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	<title>Debates Culturais - Liberdade de Idéias e Opiniões &#187; Alvaro Cardoso Gomes</title>
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		<title>Sobre apostilas &amp; sistemas</title>
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		<pubDate>Mon, 16 Nov 2009 11:20:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Álvaro Cardoso Gomes</dc:creator>
				<category><![CDATA[Alvaro Cardoso Gomes]]></category>

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		<description><![CDATA[Há  alguns tempos atrás, a imprensa divulgou que o Governo do Estado, preocupado, com justa razão, com a péssima qualidade do ensino fundamental e médio, iria distribuir nas escolas um material didático, sob a forma de apostilas. Se a intenção primeira era mais do que louvável, a solução encontrada era, no mínimo, desastrosa, ainda que o material produzido pudesse vir a ter qualidades. Para começo de conversa, livro é livro, e apostila, como o próprio nome diz, é apostila, um material precário, emergencial, um perfeito tapa-buracos.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Apostilas.JPG" alt="Apostilas" title="Apostilas" width="220" height="211" class="aligncenter size-full wp-image-2969" />Há  alguns tempos atrás, a imprensa divulgou que o Governo do Estado, preocupado, com justa razão, com a péssima qualidade do ensino fundamental e médio, iria distribuir nas escolas um material didático, sob a forma de apostilas. Se a intenção primeira era mais do que louvável, a solução encontrada era, no mínimo, desastrosa, ainda que o material produzido pudesse vir a ter qualidades. Para começo de conversa, livro é livro, e apostila, como o próprio nome diz, é apostila, um material precário, emergencial, um perfeito tapa-buracos. Mas seu maior defeito não reside somente na suposta qualidade, reside, acima de tudo, no que está por detrás da proposta. A imposição das apostilas é uma forma de engessar o professor, de lhe dar uma orientação única e rígida quanto aos processos pedagógicos e didáticos, enfim, é uma forma de lhe tirar a liberdade de cátedra, essencial na educação.</p>
<p>Na realidade, isso que o governo estadual buscava implantar reflete a perversidade do ensino privado que, já há um bom tempo, vem lenta, mas gradualmente, se submetendo aos chamados “Sistemas de Ensino”, o que tem como conseqüência a substituição dos livros didáticos pelas apostilas. Como se estrutura um “Sistema de Ensino”? De modo geral, são grandes corporações (uma delas ancorada num cursinho de renome que, depois, estruturou uma enorme franquia de faculdades, universidade e colégios), que oferecem às escolas não só uma orientação pedagógica específica, como também todo o material didático, com vistas a fazer que o estudante possa enfrentar o fantasma do vestibular, supostamente melhor apetrechado. Ou seja: na proposta de todos os Sistemas, a meta é sempre pensar o ensino como um meio para um fim específico: a quantidade sobre a qualidade, transformando assim o aluno num especialista bem municiado para enfrentar as esdrúxulas, especiosas questões do vestibular. </p>
<p>O material didático, servindo a esse fim, ordena os conteúdos de uma forma rígida, de modo a que sirvam especificamente aos exercícios, às pegadinhas que os pobres alunos terão que enfrentar. Em conseqüência, não há espaço para a reflexão, para que o professor construa o aprendizado junto com os alunos, pelo simples fato de que o material do Sistema se estrutura em torno de rigorosas unidades, que devem ser seguidas à risca. O maior prejuízo, portanto, desse modo de pensar do Sistema está na relação entre o mestre e o aluno. O professor, porque acaba sendo engessado duplamente: primeiro, porque não tem o sagrado direito de escolher o material didático, que é prerrogativa exclusiva da escola que adotou o Sistema; segundo, porque, além disso, não pode dar um viés próprio para aquilo que vai ensinar. Quanto ao aluno, sofrerá na carne as conseqüências de um ensino padronizado, sem espaço para a reflexão. Torna-se um autômato, um especialista em resolução de charadas.</p>
<p>Os Sistemas de Ensino, as escolas – muitas delas tradicionais no ramo – acabam, assim, se tornando sócios numa mais que lucrativa empreitada. Os Sistemas não só vendem uma pedagogia, uma didática, uma filosofia de ensino, bem como um material de qualidade para lá de duvidosa. A começar da aparência: papel de qualidade inferior, a maioria das ilustrações em preto e branco, economia do espaço de leitura, sem contar que nem sempre os textos aparecem assinados, porquanto resulta do trabalho de uma equipe contratada para esse fim, por tarefa, ou seja, os polpudos direitos autorais ficam para a empresa. Além disso, na confecção das apostilas, muitas vezes se verifica que elas são o resultado da glosa, da paródia, do pastiche, da cópia descarada, enfim, de material dos livros didáticos, esses sim, quando produzidos em editoras sérias, obedecendo a padrões de qualidade. E por uma razão muito simples: o MEC, pelo menos, num passado não tão remoto, costumava exercer uma rigorosa fiscalização nos livros didáticos. Essa fiscalização se devia ao fato de o Governo, sendo o grande comprador de livros do mercado, achar-se no mais que justo direito de fiscalizar o que iria ser adotado nas escolas públicas. Assim, comissões eram constituídas para estudar as coleções produzidas pelas editoras que, se aprovadas, receberiam selos de qualidade.</p>
<p>Essa ação, extremamente benéfica, teve como resultado não só a retirada do mercado do material didático condenado, como também a corrida das editoras em busca de profissionais qualificados para produzir um material que correspondesse às exigências do MEC. Milhões foram gastos em pesquisas, na produção de livros didáticos, o que evidente trouxe resultados bastante satisfatórios. Se os livros didáticos têm o agravante de não serem livros propriamente ditos, passaram a se aproximar deles, tanto na qualidade gráfica, quanto nas propostas didático-pedagógicas. Sem contar ainda com o fato de que, ao trabalhar com o livro didático e não com a malfadada apostila, o professor não só tem a liberdade de escolher o material que lhe convier e também a liberdade de lecionar sem o engessamento dos Sistemas. Mas, acima de tudo, o que dizer de um material que não passa por crivo algum de um órgão governamental? Que é criado sem fiscalização do quer que seja? Que, via de regra, obedece tão-só a critérios argentários? E que, o pior de tudo, numa perversidade taylorista, quer transformar o professor num operário especializado de uma linha de montagem? </p>
<p>E quando o Estado entra por essa via, talvez sem retorno, então, é sinal de que a coisa vai ficar mais feia do que já é&#8230; </p>
<p><em>*<strong>Álvaro Cardoso Gomes</strong> é professor titular da USP e escritor. Publicou, entre outras obras, <strong>Os rios inumeráveis</strong>, <strong>A divina paródia</strong>, <strong>Concerto amazônico</strong>, <strong>A boneca platinada</strong>, <strong>O comando negro</strong> (romances); <strong>A hora do amor</strong>, <strong>A colina sagrada</strong> (romances juvenis), além de diversos livros de ensaios.           </em>  </p>
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		<title>Universidade e barbárie!</title>
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		<pubDate>Wed, 11 Nov 2009 02:03:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Álvaro Cardoso Gomes</dc:creator>
				<category><![CDATA[Alvaro Cardoso Gomes]]></category>

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		<description><![CDATA[Escrevo este artigo, ainda sob o impacto dos fatos lamentáveis que tiveram vez no campus de uma Universidade da Capital, a Uniban. Para refrescar a memória do leitor, resumo-os aqui: uma aluna de um dos cursos, tendo comparecido com trajes considerados sumários e inadequados às aulas, foi perseguida por uma multidão de estudantes que, com palavras de baixo-calão e até mesmo ameaças físicas, a acuaram, obrigando-a a se refugiar numa das salas. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Aluna-da-Uniban.JPG" alt="Aluna da Uniban" title="Aluna da Uniban" width="220" height="218" class="aligncenter size-full wp-image-2987" /><em>Acima, aluna sendo ajudada a sair das instalações da Uniban, em São Paulo.</em></p>
<p>Escrevo este artigo, ainda sob o impacto dos fatos lamentáveis que tiveram vez no campus de uma Universidade da Capital, a Uniban. Para refrescar a memória do leitor, resumo-os aqui: uma aluna de um dos cursos, tendo comparecido com trajes considerados sumários e inadequados às aulas, foi perseguida por uma multidão de estudantes que, com palavras de baixo-calão e até mesmo ameaças físicas, a acuaram, obrigando-a a se refugiar numa das salas. Ao que parece o incidente foi tão grave que exigiu até a intervenção da polícia. Caso alguém queira mais detalhes do caso, basta acessar o “youtube”, onde encontrará fartas imagens sobre tudo o que aconteceu. Inclusive, poderá ver que os tais de “trajes sumários”, conforme os relatos de alunos e alunas exaltados, resumem-se apenas a uma curtíssima mini-saia cor de rosa. Se a vestimenta da moça esteticamente não é de bom gosto, não apresenta nada de mais, em relação ao que se vê hoje por aí. </p>
<p>Mal comparando, começo por lembrar um fato que ocorreu na Universidade da Califórnia, em Berkeley, onde passei alguns meses, por conta de uma pesquisa sobre a poesia de Poe e Baudelaire. Numa de minhas idas ao campus, deparei com uma cena inusitada: um aluno, nu em pêlo, desfilava pelas aléias da Universidade. Num determinado momento, foi entrevistado por um repórter de um canal de televisão, que desejava saber os motivos de sua atitude. O jovem então explicou que andava despido porque, tendo o homem nascido nu, era um contra-senso a sociedade exigir que andasse vestido. Sendo assim, protestava contra a sociedade iníqua, castradora, etc., etc. Depois, vim a descobrir que ele fazia parte de um grupo, cujos membros, sempre nus em pêlo, faziam performances à entrada do campus. As performances resumiam-se ao seguinte: estendendo uma lona no chão, homens e mulheres retorciam-se, esfregam-se uns nos outros, aos olhos da platéia, formada geralmente de estudantes da Universidade e de curiosos, entre os quais, acabei por me incluir. Não me lembro de ninguém apupar, insultar os homens e mulheres com palavras de baixo calão e muito menos ameaçá-los de estupro. O máximo que se ouvia eram risos e comentários estéticos sobre o físico dos nudistas, que não era lá dessas coisas.</p>
<p>Quanto à polícia, talvez acostumada às excentricidades dos estudantes de Berkeley, não interveio, de maneira que o espetáculo terminou com um pequeno discurso inflamado de um dos exibicionistas, protestando contra a sociedade repressora, capitalista, etc. e tal e um convite para que os presentes também se despissem. Até que um incidente mais “grave” veio a acontecer com o líder do grupo, quando ele decidiu que tinha o direito de assistir às aulas nu em pêlo. Como era de se esperar, foi proibido de entrar pelado (apenas pelado, faço questão de frisar) nos prédios da Universidade. Mas isso aconteceu sem escândalo, sem alarde, sem que uma multidão o acuasse e lhe fizesse ameaças de qualquer tipo. Como não tive oportunidade de assistir ao ao da proibição, julgo que esta se deveu simplesmente ao seguinte: ficando nú, por convicção, o tal do estudante invadia o espaço dos outros estudantes, que não comungavam da mesma convicção e que, por isso mesmo, se sentiam constrangidos em assistir às aulas com um praticante do nudismo a seu lado. </p>
<p>Voltando aos fatos da Uniban e considerando o comportamento da massa que acuou a jovem no campus da Universidade, digo que, sob todos os pontos de vista, ele é inaceitável, absurdo. Esse comportamento só reforça a idéia de que as pessoas, quando se juntam – seja em algumas assembléias políticas, seja em alguns atos religiosos, seja em alguns jogos de futebol e seja agora, como novidade, no campus de uma Universidade –, e as emoções se exacerbam, comportam-se como animais, deixando de refletir e respondendo tão somente a palavras de ordem, mesmo que estas sejam descabidas e atentem contra os mais elementares direitos humanos. É a barbárie instituída. E o incrível é se pensar que tudo se passou dentro de uma instituição universitária, que teoricamente deveria ser o espaço da harmonia, da confraternização, da tolerância.</p>
<p>Mas cabe aqui outro raciocínio: na realidade, o que aconteceu reflete uma triste realidade (ou é mesmo o epifenômeno de uma triste realidade), se se considerar que os fatos tiveram vez no Brasil. Isto serve para desmentir mais uma vez a imagem do “brasileiro cordial”, generoso, tolerante e libertino, apregoada nas canções de música popular, num determinado tipo de ficção populista e nos discursos de certos políticos. A verdade é que o brasileiro, em algumas circunstâncias, é tão preconceituoso e mesquinho quanto outro povo qualquer, ainda mais quando levado por uma moralidade rastaquera ou movido pela mentalidade de rebanho. E isso, com toda certeza, é que provocou o lamentável episódio, o que me leva a concluir que os estudantes, devido à mesquinhez moral, à intransigência, à estupidez, não merecem, de maneira alguma frequentar uma Universidade.</p>
<p>Mas falando em Universidade, não poderia deixar de comentar o epílogo de tudo: depois que escrevi o artigo, li no jornal que a Uniban, num processo sumário, decidiu pela expulsão da aluna e pela simples advertência e/ou suspensão dos estudantes que a acuaram. Ou seja: a corda estourou do lado do mais fraco, e a Universidade – se é que a instituição merece mesmo este nome – perdeu a grande oportunidade de mostrar que é um centro de saber, de pesquisa e, acima de tudo, um espaço de socialização e convivência fraterna entre seus alunos. Talvez, por isso tudo, eu aconselharia que seus mantenedores fizessem uma pequena excursão até a Universidade da California, para, quem sabe, aprenderem o que é discrição e tolerância.  </p>
<p><em>*<strong>Álvaro Cardoso Gomes</strong> é professor titular da USP e escritor. Publicou, entre outras obras, <strong>Os rios inumeráveis</strong>, <strong>A divina paródia</strong>, <strong>Concerto amazônico</strong>, <strong>A boneca platinada</strong>, <strong>O comando negro</strong> (romances); <strong>A hora do amor</strong>, <strong>A colina sagrada</strong> (romances juvenis), além de diversos livros de ensaios.</em></p>
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		<title>&#8220;Viagem Literária&#8221;</title>
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		<pubDate>Mon, 28 Sep 2009 03:01:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Álvaro Cardoso Gomes</dc:creator>
				<category><![CDATA[Alvaro Cardoso Gomes]]></category>

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		<description><![CDATA[Entre os dias 21 e 23 de setembro, juntamente com outros escritores, participei do evento <strong>Viagem Literária</strong>, promovido pela Secretaria de Estado da Cultura e Bibliotecas Públicas de cidades do interior paulista. A fórmula desse evento é sempre a mesma: a Secretaria envia autores para as Bibliotecas Públicas interessadas, que, por sua vez, disponibilizam o espaço, para que crianças e adolescentes das escolas municipais e estaduais possam ouvir palestras sobre Literatura.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Logo-Viagem-Literaria.jpg" alt="Logo - Viagem Literaria" title="Logo - Viagem Literaria" width="200" height="203" class="aligncenter size-full wp-image-2193" /><br />
Entre os dias 21 e 23 de setembro, juntamente com outros escritores, participei do evento <strong>Viagem Literária</strong>, promovido pela Secretaria de Estado da Cultura e Bibliotecas Públicas de cidades do interior paulista. A fórmula desse evento é sempre a mesma: a Secretaria envia autores para as Bibliotecas Públicas interessadas, que, por sua vez, disponibilizam o espaço, para que crianças e adolescentes das escolas municipais e estaduais possam ouvir palestras sobre Literatura. No meu caso particular, fui visitar quatro cidades do Vale do Paraíba: Guaratinguetá, São José dos Campos, Pindamonhangaba e São Francisco Xavier. Fiz todo o périplo, de enfiada, dormindo em algumas cidades e, noutras, apenas fazendo as palestras.</p>
<p>Não sou noviço nesse tipo de trabalho, pois há muitos anos, venho pondo o pé na estrada, por conta de minha produção literária, para falar com jovens de diversas regiões do Brasil. Todos os anos, tenho viagens programadas para a capital e o interior de São Paulo, para o Rio Grande do Sul, Paraná, Goiás, Sergipe, etc. Contudo, nessas viagens, costumo falar mais especificamente em escolas, onde meus livros costumam ser adotados. Esses encontros são muito positivos, no sentido de eu poder avaliar o alcance de minha obra literária, de entender o mecanismo das adoções por parte dos professores e de ver também qual é a expectativa dos jovens leitores em relação à leitura, sobretudo numa época em que se lê muito pouco e em que o livro constitui um objeto de luxo. Nessas viagens também é interessante poder discutir com os professores diferentes questões: para que serve a leitura, sobretudo se se pensar na concorrência da internet; como despertar o interesse pela leitura; que tipo de trabalho realizar com a leitura dos livros, ou seja, deve se cobrar ou não pela leitura; como tornar acessível uma publicação que, via de regra, não é lá muito barata e está longe do poder aquisitivo de grande parte da população brasileira; que políticas públicas há para fazer que o livro chegue, sem muito ônus, às mãos do consumidor, etc.</p>
<p>Essas viagens de divulgação de livros que costumo fazer, contudo, é ligeiramente diferente das que a Viagem Literária propõe, embora a base seja a mesma: pôr em contato o autor vivo e os leitores. É diferente, em primeiro lugar, porque o evento se realiza somente nas Bibliotecas Públicas e não nas escolas; em segundo lugar, o evento não é promovido pelas editoras, em convênio com escolas, mas, sim, pelo Estado e, em terceiro lugar, não leva em consideração a adoção de livros, como premissa básica para que o escritor seja apresentado aos leitores. E essas diferenças são fundamentais, pois, de um lado, este programa cultural do Estado serve para dar valor a um espaço nem sempre contemplado pelo poder público, que é o das Bibliotecas Municipais e, por outro lado, serve para fazer que o autor, independentemente de ter uma obra lida em sua visita, consiga despertar nos leitores o gosto pela leitura somente com sua palestra. </p>
<p>Quanto à primeira questão, que desenvolverei mais adiante, com alguns exemplos, no mínimo curiosos, o cuidado com as bibliotecas pela municipalidade varia de município para município, o que se reflete, evidentemente, no acervo, na indexação dos livros, na informatização, na presença de pessoal qualificado e, por conseguinte, no número de frequentadores e no aumento da leitura. Quanto à segunda questão, que diz respeito ao corpo-a-corpo entre autor e leitores, verifica-se a necessidade por parte do escritor de adotar uma retórica adequada, para prender a atenção dos ouvintes por algumas horas, sem ter a base essencial que á leitura dos textos. Como um ficcionista ou um poeta, via de regra, não é um artista de tevê e/ou cinema, um atleta, não vale por sua persona e, sim, por aquilo que produz: obras de ficção ou poesia. Neste sentido, talvez o programa pudesse ser aperfeiçoado, de modo a conseguir que as escolas, ou as bibliotecas promovessem a leitura dos livros dos autores bem antes das palestras serem dadas.</p>
<p>Mas, nesse caso, entram alguns complicadores, entre eles, o que diz respeito aos acervos das bibliotecas. Por melhores que sejam, os acervos sempre apresentam lacunas. Por exemplo: em algumas bibliotecas que visitei, não havia um único exemplar de livros meus, enquanto em outras, havia um número razoável de exemplares. O segundo complicador: nem sempre as escolas preparam seus alunos para o encontro. E isso se deve a vários fatores: falta de sintonia entre a biblioteca e a escola, de modo que haja tempo hábil para preparação dos alunos ou mesmo carência absoluta de meios. Muitas vezes, as escolas, como são públicas, não contam, em suas minguadas bibliotecas, com os livros necessários para os encontros. Devido a isso, os encontros acabam sendo realizados um tanto no vazio, na medida em que, como já dissemos, o escritor vale mais por aquilo que produz do que por sua pessoa propriamente dita. Mas, mesmo com essa precariedade, os resultados são positivos: em alguns casos, verifiquei que certas questões que discuti em meu périplo, como as que dizem respeito ao ofício do escritor, à prática da escrita, à importância dos livros e da leitura, à revelação de aspectos inusitados do mundo pela leitura, à diferença entre literatura de qualidade e a literatura de má qualidade, às políticas públicas governamentais para o livro, etc., podem ter tocado fundo nos jovens</p>
<p>Não poderia finalizar este artigo com algumas curiosas observações a respeito dos espaços que me foram dados visitar. Em Guaratinguetá, a Biblioteca Pública conta com um espaço excelente e com um acervo de 60.000 exemplares. Pelo que me contaram as responsáveis, a freqüência é bastante boa, tanto de jovens como adultos. Alguns livros, inclusive, têm que ser reservados com antecedência, tanto é o interesse do público. Há verbas para compras de livros e manutenção de pessoal especializado. Em Pindamonhangaba, verifica-se igualmente que as políticas públicas estão voltadas para a leitura, pois os espaços são bons, e o acervo é aumentado constantemente, sem contar que há uma diretora geral e bibliotecárias bem preparadas para o mister. A decepção ficou por conta da cidade de Campos do Jordão. Além de o espaço ser acanhadíssimo (a biblioteca divide o espaço de um velho casarão com a Academia de Letras da cidade&#8230;), o diretor confidenciou-me que não há verbas públicas para compra de livros! A biblioteca vive de doações, conseguidas junto a editoras e entidades governamentais, o que é um despropósito, ainda mais se se pensar que esse município é uma das estâncias turísticas mais ricas do Estado. Por isso mesmo, a biblioteca só funciona graças ao esforço, à abnegação do diretor e bibliotecárias.</p>
<p>E o caso mais curioso e emblemático de minha viagem fica para o fim. São Francisco Xavier, um encantador distrito de São José dos Campos, situado no meio da serra da Mantiqueira e contando tão só com 3.000 habitantes, foi o local que me provocou a maior surpresa. Isso por conta das condições bastante peculiares da Biblioteca Pública do lugar. No passado, pelo que fiquei sabendo, como não havia prédio próprio para onde acondicionar os livros, a subprefeitura os havia guardado provisoriamente no edifício onde funcionava a cadeia local! E, evidentemente, ninguém podia ter acesso aos pobres presidiários&#8230; Até que um abnegado da cidade, o professor Sidnei Pereira da Rosa, formado em biblioteconomia, arregaçou as mangas e criou uma biblioteca na garagem de sua própria casa que, depois, expandindo-se, acabou por ocupar a casa inteira. </p>
<p>Hoje, a Biblioteca Solidária é freqüentada por grande parte da população de São Francisco Xavier. Sidnei não só faz o papel de diretor, de bibliotecário, como também é ele quem busca doações e auxílio nas empresas para comprar estantes, computadores, móveis, etc. E o que clama aos céus, sem receber um só tostão! Faz tudo isso por amor aos livros, por amor à biblioteca, que conta com salas atulhadas de estantes, salas de consulta, uma sala para reuniões e palestras e, atrás, com um espaço coberto com um toldo, com um pequeno jardim, onde as oficinas literárias tem sua vez.</p>
<p>Sidnei, sempre sorridente e prestativo, é um exemplo a ser seguido, ainda mais num país que trata a educação como lixo e onde os políticos se comprazem em refocilar na podridão dos escândalos, pouco se lixando para livros, bibliotecas e para a cultura em geral.</p>
<p><em>*<strong>Álvaro Cardoso Gomes</strong> é professor titular da USP e escritor. Publicou, entre outras obras, <strong>Os rios inumeráveis</strong>, <strong>A divina paródia</strong>, <strong>Concerto amazônico</strong>, <strong>A boneca platinada</strong>, <strong>O comando negro</strong> (romances); <strong>A hora do amor</strong>, <strong>A colina sagrada</strong> (romances juvenis), além de diversos livros de ensaios.<br />
</em></p>
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		<title>À beira do paraíso educacional</title>
		<link>http://www.debatesculturais.com.br/a-beira-do-paraiso-educacional/</link>
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		<pubDate>Thu, 17 Sep 2009 15:00:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Álvaro Cardoso Gomes</dc:creator>
				<category><![CDATA[Alvaro Cardoso Gomes]]></category>

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		<description><![CDATA[No verão de 2006, recebi um convite para participar do programa de português do Middlebury College, em Vermont (EUA), na qualidade de “Writer in Residence”. Na ocasião, proferi palestras sobre literatura e sobre meus livros para os alunos. Em 2007, retornei, mas na condição mista de escritor e professor, o que me levou a dar aulas regulares, para tratar de temas de literatura. O programa de português, ao lado dos de francês, espanhol, italiano, japonês, chinês, russo, árabe, é um dos cursos de línguas oferecidos durante o verão (no mês de julho inteiro e parte do mês de agosto).]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/middlebury-college.jpg" alt="middlebury-college" title="middlebury-college" width="216" height="218" class="aligncenter size-full wp-image-2006" /><em>Acima, parte do campus do Middlebury College.</em></p>
<p>No verão de 2006, recebi um convite para participar do programa de português do Middlebury College, em Vermont (EUA), na qualidade de “Writer in Residence”. Na ocasião, proferi palestras sobre literatura e sobre meus livros para os alunos. Em 2007, retornei, mas na condição mista de escritor e professor, o que me levou a dar aulas regulares, para tratar de temas de literatura. O programa de português, ao lado dos de francês, espanhol, italiano, japonês, chinês, russo, árabe, é um dos cursos de línguas oferecidos durante o verão (no mês de julho inteiro e parte do mês de agosto). São cursos intensivos, mais conhecidos como “de imersão”, ou seja: os alunos de várias nacionalidades, sob juramento, deixam de lado a língua materna e, evidentemente, o inglês, e se propõem, no espaço de sete semanas, a aprender, a falar e a escrever apenas o idioma escolhido para estudo. Para tanto, são “confinados” no campus, de onde só podem sair com autorização especial. Além das aulas de cultura, de gramática, de literatura, os estudantes, no caso do programa de português, têm audições de música popular brasileira, assistem a filmes brasileiros, às novelas da Globo, lutam capoeira, aprendem a fazer e degustar feijoada, vatapá, muqueca e, até mesmo, aprendem palavrões tupiniquins em palestras especializadas&#8230; Não bastasse essa variedade de cursos e performances culturais, também convivem com os professores – falantes nativos – grande parte do dia. Nas refeições, oferecidas no enorme restaurante freqüentado por estudantes de todas as línguas, repartindo as mesmas mesas com os mestres, os alunos aproveitam-se para falar de suas experiências, sobre a diversidade cultural do Brasil e tirar dúvidas de pronúncia ou de gramática. Tanta convivência leva à camaradagem e a um conhecimento da diversidade cultural de diferentes países e, sobretudo, à tolerância, à compreensão mútua e a uma conscientização aguda dos problemas nacionais e internacionais. </p>
<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Universidade-Americana2.JPG" alt="Universidade Americana2" title="Universidade Americana2" width="220" height="216" class="aligncenter size-full wp-image-2004" /> <em>Acima, o selo do Middlebury College.</em></p>
<p>Middlebury é um College School (o que equivale, em nosso país, a uma faculdade), fundado em 1800. Situado junto à cidadezinha do mesmo nome, espraia-se num belíssimo campus, em meio à vegetação luxuriante. Como o estado de Vermont é conhecido pelo investimento na área ecológica, há, na comunidade, um cuidado especial em preservar o meio ambiente. Por exemplo, no campus, não se permite o uso de adubo que não seja natural, o que, se dá ao ambiente um odor muito peculiar, serve, pelo menos, para se evitar os prejuízos decorrentes da aplicação desordenada dos agrotóxicos. Bastante separados uns dos outros, os edifícios do Middlebury College distribuem-se numa grande extensão de terreno, propiciando uma vista prazerosa do verde, no meio do qual, há uma quantidade enorme de pássaros, esquilos e até mesmo pequenos cervos. Os prédios do College, construídos de madeira branca, no estilo da Nova Inglaterra, ou revestidos de pedra cinza, servem a um duplo intuito: muitos deles são alojamentos para estudantes, em casas muito confortáveis, os demais são bibliotecas, laboratórios, salas de aula providas de toda parafernália eletrônica. Não bastasse isso, entre outras coisas, há um enorme complexo esportivo, provido de piscina olímpica, campos de futebol, de basquete, quadras de tênis, um museu de arte contemporânea, um cinema, um centro de lazer completo, um observatório astronômico.</p>
<p>Tudo isso que compõe Middlebury College está a serviço dos cursos regulares e dos cursos de verão, mas o que surpreende é saber o número de alunos alocados no campus. Os cursos de verão recebem, mais ou menos, 2.000 estudantes (40 de português, por questão de espaço); os regulares, por sua vez, aceitam – pasme o leitor – entre 1.600 e 1.800 alunos apenas. Digo “apenas” porque, no Brasil, a meta das entidades privadas, pelo contrário, é partir avidamente em busca de mais e mais alunos, construindo monstruosos campi, alguns deles autênticos shopping centers, em que a qualidade de ensino, por razões óbvias, deixa muito a desejar. O número de alunos ingressantes em Middlebury seria tido como irrisório e anti-econômico, aos olhos dos comerciantes e varejistas que, via de regra, se apoderaram do ensino privado brasileiro. É evidente que manter essa máquina funcionando requer grandes investimentos. Pelo que pude saber, o aluno do College paga $48.000 por ano, tendo direito a quarto, roupa de cama, comida, lazer, atividades culturais e, evidentemente, as atividades acadêmicas. Sendo assim, a princípio, é uma elite privilegiada que tem acesso a Middlebury. Contudo, não se pode esquecer que o College e outras associações concedem bolsas a estudantes carentes que tenham se destacado nas escolas públicas, o que serve para mesclar os desfavorecidos pela sorte aos membros da elite. Pelo menos, no curso de verão, foi me dado conviver com estudantes da América Latina, da América Central, das Filipinas, da Indonésia, etc, dos mais diversos extratos sociais e econômicos. A essa altura, talvez alguns dos ferrenhos críticos dos EUA, que pululam no Brasil, objetassem dizendo, à la Eduardo Galeano, que Middlebury College é uma escola desse nível porque o dinheiro que existe para mantê-lo provém do sistemático saque dos países pobres do Terceiro Mundo. Admitindo a perversa premissa, poderíamos argumentar que, diferentemente de nosso país, pelo menos, esse dinheiro, em vez de ir para o bolso dos políticos corruptos, serve a fins nobres: à educação em altíssimo nível e ao intercâmbio de estudantes do mundo inteiro.</p>
<p><em>*<strong>Álvaro Cardoso Gomes</strong> é professor titular da USP e escritor. Publicou, entre outras obras, <strong>Os rios inumeráveis</strong>, <strong>A divina paródia</strong>, <strong>Concerto amazônico</strong>, <strong>A boneca platinada</strong>, <strong>O comando negro</strong> (romances); <strong>A hora do amor</strong>, <strong>A colina sagrada</strong> (romances juvenis), além de diversos livros de ensaios.</em></p>
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