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Armando Alexandre dos Santos

Pedro II e seus escrúpulos de consciência

D. Pedro II era muito escrupuloso com o dinheiro público. Não transigia com falcatruas de espécie alguma. Seu reinado, como se comentava na época, instaurou no Brasil a “ditadura da moralidade”. São inúmeros os fatos bem documentados que confirmam essa fama. Vejamos um deles
Armando Alexandre dos Santos

Como começou a “maldita guerra”

No início de 1864, estavam sendo prejudicados, pelas conturbações internas do Uruguai, brasileiros ali residentes. Calcula-se que cerca de 20% da população então residente no Uruguai se constituía de brasileiros. Havia violências, arbitrariedades, até mortes. Isso, não apenas no Uruguai, mas até mesmo dentro do território brasileiro, já que as fronteiras eram pouco definidas e muito permeáveis
Armando Alexandre dos Santos

O estopim da guerra do Paraguai

A “questão uruguaia” foi o estopim da Guerra do Paraguai, ou, como se prefere hoje em dia designar na historiografia brasileira, Guerra da Tríplice Aliança. Como Brasil e Argentina eram as duas grandes potências rivais, na América do Sul, qualquer uma delas que dominasse o Uruguai teria grandes vantagens sobre a outra
Armando Alexandre dos Santos

Como se estudava genealogia no passado

Nas últimas décadas, em todo o Ocidente tem ocorrido um curioso fenômeno: a generalização do interesse pela Genealogia, pelo estudo das origens familiares. É um fenômeno de características próprias, muito diferente do que no passado entendiam e praticavam os cultores de estudos genealógicos.
Armando Alexandre dos Santos

Ainda sobre a reforma do ensino médio

A débâcle do ensino no Brasil é, hoje, incontestável. Em todos os exames internacionais, comparativos de desempenho de alunos de muitos países, conquistamos o primeiro ou o segundo lugar... de baixo para cima! Ou seja, somos sempre o último ou o penúltimo colocados. Que podemos fazer agora, para remediar tantas décadas perdidas?
Armando Alexandre dos Santos

Sobre a reforma do ensino médio

No Brasil independente, tanto no período imperial como na Primeira República, houve iniciativas de ensino público aplicadas em várias partes do Brasil, lembrem-se o Colégio Pedro II, do Rio, e os Ginásios Estaduais criados em quase todo o Brasil depois de 1889, mas essas iniciativas, embora muito meritórias, nunca alcançaram grande sucesso em termos quantitativos.
Armando Alexandre dos Santos

Uma crônica atual, escrita há quase meio século

Remexendo velhos papéis de um arquivo que, apesar dos bons propósitos sempre reafirmados, jamais consegui ordenar de modo satisfatório, apareceu–me diante dos olhos uma curiosidade antiga... e perfeitamente atual.
Armando Alexandre dos Santos

Os quinhentos milhões de Begum

O romance “Os quinhentos milhões da Begum”, publicado por Júlio Verne em 1879, teve traduções para dezenas de idiomas, lançadas em numerosos países. A primeira tradução para nosso idioma foi lançada em Portugal ainda em 1879, por uma “Typographia das Horas Romanthicas”, que apurei ser a gráfica de David Corazzi, empresário cuja editora mais tarde viria a ser comprada pela Livraria Francisco Alves.
Armando Alexandre dos Santos

Peculiaridades do espírito francês

Os franceses são, há vários séculos, extremamente tendentes para o “chauvinismo” - ou seja, para a tendência a desprezar como inferiores outros povos e outras culturas, a ponto de, em seu próprio idioma, designarem como “là bas” (lá embaixo) a outros países. Paradoxalmente, os franceses sempre se mostraram particularmente impressionáveis pelo exotismo de povos remotos, incorporando com relativa facilidade esses elementos a sua arte e a sua cultura.
Armando Alexandre dos Santos

Renascimento, muitas visões…

O Renascimento, tal como de fato ocorreu, representou não um avanço, mas um retrocesso na História da Humanidade. Se em lugar da ruptura com a visão teocêntrica medieval, tivesse havido um progresso na mesma visão humanístico-cristã, o Renascimento teria sido completamente diferente daquele que ocorreu.
Armando Alexandre dos Santos

À procura das próprias raízes

Em 1976, o escritor norte-americano Alex Haley, de raça negra, publicou uma obra que se tornou rapidamente best-seller: "Roots" - Raízes. Haley foi militar, serviu na Marinha norte-americana e, quando passou para a reserva, aos trinta e sete anos de idade, estabeleceu-se como jornalista e como escritor razoavelmente bem sucedido.
Armando Alexandre dos Santos

Como despertar o interesse dos alunos pela leitura?

No meu modo de entender, despertar o interesse do aluno de ensino fundamental pela leitura é algo que deve se aproximar, tanto quanto possível, do lúdico. O professor deve mostrar aos alunos que ler é sempre um jogo, uma brincadeira, um prazer maravilhoso.
Armando Alexandre dos Santos

Mitos, problemas, anseios e utopias

É curioso que o mesmo anseio da saúde e da beleza física que outrora fazia as moças desejarem ser gordas hoje as faz anoréxicas. Mudaram os paradigmas, mas o mito permanece o mesmo. Os mitos têm relação imediata com as utopias, outro assunto que mereceria estudo e reflexão. Por trás de toda utopia está sempre um mito. Mas isso é assunto que fica para outra ocasião.
Armando Alexandre dos Santos

Anacronismo, o pecado mortal do historiador

Segundo o historiador Lucien Fèbvre, o anacronismo é o pecado dos pecados, o mais imperdoável dos pecados que pode cometer um historiador. O anacronismo pode se manifestar quando estudamos determinado período histórico e, sem nos darmos conta disso, imaginamos os personagens daquele período como tendo conhecimentos, valores, modos de agir e de pensar da nossa época, ou de outras épocas históricas. Dessa projeção subconsciente decorrem erros de interpretação que podem alterar a fundo a objetividade do trabalho de análise.
Armando Alexandre dos Santos

O recrutamento dos voluntários paulistas

Entre os Voluntários da Pátria da primeira hora, arregimentados para enfrentar o ataque proveniente do Paraguai, foram incorporados numerosos elementos da Guarda Nacional, força paramilitar constituída por civis, instituída em 1831 e convocável em caso de conflito, quando passaria a ser corpo auxiliar do Exército nacional
Armando Alexandre dos Santos

Os voluntários da pátria

Os Corpos de Voluntários da Pátria atuaram entre 1865 e 1870, durante quase toda a Guerra Paraguai, desde o início do conflito até o seu término, quando ocorreu a morte de Solano López. Contar a história de sua atuação confunde-se com contar a história do próprio conflito.
Armando Alexandre dos Santos

Dona Maria I, duzentos anos depois

Do ponto de vista cultural, foi enorme a atividade de D. Maria. Ela renovou, literalmente, a alta cultura do reino. Criou instituições, favoreceu novos talentos, incentivou expedições e pesquisas científicas. Do ponto de vista legislativo, deu início a um enorme trabalho (que não chegou a ser concluído) de recopilação das leis vigentes no Reino. Era um trabalho que não se fazia desde fins do século XVI, quando haviam sido promulgadas as Ordenações Filipinas.
Armando Alexandre dos Santos

Questão Christie: triunfo da diplomacia imperial

Christie achou mais prudente recuar. Os navios brasileiros foram logo devolvidos. O caso, confiou-se ao juízo de um árbitro imparcial - o Rei Leopoldo I, da Bélgica, tio da Rainha Vitória. E Christie foi chamado de volta a Londres, sendo substituído por outro diplomata mais sensato, e até simpático ao Brasil, Cornwallis Eliot.
Armando Alexandre dos Santos

O declinar de um grande império

O declínio do nosso Império acompanhou, passo a passo, o declinar da própria saúde do Imperador D. Pedro II, personalidade marcante, profundamente entranhada no imaginário e na mentalidade dos brasileiros de sua época.
Armando Alexandre dos Santos

Pedro I: liberal ou autoritário?

É curioso que o mesmo D. Pedro I que, no Brasil, acabou deixando a marca de seu autoritarismo e voluntariedade, em Portugal procurou firmar, sem conseguir inteiramente, sua imagem como paladino do liberalismo e do anti-absolutismo.
Armando Alexandre dos Santos

D. Pedro I: um caso de amor e ódio

Existe um consenso, entre os historiadores do período, em considerar o governo de D. Pedro I, como excessivamente autoritário, quase despótico. Na verdade, o Primeiro Reinado vivenciou duas fases bem distintas, no que diz respeito à popularidade de D. Pedro.
Armando Alexandre dos Santos

Três fatores de sucesso no aprendizado

Se os alunos não sentem estímulo para o estudo, jamais aprenderão. Todo aprendizado é, necessariamente, trabalhoso e requer esforço. Cabe ao professor tornar esse esforço o menos penoso e o mais agradável que possa, e para isso ele deve desdobrar todo o seu potencial didático.
Armando Alexandre dos Santos

Carta à princesa imperial regente

Dom Bosco foi, também, precursor do ensino profissionalizante, e que essa particularidade atraiu a atenção da Princesa Isabel, que se deparava com um problema muito sério: qual seria o “after day” dos negros, uma vez libertados do cativeiro? Ela estava decidida a eliminar completamente a vergonhosa chaga da escravidão, mas receava o que seria feito dos escravos, depois de libertos.
Armando Alexandre dos Santos

Quem acabou com o nosso pau-brasil?

Contrariamente ao que muita gente pensa, não foram os portugueses que praticamente extinguiram o pau-brasil da nossa mata atlântica. Nem foram eles que praticamente extinguiram essa mata. Os portugueses sempre tiveram uma preocupação preservacionista muito grande, com relação à natureza do Brasil. Foram, nessa matéria, verdadeiros precursores do moderno ambientalismo, numa época em que ninguém, absolutamente ninguém, tinha essa preocupação.
Armando Alexandre dos Santos

Método lúdico para o ensino da gramática

A Gramática, queira-se ou não se queira, é sempre um osso duro de roer. É sempre desagradável o seu ensino e, ainda mais, o seu aprendizado. Deve-se, pois, proceder da forma clássica como se faz tudo o que é difícil na vida: disfarçando sua dureza. Disfarçar a dureza, no caso, não se trata de enganar o aluno ou o próprio sistema de ensino, adotando artifícios fraudulentos ou mentirosos.
Armando Alexandre dos Santos

Decepções literárias

Participei, semanas atrás, de um fórum muito interessante, composto por profissionais e/ou amadores de Letras. Foi uma troca de informações deveras útil, pois pessoas das mais variadas procedências e orientações, irmanadas pelo comum interesse por Literatura e edição de livros, puderam trocar figurinhas à vontade, num clima de respeito e colaboração gerais. A certa altura dos debates, foi proposto aos presentes que dessem seus depoimentos sobre “um romance de subliteratura” que já tivessem lido.
Armando Alexandre dos Santos

Liberdade e igualdade, como conciliá-las?

A noção de democracia moderna, pois, não se restringe à liberdade e à participação popular no governo (naturalmente, por meio da representação), mas, também, requer uma adequada e tanto quanto possível equilibrada distribuição dos benefícios sociais. Por “equilibrada distribuição” não se deve entender igualdade absoluta, mas, sim, igualdade proporcionada.
Armando Alexandre dos Santos

Partidos políticos e representação popular

Os partidos não são inevitáveis como mal menor, mas são benéficos. Exercem uma importantíssima função social. São, de um lado, porta-vozes da opinião pública e, em sentido inverso, formadores da mesma opinião. São veículos de comunicação natural entre o Estado e os indivíduos particulares. São canalizadores dos anseios esparsos pela população, evitando sua caotização e dando forma coerente e articulada aos seus reclamos.
Armando Alexandre dos Santos

Sociologia dos nomes próprios

Em 1959, Gilberto Freyre publicou “Ordem e Progresso”, um livro em que estuda a permanência do modelo patriarcal e agrário nas primeiras décadas do século XX, num Brasil que se tornava cada vez mais urbano e industrializado. É uma de suas obras mais importantes, constituindo um tríptico com “Casa Grande e Senzala” e “Sobrados e Mocambos".
Armando Alexandre dos Santos

Santidade e martírio, algumas noções básicas

Nos primeiros tempos do Cristianismo, somente eram venerados como Santos ou Santas pessoas que tivessem derramado o seu sangue confessando a Fé em Jesus Cristo. Em outros termos, os mártires. O martírio, na prática, constituía a mais evidente manifestação da santidade. Identificava-se quase com ela. Mártir é palavra de origem grega, que significa testemunho; mártir era quem dava testemunho heroico e definitivo de Jesus Cristo, selando esse testemunho com seu próprio sangue.
Armando Alexandre dos Santos

O problema da problematização…

Costuma-se ensinar, em todas as nossas universidades, que "todo trabalho científico deve ser problematizado". Problematizar é formular explícita e claramente uma dúvida, um problema, uma hipótese a ser estudada. É uma formulação que até pode ser mudada, reformulada, revista, readequada em face de novas informações ou experiências, mas deve, segundo se afirma, ser explícita desde o início.
Armando Alexandre dos Santos

Um fenômeno essencialmente paulista

O povoado de São Paulo teve início num modesto colégio da Companhia de Jesus, estabelecido em 1554 no altiplano, a cerca de 60 km do mar, numa área conhecida como os Campos de Piratininga. Era um local estrategicamente bem escolhido, pois ficava no alto de uma colina, cercada por dois rios, o que lhe assegurava facilidades de defesa e abastecimento de água e de peixes. Ademais, a proximidade dos aldeamentos de índios amigos dos portugueses favorecia a escolha do local, assim como a proximidade da vila de Santo André da Borda do Campo, na qual vivia, com numerosos descendentes mamelucos, João Ramalho, genro e amigo do morubixaba Martim Afonso Tibiriçá. Por ali perto também passava o rio Anhembi, atual Tietê, via de entrada natural para o interior. Tudo isso fazia do local um ponto estratégico muito feliz.
Armando Alexandre dos Santos

A revolução industrial e as artes

A revolução industrial, ademais de consequências econômicas e sociais muito profundas, também abalou em profundidade os referenciais culturais e estéticos das sociedades europeias e, por extensão, do mundo inteiro. É muito difícil, para nós, avaliarmos o profundo impacto que causou, na geração de nossos bisavós, o aparecimento e a divulgação da fotografia. Aparelho misterioso aquele que, graças à concentração dos raios de luz através de uma objetiva de cristal, marcava uma chapa inicialmente de vidro, depois de celulose, e esta, depois de quimicamente processada, permitia que se fizesse o procedimento inverso, ou seja, novamente passava por ela a luz, filtrada por uma objetiva, e impregnava uma folha de papel, a qual, quimicamente processada, revelava com nitidez espantosa a realidade primeiramente captada pelo misterioso aparelho!
Armando Alexandre dos Santos

O guardião de Lincoln

Um filme recente, lançado em 2013 nos Estados Unidos, traz novamente às telas o tema da Guerra Civil norte-americana, ocorrida entre 1861 e 1865. Chama-se “Saving Lincoln” e está sendo exibido, no Brasil, com o título “O guardião de Lincoln”. A direção é de Salvador Litvak e o papel de Abraham Lincoln é representado pelo ator Tom Amandes. O filme focaliza um personagem habitualmente esquecido pela historiografia, o de Ward Hill Lamon, o amigo e guarda-costas de Lincoln. No filme, muitas cenas se passam na intimidade de Lincoln na sua vida familiar e nas conversas que tinha com seus assessores mais diretos. As discussões acerca da estratégia que devia ser seguida nas operações militares são reproduzidas de modo vivo e atraente. Lincoln favorecia e prestigiava o General Grant, que era criticado por muitos. Grant procurava fazer uma guerra de desgaste, mais prolongada, porém menos mortífera. Seus críticos desejavam logo combates frontais e decisivos, que precipitassem o final do conflito.
Armando Alexandre dos Santos

O renascimento das artes

Na Idade Média prevalecia o teocentrismo. Deus era o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim da História humana e era, ao mesmo tempo, o centro de tudo. Tudo se ordenava para Deus e se relacionava com o Divino como a seu fim último. Assim também era a Arte. Não somente ela focalizava quase exclusivamente temas religiosos, mas também entendia a Arte como a expressão da Beleza, e entendia a Deus como sendo a suma Beleza. “Pulchrum splendor bonitatis” (a beleza é o esplendor da bondade”), rezava a Escolástica. Deus era, ao mesmo tempo, a Beleza e a Bondade supremas. Ele era o inspirador, o parâmetro e a Causa Final de todas as arte humanas.
Armando Alexandre dos Santos

Lançamento no Instituto Histórico e Geográfico

Foi realizado no último dia 28 de janeiro, em São Paulo, o lançamento de mais um número da Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo – o número 98, correspondente a 2014, ano do 120º aniversário da instituição. É o terceiro número em que trabalho, sendo o primeiro deles como coordenador da equipe editorial, e os dois últimos na condição de editor e jornalista responsável. O volume 98 contém matéria muito diversificada, quase toda especificamente voltada para a História de São Paulo. O leitor que o percorra encontrará nele assuntos dos mais diversos, tratados em óticas diversas, em estilos muito variados, pelos colaboradores da Revista, quase todos membros do IHGSP.
Armando Alexandre dos Santos

Internet, o perigo do emburrecimento

No meu último artigo, comentei a utilização de tecnologias digitais no ensino, e o misto de otimismo e preocupação que isso desperta. Encontro agora, no jornal Valor Econômico/The Wall Street Journal, de 28/11/2014, um curioso e instigante artigo de Nicholas Carr, intitulado “A automação excessiva emburrece.” Antes de mais nada, há que apresentar Nicholas Carr. É um escritor norte-americano muito respeitado, crítico da automação e da “internetização” da vida corporativa, social e educacional. Nasceu em 1959, estudou nas Universidades de Darmouth e Harvard, foi editor executivo da prestigiosa Harvard Business Review e é atualmente membro do Conselho Editorial da Enciclopédia Britânica.
Armando Alexandre dos Santos

Tecnologias digitais no ensino

A utilização cada vez mais intensa de tecnologias digitais nas escolas de nível fundamental e médio está alterando profundamente a dinâmica ensino/aprendizado. Alterando para o bem, dizem muitos; para o mal, pensam outros. Eu diria que as tecnologias digitais dos tempos em que vivemos representaram, na escola, o papel de um verdadeiro “salto qualitativo brusco” no processo de aprendizado. Explico-me. Fundamentalmente, o processo de ensino tem dois polos, dois elementos essenciais: quem ensina e quem aprende. O ensino se faz pela comunicação de ambos. O professor, ou mestre, ou tutor, ou orientador (tenha lá o nome que tiver) é alguém mais experimentado que comunica ao aluno algo do seu conhecimento.
Armando Alexandre dos Santos

A vida quotidiana no tempo de Homero – 2

É um universo muito reduzido, muito delimitado no tempo e no espaço e também restrito na sua possibilidade de evolução. Que quer ele dizer com essa “restrição na possibilidade de evolução”? Ele esclarece, logo de início, que existe uma noção fundamental, sem a qual não se entende o mundo grego. É a noção de destino, um destino que ordena e conserva o mundo e que rege não apenas o homem e a natureza, mas os próprios deuses. O autor se estende longamente, no primeiro capítulo, na exposição desse conceito de destino, mostrando que ele preside a tudo, deixando, porém, uma discreta margem de liberdade e de iniciativa aos deuses e aos próprios homens.
Armando Alexandre dos Santos

A vida quotidiana no tempo de Homero – 1

O gênero "vida cotidiana" sempre me fascinou, pois permite mergulhos em certas sociedades do passado, estudando-as e analisando-as em profundidade, nos mais variados aspectos da sua realidade viva. Não é um gênero fácil. O autor de uma "vida cotidiana" necessita conhecer profundamente não só a história de uma época, mas precisa de conhecimentos pluri-disciplinares muito extensos, sob pena de falhar redondamente no quadro que traçar.
Armando Alexandre dos Santos

A Revolta da Chibata

No Brasil, no final de 1910, estava assumindo a Presidência da República o Marechal Hermes da Fonseca, filho de outro General Hermes (que comandava as tropas do Império na Bahia, quando do 15 de Novembro) e sobrinho de Deodoro da Fonseca. O Presidente Hermes teve um governo sui generis, inaugurando uma política nova em relação aos monarquistas que, até então, tinham estado alijados completamente da vida pública e colocados à margem da representação política, bordejando a ilegalidade.
Armando Alexandre dos Santos

Nos caminhos de Santiago

São Tiago, o Maior, foi um dos doze Apóstolos de Jesus Cristo, por Ele escolhidos como colunas vivas da sua Igreja. A designação “o Maior” é para diferenciá-lo de outro Apóstolo, São Tiago, o Menor. Os dois Tiagos, aliás, eram aparentados entre si, ambos eram primos de Jesus Cristo. Os relatos antigos não esclarecem a razão dessa viagem. Terá, talvez, o Apóstolo determinado, antes de morrer, que seus restos mortais fossem levados para a terra na qual pregara o Evangelho?
Armando Alexandre dos Santos

Resistências à navegação a vapor

De início, foram as dificuldades decorrentes das limitações tecnológicas (e também logísticas) que dificultaram a adoção do vapor como meio de propulsão das Marinhas do mundo inteiro. Ainda eram precárias e pouco confiáveis as primeiras embarcações movidas a vapor. O reabastecimento delas não era fácil, pois não se dispunha de muitos locais adequados para tal, nos mares do mundo todo. O combustível pesava e ocupava espaço, diminuindo a capacidade de estocar água, mantimentos e munições, de modo que a autonomia das embarcações ficava diminuída. Parecia muito mais prático e confiável fazer o que sempre se fizera desde a Antiguidade, ou seja, confiar no vento, o mais barato, leve e eficiente dos “combustíveis”.
Armando Alexandre dos Santos

Considerações sobre a ‘École des Annales’

Entra aí o papel dos inovadores da École des Annales. Sua primeira luta foi contra os metódicos e os positivistas que pontificavam nas cátedras de todo o mundo. Deixando de considerar somente os fatos isolados (a famosa "histoire evénementielle") e focalizando as continuidades, as permanências, as rotinas estabelecidas; privilegiando a interdisciplinaridade, em especial com as chamadas Ciências Sociais; relacionando com coragem problemas do presente com situações análogas do passado; levantando com ousadia hipóteses explicativas (o famoso "SE", que não faz a História mas ajuda a fazê-la) ─ os intelectuais da École des Annales se transformaram em polo de referência para a renovação dos estudos históricos na França, na Europa e no mundo inteiro.
Armando Alexandre dos Santos

Cinema em salas de aula

Participei de um fórum fascinante, juntamente com amigos e colegas, sobre a possibilidade de utilização do cinema como recurso pedagógico, em salas de aula. A certa altura, tivemos que responder por escrito a três perguntas. Aqui vão elas transcritas, juntamente com as respostas que dei. Acredito que possam ser de utilidade para algum leitor cinéfilo.
Armando Alexandre dos Santos

Aníbal, dizimador das legiões romanas?

Aníbal foi, sem dúvida, um dos maiores e mais brilhantes chefes militares de toda a História. Sua inesperada e ousada invasão da Itália pelo Norte, através dos Alpes, com seus famosos elefantes, desnorteou profundamente as lideranças romanas, que até então se julgavam seguras na sua península, semeando entre elas o pânico e o terror. Se Aníbal tivesse recebido mais apoio de Cartago e, sobretudo, se tivesse mantido o ritmo de sua invasão, sem se deter nas funestas “delícias emolientes de Cápua”, teria por certo tomado a cidade de Roma e assegurado a hegemonia cartaginesa em toda a Bacia do Mediterrâneo.
Armando Alexandre dos Santos

Sobre a ilusão (auto)biográfica

Pessoas que escrevem memórias com a intenção de deixar um monumento de suas vidas, seja por razões políticas, seja por razões familiares, seja por sentirem tão-somente a necessidade de extravasarem os sentimentos e deixarem consignadas, por escrito, suas experiências pessoais, até que ponto tais pessoas não exprimem, nas memórias, uma imagem auto-idealizada, que desejam fixar no papel e deixar para os pósteros?
Armando Alexandre dos Santos

Monumentos e documentos históricos

Na linguagem popular corrente, utiliza-se a palavra monumento para designar estátuas, lápides, edificações de natureza diversa destinadas a perpetuar a memória de alguém ou de alguma coisa. A noção de monumento, pois, está quase indissociavelmente ligada à ideia de um objeto material intencionalmente feito ou preservado “ad perpetuam rei memoriam”, para a perpétua memória da coisa, como se dizia em latim. Ainda na linguagem corrente do português falado em nossos dias, pode-se usar, por extensão, a palavra monumento para designar alguma obra que, pela sua grandiosidade, mereça ter a memória perpetuada.
Armando Alexandre dos Santos

Napoleão, genialidade e pontos fracos

Napoleão Bonaparte revolucionou em profundidade, entre muitas outras coisas, a arte da guerra. Até hoje são estudadas suas campanhas militares e as numerosas vitórias que lhe asseguraram durante muito tempo uma aura de invencibilidade, até que sobrevieram os fracassos e a derrota final. É fácil agora, com o recuo de quase dois séculos, analisar suas campanhas e nelas apontar os acertos e os erros. Mas, na época, suas vitórias rápidas e fulgurantes pareciam tão surpreendentes que mais figuravam como passes de mágica.
Armando Alexandre dos Santos

Sobre o Forte de Coimbra

No Brasil colonial, numerosos fortes foram construídos segundo o sistema de Vauban. Entre muitos outros, o Príncipe da Beira, situado no atual Estado de Rondônia, construído nos últimos anos do consulado do Marquês de Pombal e no início do reinado de D. Maria I, como parte integrante da ampla rede de fortificações que cercava todo o território brasileiro, instalada desde o século XVII por ordem dos Reis de Portugal, numa inteligente política de avanço muito além da linha de Tordesilhas. Graças a essa política, de um lado, e ao esforço dos bandeirantes paulistas, de outro, o território brasileiro praticamente triplicou, em relação ao que originalmente possuía nos termos do avençado em Tordesilhas.
Armando Alexandre dos Santos

Cristianismo e Antropologia

Gostaria de chamar a atenção dos leitores para o eminente papel que teve a Igreja Católica na compreensão da pessoa humana e, portanto, no embasamento teórico do que deve ser uma verdadeira ciência antropológica. Entre os filósofos da Antiguidade, era comum a crença dualista de que, no ser humano, se digladiavam irremediavelmente dois princípios opostos, o corpo material e a alma espiritual. Os primeiros teólogos e pensadores cristãos conheciam bem e tomaram em consideração o pensamento grego clássico, mas souberam rejeitar a dualidade corpo X espírito presente naquele pensamento.
Armando Alexandre dos Santos

Educação formal, educação informal e cidadania

Costuma-se distinguir a educação formal, oficialmente proporcionada nas escolas de vários níveis, da educação informal, que é oferecida pela família, pelos círculos de relacionamento social, pelas comunidades religiosas, pelos meios de comunicação social. No meu modo de entender, a educação informal e extra-oficial é mais importante, para a formação do senso crítico e, portanto, da chamada cidadania, do que a educação formal e estritamente curricular. Há numerosos exemplos na História de pessoas simples, sem educação formal, que exerceram atividades políticas de grande alcance.
Armando Alexandre dos Santos

Oportuna sentença de um juíz de Direito

Poucas coisas atrapalham tanto o ensino e o aprendizado quanto os malditos celulares em salas de aula. Nas salas de aula, então, os celulares são uma verdadeira praga. As escolas geralmente proíbem seu uso, durante as aulas, e em alguns municípios a legislação local também proíbe sua presença em salas de aula; mas mesmo assim eles estão sempre atrapalhando. Muitos alunos ficam, literalmente, dependentes psicológicos do celular, não conseguindo desgrudar-se dele. Já vi casos de alunos que atendem a telefonemas de suas mães, durante a aula. As mães sabem que os filhos estão na aula, mas telefonam... Também elas parecem dependentes dos malditos celulares.
Armando Alexandre dos Santos

Vocação e sucesso na carreira

Desde que me conheço por gente, sempre tive certeza de que, quando crescesse, seria escritor. Já na escola primária eu sabia que nasci para escrever, e que só sobreviveria cumprindo suada e esforçadamente os requisitos que o Ministério da Fazenda exige para se poder pagar Imposto de Renda na categoria "Profissional das Letras"... Essa vocação sempre foi clara para mim, nunca tive a menor hesitação a respeito. Confesso que tenho muita dificuldade para compreender certos jovens que, às vésperas do vestibular, se põem a procurar critérios para a escolha de uma carreira, ou de uma área de atividades.
Armando Alexandre dos Santos

Camões, personagem de transição

Camões viveu numa época de transição, já em pleno Renascimento, mas num ambiente em que ainda estavam vivas, ou pelo menos ainda sobreviviam muitas características psicológicas e culturais da Idade Média. O renascentismo português (como também o espanhol) era, a esse título, bastante sui generis, diferenciando-se do francês e, sobretudo do italiano. Camões era um humanista e mostrava-se muito naturalista, mas sua obra está repleta de traços esparsos, mas muito significativos, de espírito autenticamente medieval, tanto em seus aspectos guerreiros, heroicos e, poderíamos dizer um tanto impropriamente, feudais, quanto nos teológicos e místicos.
Armando Alexandre dos Santos

O príncipe dos poetas de Espanha

Luís de Camões retornou a Portugal em 1570, depois de 17 anos de lutas, trabalhos e sofrimentos no Oriente. Em 1572, conseguiu que fosse publicado seu poema épico, que, segundo a tradição, tinha sido, pelo menos em parte, lido pelo próprio poeta ao jovem Rei D. Sebastião. O monarca concedeu a Camões uma pensão, no valor de 15 mil réis anuais, a ser paga durante um triênio, podendo depois ser renovada. Embora habitualmente se afirme que era uma pensão muito reduzida, sabe-se, comparativamente com o rendimento de outras pessoas da época, que até seria uma pensão bastante razoável...
Armando Alexandre dos Santos

Uma obra clássica e sempre atual

O poema “Os Lusíadas” é dividido em 10 cantos e tem um total de 1102 estrofes, oitavas rimadas no esquema clássico de ab, ab, ab, cc – ou seja, o primeiro, o terceiro e o quinto versos rimando entre si, e alternadamente, também rimando entre si, o segundo, o quarto e o sexto versos; e, por fim, fechando a oitava, o sétimo e o oitavo também rimados entre si. Na imensa maioria, são versos heróicos, com acentuação na 2ª. ou 3ª., na 6ª. e na décima sílabas; excepcionalmente, encontram-se no poema alguns poucos versos sáficos, decassílabos com acentuação na 4ª. e na 8ª. sílabas. Essa intercalação de alguns sáficos num poema composto por heróicos tempera agradavelmente a homogeneidade rítmica, impedindo que se transforme em monotonia.
Armando Alexandre dos Santos

As nove filhas da memória

Sem memória não existe arte. Criar algo do nada é atributo divino, nenhum homem pode fazê-lo. É a partir de experiências e informações registradas pela memória que o talento dos artistas se aplica e executa as suas obras. Essa verdade já era reconhecida pelos gregos antigos, que na sua mitologia (profundamente impregnada, por sinal, de princípios filosóficos) viam as Musas, as deusas das Artes, como sendo filhas de Mnemósine, a deusa da Memória.
Armando Alexandre dos Santos

As três matrizes do pensamento ocidental

Sócrates, com a maiêutica, ensinou o parto das ideias, ensinou a pensar, estabeleceu as regras básicas do pensamento lógico. Seu discípulo Platão aplicou e desenvolveu as ideias do mestre, teorizando acerca de um mundo ideal que deve servir de baliza e modelo ideal para a realidade humana. Seu pensamento é dedutivo, parte do geral e se aplica ao particular, mantendo-se sempre ambos em perfeito equilíbrio. Já Aristóteles, discípulo de Platão, desenvolveu e aperfeiçoou os ensinamentos socráticos e platônicos de um ponto de vista diverso. Aristóteles era cientista, filho de médico e ele próprio estudou medicina. Seu método era o estudo dos casos concretos e particulares para, a partir deles, chegar ao conhecimento e formulação das regras gerais. Seu pensamento era indutivo, ao contrário de Platão. Mas ambos se completam admiravelmente.
Armando Alexandre dos Santos

Doze homens e uma sentença

Trata-se de um clássico do cinema norte-americano, filmado em duas versões. Meu conselho é que se assista a ambas as versões. As duas merecem ser vistas e analisadas com cuidado, pois são ricas em conteúdo e convidam à reflexão. Não é sem motivo que habitualmente a estudam em faculdades de Direito, em cursos de Psicologia e, também, em escolas de cinema. Todo o enredo se passa numa única sala, onde doze jurados devem decidir se um jovem porto-riquenho, acusado de assassinar o próprio pai, é inocente ou culpado. Pelo sistema judiciário vigente no local, a decisão deve ser tomada por unanimidade, mediante consenso. Se condenado, o jovem terá pena de morte. As aparências todas são contra ele. Os indícios de culpabilidade são muito fortes, a acusação foi categórica e bem feita, a defesa não conseguiu nem sequer levantar uma dúvida consistente sobre a autoria do crime.