Principal » Artigos de Cesar Soares Farias
Cesar Soares Farias

Preta, pobre e feia

A mocinha afrodescendente, com certeza, não ouviu a sentença em tom de murmúrio proferida a seu respeito. Porém foi-lhe impossível ignorar o riso daquela rapariga no momento em que cruzou, cheia de esperanças, o umbral da sala 308. Na peça não havia qualquer mobília, exceto as três cadeiras pretas acolchoadas e com braços. A primeira vazia, plantada em frente à janela na parede dos fundos e envolta pela escassa claridade daquele dia cinza. As outras duas, logo em frente, na penumbra, ocupadas por Silvânia e seu chefe. Enquanto ela, a cada novo candidato, rabiscava anotações em uma folha presa à sua prancheta de madeira, ele limitava-se a formular breves perguntas informais e esquadrinhá-los com o olhar.
Cesar Soares Farias

O homem da ganja

Afora aquele inconfundível cheiro que exalava pela janela quatro ou cinco vezes por semana, não havia nenhum outro motivo para reclamações na vizinhança. Dona Íria e Seu Jacinto que o digam. Moravam ao lado da cabana de madeira envernizada que pertencia ao inofensivo maconheiro, novo morador daquela pacata rua das Bromélias. O casal de anciãos era freqüentemente acudido pelo rapaz, que possuía avançados conhecimentos de eletricidade e conserto de eletrodomésticos em geral. Foi ele quem recuperou, sem cobrar qualquer tostão, a batedeira, o aparelho de som e o ferro de passar roupas dela. Em pouco tempo, tornou-se Cauã o mais confiável quebra-galhos da rua. Quando o assunto era rede elétrica, quase todos, exceto a família do Humberto, requisitavam-no em suas horas de folga.
Cesar Soares Farias

Amigo bicho

Em seu programa matutino na Rádio 104 FM, nos dias 22 e 23 de fevereiro, o comunicador J. Crow também noticiou o extravio daquele pequeno animal de estimação. Ambas as tentativas, no entanto, não surtiram o efeito esperado, fazendo cair em depressão todos naquela casa, exceto Lígia. A ausência de Chiquita, a personalidade canina em questão, deixou um vazio inversamente proporcional ao seu tamanho. Era uma cadelinha bastante amorosa, que costumava roçar-se nas pernas dos donos até receber carinho. Deitava-se de barriga pra cima e com olhos suplicantes induzia-os a alisar-lhe com os pés, desde o ventre até o pescoço. Uma vez atendida, protestava a cada interrupção da carícia, pondo-se de pé e arranhando-lhes com delicadeza as pernas. Era alegre ao extremo e sua alegria contagiava-os tanto que eram raras as brigas e discussões naquele lar.