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	<title>Debates Culturais - Liberdade de Idéias e Opiniões &#187; André Vinícius Dias Senra</title>
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		<title>Considerações sobre a Filosofia Primeira de Aristóteles.</title>
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		<pubDate>Mon, 18 Jan 2010 02:01:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Adílio Jorge Marques &#38; André Vinícios Dias Senra</dc:creator>
				<category><![CDATA[Adílio Jorge Marques]]></category>
		<category><![CDATA[André Vinícius Dias Senra]]></category>

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		<description><![CDATA[A proposta de abordagem da temática ‘científica’ em Aristóteles tem a ver com o fato de que foi este pensador quem originou um vasto campo de investigações racionais, a tal ponto de a maioria das ciências modernas disporem, como pressupostos, das referências dos trabalhos de Aristóteles. E isto se verifica, inclusive, no modo como Aristóteles utiliza a linguagem de modo, digamos, “objetificante”, e que termina por influenciar o tipo de escrita denominada científica. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Aristóteles1.JPG" alt="Aristóteles" title="Aristóteles" width="220" height="220" class="aligncenter size-full wp-image-3892" /><strong>Introdução</strong></p>
<p>A proposta de abordagem da temática ‘científica’ em Aristóteles tem a ver com o fato de que foi este pensador quem originou um vasto campo de investigações racionais, a tal ponto de a maioria das ciências modernas disporem, como pressupostos, das referências dos trabalhos de Aristóteles. E isto se verifica, inclusive, no modo como Aristóteles utiliza a linguagem de modo, digamos, “objetificante”, e que termina por influenciar o tipo de escrita denominada científica. Assim, pois, em uma época da história do pensamento ocidental em que a admiração e o assombro predominavam e eram tratados como motivos para a investigação racional, Aristóteles se diferencia de outros gregos, pois, sua explicação é contida, seu estilo de escrita é ‘seco’ e não possui aquela tendência de poetizar o conhecimento. Os escritos de Aristóteles, por exemplo, não possuem a beleza de imagens que os estilos de Platão ou de Parmênides proporcionam. A concepção aristotélica do conhecimento estava mais para uma categorização de certos aspectos do real, do que propriamente para a configuração de um modelo científico com características do período moderno. Neste trabalho, pretende-se compreender o sentido da concepção aristotélica acerca do conhecimento. E, sobretudo, pretende-se mostrar que há uma hierarquia entre conhecimentos que foi estabelecida por Aristóteles, onde a forma de conhecimento superior é a denominada como Filosofia Primeira. A ciência é, para este filósofo, um modo de reconhecimento da causa pela qual esse algo é e, este algo, apresentando certa característica, não pode ser de outro modo. Assim, o conhecimento, para Aristóteles, é definido em termos de relações causais e necessidade. No entanto, nesta concepção sobre Filosofia Primeira, existe mais platonismo do que se supõe usualmente. Texto publicado no Congresso Scientiarum Historia/2008.</p>
<p><strong>Discussão</strong></p>
<p>Costuma-se dizer que o aparecimento do termo ‘Metafísica’ para designar o conjunto referente aos quatorze manuscritos que constituem o título do livro homônimo do Aristóteles não foi assim denominado pelo próprio filósofo. O título deste livro não pode ser atribuído ao próprio Estagirita. E isto porque este jamais teria usado esse termo em nenhum de seus escritos para referir-se à Filosofia Primeira. Muito embora, esta obra tenha ficado famosa com este título, e seja considerado um dos mais importantes tratados de Filosofia já escritos até hoje. Isto se deve a que tal conjunto dos escritos de Aristóteles permaneceu perdido desde a sua morte (estimada em 322 a.C.), até o primeiro século antes de Cristo, quando, então, reapareceu e foi editado por Andrônico de Rodes. Segundo a versão corrente, Andrônico teria denominado tais escritos aristotélicos como pertencentes à Metafísica por razões meramente editoriais. Assim, por uma questão de ordem cronológica entre os escritos, os ensaios sobre Filosofia Primeira deveriam ser após os estudos da Física. Contudo, filosoficamente, parece mais plausível considerar que a opção de Andrônico pelo termo “Metafísica” foi porque, etimologicamente, este nome quer dizer àquilo que ‘ultrapassa a física’ ou a consideração filosófica em prol da transcendência dos objetos naturais a partir de sua causa material. Tendo como referência, o modo como Aristóteles classificava a hierarquia entre conhecimentos, pode-se concluir que a Filosofia Primeira deveria tratar daquilo que vai além da física, daquilo que a transcende. Assim, pois, a idéia da Filosofia Primeira, além de receber o nome de Metafísica, também deve ser entendida como a noção aristotélica de ‘ciência’ teórica por excelência. As finalidades da Filosofia Primeira são pelo menos quatro: (a) o conhecimento das causas ou princípios primeiros; (b) o conhecimento do ser enquanto ser; (c) a indagação sobre a substância; (d) a indagação sobre Deus e a substância supra-sensível. De qualquer modo, sabe-se que o termo Metafísica seria equivalente à idéia de Filosofia Primeira. </p>
<p>O objeto do qual se trata a partir da referência ao termo filosofia primeira, é o supra-sensível. Por supra-sensível, se entendem as formas puras, análogas ou semelhantes às Idéias platônicas. O estudo do Ser enquanto Ser foi denominado de Filosofia Primeira, e, posteriormente, na época moderna, foi denominado como razão pura. Este estudo consiste na análise das formas separadas dos aspectos materiais. Em Aristóteles, a metafísica já pode ser considerada como um saber que mantém proximidade com a idéia de mereologia, ou seja, a relação do todo com as partes. E isto porque Aristóteles procura desenvolver um modo de integração da filosofia pura em composição com aspectos realistas. </p>
<p>A abordagem metafísica é, geralmente, associada com a dimensão religiosa da experiência humana. E ainda que seja possível utilizar tal abordagem para esta finalidade, isto não indica que necessariamente esta seja a característica do pensamento metafísico, tal como este pensamento tornou-se alvo de muitas críticas, por vezes, infundadas em muitos autores contemporâneos ligados à perspectiva científica. É fato que a metafísica possui uma parte de sua história como sendo relacionada aos aspectos medievais (um dos doutores mais representativos do pensamento cristão, Tomás de Aquino, foi responsável por esta assimilação da filosofia primeira de Aristóteles pela Igreja Católica). Mas isto não caracteriza que o estudo ontológico sirva apenas ao propósito da religião, e não da ciência. O conhecimento das causas ou princípios primeiros é um tipo de investigação que foi intentada pelos pré-socráticos, que buscavam um princípio racional que estabelecesse certo finalismo em relação à filosofia grega da natureza, ou seja, que pudesse ser tratado como o motivo causador e mantenedor da ordem do universo. Este é o sentido do estudo da physis no pensamento grego, ou seja, a busca por uma analogia que comportasse, em um esquema racional, o imutável e o devir, ou a unidade e a multiplicidade. Como tudo o que é da ordem natural está sujeito às modificações em seu aspecto material, daí se conclui que este princípio primeiro ordenador do mundo não poderia ser material. Caso o princípio de ordenação fosse sujeito à mudança, não haveria sentido em considerar que a ordem deveria ser necessariamente permanente. A ordem pode ser identificada como a razão ontológica das coisas. A permanência é tida como característica essencial da ordem. Tanto que um dos escritos de Aristóteles sobre a mudança recebe o nome de corrupção, em clara analogia platonista entre aspectos naturais e aspectos morais-políticos, ambos pertinentes ao que é sensível. O tratamento aristotélico dado ao conhecimento metafísico indica que este é o mais difícil porque seus objetos, sendo os mais universais, constituem aquilo que se encontra mais distante dos sentidos. Contudo, convencionalmente, a crítica que se estabeleceu quanto ao conhecimento metafísico é de que este teria a função de condicionar e inviabilizar o conhecimento de toda a realidade sensível. Isto não é verdade. Se observarmos a filosofia da natureza na Grécia Antiga, veremos que vários pensadores estabelecem tanto princípios puros, bem como sensíveis. Desde os mais associados com a filosofia pura, como Pitágoras, Platão e Plotino, até os mais realistas como Aristóteles, ou os atomistas como Demócrito, são todos pensadores que tematizam estes dois tipos de princípios em suas filosofias. O que varia é o projeto filosófico de cada um deles, ou seja, a finalidade com que cada um atribui um valor a estes princípios nas respectivas filosofias. Talvez, o problema é que na Grécia não havia um modo adequado de unificar estes princípios através de um método. Tanto que este problema só aparece com força na época moderna. Na filosofia aristotélica, o objeto da metafísica interroga tanto a filosofia primeira na busca por um fim universal, quanto pode se referir a um fim particular sobre o real. A pergunta por um ente singular indica que a metafísica abrange, inclusive, o que pertence ao domínio científico-natural, pois, se considerarmos que as ciências investigam o mundo entitativo, subdivide-se em regiões (ontológicas) singulares do ente, e chamam o ente de objeto de estudo metodológico. Para Aristóteles, o conhecimento material sobre o ente indica o estudo dos acidentes. O acidental seria o mesmo que o contingente, por isso, a posteriori. A filosofia primeira seria o estudo da necessidade a priori. Portanto, metafisicamente, o ente, ou nos termos de Leibniz, o ser do ente, vem ao encontro da nossa experiência como algo em geral, que não assume nenhuma determinação, pois, isto seria a objetivação de um particular. Nesse sentido, o ser é o mesmo que pensar em um gênero. Por esta razão, Aristóteles é considerado um autor ‘científico’, pois, em sua consideração sobre a Filosofia Primeira, existe a possibilidade (ainda que não tenha sido realizada pela falta de um método) de integrar o supra-sensível e o sensível. </p>
<p>No entanto, Aristóteles achava que a filosofia primeira é, dentre as ciências, a mais nobre e superior, pois ela não depende de qualquer aplicação prática, sendo o motivo para a investigação metafísica um puro e desinteressado desejo de saber advindo daquilo que o homem tem de mais essencial, que é o uso de sua razão e inteligência. A indagação sobre o ser enquanto ser, nos leva à questão dos vários sentidos do ser (acidental, verdadeiro, falso, potência e ato, categorial), e esse modo de questionar nos conduz ao ser por si mesmo, o ser da categoria de substância. A indagação sobre a substância, por fim, deve conduzir à questão de se saber se só existem as substâncias sensíveis ou se existem também as substâncias supra-sensíveis. A questão do supra-sensível teve início quando Parmênides começou a investigação sobre o ser e concluiu que o ser é Um. Para Aristóteles, o ser se diz de múltiplos modos. A multiplicidade da qual Aristóteles fala refere-se à variedade com que podemos observar os aspectos do mundo entitativo. Todavia, Aristóteles parece enxergar o perigo existente nesta multiplicidade, na medida em que a diversificação, sem uma referência, conduziria à involução do conhecimento. </p>
<p><em>“Para todo e qualquer ente, para todo ente de toda e qualquer significação, há o movimento que conduz ao surgimento e o movimento de recondução para algo assim como Um.”</em> (ARISTÓTELES, Met., 1061, 1982).</p>
<p>Parece que esta interpretação sugere que a unidade do ser é a unidade do conhecimento, bem como a sua multiplicidade se caracteriza como referência à diversidade dos aspectos do mundo entitativo.</p>
<p>A tematização da Filosofia Primeira de Aristóteles na condição de ciência que investiga o ser enquanto ser, indica uma orientação que procura identificar as mais universais características da realidade ou do ser, ou ainda, este projeto filosófico está voltado para a identificação das categorias ou espécies mais gerais das coisas. A especificação do que distingue esses tipos, ou categorias, uns dos outros, e a identificação dos tipos de relação que ligam objetos de diferentes categorias entre si são as tarefas pertinentes à investigação sobre a Filosofia Primeira.</p>
<p>No início do livro E da Metafísica, Aristóteles nos fala que existem três tipos de entes, estudados cada qual por um tipo diferente de saber: a) as que possuem existência substancial separada, mas estão sujeitas à mudança (física); b) as que estão livres da mudança, mas que existem apenas como aspectos possíveis de distinção nas realidades concretas (matemática); c) as substâncias que possuem, simultaneamente, existência separada e estão livres da mudança (metafísica). Por esta razão, a Filosofia Primeira pode interrogar o objeto da metafísica tanto no sentido universal quanto em relação ao particular determinado, pois, apenas na metafísica eles são teoricamente conciliáveis.</p>
<p><strong>Conclusões</strong></p>
<p>Uma vez que a idéia aristotélica de conhecimento seja referente ao real, contudo, ainda assim, comporta certo tipo de necessidade. A necessidade não é um item natural, mas ideal, pois, não se pode vê-la em um sentido empírico. Ficando evidente que a “Ciência” de Aristóteles precisa admitir o mundo externo, ou seja, que se encontra baseada em uma concepção de realismo robusto, de outro modo, esta concepção só pode encontrar sustentação em um saber puro que a justifique. Para Aristóteles, este deve ser o posicionamento teórico que todo e qualquer conhecimento deve ter como fim a ser alcançado. </p>
<p><strong>Referências &#038; Notas</strong></p>
<p>Aristóteles, Metafísica, trad. Valentin G. Yebra, Madrid, Editorial Gredos, 1982.<br />
Mansion, A. Filosofia primeira, filosofia segunda e metafísica em Aristóteles, in Sobre a Metafísica de Aristóteles, Marco Zingano (org.), trad. Marisa Lopes, pp. 123-176, São Paulo, Odysseus Editora, 2005.<br />
Peters, F.E. Termos Filosóficos Gregos – Um léxico histórico, trad. Beatriz Rodrigues Barbosa, Lisboa, Calouste Gulbenkian.</p>
<p><em>*<strong>Adílio Jorge Marques</strong> é professor de Física e História da Ciência da rede pública e particular de ensino do Rio de Janeiro. Pesquisador em História da Ciência luso-brasileira e história das Tradições.</p>
<p>*<strong>André Vinícius Dias Senra</strong> é professor de Filosofia da rede estadual de ensino, da The British School &#8211; RJ, e da Pós-Graduação em Filosofia Medieval da Faculdade de São Bento do Rio de Janeiro e doutorando em Epistemologia pela UFRJ.</em></p>
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		<title>O universal aristotélico e o Iluminismo nas ciências naturais.</title>
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		<pubDate>Wed, 16 Dec 2009 02:01:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Adílio Jorge Marques &#38; André Vinícios Dias Senra</dc:creator>
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		<category><![CDATA[André Vinícius Dias Senra]]></category>

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		<description><![CDATA[Seria possível que o universal aristotélico tenha então influenciado o Iluminismo, principalmente até Kant? Tal relação pode ser estabelecida a partir de alguns pontos do texto “Ideia de uma História Universal com um propósito Cosmopolita”, de 1784, no qual Immanuel Kant (1724-1804) discorre brevemente sobre o papel da História e da racionalidade humana, pontos importantes para o entendimento das obras do pensador.(1) Através de nove proposições o filósofo de Königsberg tratou, também brevemente, do mecanismo subjacente ao devir da humanidade no seu todo: a physis.(2) Abriu-se, assim, o caminho para uma interpretação racional e científica do mundo. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Aristóteles.JPG" alt="Aristóteles" title="Aristóteles" width="205" height="220" class="aligncenter size-full wp-image-3458" /><em>Acima, escultura representando Aristóteles.</em></p>
<p>A partir dos principais conceitos da metafísica aristotélica em relação aos primeiros princípios e as causas primeiras busca-se neste trabalho a relação com as proposições kantianas para o iluminismo. Os primeiros princípios são na lógica: identidade, não-contradição e terceiro excluído. Os princípios lógicos são ontológicos que definem as condições sem as quais um ser não pode existir nem ser pensado, e que garantem, simultaneamente, a realidade e a racionalidade das coisas na natureza. As causas primeiras são aquelas que explicam o que a essência é e também a origem e o motivo da existência de uma essência. Causa significava não apenas o porquê de alguma coisa, mas também o “o que” e o “como” uma coisa é o que ela é. São quatro as causas primeiras: causa material, isto é, aquilo de que uma essência é feita, sua matéria (como os quatro elementos da Antiguidade); causa formal, aquilo que explica a forma que uma essência possui (o rio ou o mar são formas da água, por exemplo); causa eficiente ou motriz, que explica como uma matéria recebeu uma forma para constituir uma essência (assim como o fogo é a causa eficiente que faz os corpos frios tornarem-se quentes); e a causa final, aquela que dá a finalidade para alguma coisa existir e ser tal como ela é (por exemplo, o Primeiro Motor Imóvel é a causa final do movimento dos seres naturais). </p>
<p>Seria possível que o universal aristotélico tenha então influenciado o Iluminismo, principalmente até Kant? Tal relação pode ser estabelecida a partir de alguns pontos do texto <strong>“Idéia de uma História Universal com um propósito Cosmopolita”</strong>, de 1784, no qual Immanuel Kant (1724-1804) discorre brevemente sobre o papel da História e da racionalidade humana, pontos importantes para o entendimento das obras do pensador.(1) Através de nove proposições o filósofo de Königsberg tratou, também brevemente, do mecanismo subjacente ao devir da humanidade no seu todo: a physis.(2) Abriu-se, assim, o caminho para uma interpretação racional e científica do mundo. </p>
<p><strong>Discussão</strong></p>
<p>A idéia da Filosofia Primeira, além de receber o nome de Metafísica, também deve ser entendida como a noção aristotélica de ‘ciência’ teórica por excelência. As finalidades da Filosofia Primeira são pelo menos quatro: (a) o conhecimento das causas ou princípios primeiros; (b) o conhecimento do ser enquanto ser; (c) a indagação sobre a substância; (d) a indagação sobre Deus e a substância supra-sensível. De qualquer modo, sabe-se que o termo &#8220;Metafísica&#8221; seria equivalente à idéia de Filosofia Primeira. O objeto do qual se trata a partir da referência ao termo filosofia primeira, é o supra-sensível. Por supra-sensível, se entendem as formas puras, análogas ou semelhantes às Idéias platônicas. O estudo do Ser enquanto Ser foi denominado de Filosofia Primeira, e, posteriormente, na época moderna, foi denominado como razão pura. Este estudo consiste na análise das formas separadas dos aspectos materiais. Em Aristóteles, a metafísica já pode ser considerada como um saber que mantém proximidade com a idéia de mereologia, ou seja, a relação do todo com as partes. E isto porque Aristóteles procura desenvolver um modo de integração da filosofia pura em composição com aspectos realistas. A abordagem metafísica é, geralmente, associada com a dimensão religiosa da experiência humana.(3)</p>
<p>No espaço cultural alemão, um dos traços distintivos do iluminismo é a inexistência do sentimento anticlerical que, por exemplo, deu a tônica ao iluminismo francês. Os iluminados alemães possuíam na sua maioria até um profundo interesse e sensibilidade religiosa, e almejavam uma reformulação das formas de religiosidade. Nesta junção de política, ciência e moralidade, Kant mostra-se dentro da grande tradição clássica, a qual não admite separação entre a contemplação do mundo que nos cerca e a polis. Os homens não podem pressupor nenhum propósito racional peculiar exceto inquirir se eles não conseguirão descobrir uma intenção da natureza na História, a partir da qual seja possível que homens aparentemente sem um plano próprio estejam, no entanto, em consonância com um determinado plano da natureza. Deste modo a natureza se clarificaria através da razão de homens como Kepler ou Isaac Newton. Kant propõe que a essência, além de ser imutável, sempre idêntica a si mesma, pode ser pensada pelo intelecto dos homens, ainda que não seja matéria de conhecimento. Mesmo que deísticamente separado de nosso mundo e superior a tudo que existe, mostra-se também como causa primeira. Essência tal que a natureza mostraria aos seus perscrutadores como uma unidade interna e indissolúvel entre matéria e forma, unidade esta que lhe dá um conjunto de propriedades ou atributos que a fazem ser necessariamente aquilo que ela é, podendo ser desta forma matematizada, como provirá Galileu. </p>
<p>Se na physis se refletem tão diferentes tipos de essências, e se para cada uma delas há uma ciência natural (física, biologia, astronomia, matemática, etc.), deve haver uma ciência universal, anterior a todas, essência geral interpretada como uma ciência teorética que investiga o que é e aquilo que faz com que hajam essências particulares e diferenciadas. A natureza denota um curso regular, um devir histórico que deve conduzir gradualmente o homem desde o estado inferior da animalidade até o nível máximo da iluminação, e que explica universalmente o ordenamento aparentemente irregular dos fatos. As ações e reações dos homens no seu mundo, com ênfase nas idéias de progresso e perfectibilidade humana, assim como a defesa do conhecimento racional como meio para a superação de preconceitos e ideologias tradicionais.(4) Segundo Angioni,</p>
<p><em>“Em “Segundos Analíticos” Aristóteles distingue quatro sentidos em que se pode empregar a expressão “por si mesmo”. Essa distinção, juntamente com elucidações sobre as noções de “a respeito de todo e “universal”, apresenta-se no momento em que Aristóteles procura determinar a natureza das premissas do conhecimento científico, tendo já determinado que o objeto de tal conhecimento seja aquilo que é necessário. Mais particularmente, Aristóteles busca discernir os tipos de premissas ou proposições em que seja necessária a conexão entre sujeito e predicado.”</em> (5)</p>
<p>Notamos então, nas dez categorias de Aristóteles, que elas apresentam uma lista dos diferentes tipos de coisas que podem se afirmar a respeito de um indivíduo: substância, quantidade, qualidade, relação, espaço, tempo, postura, vestuário, atividade e passividade.6 Esta não é uma simples classificação de predicados verbais. Cada tipo de predicativo irredutivelmente diferente representava um tipo de ente também irredutivelmente diferente.</p>
<p>Entende-se por decorrência que para o estabelecimento da Física clássica newtoniana as categorias ou predicados tiveram que ser estudados não apenas por Kant, mas por todos os que repensaram a natureza. O desenvolvimento da cinemática, por exemplo, ou mesmo a dinâmica, podem ser essenciais ou acidentais, isto é, podem ser necessários e indispensáveis à natureza própria de um ser, ou podem ser algo que um ser possui por acaso ou que lhe acontece por acaso, sem afetar a sua natureza. Assim como os físicos, Kant partiu da mesma compreensão do que é a matéria o elemento principal de análise de toda a natureza; sua principal característica é possuir virtualidades ou conter em si mesmas possibilidades de transformação, isto é, de mudança, tornando possível um mundo racional newtoniano. Mesmo o homem estaria submetido a tal entendimento, pois o gênero é um universal formado por um conjunto de propriedades da matéria universal, sendo a forma o que caracteriza e o que há de comum nos seres de uma mesma espécie. Isso permitiu a Lineu7, por exemplo, propor a classificação das espécies ou mesmo a Darwin ter um parâmetro para uma teoria evolutiva, já que espécie também é um universal aristotélico formado por um conjunto de propriedades da matéria e da forma que caracterizam o que há de comum nos indivíduos semelhantes. </p>
<p>Partindo de tais premissas, Kant inicia sua pequena obra <em>“Idéia de uma História Universal com um propósito Cosmopolita” </em>com as seguintes palavras:</p>
<p><em>“Seja qual for o conceito que, ainda com um desígnio metafísico, se possa ter da liberdade da vontade, as suas manifestações, as ações humanas, como todos os outros eventos naturais, são determinadas de acordo com as leis gerais da natureza. A história, que se ocupa da narrativa dessas manifestações, permite-nos todavia esperar, por profundamente ocultas que estejam as suas causas, que, se ela considerar no seu conjunto o jogo da liberdade da vontade humana, poderá nele descobrir um curso regular; e que assim aquilo que se apresenta, nos sujeitos singulares, confuso e desordenado aos nossos olhos se poderá, no entanto, conhecer na totalidade da espécie como um desenvolvimento incessante, embora lento, das suas disposições originárias. </p>
<p>A História kantiana participa das mesmas leis gerais que regem a physis, podendo ser medida pelos critérios que marcam as ciências ditas exatas:</p>
<p>Assim os casamentos, os nascimentos deles derivados e a morte, já que a livre vontade dos homens sobre aqueles tem tão grande influência, não parecem estar submetidos à regra alguma, segundo a qual seja possível determinar de antemão o seu número, mediante um cálculo; e, no entanto, os quadros anuais dos grandes países mostram que eles ocorrem segundo leis naturais constantes, tal como as alterações atmosféricas, cuja previsão não é possível determinar com antecedência em cada caso singular, mas no seu conjunto não deixam de manter num curso homogêneo e ininterrupto o crescimento das plantas, o fluxo das águas e outros arranjos naturais. Os homens singulares, e até povos inteiros, só em escassa medida se dão conta de que, ao perseguirem cada qual o seu propósito de harmonia com a sua disposição e, muitas vezes, em mútua oposição, seguem imperceptivelmente, como fio condutor, a intenção da natureza, deles desconhecida, e concorrem para o seu fomento, o qual, se lhes fosse patente, pouco decerto lhes interessaria. Os homens, nos seus esforços, não procedem de modo puramente instintivo, como os animais, e também não como racionais cidadãos do mundo em conformidade com um plano combinado; parece-lhes, pois, que também não é possível construir uma história segundo um plano (como, por exemplo, acontece entre as abelhas ou os castores).”</em> (8)</p>
<p>Das Proposições da obra <strong>“Idéia de uma História Universal com um propósito Cosmopolita”</strong>, as primeiras já denotam claramente a estrutura histórica do Iluminismo:</p>
<p>Primeira Proposição: <em>“Todas as disposições naturais de uma criatura estão determinadas a desenvolver-se alguma vez de um modo completo e apropriado”, o que se completa com a Segunda Proposição: “No homem (como única criatura racional sobre a terra), as disposições naturais que visam o uso da sua razão devem desenvolver-se integralmente só na espécie, e não no indivíduo”</em>.(9) </p>
<p>Kant procura, com todas as premissas, talvez debater com J. J. Rousseau (1712 – 1778) sobre a liberdade humana. Para este o homem livre é aquele que está em seu estado natural, homem ainda não corrompido pela sociedade, que vive sozinho e procura apenas seu alimento para sobreviver. Se, além disso, esse homem ainda não tem ambições sociais, ele é livre. Neste ponto começa a crítica de Kant, o homem, com seu propósito de sabedoria, por isto homo sapiens, é um ser social, sendo que o homem só, em seu estado natural, é apenas mais um animal, não atingindo todas as suas potencialidades. Para Kant a sociedade regula o homem, exigindo dele que seus propósitos sejam atingidos, levando-o à pura razão. Na Quinta Proposição, Kant evidencia que <em>“o maior problema do gênero humano, a cuja solução a Natureza o força, é a consecução de uma sociedade civil que administre o direito em geral”</em>.(10)</p>
<p>O mundo não tem sentido a não ser que o homem dê algum sentido a ele. O que conhecemos é profundamente marcado pela maneira pela qual conseguimos conhecer algo, existindo duas principais fontes de conhecimento no sujeito: a sensibilidade, por meio da qual os objetos são dados na intuição, e o entendimento, pelo qual os objetos são pensados nos conceitos. O que define os objetos é a sensibilidade, como o modo receptivo/passivo pelo qual somos afetados pelos objetos, e intuição é a maneira direta de nos referirmos aos objetos. Para que todas estas impressões tenham sentido e entrem no campo do daquilo que se pode conhecer elas precisam ser colocadas em formas à priori da intuição, que são o espaço e o tempo. Depois de o sujeito perceber o objeto na intuição, na sensibilidade, pela faculdade do entendimento ele reunirá estas intuições em conceitos. E esta é também uma segunda condição para o conhecimento. Kant utiliza os conceitos básicos chamados de categorias, que são representações das intuições sensíveis. As categorias kantianas são doze:</p>
<p>1. Quantidade: Unidade, Pluralidade e Totalidade.<br />
2. Qualidade: Realidade, Negação e Limitação.<br />
3. Relação: Substância, Causalidade e Comunidade.<br />
4. Modalidade: Possibilidade, Existência e Necessidade.</p>
<p>As doze categorias kantianas acima, pensadas à luz das categorias aristotélicas, irão fornecer à filosofia crítica de Kant condições básicas de impor à razão os limites da experiência possível. Ele pretende, com isso, fornecer rigor metodológico à metafísica, livrando-a de qualquer caráter dogmático e trazendo-a para o rumo da ciência, no qual não poderiam ocorrer questionamentos. Este método que analisa as possibilidades do conhecimento a priori do sujeito, dentro dos limites da experiência, é chamado de transcendental. Segundo Kant:</p>
<p><em>“Os homens, nos seus esforços, não procedem de modo puramente instintivo, como os animais, e também não como racionais cidadãos do mundo em conformidade com um plano combinado; parece-lhes, pois, que também não é possível construir uma história segundo um plano (como, por exemplo, acontece entre as abelhas ou os castores).”</em> (11)</p>
<p>Nessa passagem percebe-se a ideia de movimento da história humana, pois se o homem não tiver essa disposição ao progresso teremos uma história plana, não evolutiva. No exercício desta disciplina é possível pensar que a sociedade humana caminha rumo ao progresso, e esse é o aperfeiçoamento moral, inevitável e necessário, conduzido no decorrer da história por uma “mão invisível”. Nas proposições que compõem o texto de Kant essa princípio condutor será buscado não na razão enquanto faculdade isolada de cada indivíduo, mas sim na naquela que abarca ou se manifesta universalmente, ou seja, na espécie.</p>
<p>Por fim, cabe à educação racional a incumbência da moralização humana. Kant observa que a moralidade diz respeito ao caráter. O caráter (em consonância com a distinção geral entre o aspecto fisiológico e o pragmático da antropologia) pode ser entendido a partir de dois sentidos: um físico ou sensível, que pertence ao homem enquanto ser natural e outro transcendental (ou inteligível), por meio do qual se reconhece no ser humano uma índole moral. O primeiro define o ser humano segundo o que a natureza faz dele, o segundo o que ele faz de si mesmo. É, portanto, na segunda perspectiva da formação do caráter que Kant situa o trabalho da educação moral iluminista. Por meio desta forma de educação “das Luzes” o ser humano é conduzido à prática da virtude e à formação da personalidade, o que produzirá avanços nas ciências naturais. Ou seja, uma ciência humana que modifica e cria um “ambiente” para o futuro das ciências da physis.(12)</p>
<p><strong>Conclusões</strong></p>
<p>Sendo comum a vários fatores observados na natureza, a razão de enfoque expressa pelo iluminismo alemão pôde embasar-se nos procedimentos empíricos desde Bacon, passando pelo mecanicismo cartesiano e até o newtonismo para criar seus procedimentos universais. Apesar da característica particular kantiana, os iluministas em geral tinham como ideal a extensão dos princípios do conhecimento crítico a todos os campos do mundo humano. Supunham poder contribuir para o progresso da humanidade e para a superação dos resíduos de tirania e superstição que creditavam ao legado da Idade Média, associaando ainda o ideal de conhecimento crítico à tarefa do melhoramento do estado e da sociedade. Princípios aristotélicos tiveram de ser abandonados por uma nova ciência ao longo da História, sem dúvida, como o lugar comum dos objetos e a sua cosmologia.(13) A ciência, a mesma História e a razão humana, contudo, não puderam deixar de se apoiar em muitos conceitos filosóficos do pensador estagirita.</p>
<p><strong>Referências e Notas</strong></p>
<p>1 &#8211; Kant, I. Ideia de uma História Universal com um propósito Cosmopolita, 1784. Tradução: Artur Morão. Em: http://www.lusosofia.net, acesso em 15 de fevereiro de 2008.</p>
<p>2 &#8211; Aristóteles, Física. Traducción y notas: Guillermo R. de Echandía, Planeta de Agostini, 1995.<br />
Em: Libera los Libros, http://www.divshare.com/download/2406853-8c3, acesso em 20 de maio de 2009.</p>
<p>3 &#8211; Mansion, A. Filosofia primeira, filosofia segunda e metafísica em Aristóteles. In: Sobre a Metafísica de Aristóteles, Marco Zingano (org.), São Paulo: Odysseus Editora, 2005.</p>
<p>4 &#8211; Aristóteles. Metafísica, trad. Valentin G. Yebra, Madrid: Editorial Gredos, 1982.</p>
<p>5 &#8211; Angioni, L. Relações causais entre eventos na ciência aristotélica: uma discussão crítica de Ciência e Dialética em Aristóteles, Analytica, vol. 8, nº 1, p. 13-25, 2004.</p>
<p>6 &#8211; Por exemplo, faria sentido dizer, por exemplo, que Sócrates era um ser humano (substância), media 1,80 m (quantidade), foi talentoso (qualidade), sendo mais velho do que Platão (relação), vivia em Atenas (espaço), era um homem do século V a.C. (tempo), estava sentado (postura), envergava uma capa (vestuário), estava costurando um pedaço de tecido (atividade) e foi morto por envenenamento (passividade).</p>
<p>7 &#8211; A importância de Lineu clarifica-se quando lembramos que ele foi o criador da nomenclatura binomial e da classificação científica, sendo considerado o &#8220;pai da taxonomia moderna&#8221;, sendo um dos fundadores da Academia Real das Ciências da Suécia.</p>
<p>8 &#8211; Cf. ref. 1, p. 3-4.</p>
<p>9 &#8211; Cf. ref. 1, p. 5.</p>
<p>10 &#8211; Cf. ref. 1, p. 9.</p>
<p>11 &#8211; Cf. ref. 1, p. 4.</p>
<p>12 &#8211; O conceito de virtude em Immanuel Kant tem um significado diferente do conceito de virtude em Aristóteles. Enquanto para o Estagirita a virtude está diretamente relacionada com a felicidade, para Kant a virtude significa a disposição moral em combate, relacionando-se mais com a dignidade de ser feliz e não propriamente com a felicidade. Neste sentido a virtude deve repousar sobre princípios e não sobre interesses. Os sentimentos estariam ligados ao mundo físico; e os princípios estariam para além desse mundo físico, da experiência, e valeriam à priori.  </p>
<p>13 &#8211; Proposição da Revolução Científica. In: Porto, C.M., Porto, M.B.D.S.M, A evolução do pensamento cosmológico e o nascimento da ciência moderna, Revista Brasileira de Ensino de Física, vol. 30, nº 4, p. 4601-1 a 4601-9, 2008.</p>
<p><em>*<strong>Adílio Jorge Marques</strong> é professor de Física e História da Ciência da rede pública e particular de ensino do Rio de Janeiro. Pesquisador em História da Ciência luso-brasileira e história das Tradições.</p>
<p>*<strong>André Vinícius Dias Senra</strong> é professor de Filosofia da rede estadual de ensino, da The British School &#8211; RJ, e da Pós-Graduação em Filosofia Medieval da Faculdade de São Bento do Rio de Janeiro e doutorando em Epistemologia pela UFRJ.</em></p>
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		<title>Ética Kantiana: a constituição para uma metaética ou teoria racional sobre a importância do Dever.</title>
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		<pubDate>Fri, 13 Nov 2009 02:01:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>André Vinicius Dias Senra</dc:creator>
				<category><![CDATA[André Vinícius Dias Senra]]></category>

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		<description><![CDATA[Kant introduz a idéia de uma perspectiva crítica porque queria saber quais argumentos poderiam ser validados naquele ‘novo’ momento histórico da modernidade (ou seja, na época da razão iluminista – séc. XVII e XVIII - onde se acreditava no poder da razão como guia para solução dos problemas humanos). O problema da filosofia crítica de Kant se constitui de vários problemas articulados, embora comporte uma unidade interna consistente. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Kant1.jpg" alt="Kant" title="Kant" width="204" height="247" class="aligncenter size-full wp-image-11114" /><em>Acima, pintura retratando Immanuel Kant.</em></p>
<p>Kant tornou-se célebre por haver constituído um sistema epistemológico e um ético. Ele estabeleceu que toda e qualquer filosofia, para ter êxito, deve buscar necessariamente a resposta para 4 perguntas fundamentais. Estas são as seguintes:</p>
<p>1)	O que posso saber ? (que se dirige ao conhecimento)</p>
<p>2)	O que posso fazer ? (que diz respeito à moral)</p>
<p>3)	O que posso esperar ? (que refere-se ao finalismo das coisas e infere a possibilidade da religião)</p>
<p>4)	O que é o homem ? (que abarca as anteriores, por ser a mais importante de todas as questões)</p>
<p>Para cada uma destas perguntas, Kant escreveu uma obra como resposta argumentada a estas perguntas. Desse modo temos que a Crítica da Razão Pura foi escrita para responder a pergunta 1. A Crítica da Razão Prática se volta para a pergunta 2 e a Crítica da Faculdade Julgar analisa a pergunta 3. A pergunta 4 foi desenvolvida no livro Antropologia a partir de um ponto de vista pragmático.</p>
<p>Em função do tema deste trabalho, a pergunta que nos interessa, nesta perspectiva, é a de número 2. A caracterização sobre o modo correto para uma ação se configura como um desafio, pois, toda ação é sempre acompanhada da liberdade que a condiciona. A preferência pelo termo ‘liberdade’ e não ‘livre-arbítrio’ tem a ver com a tematização filosófica puramente imanente das ações livres, e não com questões teológicas que associam o fazer humano à ideia do destino. O sentido de toda ação livre é individual, embora se cada pessoa fizer apenas o que lhe interessa e atropelar o direito alheio, logo, a convivência ficará insuportável e insustentável. </p>
<p>Kant introduz a idéia de uma perspectiva crítica porque queria saber quais argumentos poderiam ser validados naquele ‘novo’ momento histórico da modernidade (ou seja, na época da razão iluminista – séc. XVII e XVIII &#8211; onde se acreditava no poder da razão como guia para solução dos problemas humanos). O problema da filosofia crítica de Kant se constitui de vários problemas articulados, embora comporte uma unidade interna consistente. A filosofia de Kant possui uma dimensão teórica e uma prática, ou seja, uma dimensão epistemológica (indagação sobre os limites do saber humano) e uma ética (uma teoria para a ação humana).</p>
<p>Ao analisarmos a ética de Kant, constatamos que trata-se de uma teoria sobre a ação humana que pretende estabelecer o que é certo de modo universal e a priori. Chamamos a teoria da ação de Kant de metaética, pois, se a ética, tradicionalmente, já possui um sentido mais teórico do que prático, a metaética kantiana busca fundamentar as razões éticas em um sentido apriorista. Nesta linha de abordagem, a ideia da metaética não trata ‘do que é’ e ‘do por que é’, mas sobretudo se refere ao que Deve Ser. Portanto, esta metaética aprofunda mais ainda a noção de ética. A ideia da ética se caracteriza como instância teórica que estabelece uma legislação para a conduta humana. No entanto, isto não é o bastante para Kant, pois, além de reconhecer a existência da regra universal e a priori, para ser ético o indivíduo deve querer, por vontade própria, agir em conformidade com este universal ético. Kant chama esta atitude do sujeito ético de ação autônoma, pois, ainda que seja uma ação determinada por uma regra, trata-se, na verdade, do exercício de liberdade autônoma (escolha racional e consciente). A autonomia trata de uma escolha do sujeito em reconhecer a razão que sustenta o ato correto. </p>
<p><strong>Ao contrário dos medievais, em relação ao campo da filosofia prática, Kant fez com que a ideia do Dever não fosse fundada em Deus, mas na própria Razão. Desse modo, ele estabeleceu a possibilidade do conhecimento a priori teórico no sujeito da ação.</strong></p>
<p>Kant enunciou uma máxima que expressa o sentido de sua filosofia: “Duas coisas me deixam maravilhado”, confessou Kant certa vez: “o céu estrelado acima de mim e a lei moral dentro de mim”. Tanto o céu estrelado quanto a lei moral são regidos por princípios a priori. “O céu estrelado” é o universo físico cuja ordenação é definida por leis a priori, tal como a ciência moderna o entende; ‘a lei moral dentro de mim’, significa que a regra universal sobre o que é certo é também a priori em relação às situações particulares da vida individual. Assim, a lei para a moral não estaria “fora”, mas “dentro de mim”, pois, não é externa ou imposta pelas convenções sociais, mas é uma noção que pode ser entendida como reconhecimento racional do que é certo; Esta lei moral, base da ética kantiana, é o fundamento do caráter. A lei moral não é uma Lei Natural com certos e errados objetivos, mas uma lei em função da humanidade à qual escolhemos vincular-nos. (Mas será que estamos realmente vinculados quando só nos vinculamos ou nos comprometemos apenas conosco?). A Moral seria, portanto, apenas uma questão de intenção subjetiva, não teria qualquer conteúdo com exceção da Regra de Ouro à qual deve estar submetida (o chamado “imperativo categórico” de Kant). A Regra de Ouro da ética pode ser formulada do seguinte modo: <em><strong>“Não faças aos outros o que não quiseres que aconteça a ti”</strong>.</em></p>
<p>Ao propor um modelo ético, Kant pretendeu submeter a vontade humana à regra de conduta universal. Mas isto não significa que esta submissão da vontade é imposta de modo arbitrário. O próprio sujeito que age corretamente, segundo Kant, identifica a necessidade de agir conforme as regras como modo de orientação. A pergunta ‘o que (e por que) devo fazer?’ assume, na perspectiva kantiana, um modo espontâneo de respeito às regras. As regras delimitam o campo da ação. A ideia da regra ética é garantir o respeito como característica fundamental para as relações humanas. Assim sendo, ao sentir-se propenso a um tipo de ação, o indivíduo deve escolher de acordo com um autêntico reconhecimento da razão certa em relação a uma situação e qual o comportamento adequado para sua própria conduta. O indivíduo não deve agir por medo de se prejudicar ou por querer levar vantagem sobre o próximo. Kant consideraria como alguém imoral quem age em função dos próprios fins, pois, trata-se de um modo de agressão contra o semelhante, e que só serviria para despertar o que há de pior nas relações humanas, que é exatamente a tendência para auto-destruição, combinada à ideia cética de descrença no próximo. A ideia é que não é possível haver desenvolvimento de nenhum aspecto positivo no gênero humano, quando as relações sociais estão contaminadas pela falta de crença no semelhante. Para sermos éticos, portanto, devemos ser, antes de tudo, racionais, pois, o que tem a ver com a ética se relaciona com o entendimento do sentido de uma regra universal como a Regra de Ouro. Não apenas o entendimento teórico, mas a prática desta conduta enunciada na Regra de Ouro. Segundo Kant, para ser ético torna-se imprescindível ser racional em conformidade com uma escolha racional, e ação racional. Isto significa que ser ético envolve ter de assumir conseqüências de um ato. <strong>A falta de ética seria usar o fingimento como estratégia para não se comprometer com as conseqüências daquilo que se faz.</strong> Isto é totalmente errado e inaceitável na ética kantiana. O motivo principal para o argumento em prol do Dever é a ação responsável (aquela que se compromete com as consequências) não apenas em relação a si mesmo, mas sobretudo, a que se responsabiliza com os outros. </p>
<p><strong>Lei fundamental da razão pura prática</strong></p>
<p><strong>I</strong><br />
Age de tal modo que a máxima da tua vontade possa valer sempre ao mesmo tempo como princípio de uma legislação universal.</p>
<p><strong>II</strong><br />
A autonomia da vontade é o único princípio de todas as leis morais e dos deveres a elas conformes; pelo contrário toda heteronomia do livre arbítrio não só não funda nenhuma obrigação, mas opõe ao princípio da mesma e à moralidade da vontade. Com efeito na independência a respeito de toda  a matéria de lei (&#8230;) e, ao mesmo tempo, na determinação do livre arbítrio pela simples forma legisladora universal, de que uma máxima deve ser capaz, é que consiste o princípio único da moralidade. Mas essa independência é a liberdade em sentido negativo, e esta legislação própria da razão pura e, como tal, prática é a liberdade em sentido positivo. Por conseguinte, a lei nada mais exprime do que a autonomia da razão pura prática, isto é da liberdade e esta é mesmo a condição formal de todas as máximas, sob a qual unicamente ainda podem harmonizar-se com a lei prática suprema.</p>
<p><strong>Bibliografia</strong><br />
KANT, Immanuel. Crítica da Razão Prática, 1994 (págs. 42). </p>
<p><em>*<strong>André Vinícius Dias Senra</strong> é professor de Filosofia da rede estadual de ensino, da The British School &#8211; RJ, e da Pós-Graduação em Filosofia Medieval da Faculdade de São Bento do Rio de Janeiro e doutorando em Epistemologia pela UFRJ.</em></p>
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		<title>Ciência em Platão</title>
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		<pubDate>Tue, 28 Jul 2009 03:12:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Adílio Jorge Marques &#38; André Vinícios Dias Senra</dc:creator>
				<category><![CDATA[Adílio Jorge Marques]]></category>
		<category><![CDATA[André Vinícius Dias Senra]]></category>

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		<description><![CDATA[Os sólidos platônicos podem ser associados a outras questões científicas, tais como uma cristalografia e seus conceitos de simetria, uma cosmologia, eo estudo e entendimento das partículas fundamentais da natureza.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>INTRODUÇÃO</strong></p>
<p>Discutimos brevemente o estudo dos sólidos geométricos da obra &#8220;Timeu&#8221; (ou diálogo sobre a natureza) de Platão de Atenas (428/427 &#8211; 347 aC), pertencente à fase final ou da maturidade e onde seus Pensamentos sobre a physis são mostrados. A filosofia platônica, em relação à temática sobre a natureza, influencia o conhecimento aristotélico para o estudo dessa physis (φύσις). Do Timeu pode-se supor que Platão mostra os conhecimentos da sua Academia relativamente à natureza. O estudo dessa obra nos remete ao entendimento de parte do pensamento científico da Antiguidade e faz surgir importante questão: a relação entre Platão eo pensamento científico. Discutimos brevemente uma influência de Heráclito e Parmênides, ressaltando uma tensão entre o devir eo eterno. Exemplos extraídos do conhecimento do Timeu são: a astronomia, que se destaca na ciência da Antiguidade, além da cosmologia ea busca pelo entendimento do universo.</p>
<p>Os sólidos platônicos podem ser associados a outras questões científicas, tais como uma cristalografia e seus conceitos de simetria, uma cosmologia, eo estudo e entendimento das partículas fundamentais da natureza.</p>
<p><strong>DISCUSSÃO</strong></p>
<p>A ontologia platônica já foi analisada em inúmeras abordagens, no entanto, neste trabalho, pretende-se oferecer uma perspectiva de aproximação com o que seria uma possibilidade de tematização da teoria do conhecimento platônica. Tal mostra que uma ontologia Idéia participam do objeto no mundo sensível. Assim, propõe-se um resolvedor um problema do racionalismo grego: uma tensão entre Heráclito de Efeso, atual Turquia (provavelmente 540 &#8211; 470 aC) e Parmênides de Eléia, atual Itália (aproximadamente 530 &#8211; 460 aC), ou seja, entre o devir eo eterno. Para o primeiro, o ser é marcado pela mudança, tudo neste mundo sensível está em movimento constante, em um dinamismo universal. A natureza afirma-se como &#8220;Tudo se move&#8221; (panta rhei). Há em sua filosofia uma harmonia dos contrários, uma proto-dialética entre opostos que se conciliam sempre, mantendo o equilíbrio, a simetria (da qual falaremos adiante) eo dinamismo da natureza.</p>
<p>Assim, não pode haver o repouso, que é uma ilusão. Se o homem busca através do entendimento da physis superar tal ilusão, há em Heráclito uma busca pela verdade maior, subjacente uma tudo o que existe.</p>
<p>Parmênides, fundador da escola eleática, sofre influência pitagórica e Matemática (o número como essência de todas as coisas existentes na natureza) e propõe que o movimento não existe, pois é algo que não pode deixar de ser e não é algo que não pode ser , não havendo dessa maneira verdadeira mudança no mundo. Com isso Parmênides indica ontologicamente que existe uma busca pela verdade racional não &#8220;ser que é&#8221;, em oposição &#8220;ao ser que não é&#8221;, levando ao conhecido princípio da não contradição (impossibilidade de que os contrários existam simultaneamente). Na filosofia de Parmênides não há possibilidade de descrever eventos causais, pois seu Poema refere-se a uma situação em que o tempo objetivo é suspenso. Portanto, não há passado e nem futuro, existindo um eterno presente, sem início e nem fim.</p>
<p>Platão busca resolver uma tensão Heráclito-parmediana com sua teoria das idéias. Assim, o permanente em um objeto e uma idéia desse objeto, a participação desse objeto correspondente no seu ideal e perfeito. A mudança está quando esse objeto está em nosso mundo, não sendo mais uma idéia, mas uma incompleta representação da idéia desse objeto. No mundo sensível, uma uniformidade ea continuidade do mesmo manifestam-se aos nossos sentidos como repouso.</p>
<p><strong>Simetria:</strong>Entendemos que uma hierarquização dos conceitos em Platão segue uma simetria conceitual: as idéias são classificadas a partir do mais genérico (unitario), aumentou-se o grupo de simetria para dois conceitos (o binário), em seguida três, etc Tais quantidades não devem ser interpretadas apenas como números, mas como classes de simetria. A natureza internacional que busca uma ordenação possibilité uma ligação com outros ou consigo mesmo (seus iguais). A igualdade entre tais elementos e mesmo a sua simetria pode ser de graus variados, formando sistemas mais ou menos complexos.</p>
<p>Há uma alma do mundo, entidade consciente que estabelece uma continuidade entre todos os elementos existentes. Do Timeu verifica-se que há determinada forma que engloba todas as formas possíveis: a esfera. Esta fornece perfeita simetria entre dois lados de algo que foi criado neste mundo (Timeu, 33). Usando a simetria conseguimos qualquer outra forma possível, pois como formas harmoniosas do espaço (logo, simétricas) são classes de simetria. Neste caso, Platão (Timeu, 34) irá propor os movimentos perfeitos: os circulares, onde associa a uma lógica harmônica na physis. Platonicamente há um Deus que fez o mundo à sua imagem.</p>
<p>&#8220;Por isso, Deus tornou o Todo em forma esférica e circular, sendo todas as distâncias iguais, do centro à extremidade.&#8221; (Timeu, 33).</p>
<p>A presença da geometria denota também aqui o relacionamento de sua filosofia com a ciência. Vale ressaltar que para determinar se uma figura ou grupo de figuras forma um grupo de simetria, devemos identificar: se há um elemento que sirva como elemento de identidade, se ha elemento inverso; verificar uma validade da lei de associação entre os objetos. Em uma figura simétrica poderemos obter padrões regulares. A partir do formato esférico, todas as outras formas podem ser derivadas, como aulas particulares e finitas de simetria, a partir do caso geral e infinito da esfera.</p>
<p><strong>OS SÓLIDOS PLATÔNICOS:</strong></p>
<p>A partir da esfera, uma simetria mais abrangente, como Platão tomou partículas elementares para seu estudo da simetria o grupo de simetria cúbica, o mais simples de todos dos sólidos regulares da geometria euclidiana representados no espaço. Porém, apenas os poliedros regulares podem ser chamados de platônicos, e não qualquer figura do grupo Cúbico. A cada um dos cinco sólidos associou um elemento da natureza como as grandes categorias de qualidade dos elementos dos antigos. A existência destes sólidos já era conhecida provavelmente desde os pitagóricos, assim como os egípcios utilizaram alguns deles na sua arquitetura e em outros objetos.</p>
<p>Figura 1. Os cinco sólidos platônicos (Timeu, 54-56): 1 &#8211; tetraedro; 2 &#8211; octaedro; 3 &#8211; icosaedro; 4 &#8211; cubo; 5 &#8211; dodecaedro.Da obra: Timeu e Crítias ou A Atlântida. São Paulo: Ed. Hemus, p. 49, 1990.</p>
<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Figuras-geométricas.JPG" alt="Figuras geométricas" title="Figuras geométricas" width="400" height="272" class="aligncenter size-full wp-image-11117" /></p>
<p>Com relação à constituição da matéria, Platão Empédocles toma emprestado de uma proposta dos quatro elementos, Identificando-os especificamente com quatro sólidos regulares e quatro elementos:</p>
<p>Fogo = tetraedro<br />
ar = octaedro<br />
água = icosaedro (20 faces)<br />
Terra = cubo<br />
dodecaedro (12 faces), em relação a todo o cosmos, com seus pentágonos identificados ao quinto elemento ou quintessência.</p>
<p>Como tais sólidos podem ser construídos a partir de unidades mais básicas (assim como as faces podem ser construídas de triângulos, Timeu 53), Platão sugeriu explicações para algumas transformações na natureza. Por exemplo, a água se transforma em vapor porque o icosaedro da água se transformaria em dois octaedros de ar e um tetraedro de fogo.</p>
<p>Na construção dos sólidos platônicos apenas podemos utilizar polígonos regulares congruentes (aqueles entre os quais há uma diferença de um múltiplo inteiro de 360 °). Platão começou pelo triângulo eqüilátero (ou que possui lados iguais entre si), o polígono regular com menos lados. Importante ressaltar que desde os pitagóricos os números ímpares eram considerados mais perfeitos do que os números pares.</p>
<p>Com dois triângulos eqüiláteros não podemos constituir o vértice de um poliedro, pois um ângulo sólido tem que ser constituído pelo menos por três planos (um polígono será convexo se nenhum de seus ângulos internos para maior que 180 º). Logo, com três triângulos eqüiláteros é possível constituir um vértice de um poliedro:</p>
<p>o tetraedro (associado elemento fogo pela sua forma).</p>
<p>Considerando quatro triângulos eqüiláteros, cuja soma das amplitudes dos ângulos internos adjacentes não seja vértice de 240 º, conseguimos formar:</p>
<p>o octaedro (elemento ar, com movimento ascendente e descendente).</p>
<p>Considerando cinco desses triângulos num vértice, essa soma é de 300 º, ainda inferior a 360 º, então:</p>
<p>o icosaedro (de 20 faces, relacionado ao elemento água, moldável e fluido).</p>
<p>Com seis triângulos eqüiláteros temos um problema. A soma das amplitudes dos ângulos internos não adjacentes vértice é, neste caso, 360 º, o que não permite fechar o vértice, ou seja, formar um ângulo sólido. Também não é possível um número maior de triângulos eqüiláteros em torno de um vértice para a construção de um poliedro.</p>
<p>Assim, com quatro vértices temos:</p>
<p>o cubo (mostrando uma estabilidade do elemento Terra):</p>
<p>&#8220;Pois a terra, das quatro espécies, é a mais difícil de mover e é, de todos os corpos, o mais tenaz&#8221; (Timeu, 55).</p>
<p>Passando para as figuras de cinco lados, os pentágonos, apenas conseguimos construir:<br />
o dodecaedro (12 lados). A quintessência, do qual o próprio cosmos é derivado.</p>
<p>Com pentágonos, cada vértice tem 108 º, eo mínimo de três faces onde a soma será igual a 324 º, é menor que 360 º. Com hexágonos não é possível construir sólidos platônicos.</p>
<p>Tais objetos foram adquirindo, ao longo do tempo, diversos significados. Sabemos que Kepler sentia grande admiração por eles e chegou mesmo a tentar explicar os movimentos planetários a partir dos mesmos.</p>
<p><em>&#8220;Agora declaremos que atingimos o termo de nosso discurso sobre o Mundo. Tendo admitido nele mesmo todos os seres vivos e Imortais mortais e assim inteiramente preenchido, Vivente visível que envolve todos os viventes visíveis, Deus sensível formado À semelhança do Deus inteligível, muito grande É bom, belo e perfeito, nasceu o Mundo: é o Céu Que um único e de sua raça &#8220;.</em>(Timeu 92: conclusão da obra).</p>
<p><strong>CONCLUSÃO</strong></p>
<p>A obra Timeu de Platão apresenta uma cosmologia que parte da distinção entre o mundo mutável do vir-a-ser e as formas que existiriam de maneira eterna. Ele reconhece o heraclitiniano devir do mundo sensível em oposição à permanência parmenídica do mundo das idéias, por questões conceituais e por evidências geométricas, tal como exigido para entrar em sua Academia.</p>
<p>A sua cosmologia envolve como formas puras, entidades particulares, que são modeladas de acordo com as formas especiais, e uma teleologia personificada por um Demiurgo, um Artesão Divino, que impõe ordem (Kosmos) uma matéria, idéia marcadamente pitagórica. Platão, desta maneira, deu um passo a mais nenhuma atomismo antigo, Introduzindo uma descrição geométrica precisa dos átomos, e descrevendo como mudanças por meio de uma geometrização. Pensamos que tal idéia seja muito importante, pois levou a um maior desenvolvimento e sistematização do estudo do pensamento científico ocidental, originante das ciências atuais, em especial a física e mesmo a astronomia.</p>
<p>As idéias sobre simetria surgiram no mundo antigo também em relação ao estudo da harmonia do mundo. Modernamente, a teoria de simetria vaga apenas depois do desenvolvimento da teoria dos grupos na álgebra. Dizemos que um objeto é simétrico se consiste de partes iguais física e geometricamente, apropriadamente dispostas, umas em ralação às outras. Um exemplo físico da simetria na natureza são os cristais que se agrupam como sempre seguindo mesmas arrumações em suas moléculas. Modelos topológicos do universo, assim como possivelmente o caso das lentes gravitacionais, poderiam descrever outros exemplos de uma simetria em Larga Escala. A quintessência, enquanto matéria estranha responsável pela expansão do universo, constitui hoje interesse fundamental da ciência.</p>
<p><strong>REFERÊNCIAS E NOTAS</strong></p>
<p>* Marques, A.J., Senra, A.V.D. Ciência em Platão: os sólidos geométricos eo Timeu, Anais do 1 º Congresso de História das Ciências e das Técnicas e Epistemologia, UFRJ / HCTE, 2008.<br />
Duhem, P. Le Système du Monde: Histoire des cosmologiques doutrinas de Platon à Copernic. 1-2 vols. Paris, 1959.<br />
Erickson, G. W. &amp; J. A. Fossa. Número e Razão &#8211; Os fundamentos matemáticos da metafísica platônica. Natal: EDUFRN, 2005.<br />
Platão. Timeu e Crítias ou A Atlântida. São Paulo: Ed. Hemus, 1990.<br />
Platão. Os Pensadores. São Paulo: Ed. Nova Cultural, 1996.<br />
Reale, G. História da Filosofia Antiga. São Paulo: Edições Loyola, 1993.<br />
Reale, G. Para uma nova interpretação de Platão. São Paulo: Edições Loyola, 1997.<br />
Rogue, C. Compreender Platão. Petrópolis: Vozes, 2002.<br />
Vlastos, G. O universo de Platão. Brasília: UnB, 1987.</p>
<p><em>*<strong>Adílio Jorge Marques</strong>é professor de Física e História da Ciência da rede pública e particular de ensino do Rio de Janeiro. Pesquisador em História da Ciência Luso-Brasileira e História das Tradições.</p>
<p>*<strong>André Vinícius Dias Senra</strong> é professor Prof. de Filosofia da rede estadual de ensino, da The British School &#8211; RJ, e da Pós-Grad. em Filosofia Medieval<br />
da Faculdade de São Bento do Rio de Janeiro e doutorando em Epistemologia pela UFRJ.<br />
</em></p>
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		<title>O fundamento filosófico para a idéia da Axiologia.</title>
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		<pubDate>Thu, 23 Jul 2009 03:02:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>André Vinicius Dias Senra</dc:creator>
				<category><![CDATA[André Vinícius Dias Senra]]></category>

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		<description><![CDATA[Felicidade não tem a ver com poder, menos ainda com dinheiro, e é algo bem mais intimista no sentido que inibe o sentimento de oposição que um indivíduo poderia ter,]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Axiologia</strong></p>
<p>A Axiologia é uma parte importante do estudo filosófico. Axiologia pode ser denominada como Teoria dos Valores, pois, o sentido do termo axiologia indica, etimologicamente, o estudo que se ocupa com a consideração dos aspectos valorativos.</p>
<p>Toda filosofia é a busca da compreensão de certas respostas em relação aos problemas fundamentais suscitados pela experiência humana, isto é, qualquer estudo filosófico se apresenta como verificação de certas respostas, ou ainda, se estas resolvem estas questões que são propostas de modo problemático. Neste sentido, é possível dizer que cada experiência é conseqüência de um juízo de valor. O juízo de valor é prévio em relação à ação individual, pois, estabelece um modo de encarar as coisas que não só antecede, mas determina um modo de agir. Os juízos de valor são constitutivos da estrutura cognitiva e resultam diretamente, como parte integrante, naquilo que denominamos como experiência. E isto, desde a mais tenra infância na vivência individual.</p>
<p>Assim sendo, a valoração é, na verdade, um ato subjetivo de valorar. Subjetivo é o que se refere ao sujeito que pensa, questiona, sente, imagina, compara, quer, ou ainda, o sujeito que escolhe uma opção mediante sua própria condição. Valorar é conferir valor, seja a alguém, a uma situação ou mesmo a uma idéia (trata-se de buscar o motivo do valor ou de sua ausência). O ato de valorar é determinante no modo como cada indivíduo observa o mundo, e, por isto mesmo, tal ato está diretamente relacionado com as próprias escolhas de vida que uma pessoa pode ter. O vocábulo valorar não é o mesmo que valorizar, pois, este sugere uma associação da idéia do valor com um sentido materialista.</p>
<p>O materialismo conduz necessariamente às ações interessadas, ou até interesseiras. No entanto, deve-se enfatizar que o ato de valoração é o modo individual de pensar que motiva as pessoas, em geral, a agirem de acordo com a própria liberdade . A tematização da noção de liberdade, a partir da referência com a Axiologia, indica que tal discussão confere humanidade às nossas ações. Por esta razão, a Axiologia pode ser tematizada propriamente como Teoria dos Valores. A abordagem de tais aspectos pode ser desenvolvida em dois sentidos, a saber, no sentido moral e no sentido ético. Portanto, ao mencionarmos as palavras ‘ética’ ou ‘moral’, já estamos tentando compreender, de modo axiológico, ou melhor, de modo valorativo as ações humanas. Examinar alguma consideração valorativa, indica falar em termos de busca do significado. O tratamento de uma teoria do significado não teria o menor sentido se não contivesse uma abordagem axiológica e existencial. Tendo em vista que a Axiologia está voltada para a atividade humana, logo, este assunto pertence à Filosofia Prática. Ao que parece, a questão axiológica pode ser formulada do seguinte modo: Qual a importância de se pensar numa teoria dos valores tendo como referência o convívio em sociedade ? O reino mineral não tem um mundo de valorações. O reino vegetal não tem um mundo de valorações. O reino animal é dividido em racional e irracional, donde se conclui que os animais irracionais possuem um mundo pobre de valorações e apenas os seres humanos, por admitirem um comportamento baseado na razão, possuem um mundo de valores . Assim sendo, a consciência só pode ser um assunto, se houver a tematização axiológica.</p>
<p>Quando uma certa pessoa não consegue adequar sua própria conduta à uma determinação restritiva de sua liberdade individual, temos uma postura moral. Contudo, se um indivíduo observa a lei e as regras (que, supõe-se, pretendem uma validade universal), e procura respeitar este limite, temos uma conduta baseada na ética. Kant enunciou a ‘regra de ouro’ da ética do seguinte modo: “Age de tal modo que a sua vontade possa valer sempre ao mesmo tempo como princípio de uma legislação universal”. Basicamente, as ações morais são motivadas por interesses individuais, enquanto as ações éticas se orientam por questões que apelam para compreensão de razões em comum. Em relação à ética, não se trata exatamente de um respeito forçado ou condicionado, pois, para ser ético, um indivíduo precisa, antes, compreender o significado da regra, aceitar isto por sua própria vontade e reconhecer a importância da ética para o bom funcionamento da convivência em sociedade.</p>
<p>Do ponto de vista ético, as ações humanas só possuem valor quando representam autenticamente o que uma pessoa aceita como um valor seu. A internalização da regra ética pressupõe a aceitação da mesma por meio da livre vontade do sujeito. A aceitação, por parte do sujeito, do argumento em prol da ética, deveria ser através de um convencimento das razões que sustentam a petição por uma ação ética. Ética é a disciplina do ‘dever ser’. A ética está para as ações práticas, tal como a lógica está para os pensamentos. Ambas são legisladoras da razão. Só pode haver ética, se houver uma genuína adequação entre discurso, pautado em princípios válidos em geral, e a ação individual. Obviamente, regras são determinações e o cumprimento destas, é irrevogável. Mas uma regra deste tipo, não está inscrita em um código e, por vezes, caso não seja cumprida, o que pode acarretar é a falta de união nos negócios humanos. Esta falta de união se caracteriza como impossibilidade de diálogo, e assim, como irracionalidade nas relações. Costuma-se pensar que os códigos jurídicos expressam o que deve ser, e por isso, se caracterizam como códigos éticos. No entanto, para haver ética, não basta uma teoria ou lei, precisa-se, apenas, de uma ação que venha se adequar a um testemunho verdadeiro, ou seja, do discurso ético para a ação ética. Sem ética, não existe qualquer possibilidade de travar contato minimamente amistoso, estável, respeitoso no sentido da construção dos aspectos positivos das relações humanas.  Se um indivíduo segue as regras, de tal modo que não haja nenhum histórico que indique alguma transgressão, ainda assim não é possível dizer que sua ação é ética, pois, de fato, pode ser que ele só aceite as regras por conta da consideração ao temor de ser apanhado em flagrante ou ainda da obtenção de algum benefício. Se a ética quer predizer o que é certo de um modo em geral no que se refere ao comportamento humano, o objetivo se refere à sociabilidade das relações, o que indica que sua finalidade é reduzir a possibilidade de atrito e desentendimento nas relações humanas.</p>
<p><strong>Considerações Finais</strong></p>
<p>A minha ideia, no texto, foi marcar a Axiologia como sendo aquela parte da Filosofia que se ocupa com questões práticas. A conduta humana se orienta pelo modo de valoração. Questões éticas são mais teóricas do que práticas, e isto porque a ética se apresenta de um modo mais normativo do que a moral. Ética é disciplina do &#8216;dever ser&#8217;, e é realmente tal qual uma lógica para a conduta humana porque encontra-se baseada em regras. A Ética pretende estabelecer o que é certo ou errado, e isto a partir de uma consideração universal.</p>
<p>Ora, todo universal é tão abstrato que sequer o vivenciamos em nossas experiências.</p>
<p>Vivenciamos situações relativas às nossas vidas (situações concretas ou particulares), o que é incomparável. Mas a questão do universal continua presente, e sua função é estabelecer um critério para os particulares, portanto, assume a função de estabelecer critérios de comparação, e principalmente, de estabelecer parâmetros para o juízos de valor. Não é necessário que haja conflito entre ética e moral, a menos que aquilo que seja requerido de um ponto de vista ético não venha a se adequar à uma postura moral (que é sempre individual). A doutrina de Jesus Cristo, nesta matéria, ensinava o testemunho verdadeiro, ou seja, que o que é dito deve corresponder de modo autêntico ao que se pensa e ao que se sente. Ou ainda que a manifestação comportamental expresse exatamente o que é defendido em tese. Este ensinamento pode ser verificado nas palavras: ‘não julgueis para não serdes julgado’; ‘quem não tiver pecado que atire a primeira pedra (em Madalena)’; E isto porque Jesus enfatizava a questão da importância do testemunho verdadeiro, ou seja, que aquilo que falamos e fazemos represente exatamente aquilo que pensamos. Melhor ensinamento filosófico não há.</p>
<p><strong>ANEXO 1</strong></p>
<p>Podemos classificar os assuntos axiológicos do seguinte modo:</p>
<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/2009/07/Tabela1.JPG" alt="Tabela1" title="Tabela1" width="613" height="272" class="aligncenter size-full wp-image-901" /></p>
<p><strong>ANEXO 2</strong></p>
<p>A questão da teoria do valores refere-se à possibilidade de comportar as ações livres com aquilo que é esperado do sujeito enquanto ação apropriada a certos fins.<br />
<img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/2009/07/Tabela21.JPG" alt="Tabela2" title="Tabela2" width="613" height="112" class="aligncenter size-full wp-image-905" /><br />
<strong>ANEXO 3</strong></p>
<p><strong>Valor: </strong><br />
1) Material = visar o bem no sentido concreto / bens materiais = riqueza.</p>
<p>2) Sentimental = visar o bem no sentido da significação / vivência significativa = felicidade.</p>
<p>OBS: O senso comum confunde a busca da felicidade com a busca de melhores condições de um ponto de vista material. Dinheiro não traz felicidade, mas facilidade para alcançar certos objetivos, e quem sabe, utilidade se for bem empregado. Em geral, dinheiro é um valor importante em nossa sociedade em função de originar uma sensação de liberdade para quem detém quantia acumulável. No entanto, esta sensação é falsa, pois, a pessoa que julga ser dona do dinheiro é, na verdade, sua escrava. Dinheiro tem a ver com poder e promove um comportamento que separa indivíduos. Poder é poder mostrar, fazer, ostentar, etc, em benefício próprio. Poder não é algo que se divide, e pela mesma razão, dinheiro deve ser acumulado, pois, tanto o dinheiro quanto o poder perdem sua finalidade quando são distribuídos. Felicidade não tem a ver com poder, menos ainda com dinheiro, e é algo bem mais intimista no sentido que inibe o sentimento de oposição que um indivíduo poderia ter, naturalmente, em relação a qualquer outro. Não é sem razão que se diz que a felicidade é um estado de espírito.</p>
<p><em>*<strong>André Vinícius Dias Senra </strong>é professor de Filosofia da rede estadual de ensino, da The British School do Rio de Janeiro, e da Pós-Graduação em Filosofia Medieval da Faculdade de São Bento do Rio de Janeiro e doutorando em Epistemologia pela UFRJ.</em></p>
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