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	<title>Debates Culturais - Liberdade de Idéias e Opiniões &#187; Carlos Alberto Figueiredo da Silva</title>
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		<title>A História e suas faces: Intentio operis, intentio auctoris &amp; intentio lectoris.</title>
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		<pubDate>Thu, 12 Nov 2009 02:01:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carlos Alberto Figueiredo da Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Carlos Alberto Figueiredo da Silva]]></category>

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		<description><![CDATA[Apaixonados apreciadores do futebol, temos, ao longo destes anos de existência, gasto uma boa soma de 90 minutos, com este fabuloso esporte bretão! Dentre as lições que aprendemos, achamos que a mais importante de todas, obtida durante estes valiosos minutos em que nossos olhos, hipnotizados, acompanharam a mágica esfera, foi aquela que, simplesmente, diz: futebol é história e cultura. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Pelada.JPG" alt="Pelada" title="Pelada" width="220" height="202" class="aligncenter size-full wp-image-2920" /><strong>Resumo</strong></p>
<p>Este ensaio busca analisar as diferentes interpretações que um acontecimento histórico pode ter. A questão principal passa pela querela entre intenção da obra, intenção do autor e intenção do leitor. É possível termos acesso à gênese de um processo histórico? O acontecimento histórico é uma entidade em si mesmo? Qual a importância das interpretações dos indivíduos comuns sobre os acontecimentos? Existe um código a ser decifrado num acontecimento histórico? Os autores usam uma imagem para concluir suas idéias. A história é um rio, que ao receber águas de seus afluentes vai aumentando de nível. Em determinado momento as águas se dividem. Mais adiante, elas se unem novamente. Em determinados trechos, formam-se os deltas e os meandros. A água corre mais lentamente no centro do rio, mas nas suas margens elas são velozes. </p>
<p><strong>Palavras-chaves: </strong>futebol, interpretação, imaginário, acontecimento. </p>
<p><em><strong>Abstract</strong></em></p>
<p><em>This essay aims at to analyze the different interpretations that a historical event can have. The main subject goes by the dispute among intention of the work, the author&#8217;s intention and the reader&#8217;s intention. Is it possible we have access to the genesis of a historical process? Is the historical event an entity in itself? Which is the importance of the common individuals&#8217; interpretations on the events? Is there a code to be deciphered in a historical event? The authors use an image to conclude their ideas. The history is a river, that when receiving waters of your tributaries is going increasing of level. In certain moment the waters become separated. Further on, they join again. In certain spaces, they are formed the deltas and the meanders. The water runs more slowly in the center of the river, but in your margins they are fast. </p>
<p><strong>Key-words:</strong> soccer, interpretation, imaginary, event. </em></p>
<p><strong>O moleque e a bola</strong></p>
<p>Apaixonados apreciadores do futebol, temos, ao longo destes anos de existência, gasto uma boa soma de 90 minutos, com este fabuloso esporte bretão! Dentre as lições que aprendemos, achamos que a mais importante de todas, obtida durante estes valiosos minutos em que nossos olhos, hipnotizados, acompanharam a mágica esfera, foi aquela que, simplesmente, diz: futebol é história e cultura. </p>
<p>Para aquelas pessoas que duvidarem desta afirmação, e temos certeza de que algumas duvidarão, resta-nos apenas lembrá-las, que nada exemplifica mais a cultura que a diversidade e a alteridade. Aquele que tiver a oportunidade de assistir ao bom futebol alemão, certamente ficará impressionado com a organização, quase bélica, das equipes germânicas. Os jogadores alemães se movem como Panzers em ritmo de marcha, desfilam com força para dentro do campo do inimigo, com um único objetivo: VENCER! A exemplo da cultura alemã, as seleções daquele país não são formadas só de brutalidade e organização. Há também, uma grande dose de lirismo, quase que musical, como Beethoven, ou melhor, quase barroco, como Bach, afinal o preciosismo técnico de jogadores como Breitner e Beckenbauer, sempre deu ao futebol alemão aquela arte e sem ela os alemães não teriam levantado o caneco três vezes. Nem só de batalhas vive o povo alemão. A filosofia e o espírito romântico sempre estiveram presentes na cultura daquele povo que nos deu Hegel e Goethe. </p>
<p>Pela esquerda os alemães atacaram de Overarth, Stielike, e Breitner, mas também contra-atacaram com Marx. E se pela direita, Seller e Muller marcaram inúmeros gols, Nietzche desenvolveu, através de Zaratustra, teorias que nem o mais radical companheiro pode deixar de respeitar. E se a filosofia e a inteligência estiveram tão presentes no pensamento alemão, dentro de campo quebrou a Hungria em 54 e enguiçou a Laranja Mecânica, vinte anos depois. </p>
<p>Quem pode não ver sedução nas equipes italianas? E olha que não falamos aqui dos olhos de Roberto Bettega, que nos deixaram, homens, enciumados quando as mulheres se tornaram fanáticas pelo Cálcio, pelo menos enquanto a Azzura jogava! Aliás a Itália sempre jorrou sedução. Exemplos não faltam: Sophia Loren, Claudia Cardinalle, Ornella Mutti, ou simplesmente uma &#8220;ragazza&#8221; qualquer, que nos chama a atenção ao buscarmos algo na TV a cabo e parar na Rai. A parada se torna, obrigatória! </p>
<p>Cerezzo, por exemplo, deve ter ficado completamente seduzido pela forma italiana de jogar, ao entregar aquele passe ao sedutor Paolo Rossi. O nosso Toninho entregou a bola a Rossi, como se entrega flores a pessoa amada e o italiano seduziu a generosa defesa brasileira, por três vezes, afinal sedutor que é sedutor, dissimula, aproxima-se da baliza do adversário e põe a bola lá dentro. </p>
<p>O futebol argentino, a exemplo de todo o povo da Bacia do Prata, é aguerrido, muitas vezes até demasiado. Assim são os caudilhos na vida, sempre prontos para virar o jogo, como o Uruguai fez em Cinqüenta, seja na bola, ou seja no tapa, mesmo que este seja nela mesma, como fez Maradona, contra a Inglaterra. Dieguito contudo, pôs os soldados da rainha para dançar o tango, partindo ao meio aquelas cinturas duras dos Bobs britânicos. </p>
<p>O futebol africano é como a África negra. O vigor físico é aliado a um ritmo inigualável! Há também uma grande dose de magia, black magic, mas a inocência ainda é uma forte característica daquele continente e submetidos pela brutalidade do homem branco, os jogadores africanos ainda se deixam seduzir e &#8220;erros&#8221; no final do espetáculo têm sido constantes, como os cometidos pela equipe dos Camarões na Copa de 86, quase no finzinho do jogo, contra o nada inocente &#8220;scratch&#8221; inglês. Aliás, este sempre alto, forte, bom de &#8220;porrada&#8221; e nada mais. Foi esta mesma inocência, que eliminou a Nigéira em 94, quando foram submetidos, quase no fim, pela sedução de Roberto Baggio. </p>
<p>E o futebol brasileiro? Qual é a identidade deste futebol, tetra-campeão do mundo, mulato, sem muitos recursos materiais, mas cheio de malícia e com aquele jeitinho que acerta o tempero na feijoada ou no bobó e o pé na hora do gol. É um futebol multi-cultural. Herdamos o vigor e a magia da mãe África, a malícia do pai português e a eficaz adaptabilidade do filho nativo. E se a cultura brasileira é multi-facetada, dentro de campo, apenas a face de Joãozinho me vem a memória quando penso no nosso futebol. Quem lembra dele? Era um mameluco de estatura mediana, mais para o magro, e que endiabrava seus marcadores, como pivetes endiabram os meganhas nas ruas de Rio e São Paulo. Joãozinho driblava os laterais, como o brasileiro dribla as crises e apesar de um físico meio franzino, vez por outra fazia seus gols e, quase sempre, generoso como todo bom brasileiro, dividia seus feijões de glória servindo a seus companheiros cruzamentos para que estes marcassem. </p>
<p>Joãozinho é a cara do brasileiro comum que com toda a sua habilidade, malícia, magia e um adorável jeito moleque consegue se adaptar e criar, em meio a toda miséria que lhe é exposta. Não fosse a truculência, a falta de escrúpulos e a corrupção dos donos da bola, certamente seríamos sempre os melhores do mundo. Mas será que aqui falamos de algum General ou de algum Almirante? Falamos de cartolas ou simplesmente do &#8220;Mercado&#8221;? É&#8230; esse Brasil tem mesmo mil faces. E a história?, que faces tem? </p>
<p><strong>Intentio operis: a intenção da obra</strong></p>
<p>Umberto Eco (1989) no livro <strong>The Open Work</strong> defende o papel ativo do leitor na interpretação dos textos dotados de valor estético. Entretanto, posteriormente, no livro Interpretação e superinterpetação (1993/1997), afirma que os leitores acabaram exagerando nos seus direitos de interpretar. Eco vai discorrer sobre esse excesso que ocasiona, na maioria dos casos, interpretações ruins. Para ele, há limites para a interpretação. </p>
<p>Nesse sentido, aduz que entre a intenção do autor (intentio auctoris) e a intenção do leitor (intentio lectoris) existe a intenção da obra (intentio operis). Por conseguinte, um texto, um documento histórico, uma obra, um acontecimento, tem uma &#8220;natureza&#8221; e caberia ao intérprete descobrir a &#8220;verdade&#8221;. </p>
<p>Por outro lado, Richard Rorty (1997) insiste na idéia de que devemos abandonar esta obsessão e compreendermos que os textos nos são úteis no sentido de modificarmos a nós mesmos e a partir daí o mundo. Rorty, como um pragmatista, anti-estruturalista e anti-hermetista, vai dizer que tudo o que alguém pode fazer com alguma coisa é usá-la. A busca de um sentido profundo nas obras é um desperdício de tempo. De fato, não fazemos nem descobrimos, mas reagimos a estímulos emitindo frases, pensamentos, metáforas, e inferimos outras frases destas. O nosso vocabulário é sempre final-provisório em virtude de não haver limites para as interpretações. </p>
<p>Rorty não está à procura das coisas como elas realmente são ou foram, mas como argumentações contínuas, em que diversos vocabulários se mostram e se constroem, criam o novo. Os conceitos, para Rorty, são mais ferramentas do que peças de um quebra-cabeças ou enigmas que, ao serem desvendados, nos mostrariam como o mundo realmente é. </p>
<p>Temos por um lado a crítica de Eco à superinterpretação e, por parte de Rorty, uma despreocupação com o que a obra efetivamente diz, mas com o que poderia dizer. </p>
<p><strong>Interpretação, superinterpretação e subinterpretação</strong></p>
<p>De acordo com Culler (1997:131), a interpretação não precisa de defesa; entretanto, o ponto crucial é a idéia de que a interpretação só é interessante quando é extrema. Diz ele que: <em>&#8220;Muitas interpretações ‘extremas&#8217;, como muitas interpretações moderadas, sem dúvida terão pouco impacto, por serem consideradas pouco convincentes, redundantes, irrelevantes ou aborrecidas, mas, se forem extremas, terão mais possibilidade, parece-me, de esclarecer ligações ou implicações ainda não percebidas ou sobre as quais ainda não se refletiu, do que tentarem manter-se ‘seguras&#8217; ou moderadas&#8221;.</em> </p>
<p>Nesse sentido, Culler vai valorizar a superinterpretação e dizer que o que Eco entende como superinterpretação &#8211; na qual os intérpretes se distanciam da intenção da obra -, é de fato uma subinterpretação, pois, neste caso, não são interpretados elementos suficientes para a compreensão da obra. </p>
<p>Ao contrário de Rorty, Culler não advoga o abandono da busca dos códigos e da tentativa de identificar e compreender os mecanismos estruturais. Ou seja, não é porque as pessoas falam português que não necessitamos mais analisar as estruturas lingüisticas e seus mecanismos. </p>
<p>Para Culler, tanto Eco como Rorty repudiam a desconstrução. No caso de Eco, o ataque é feito à desconstrução empreendida pelo leitor que altera a intenção da obra. Já Rorty critica a desconstrução que se preocupa em encontrar as estruturas que só tentam identificar o que está na obra, sem ultrapassá-la. </p>
<p>A interpretação de um acontecimento histórico, à luz de uma perspectiva em que espaço e tempo não estejam dissociados, permitem-nos encontrar uma outra via nessa discussão. </p>
<p>Em primeiro lugar, o ponto de vista do intérprete é fundamental na análise de um acontecimento. O intérprete é parte estruturante do processo interpretativo. </p>
<p>Em segundo lugar, consideramos que efetivamente um acontecimento não contém em si uma &#8220;verdade&#8221;. Essa verdade, se é que possamos usar este termo, é um conjunto de idéias argumentadas e que, pelo menos em parte, são aceitas pela comunidade científica, num determinado contexto. </p>
<p>Em terceiro lugar, a concepção de que os contextos são ilimitados, permitem-nos inferir que, nesse aspecto, as interpretações também são ilimitadas. Entretanto, ao delimitarmos um contexto em que um acontecimento histórico provavelmente tenha ocorrido, poder-se-ia estabelecer um campo razoável para a interpretação, pois os mecanismos interpretativos não podem ser configurados a priori; eles funcionam recorrendo a outros processos. Por exemplo, o termo &#8220;Bulelê&#8221; poderia dar a entender que alguém estivesse pedindo alguma coisa? Não há como se estabelecer de antemão um limite para interpretar que &#8220;Bulelê&#8221; significa que alguém quer alguma coisa. </p>
<p>No entanto, se recorrermos a processos interdisciplinares de interpretação, talvez pudéssemos nos aproximar de uma interpretação próxima do real. </p>
<p>Daniel é filho de um dos autores deste artigo, quando ele era ainda um bebê, repetia incessantemente o termo &#8220;Bulelê&#8221;. Ninguém conseguia entender, a princípio, o que queria dizer tal termo. O menino percebendo que não era compreendido, passou também a estender os braços em direção ao pai. Isto significava que ele queria o que estava nas mãos do pai. Aquela expressão já intrigava o pai há algum tempo. Certo dia, pai e filho foram à casa da avó do menino e o enigma foi decifrado. Sempre que a avó ia dar algo para o neto ela dizia: &#8220;é pro nenê&#8221;. </p>
<p>Efetivamente, é muito difícil, senão impossível, termos acesso à genese de um processo histórico, mas recorrendo a plurimetodologias e respeitando as diversas interpretações sobre um acontecimento, por mais extremas que elas sejam, abrimos a possibilidade de contribuirmos para a compreensão dos acontecimentos históricos. </p>
<p>A propósito, como poderíamos interpretar O moleque e a bola? Joãozinho realmente existiu? Que importância tem se ele existiu ou não? Qual era a verdadeira intenção do autor quando escreveu o texto? É possível descobrir a verdadeira intenção do autor? A obra pode ser considerada uma entidade em si mesma? O acontecimento é intrinsecamente determinado por ele mesmo? No nosso ponto de vista, a história encarada como algo que tenha uma intentio operis despreza a inteligência do homem comum. Se a história se constitui, independetemente, das interpretações que os indivíduos realizam, de que serve a história? Se há uma intentio auctoris na história, que nós devemos descobrir, é um trabalho impossível de ser realizado, pois a intenção do autor é inatingível. </p>
<p>Salman Rushdie (1985: 85-90 passim) diz: <em>&#8220;Eu também me defronto com o problema da história: o que reter, o que eliminar, como me manter fiel ao que a memória insiste em abandonar, como lidar com a mudança. (&#8230;) Todas as histórias são perseguidas pelos fantasmas das histórias que poderiam ter sido&#8221;</em>. </p>
<p>A história, no nosso ponto de vista, é obra de uma intentio lectoris. Os indivíduos, ao realizarem os seus processos de interpretação dos fatos, vão construindo um conjunto de elementos que se incorporam ao imaginário coletivo. Este imaginário é ágil, transformador e criativo. Não é uma rocha encravada no fundo do oceano, mas sim a parte submersa de um iceberg que se desloca e se manifesta a partir das interpretações que nós realizamos no nosso cotidiano. Ou se preferirmos usar uma outra imagem, a história é um rio, que ao receber águas de seus afluentes vai aumentando de nível. Em determinado momento as águas se dividem. Mais adiante, elas se unem novamente. Em determinados trechos, formam-se os deltas e os meandros. A água corre mais lentamente no centro do rio, mas nas suas margens elas são velozes. </p>
<p><strong>Referências Bibliográficas</strong></p>
<p>CULLER, Jonathan. Em defesa da superinterpetação. In: Eco, Umberto. Interpretação e superinterpretação. São Paulo, SP: Martins Fontes, 1993.</p>
<p>ECO, Umberto. Interpretação e superinterpretação. São Paulo, SP: Martins Fontes, 1993.</p>
<p>ECO, Umberto. The Open Work. Cambridge, MA, 1989.</p>
<p>RORTY, Richard. A trajetória do pragmatista. In: Eco, Umberto. Interpetação e superinterpretação. São Paulo, SP: Martins Fontes, 1993.</p>
<p>RUSHDIE, Salman. Shame. Londres: Jonathan Cape, 1985.</p>
<p>Trabalho elaborado em parceria com <strong>Paulo Kastrup Albuquerque</strong>.</p>
<p><em>*<strong>Carlos Alberto Figueiredo da Silva</strong> exerce, atualmente, o cargo de Pró-reitor de Ensino do Centro Universitário Augusto Motta e atua como professor titular da Universidade Salgado de Oliveira, no programa de mestrado em Ciências da Atividade Física. Possui graduação em Educação Física pela Universidade Gama Filho (1979), graduação em Direito pela Universidade Federal Fluminense (1993), especialização em Didática e Metodologia do Ensino Superior pela Universidade Estácio de Sá (1995), mestrado em Educação Física pela Universidade Gama Filho (1997) e doutorado em Educação Física (Área de Concentração: Educação Física e Cultura) pela Universidade Gama Filho (2002). Atua como professor no ensino superior desde 1979. Além da docência, implantou o curso de Licenciatura em Educação Física e exerceu o cargo de coordenador no Centro Universitário Celso Lisboa (2002). Foi coordenador do curso de Licenciatura em Educação Física do Centro Universitário Augusto Motta (2003 a 2005). Exerceu os cargos de Pró-reitor de Pesquisa e Pós-graduação (2007 a 2009), Pró-reitor de Pesquisa (2006 a 2007) e Diretor de Pesquisa no Centro Universitário Augusto Motta (2005). Além de atuar no ensino superior, foi professor no Ensino Fundamental e Médio no Colégio da Cidade e professor concursado pelo município de Duque de Caxias, atuando no CIEP Célia Rabelo, no Ensino Fundamental. Na área esportiva foi treinador de basquetebol em diversos clubes do Rio de Janeiro e também no desporto universitário, técnico da seleção carioca feminina de basquetebol universitário, bem como desenvolveu ações em projetos sociais esportivos na Cidade de Deus e na Mangueira pela Fundação Roberto Marinho. Tem experiência na área de gestão acadêmica, pesquisa e educação física, atuando principalmente nos seguintes temas: esporte e desenvolvimento local, educação física, etnometodologia, esporte educacional, racismo-esporte-mídia e inclusão social.</em></p>
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		<title>Reflexos e reflexões sobre o espelho</title>
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		<pubDate>Wed, 26 Aug 2009 03:10:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carlos Alberto Figueiredo da Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Carlos Alberto Figueiredo da Silva]]></category>

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		<description><![CDATA[O espelho desafia o homem ao transformar-se num conceito. Este conceito é produzido culturalmente. O ser humano seria basicamente movido por seus desejos. Esses desejos seriam regulados pela realidade, ou seja, o que move o ser humano para a construção do mundo é o desejo de ser.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Escrava-do-espelho.JPG" alt="Escrava do espelho" title="Escrava do espelho" width="218" height="208" class="aligncenter size-full wp-image-1544" /><br />
<strong>O meu medo maior é o espelho se quebrar</strong></p>
<p>A relação entre os seres humanos e os objetos tem sido ponto de partida para reflexões, não só da comunidade acadêmica; mas, principalmente, dos indivíduos na vida prática diária; mesmo que estes não se preocupem em teorizar como fazem os cientistas. De fato, a relação que as pessoas constroem com os objetos tem uma finalidade prática e esses objetos são ou têm movimento em nossa sociedade porque os homens lhes atribuem significado. </p>
<p>Entretanto, a título de pressuposto, neste trabalho, consideraremos que as relações que os indivíduos estabelecem com os objetos não se limitam a uma lógica objetiva que tem no utilitarismo e no funcionalismo formas acabadas de explicação. De fato, existe uma forma racional que orienta as pessoas na busca da felicidade material e que influencia as concepções que têm de si mesmas e dos objetos. Entretanto, esse esquema racional e objetivo não é o único possível na elaboração de seus juízos de valor. Assim, existe não só uma razão prática que fundamenta as relações dos homens com seus objetos, mas, existe, principalmente, uma razão simbólica que é histórica e culturalmente construída. </p>
<p>Este trabalho tem por objetivo contribuir para a compreensão do processo de construção dos juízos de valor que autores, professores e praticantes de ginástica realizam sobre o espelho, que é um objeto utilizado atualmente em larga escala nas principais academias de ginástica no Brasil. </p>
<p>Partindo da premissa de que o conhecimento do senso comum antecede o conhecimento científico, este trabalho vai valorizar a opinião, a doxa, o bom senso ou senso comum dos indivíduos na sua prática cotidiana. Esta perspectiva pode ser um ponto sujeito a críticas, principalmente, por tratar-se de um texto que tem pretensões científicas. Não obstante, raramente, os cientistas reconhecem que o bom senso gera antecipações que mais tarde recebem o aval da ciência (cf. LOVISOLO, 1999:11). Por conseguinte, desconsiderar os conhecimentos construídos pelos atores sociais e o seu valor na sociedade é arrogância por demais démodé. </p>
<p>O trabalho dividir-se-á em três etapas. Na primeira, um levantamento bibliográfico preliminar (Eco, Gaiarsa, Novaes) buscará as considerações de alguns autores sobre o espelho, sejam eles da área de educação física ou fora dela. Na segunda, analisar-se-ão duas entrevistas &#8211; uma delas do professor Fábio França e a outra da jogadora e treinadora de voleibol, Isabel. Na terceira, buscaremos analisar a existência ou não de uma anterioridade da razão simbólica em relação à razão prática, a partir dos relatos colhidos e da revisão de literatura. </p>
<p><strong>Nos deram espelhos e vimos um mundo doente</strong></p>
<p>De acordo com Novaes (1996:26), a utilização do espelho é fundamental para podermos desenvolver a consciência corporal. Em suas palavras: </p>
<p><em>&#8220;O aluno deve perceber, durante os exercícios, o posicionamento do corpo em relação ao espaço e das partes ou segmentos do corpo entre si, a fim de poder aprimorar o movimento e o domínio do corpo. É claro que neste processo o uso do espelho é fundamental&#8221;. </em></p>
<p>Novaes focaliza a dimensão utilitária do espelho no que concerne à aquisição da consciência corporal. No entanto, parece haver uma contradição quando ele diz que: </p>
<p><em>&#8220;No contato mais íntimo com o mercado da localizada, podemos afirmar que em poucas academias, observamos turmas que tenham domínio do corpo e que buscam a perfeição dos exercícios executados durante a aula&#8221;. (Ibidem).</em></p>
<p>Um ponto a destacar é o seguinte: se em todas as academias existem espelhos e mesmo assim somente em algumas turmas os alunos apresentam domínio do corpo, será que a disseminação do espelho nas academias deve-se apenas ao seu caráter de &#8220;utilidade&#8221; na aquisição da consciência corporal? </p>
<p>Gaiarsa (1984:25) afirma que poucas pessoas se vêem verdadeiramente no espelho. Ele diz <em>&#8220;Todos os espelhos são mágicos. Mostram apenas o que queremos ver&#8221;</em>. Para Gaiarsa, as pessoas olham para o espelho a fim de ver se o cabelo está penteado, se a barba está comprida etc., e por isso o espelho não serve para nos mostrar nossa face, pois o espelho mostra-nos apenas a face externa e aparente. </p>
<p><em>&#8220;Quando olhamos para o espelho, fácil e inconscientemente desfazemos expressões que poderiam desdizer das que os outros vêem. Se prestássemos atenção àquela face, na certa estranharíamos (&#8230;) Por isso olhamos pouco para o espelho. Quando olhamos fazemos a cara que nos apraz ou vemos a cara que nos convém&#8221;</em>. </p>
<p>Na mesma esteira de Novaes, Gaiarsa destaca a dimensão utilitária do espelho, mas realiza um juízo de valor, principalmente, ao se referir ao fato de que o espelho apenas nos ilude; mostra-nos apenas o que queremos ver. Além da dimensão instrumental e utilitária do espelho, Gaiarsa entra também na dimensão expressiva. No entanto, parece que para ele os indivíduos agem como &#8220;idiotas sociais&#8221;. Esta concepção dos indivíduos frente ao espelho parece ser insuficiente para compreendermos as relações significativas que se estabelecem entre homens e objetos. Para que pudéssemos avançar na compreensão dessas relações, talvez fosse necessário observar que a &#8220;utilidade&#8221; de um objeto não é um valor intrínseco, mas uma significação que é construída cultural e historicamente. Ou seja, existe um sistema simbólico que relaciona natureza do objeto e sua capacidade de satisfazer necessidades materiais. </p>
<p>Nossa hipótese é que a cultura gera o significado de &#8220;utilidade&#8221;. Não há relação direta entre o homem e o mundo natural. A cultura é que realiza esta mediação. Prender-se apenas aos valores utilitários de um objeto e tratar isso como um processo natural-pragmático de satisfação de necessidades, sejam elas de plasticidade, domínio do corpo, consciência corporal etc., é ignorar o código cultural que estabelece a organização das representações sociais sobre os objetos que nos cercam. </p>
<p><strong>É porque Narciso acha feio tudo o que não é espelho</strong></p>
<p>O que aflora neste mito é o espelho e a forma de fascínio que ele exerce em Narciso. E o que fascina Narciso? É a sua própria imagem irreal; a imagem idealizada que fez de si mesmo. Assim como Narciso esqueceu a si mesmo e ao mundo que o rodeava, a pessoa fascinada parece estar num transe. Eco é o outro para Narciso, mas este não reconhece nem estabelece relação com o outro. Desta maneira, a construção das identificações fica limitada a sua própria imagem; uma imagem irreal. Narciso não interage com Eco; fica impossibilitado de se encantar pelo outro, de se fragmentar e de se (re)-unir mais forte. Narciso se fascina por sua própria imagem e assim morre; o espelho d&#8217;água não é uma superfície de reflexão para Narciso e sim uma superfície de absorção. De fato, Narciso é que é o espelho que nos faz perceber o movimento das ações humanas: <em>&#8220;através do seu reflexo no mundo e do reflexo do mundo nele, o homem cria a reflexão&#8221;</em> (CAVALCANTI, 1992:14). </p>
<p>O homem reflete sobre essa narcose narcísica, ou seja, essa absorção da imagem pelo espelho. Quando olhamos para o espelho nós o vemos do ponto de vista do observador e não do ponto de vista da imagem refletida. Se não fosse assim, o relógio que usamos no pulso esquerdo nos pareceria estar no pulso direito. A reciprocidade das perspectivas nos protege disso. Como no espelho, ao interagirmos com o outro nós nos colocamos no lugar dele, mas não perdemos nossa referência. As pessoas são essencialmente não-coisas, têm sentimentos, desejos, e o valor de &#8220;utilidade&#8221; dos objetos, que é atribuído por essas pessoas, escapa a uma ótica puramente utilitarista, normativa, ou apenas de satisfação de interesses práticos. Existe algo mais que ultrapassa as normas, os gostos ou a utilidade. Para adentrarmos nessa esfera, talvez fosse necessário observar o campo simbólico em que se estabelecem as relações humanas com os objetos. </p>
<p>O torcedor não vai ao Maracanã apenas por uma necessidade de extravasar suas emoções, ou, puramente, para satisfazer suas pulsões. Muito menos porque existem regras na sociedade que dizem que ele deve ocupar suas horas de lazer. Da mesma forma, achar que as pessoas olham para o espelho apenas para ver se o cabelo está penteado, se a barba está bem feita, ou se a barriga esta no lugar é restringir a visão a uma das dimensões em que o fenômeno pode ser observado. Outrossim, conceber o espelho apenas como um objeto que auxiliaria na aquisição da consciência corporal seria reduzir as avaliações a parâmetros puramente funcionalistas. </p>
<p>O espelho desafia o homem ao transformar-se num conceito. Este conceito é produzido culturalmente. Nesse sentido, Umberto Eco (1989:14) vai na via contrária de Gaiarsa. Para Eco, o espelho não nos engana; muito pelo contrário. A espécie humana, segundo ele, já sabe usar os espelhos porque não atribui ao espelho uma imagem virtual, mas uma imagem real. <em>&#8220;Quanto à imagem virtual, é assim chamada porque o espectador a percebe como se ela estivesse dentro do espelho, quando o espelho, obviamente, não tem um dentro&#8221;</em>. Eco diz que o espelho não traduz </p>
<p><em>&#8220;Ele diz a verdade de modo desumano, como bem sabe quem &#8211; diante do espelho &#8211; perde toda e qualquer ilusão sobre a própria juventude. O cérebro interpreta os dados fornecidos pela retina, o espelho não interpreta os objetos&#8221;</em>(Ibidem, p. 17). </p>
<p>Por esta razão, Eco diz que essa &#8220;desumanidade&#8221; do espelho é que faz com que confiemos nele. Os espelhos são como próteses que ampliam e estendem a ação de nossos órgãos e, nesse sentido, eles são absolutamente neutros. </p>
<p><strong>Diálogos com o professor Fábio França<br />
</strong><br />
França trabalha com ginástica em academia desde a época em que ainda cursava a faculdade de educação física. Ele diz que sua relação com o espelho se modificou durante o seu desenvolvimento como profissional de educação física. Inicialmente, o espelho era utilizado como o elemento mais importante da sala de ginástica. Com o tempo isto foi se alterando: </p>
<p><em>&#8220;Dar aulas só usando o espelho é muito fácil. No entanto, as pessoas que ficam mais atrás não conseguem acompanhar e eu sentia necessidade de virar de frente para a turma e não ficar o tempo todo dando a aula de costas. Quando eu virava de frente para a turma, a turma dobrava. Parecia mais fácil ir de costas até a aluna que estava precisando de auxílio. Eu tinha uma dificuldade muito grande em virar de frente para a turma&#8221;</em>. </p>
<p>França relata então que o espelho o deixava distante dos alunos e que isso o incomodava. </p>
<p><em>&#8220;Eu sempre tive no espelho uma distância muito grande. O espelho me deixava distante dos alunos. Então, eu me acostumei com essa distância, mas eu precisava ter mais contato com os alunos. Parece que eu demorava 365 dias entre parar de olhar o espelho e virar para a turma&#8221;. </em></p>
<p>França diz também que o espelho é uma forma de auto-proteção e aqueles professores que o utilizam como principal elemento da sala, de fato são inseguros. </p>
<p><em>&#8220;No início de minha profissão o espelho era tudo. Depois quando eu senti necessidade de sair do espelho eu vi que não era tudo isso e que o contato fora do espelho era muito importante também. Hoje, eu considero o espelho o acessório da aula que tem menos valor. Pois é muito mais importante o contato direto com o aluno. Os alunos que ficam atrás são mais tímidos, menor capacidade motora e necessitam de mais atenção. O professor perto, ao lado do aluno é essencial. Eu acho que tem que acabar esse negócio do professor lá na frente e quem pegar pegou. Acontece que muitos acabam desistindo se não houver essa preocupação do professor em se libertar do espelho e em auxiliá-los diretamente. Uma aluna certa vez disse que quando eu dançava na frente do espelho era só eu e eu mesmo, que eu olhava só pra mim e esquecia a turma. A partir desse comentário eu passei a refletir e mudei meu comportamento&#8221;.</em> </p>
<p>A preocupação em emitir juízos morais (no sentido amplo do termo) foi uma constante nos relatos. Os indivíduos estão sempre julgando os seus próprios atos e os dos outros. As pessoas nas suas atividades cotidianas estão produzindo conhecimentos, sentimentos e valores. Assim, temos como pressuposto que o mundo social é construído, sobretudo, no desenrolar das interações que os atores sociais agenciam na prática em seu cotidiano, e que este mundo existe porque os indivíduos julgam moralmente suas ações. Desta forma, a Ética está presente nas avaliações que os indivíduos realizam para construir a realidade. Um exemplo prático disso é a expressão ‘moral alta&#8217; que é utilizada no dia-a-dia para nos referirmos àquela pessoa que é estimada pela comunidade. Ao contrário, dizemos que nossa moral está ‘baixa&#8217; quando não nos sentimos prestigiados. </p>
<p>França descreve a sua relação com o espelho de uma forma que demonstra tanto um aspecto funcional como um aspecto simbólico. O simbólico parece sobrepor-se ao aspecto funcional num determinado momento; mas, apesar de o caráter funcional ter pesado mais no início da carreira de França, o simbólico e o prático permeavam o tempo todo suas representações sobre o espelho. </p>
<p>Para ratificarmos que a explicação funcional por si só é insuficiente, pois esse valor funcional é relativo a um sistema simbólico, construído historicamente, apresentamos agora excertos de uma entrevista com a jogadora e treinadora de voleibol Isabel. </p>
<p><strong>Diálogos com a jogadora Isabel</strong></p>
<p>O Jornal do Brasil (05/09/1999:2, Caderno Estilo de Vida) faz o seguinte comentário sobre a jogadora Isabel: <em>&#8220;Sem seguir a cartilha do culto exacerbado ao corpo, a esportista prefere a atmosfera que freqüenta no shopping da Gávea: música baixa tipo MPB, poucos espelhos (grifo nosso) e muita gente amiga&#8221;</em>. </p>
<p>A partir desta reportagem, optamos por encontrar com Isabel para que ela detalhasse as suas idéias em relação à utilização do espelho nas academias de ginástica. Isabel é considerada como um ícone contemporâneo da emancipação da mulher brasileira, não só no esporte, mas principalmente na sociedade. Sua postura como jogadora, mulher, mãe, cidadã, revela o seu comprometimento com uma postura ativa e transformadora da sociedade. Além disso, sua vida tem-se caracterizado pela coerência entre o que diz e o que faz. A entrevista que ora apresentamos indica parte de suas crenças, mas também a sua prática. </p>
<p>Isabel diz que o espelho tem a função de corrigir a postura do corpo; no entanto, a sua fala focaliza a dimensão simbólica e não a funcional do espelho. </p>
<p><em>&#8220;E: Você deu uma entrevista para o Jornal do Brasil e nessa entrevista você falou a respeito do espelho. Eu queria que você me falasse mais um pouco sobre isso. Isabel: É porque eu acho que isso de um certo modo traduz uma, eu acho que o espelho, obviamente, tem a função de corrigir a tua postura, o teu movimento, mas tem um lado&#8230; um lado narciso, que se exacerba na medida em que você tá trabalhando o teu corpo, onde todas as pessoas estão trabalhando o &#8230; os seus corpos e aquela questão de passar em frente ao espelho, a pessoa se ajeita, se ajeita; vira uma certa obsessão &#8211; coisa que é uma atmosfera que me &#8230; me cansa um pouco, entendeu!? Então aquilo me, não me traz uma sensação muito boa, sabe!?, isso não quer dizer que eu seja uma pessoa totalmente desprovida de qualquer vaidade, pelo contrário &#8211; mas acho que a gente tem que tentar melhorar na vida; não piorar, e eu acho que aquela obsessão você não vê a pessoa corrigindo o seu corpo na academia só porque o movimento é&#8230; dela não tá certo, você vê muitas vezes aquela coisa: a pessoa passa dez vezes em frente ao espelho, olha, estufa o peito, não sei! E: Você acha que o espelho não ajuda na consciência corporal? Isabel: Não!, é o que eu disse no início; o espelho tem esse, esse fim, esse pretexto inicial de que ele é pra você&#8230; é corrigir sua postura, você ter uma consciência de como você está pegando nos aparelhos, nos halteres, enfim: mas, você sabe que o que acaba sendo a tônica não é essa&#8221;. </em></p>
<p>Isabel faz distinções e emite julgamentos de valor em relação ao espelho. O seu relato mostra que não se pode analisar os fenômenos apenas por um viés. Ela apresenta a sua interpretação, mas deixa claro que a valorização instrumental do espelho é fato no dia-a-dia e que algumas academias ficariam descaracterizadas se não os utilizassem. As pessoas têm diversos interesses práticos que não podem ser explicados apenas por um interesse material. Esse interesse se localiza e se manifesta num contexto cultural, que cria símbolos. </p>
<p><em>&#8220;Isabel: (&#8230;)uma outra coisa que eu acho um saco é aquela coisa de uniforme, todo mundo com o mesmo &#8220;shape&#8221;, o mesmo visual, com aquelas malhas coladas, não sei quê (&#8230;) Em relação ao espelho talvez aquilo tenha sido uma besteira que eu disse, sei lá!, mas eu acho que traduz um jeito de&#8230;. Algumas academias sem espelho estariam totalmente descaracterizadas, os alunos querem se ver, querem se olhar, ver se o bíceps está aumentando, se a bunda tá levantando. E: Isso não é a sua preocupação? Isabel: Não, mas eu entendo que seja a de várias pessoas; só que não é a minha. E: A sua é a de manter a forma? É uma higiene mental? Isabel: É um pouco mais de saúde só, tentar ter uma saúde legal&#8230; eu em nome de&#8230; eu não abro mão da minha&#8230; da minha&#8230; eu até entendo, acho razoável cada um busca, eu fiz&#8230;. eu malhei muito a vida inteira, desde pequena. Vou ter que ir por causa do treino, tá bom!?, beijo, tchau!&#8221; </em></p>
<p>Os pensamentos foram interrompidos, mas podemos inferir, pelos demais relatos que não puderam ser aqui apresentados, que as idéias apontavam para uma concepção de corpo que não a do corpo produtivo, que coloca o instrumental antes do simbólico. Pelo contrário, Isabel valoriza a dimensão expressiva do corpo sem desprezar o lado prático, pois na ordem simbólica é a dimensão do prazer que está lá em primeiro lugar; a produção vêm por acréscimo. </p>
<p><strong>Razão prática e razão simbólica</strong></p>
<p>Nesta parte, tentaremos realizar uma síntese das idéias de Sahlins, Baudrillard, Harris e Lovisolo, em relação à anterioridade da razão simbólica à razão prática na construção das idéias sobre a utilização dos objetos pelos indivíduos. </p>
<p>Sahlins se apóia em Baudrillard para construir suas concepções sobre a utilidade e a ordem cultural. Baudrillard, ao inverter a precedência das forças materiais e sua lógica instrumental sobre a lógica simbólica, introduz a idéia de que o simbólico vem antes do funcional. Sahlins (1979:277), tendo como ponto de apoio esta idéia, vai analisar o materialismo histórico e dizer que <em>&#8220;ele (o materialismo histórico) aceita o interesse prático como condição intrínseca e auto-explicativa, inerente à produção&#8221;</em>. </p>
<p>Ao analisar Marx, Sahlins diz que apesar de Marx ter aduzido que a produção é produção de valores, pois sem o consumo e o valor de uso o objeto não se completa como produto, ou seja, uma bola de basquetebol não é uma bola de basquetebol se estiver furada e abandonada num terreno baldio; ela é uma bola de basquete porque remete ao imaginário quando é utilizada pelos garotos nas quadras do Aterro do Flamengo ou numa praça de Porto Alegre, mesmo assim, de acordo com Sahlins, Marx deixa de lado as relações significativas entre as pessoas e os objetos. </p>
<p>Por conseguinte, na visão marxista, a lógica simbólica se subordinaria à lógica instrumental dentro da produção. Logo, no que se refere à utilização do espelho nas academias e sua disseminação em larga escala, isto dever-se-ia ao fato de ele ter um valor funcional, e esse interesse prático seria condição intrínseca e auto-explicativa para a importância dada a ele nas academias por seus atores. O trabalho de Novaes ratifica esta concepção. Ele não está sozinho quando privilegia a razão prática. Marvin Harris (s.d.), ao realizar um estudo antropológico da alimentação nas distintas culturas, defende que as diferenças nos hábitos alimentares dos grupos humanos são conduzidos por razões práticas e não por crenças arbitrárias. </p>
<p>Entretanto, para Sahlins, a lógica não está separada do interesse prático, mas este interesse prático é simbolicamente instaurado; nas suas palavras: <em>&#8220;As forças materiais se instauram sob a égide da cultura&#8221;</em> (Ibidem, p. 229). De acordo com esta idéia, há uma precedência do simbólico sobre o interesse prático. </p>
<p><strong>Tudo é dor e toda dor vem do desejo de não sentirmos dor</strong></p>
<p>Lovisolo (1999) vai buscar uma outra via nesta polêmica. Para ele não haveria anterioridade de uma razão sobre a outra; elas surgiriam interativamente na tensão entre o princípio do desejo e o princípio da realidade. </p>
<p>O ser humano seria basicamente movido por seus desejos. Esses desejos seriam regulados pela realidade, ou seja, o que move o ser humano para a construção do mundo é o desejo de ser. Este princípio do desejo deve ser regulado pelo princípio da realidade que de fato visa a levar o indivíduo a atingir a sua plenitude. Princípio do desejo e princípio da realidade não se opõem, pelo contrário; são aliados. Freud fala também de um princípio da realidade que regularia o princípio do prazer; no entanto, para Freud, o princípio do prazer visa à satisfação das pulsões que, na medida em que são satisfeitas, proporcionariam um estado de &#8220;felicidade momentâneo&#8221;, que logo cessaria, havendo então o reinício do ciclo. </p>
<p>O princípio do desejo em Lovisolo parece não sofrer solução de continuidade como o princípio do prazer em Freud. Isto poderia explicar o relato de uma aluna de ginástica que entrevistamos. Diz ela: <em>&#8220;Eu muitas vezes deixei de me olhar no espelho porque&#8230;é&#8230; me sentia gorda&#8221;</em>. Esta fala indica que o princípio do desejo está ali presente mesmo no momento em que parece haver um afastamento dele. Nossa entrevistada se afasta de fato do modelo ou do seu ideal de Eu, mas o desejo de ser está ali. Gaiarsa diz que o espelho nos mostra apenas a face que queremos ver e por isso não conseguimos ver o nosso verdadeiro Eu. Cremos que o espelho nos mostra sobretudo a face que queremos Ser. Este querer-ser é, no nosso ponto de vista, constituído de um lado por forças materiais e de outro por forças simbólicas. Não querendo polemizar sobre o que vem primeiro (o simbólico ou o prático) e reconhecendo que as concepções de Lovisolo de que o interesse prático e o simbólico surgem interativamente na tensão do princípio do desejo e do princípio da realidade, acrescentamos, porém, que existe uma questão de grau na interação entre interesse prático e lógica simbólica. A tensão a que se refere Lovisolo, no nosso ponto de vista, pode tender ora para o lado prático, ora para o simbólico. Assim, as pessoas constroem suas representações na eterna tensão entre as condições materiais e a busca de algo mais além, isto é, entre o interesse prático e o seu princípio da realidade e o querer-ser e o seu princípio do desejo. </p>
<p>E essas representações têm no contexto histórico e cultural a sua âncora. Ou seja, elas não são arbitrárias nem descoladas do real. Real que engloba o prático mas que é movido, alimentado e efetivamente construído pelo simbólico. </p>
<p><strong>Referências bibliográficas</strong> </p>
<p>BAUDRILLARD, Jean. Da sedução. Campinas, SP: Papirus, 1992.<br />
CAVALCANTI, Raïssa. O mito de Narciso: o herói da consciência. São Paulo, SP: Cultrix, 1992.<br />
ECO, Umberto. Sobre os espelhos e outros ensaios. Rio de Janeiro, RJ: Nova Fronteira, 1989.<br />
FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer. Rio de Janeiro, RJ: Imago, 1969.<br />
GAIARSA, José Angelo. O espelho mágico: um fenômeno social chamado corpo e alma. São Paulo, SP: Summus, 1984.<br />
HARRIS, Marvin. Bueno para comer. Buenos Aires: Alianza, (s.d).<br />
LOVISOLO, Hugo. Prolongar a vida: da didática à fisiologia. Rio de Janeiro: UGF, 1999, mimeo.<br />
NOVAES, J. &#038; S. R. Alunos novos na ginástica localizada: uma análise didático-pedagógica. Rio de Janeiro, RJ: Sprint, 1996, vol II, n. 49.<br />
SAHLINS, M. Cultura e razão prática. Rio de Janeiro, RJ: Zahar, 1979.<br />
VOTRE, Sebastião Josué (Org.). Representação social do esporte e da atividade física: ensaios etnográficos. Brasília: Ministério da Educação e do Desporto/INDESP, 1998.</p>
<p><em>*<strong>Carlos Alberto Figueiredo da Silva</strong> exerce, atualmente, o cargo de Pró-reitor de Ensino do Centro Universitário Augusto Motta e atua como professor titular da Universidade Salgado de Oliveira, no programa de mestrado em Ciências da Atividade Física. Possui graduação em Educação Física pela Universidade Gama Filho (1979), graduação em Direito pela Universidade Federal Fluminense (1993), especialização em Didática e Metodologia do Ensino Superior pela Universidade Estácio de Sá (1995), mestrado em Educação Física pela Universidade Gama Filho (1997) e doutorado em Educação Física (Área de Concentração: Educação Física e Cultura) pela Universidade Gama Filho (2002). Atua como professor no ensino superior desde 1979. Além da docência, implantou o curso de Licenciatura em Educação Física e exerceu o cargo de coordenador no Centro Universitário Celso Lisboa (2002). Foi coordenador do curso de Licenciatura em Educação Física do Centro Universitário Augusto Motta (2003 a 2005). Exerceu os cargos de Pró-reitor de Pesquisa e Pós-graduação (2007 a 2009), Pró-reitor de Pesquisa (2006 a 2007) e Diretor de Pesquisa no Centro Universitário Augusto Motta (2005). Além de atuar no ensino superior, foi professor no Ensino Fundamental e Médio no Colégio da Cidade e professor concursado pelo município de Duque de Caxias, atuando no CIEP Célia Rabelo, no Ensino Fundamental. Na área esportiva foi treinador de basquetebol em diversos clubes do Rio de Janeiro e também no desporto universitário, técnico da seleção carioca feminina de basquetebol universitário, bem como desenvolveu ações em projetos sociais esportivos na Cidade de Deus e na Mangueira pela Fundação Roberto Marinho. Tem experiência na área de gestão acadêmica, pesquisa e educação física, atuando principalmente nos seguintes temas: esporte e desenvolvimento local, educação física, etnometodologia, esporte educacional, racismo-esporte-mídia e inclusão social.<br />
</em></p>
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