certa de que essa história real, nem de longe é a única ou a mais grave envolvendo maus tratos, abusos e morte de crianças, perpetrados pelos pais, parentes próximos ou mesmo por estranhos. Ainda assim, com a cobertura da mídia, pela exposição e até dissecação de fatos e de sentimentos realizada, tudo ganha outra proporção.
Cinthya Nunes Veira da Silva

Inversão de valores

Sinceramente, estou chegando à conclusão de que poucos comportamentos humanos e sociais poderão me surpreender no futuro. Até já escrevi recentemente que temo que a humanidade esteja trilhando um caminho inverso, rumo à barbárie. Fiquei chocada com o resultado de uma pesquisa que concluiu que mais de 80% dos entrevistados entendia ser justificável que uma mulher vestida com roupas curtas, apertadas ou de alguma forma provocantes, fosse atacada e, em último caso, até mesmo estuprada. A culpa, portanto, da ignorância e da bestialidade de alguns machos, eis que não vou chamá-los de homens, é da mulher que o induz a tanto...
Cinthya Nunes Veira da Silva

A Copa do Mundo é nossa?

Sei que a questão é controversa e polêmica, mas, ainda assim, em algum momento eu sabia que acabaria escrevendo sobre o assunto. A Copa do Mundo 2014, maior evento do futebol mundial está se aproximando e, nesse ano em que se realizará no Brasil coloco-me a pensar e a refletir sobre o assunto. O que pondero é se, como país, estamos prontos para receber esse evento, de forma que as atividades de um gigante que não pode parar por conta da Copa não sejam prejudicadas, de forma que os brasileiros não deixem de ter atendidas suas prioridades básicas. Tenho a sensação de que estamos preocupados em ajustar a cereja, mas sequer temos o bolo.
Cinthya Nunes Veira da Silva

Lixo, lixo, lixo

Se há uma coisa que incomoda profundamente é ver a quantidade de lixo que as pessoas jogam por aí. Há lixo em todos os lugares e dos mais variados tipos, descartados pelas mais diversas pessoas. Lixo nas ruas, nas calçadas, nas praças, nas salas de aula, nos rios, no mar e por todo canto onde circule o bicho homem. Sinto muito vergonha das pessoas que jogam lixo fora como se o mundo todo fosse uma imensa lixeira. Nem de longe, nem muito remotamente beiro à perfeição, mas recebi educação suficiente para me impedir de jogar no chão um único papel de bala. Sou incapaz de jogar lixo na rua ou onde quer que seja o lugar não apropriado.
Cinthya Nunes Veira da Silva

Dormir e sonhar

Uma das coisas que gosto de fazer é dormir. Não que eu seja daquelas pessoas que dormem muito, mas aprecio o bom sono. Desde pequena tenho minhas preferências. Nunca foi adepta de dormir cedo e, sobretudo, de acordar muito cedo. Deixo esse hábito para maior parte dos pássaros e para aqueles que gostam de ver nascer o sol. Antes que alguém me crucifique, também considero um maravilhoso espetáculo o momento em que o sol vai surgindo, como se nascido da terra e não do céu, e começa tingir o tempo com cores infinitas. Só que, a par disso, eu não consigo me sentir muito disposta fisicamente nesse horário. Se o sol nascesse às 8 da manhã, eu estaria sempre a postos, mas, como astro que é, tem as suas manias também.
Cinthya Nunes Veira da Silva

Em excesso, até água mata…

A chuva já começou com aqueles tipos de pingos grossos, que ao bater nas pessoas causa a sensação de que se levou uma pedrada. Os pingos, inicialmente esparsos, foram se juntando e, em poucos minutos, era como estar embaixo de uma ducha de alta pressão. Se não se considerasse o fato de que eu tinha uma consulta médica, tinha que estar apresentável, que levava nas mãos um momento de papel e que estava no meio do canteiro de uma avenida congestionada, a sensação até poderia ter sido boa... Corri o quanto pude e entrei no prédio parecendo meio molhada, meio suada e inteira desalinhada. Ajeitei os cabelos com as mãos, conferi o estado dos exames que eu carregava em um envelope de papel e subi para consulta. Depois de aguardar por mais de 45 minutos, a médica me atendeu e assim que colocou meus exames no visor luminoso, ouvimos um trovão e todas as luzes se apagaram.
Cinthya Nunes Veira da Silva

Versos e reversos do amor

Confesso que até tento evitar, mas costumo prestar atenção nas pessoas, no que elas fazem e falam, essencialmente quando não estão se dando conta disso. Enquanto algumas pessoas observam pássaros, eu observo pessoas. Sem isso, sem essa espécie de curiosidade que me é nata, talvez fosse difícil escrever sobre a vida, sobre sentimentos, sobre as relações humanas. Assim, embora eu busque não ultrapassar a barreira do alheio, do indiscreto, há situações nas quais as pessoas se expõem de tal maneira que é impossível não ouvir o que dizem ou mesmo não me aperceber do que demonstram sentir. Se as pessoas pudessem se dar conta dos infinitos sentimentos que transbordam de seus olhos, de suas palavras, de seus gestos, muitos se dariam conta de estarem andando por aí com a alma e coração desnudados, à flor e ao fruto da pele.
Cinthya Nunes Veira da Silva

Se chorei ou se sorri…

Podem me chamar de brega se quiserem, mas gosto muito das letras das músicas do Roberto Carlos, das composições mais antigas dele. Até seria difícil ser diferente, já que era uma trilha sonora constante na minha casa, fãs que meus pais ainda o são. De todas elas as letras, sempre me vem à mente “Emoções”. Talvez porque eu mesma seja um turbilhão delas ou talvez porque eu acredite que sem emoção a vida não vale ser vivida. É claro que todos temos o idílico sonho de uma vida apenas de boas emoções, de momentos felizes. Por óbvio isso é impossível. Primeiro porque as emoções não são apenas boas ou ruins, mas muitas são um pouco de cada, tudo junto e misturado. O próprio chegar a esse mundo é um momento de dor, mas que também é de alegria, alegria que o recém- nascido não reconhece de início, contudo.
Cinthya Nunes Veira da Silva

Natal de luz

Segundo meus pais, logo que eu aprendi a falar, e quem me conhece pode imaginar que foi logo, no meu primeiro Natal eu já pedia para ir ver as “boinhas”. No caso, eu estava encantada com as bolinhas e luzes de Natal e, de fato, de lá para cá continuei sendo uma amante da decoração natalina. Na minha casa, a decoração de Natal é colocada logo após o Dia de Finados. Eu mesma me encarreguei de fazer uma parte dela, mas o que mais me chama a atenção são os enfeites luminosos e coloridos. Agora, na proximidade de mais um Natal, o quadragésimo da minha vida, começo a refletir a razão pela qual gosto das luzes e das “boinhas” até hoje...
Cinthya Nunes Veira da Silva

Verão que te quero verão

Por várias vezes eu escrevi que sou amante das estações temperadas. Sou especialmente apaixonada pelo outono e pela primavera. Contudo, no fim das contas, sempre gostei de acompanhar e de viver as mudanças das estações, o crescer do frio ao calor e o despedir do calor, de volta ao frio. Esse ano, em especial, por outro lado, ficou tudo misturado. Não vi a primavera em toda sua glória e nem mesmo o outono em sua placidez. Meio que tudo foi cinza, nublado, mais para frio do que para quente, com alguns oásis de dias azuis perdidos no caminho. As flores, confusas, floriram tímidas, como quem só aparece para dar uma espiadela, só para ter certeza de que não errou de caminho ou de estação.
Cinthya Nunes Veira da Silva

Pelo amor de Francisco

Quem me conhece sabe que meu amor pelos animais é algo que não escondo, que não disfarço e de que não me envergonho. Não me lembro de um só momento em que eu não estivesse rodeada por eles ou desejando estar. Gosto de pássaros, peixes, cães, gatos, animais silvestres, pequeninos, grandes, bonitos, feios, mansos ou ferozes. Para mim, por sinal, os animais, pela sua diversidade, são as mais belas obras da natureza. Não sou daquele tipo de pessoa que prefere bicho a gente, mas nem o contrário. Não tenho filhos e é provável que não os tenha, e isso por opção. Tenho muitos animais em casa, o que não significa, por outro lado, que eu os considero como os filhos que não tenho. Nada contra quem, diga-se de passagem, mas não é dessa forma que os vejo. Eu os tenho como seres que amam e aos quais eu posso dar amor e aos quais devo respeito.
Cinthya Nunes Veira da Silva

Deu a louca no tempo

Dizem as boas línguas que a Primavera chegou, mas eu, sinceramente, acho que ela só deu uma passada e foi para outras paragens. Deixou apenas um rastro de flores e alguns dias de céu azul, mas desconfio que alguém lhe vez mal e ela resolveu dar um tempo. É possível que volte, contudo, para dar ares da sua graça e beleza e eu, confesso, estou ansiosa por isso. Então, infelizmente, vou ter que engrossar a lista do SAC celeste e até correr o risco de ter meu nome enviado a inferiores instâncias, mas preciso desabafar: eu sou apaixonada pela Primavera e estou sentindo falta dela. Em seu lugar, deixou o irmão Frio, com o qual tenho minhas diferenças. Estou ciente de que ele tem seu glamour, que as pessoas ficam chiques (e congeladas) quando ele reina, mas eu sou um ser de sangue não totalmente quente, porque minhas extremidades ficam brincando de “roxinho” e eu sigo encolhida e sonolenta.
Cinthya Nunes Veira da Silva

Enrolando a língua

Talvez a ideia tenha nascido pelo fato de praticar de uma arte marcial japonesa, talvez pelo fato de ter morado quase a vida toda em cidades nas quais a comunidade japonesa sempre foi abundante e, por isso, não apenas ter convivido com muitos japoneses e descendentes, mas com sua cultura, mas, seja pelo que for, inventei de aprender japonês. Assim, matriculei-me em uma aula semanal de uma e meia com uma professora nativa. Ajudou o fato de a professora ser ótima e da turma ser diminuta, mas eu tenho me sentido, a par disso, na pré-escola. Já nas primeiras aulas fui apresentada ao alfabeto. Não apenas para conhecer, mas para aprender a escrever.
Cinthya Nunes Veira da Silva

Modernos fazendeiros

Fiz parte de uma geração de brasileiros que vivenciou a chegada dos jogos eletrônicos. Para as crianças de hoje, penso, é praticamente impossível imaginar o mundo sem esse tipo de entretenimento, mas para quem foi criança na década de setenta, a realidade infantil mal incorporava a televisão, já que nem todas as casas possuíam uma. Recordo-me de que na casa dos meus avós havia aparelhos de TV em preto e branco e, preso na frente de seus monitores de tubo, era colocada uma espécie de tela azul, para conferir alguma cor às imagens. Isso sem dizer que controle remoto era algo nem remotamente suposto e a cada vez que se pretendia mudar de canal era necessário levantar do sofá e ir até a televisão para apertar um de seus poucos botões.
Cinthya Nunes Veira da Silva

Amor à vida

Muita gente me pergunta como eu consigo fazer tantas coisas ao mesmo tempo e mais gente ainda me pergunta por que razão eu quero fazer tantas coisas. Sinceramente, a resposta para isso, para mim, é muito simples, sem segredos. Pode parecer o óbvio, mas consigo porque faço e todo mundo, quando quer, consegue. O tempo é medido da mesma forma para todo mundo e aí é uma questão de possibilidade e de prioridade. Eu digo isso porque grande parte das pessoas que me fazem essa pergunta, tem tempo disponível, e teria plenas condições de fazer muito mais, de ser mais feliz, inclusive. Acho que algumas pessoas desperdiçam seus potenciais e seu tempo, de forma leviana ou inocente, mas o resultado inevitavelmente será o mesmo.
Cinthya Nunes Veira da Silva

Gente doida

Todos nós temos limites e isso é óbvio, mas tenho a sensação de que as pessoas estão literalmente “pirando na batatinha”. Por tudo e por nada. Desistir tem parecido mais simples do que tentar, do que batalhar. Mesmo que se possa perder e sempre há um risco, ainda sim a emoção da luta deveria impulsionar as pessoas e não soterra-las sob pilhas de antidepressivos e afins. Reitero que não estou dizendo que há dores mais fortes do que a natureza humana e que, muitas vezes, é necessária a ajuda de medicamentos e de terapia. Só estou dizendo que a fragilidade das pessoas, atualmente, vem me assustando. Da mesma forma, a quantidade de gente que abandona a normalidade ou a loucura aceitável, para embarcar na loucura da alienação e do egocentrismo. Tenho medo de que, em poucas décadas, estejamos todos psicologicamente abalados demais para continuarmos sendo doidos felizes... Talvez, ao contrário, a verdade esteja do outro lado, como no conto de Machado de Assis, O Alienista...
Cinthya Nunes Veira da Silva

Tênis de mosca

De vez em quando, aparece, na minha casa, uma infestação de moscas, aquelas famosinhas, do Mendel, conhecidas como "drosophila melanogaster" ou simplesmente drosófilas. Elas surgem não sei de onde e sem dar sinais. É como se materializassem de repente, tal como geração espontânea, vindas do nada e em bandos. Por mais que tudo esteja limpo, asseado, arrumado, elas invocam com um lugar e começam a rotina asquerosa de depositar pequenos pontos marrons por todo local em que circulam. Eu até pensei que podiam ser ovos, mas descobri que, embora tenham a mesma origem na geografia corpórea, são outra coisa bem pior.
Cinthya Nunes Veira da Silva

Nos labirintos da vida

Que a vida pode ser, em muitos momentos, um grande labirinto, com saídas que apenas aparentam sê-las, com caminhos que trilhamos decididos, convictos, mas que não dão em lugar nenhum, com passagens surpreendentes e inesperadas, isso eu não duvido. Não é, contudo, desse tipo de comparação que faço uso. Minha motivação para escrita de hoje diz respeito a outro labirinto. Refiro-me ao labirinto existente na minha cabeça e que não é o figurativo, mas o físico e que, literalmente, tira o meu equilíbrio. Quando toco nesse assunto, sempre tem um engraçadinho dizendo que isso é idade e blá blá blá... Em meu favor eu tenho o fato de que, minhas crises de labirintite eram muito mais agudas quando eu era criança e, com o tempo foram diminuindo de intensidade e gravidade.
Cinthya Nunes Veira da Silva

Questão de educação

Há problemas para os quais não é possível saber a resposta ou para os quais não há mesmo resposta. Há outros, no entanto, para os quais todos conhecem a resposta, mas que, por razões diversas, permanecem insolúveis. Quando se fala da crise de moral, de segurança, da corrupção, da poluição, desde que me conheço por gente e olha que as décadas já começam a se avolumar, a resposta dos mais esclarecidos é sempre a mesma: é tudo uma questão de educação. Infelizmente, embora essa seja o que se chama de verdade sabida, pouco ou nada, de efetivo, vem sendo feito para mudar esse estado de coisas, ou seja, da ignorância de princípios, que é muito mais, embora a contenha, do que a falta de instrução formal.
Cinthya Nunes Veira da Silva

Cachorrada

Eu amo cães. Sempre os amei, diga-se de passagem. Implorei aos meus pais que me dessem, aos cinco anos, meu primeiro cãozinho, o Totó. Nossos quatorze anos juntos rendaram um livro infantil, muitas lembranças e muita saudade. Desde então, embora tenha havido hiatos nos quais não tive a companhia de um cão de estimação, a maior parte da minha vida foi, por assim dizer, canina. Atualmente, ao meu lado estão Peteco e Floquinho, respectivamente com 10 e 11 anos. São duas crianças peludinhas, que me esperam, já brandindo altos latidos, quando inicio o movimento de virar a chave no portão. Do mesmo modo, dão verdadeiros escândalos quando fecho a porta e os deixo para trás. Aliás, qualquer saída é retribuída como alguma manifestação de inconformismo.
Cinthya Nunes Veira da Silva

Problemas maiores ou menores?

Defendo que as pessoas participem ativamente dos processos que alteram o sistema normativo nacional, mas que o façam com o mínimo de conhecimento e não pelo calor da emoção, quase nunca uma conselheira prudente. Para isso, entretanto, precisam receber informações, precisam ser ouvidas, mas precisam escutar também. Necessário se faz que o povo saiba das experiências em outros países, que esteja aberto a dar ouvidos aos prós e aos contras. Sobretudo, que saiba para onde vai o dinheiro que todos os meses deixa o bolso dos trabalhadores e que deveria ser utilizado, entre outros nobres fins, na educação, na prevenção, na criação de empregos e, por último, na repressão.
Cinthya Nunes Veira da Silva

Que civilização, cara pálida?

Diante de tantos fatos escabrosos que vem ocorrendo ultimamente, eu não tenho me sentido muito confortável para dizer que somos uma sociedade civilizada, não no sentido de que nos tratamos um ao outro com respeito, com observância aos limites alheios e à vida do próximo. Fico imaginando se as pessoas sempre foram assim ou se, agora, tudo ficou mais visível, menos velado e mais globalizado. Se somos moldados todos do mesmo barro, porque alguns de nós são capazes de tamanhas atrocidades, de tanta indiferença e violência? Vejo tanta gente preocupada com a diferença da cor de pele, de condição econômica, de preferências por times, de sexo, de beleza, mas pouco ouço dizer de um inconformismo geral quanto a diferenças mais profundas, mais significativas, como caráter, ética, moral, bom senso, piedade...
Cinthya Nunes Veira da Silva

Feito purpurina

Todos os anos ela vestia a fantasia. Escolhia os tecidos com meses de antecedência. Tudo era meticulosamente pensado, tais como as cores, as texturas, o viés e mesmo as linhas. Ela mesma desenhava, fazia os moldes, cortava os panos, juntava tudo como quem pinta um quadro sonhado e, com as linhas da vida, ia tecendo sua fantasia. Se nada fora como ela tinha imaginado, ao menos no Carnaval ela podia se libertar. Não havia justificativas, frustrações, sofrimento ou decepções. Estava tudo ao seu alcance, eu seu poder, tudo como nunca seria, pois não havia mais tempo para ser. Ela sabia que o tempo havia escoado à revelia de suas aspirações, do que ela imaginara que seria.
Cinthya Nunes Veira da Silva

Retrospectiva

Acho que todo ano é a mesma coisa. As pessoas esperam retrospectiva dos acontecimentos mais marcantes, mais importantes do ano que se finda. Penso que é uma forma de repassar o tempo, na tentativa de reter ao menos um resumo do que não se consegue guardar na íntegra, muito provavelmente no intuito de nos apoderarmos do tempo que já não nos pertence. Particularmente, também faço, todos os anos, uma rápida rememoração do que vivi, do que ficou de positivo e o que de nem tanto. Alguns anos, com certeza, trazem saldos melhores do que outros, mas nenhum deles deixou de merecer ter sido vivido, por pior que possa ter sido. Assim, uma vez mais, coloco-me a pensar no ano que agora vai agonizando, realizando seus derradeiros dias.
Cinthya Nunes Veira da Silva

O último Natal do mundo!

Seja como for, para alívio geral, o mundo não chegou ao fim e, para o bem e para o mal, tudo permanece como antes. Nenhuma grande revelação surgiu, bem como os alienígenas não se apresentaram para um colóquio ou para conquistar o planeta. O sol está forte, não se nega, mas não apareceu outro, gêmeo dele, pronto para nos transformar em pururuca. Por outro lado, se os planetas estão com as órbitas desalinhadas, vão ter que dar outro jeito nesse problema, pois nada indica que farão isso como em um nado sincronizado ou coisa do gênero.
Cinthya Nunes Veira da Silva

Mortos vivos

Antes que alguém pense que vou fazer uma apologia à onda de filmes sobre zumbis, já ressalto que não estou entre os fãs desse tipo de monstro. Confesso que os vampiros, lobisomens e fantasmas, de alguma forma sempre habitaram meu imaginário, suscitando não só o meu medo, mas também meu fascínio. Já com os ditos mortos vivos, daqueles que ficam caindo aos pedaços, verdes e gosmentos, a coisa é diferente. Há nos vampiros e nos homens lobos certa dose de erotismo, de mistério e de sedução, que proporcionam a esses personagens certo quê de atraentes. O cinema e a literatura, aliás, muito já trouxeram e exploraram sobre a temática do amor estranho entre humanos e criaturas da noite. Mas falando sério, alguém consegue imaginar um romance agradável entre um vivente e alguém que vai apodrecendo, deixando pedaços pelo caminho e com muita vontade de comer seu cérebro ou um pedaço qualquer que você deixe à mostra, sem querer? Então...
Cinthya Nunes Veira da Silva

Extermínio de avós

Há cerca de uns quinze dias foi oficialmente aberta a temporada de extermínio de avós. Na verdade, a coisa é um pouco mais ampla, mas os avôs e avós são os mais vitimados. Antes que o leitor pense se tratar de algum vírus específico que afete idosos eu devo advertir que não. Definitivamente, trata-se de outro fenômeno... Exerço o magistério jurídico superior desde 1999, e embora a revelação desse fato possa permitir que se façam cálculos etários, nem daria para mentir, sobretudo tendo “infinitos” ex-alunos como testemunhas oculares do que espero, não tenha sido um crime (rs...). A relevância dessa data é no sentido de ilustrar o quanto de tempo tenho vivido a temporada de pobres velhinhos falecidos inexplicavelmente.
Cinthya Nunes Veira da Silva

Fim do mundo

E lá vamos nós com mais uma estória de fim do mundo. Se bem que, se não me falha a memória, já estamos doze anos no lucro, pois o mundo já deveria ter acabado na virada do milênio. Para algumas pessoas, infelizmente, de certa forma, acabou mesmo. Para os demais, seja porque continuaram a viver, seja porque nasceram nesse meio de tempo, tudo continua como sempre, mais no meio do que no fim. Agora, parece que “sei lá eu quem” fez as contas direito, atualizaram o calendário interplanetário ou raio que o parta e, o resultado é que o mundo, agora vai mesmo acabar e tem até dia para isso: 21 de dezembro de 2012. Na verdade, como eu estava meio com dúvida sobre a data certa desse “compromisso mundial”, resolvi dar uma paradinha para consultar o Google, e descobri que, uma vez mais, ganhamos mais um tempinho, pois a catástrofe estava prevista para 21 de maio...
Cinthya Nunes Veira da Silva

Um pouco de tudo

Acho que isso não acontece somente comigo, embora eu nunca tenha conversado com outros cronistas ou escritores sobre essa questão, mas muitos de meus textos nascem depois dos títulos. Muitas vezes um título me vem à cabeça, sem que eu faça a menor idéia do que é que virá a seguir, nem do que significa. Hoje mesmo, ao acordar, lembrei-me de que meu prazo para o texto semanal estava expirando. Como de costume, comecei a pensar sobre o que iria escrever, quando me veio a mente a frase “um pouco de tudo”... Já era um começo: eu tinha um título, porém, nem imaginava o conteúdo.
Cinthya Nunes Veira da Silva

Bagunça canina

Quem me conhece já sabe e quem acompanha meus textos há algum tempo, sabe da mesma forma. Tenho dois cães de estimação, o Peteco, um dachshund e o Floquinho, um poodle que um dia foi preto e que hoje é um cinza desbotado. Quando eu menciono suas idades, as pessoas logo me dizem que agora deve estar tranquilo, pois, velhinhos, já devem estar sossegados, não dando mais muito trabalho. Poucas vezes alguém esteve tão equivocado. Se eles estão idosos, caninamente falando, acredito que ninguém os avisou disso. Quando saímos para andar, os dois mais parecem cães puxadores de trenó. Por mais que aumentemos nossos passos, nunca é suficiente para o ritmo dos dois. A sensação de que tenho é de que eles caminham em 5ª marcha e nós, em 2ª.
Cinthya Nunes Veira da Silva

Em busca do tempo perdido

Eu acharia curioso, se não achasse triste, o fato das pessoas somente darem valor a algumas coisas ou a algumas pessoas, quando já não mais as tem por perto. Se há um sentimento que não me é simpático é a hipocrisia. Não lido nada bem com ela e nem consigo fazer “cara de paisagem” ou de compreensão diante de manifestações hipócritas. Assim, penso que precisamos dedicar amor, afeto e tempo para as pessoas enquanto as mesmas estão vivas, enquanto podem sentir de nós aquilo que bom, de nós emana. É uma troca que, ao meu sentir, faz mais sentido quando se sabe real, quando permite abraços, beijos, apertos de mão, conversas longas e preguiçosas, loucas e assoviadas palavras de amor, de plenos pulmões ou ao pé do ouvido.
Cinthya Nunes Veira da Silva

Vergonha alheia

Mais do que nunca, nos últimos tempos venho sentindo muita vergonha alheia. Sinto repulsa, nojo, indignação, mas, sobretudo, vergonha quanto às atitudes de alguns seres humanos contra os animais. Afirmo que a vergonha é alheia por conta de que, em que pese faça parte da raça humana, não carrego entre meus defeitos ou pecados, a crueldade contra animais. Alguns episódios, sobretudo, causaram-me extrema tristeza, extrema dor. Não tenho vergonha, nem alheia, muito menos própria, de afirmar que deixei muitas lágrimas doloridas escorrerem-me pela face. Tenho alguns animais comigo e jamais, em toda minha vida, fui capaz de causar-lhes dor física, de machucá-los ou levá-los a sofrimento. Nunca tomo sequer café da manhã antes de alimentá-los, um a um.