Principal » Artigos de Afonso Guerra-Baião
Afonso Guerra-Baião

O sonho acabou?

Contam que Montesquieu teria dito a Madame de Châtelet, a cientista que buscava ressignificar o saber através da sabedoria: “A Senhora deixa de dormir para aprender Filosofia; seria preciso, ao contrário, estudar Filosofia para aprender a dormir”. Então vem a pergunta: como entender esse conselho, se a Filosofia tem a ver com a vigília, com a mente desperta para o pensamento lógico, para os juízos da razão, enquanto o sono é o portal para o inconsciente e suas manifestações oníricas? Há duas respostas: a primeira é que, se conhecimento e sabedoria fossem equivalentes, Madame de Châtelet não teria perdido o sono; para a segunda resposta, será preciso recorrer a duas ou três citações.
Afonso Guerra-Baião

Vai ter Copa? Vai ter eleição

Há quem jogue futebol por música. Quanto a mim, essas são duas frustrações. Nunca passei de um esforçado peladeiro, não aprendi a tocar nenhum instrumento e não chego sequer ao nível de um cantor de banheiro. Em música sou ouvinte. Alguém me pergunta: você ouve música clássica? Eu respondo: meu ouvido (como meu coração) é barroco. Mas no futebol, em que sou torcedor, não compartilho o dualismo que cinde o homem barroco: sou fiel torcedor do Galo. Outra diferença: se o ouvinte ama viajar no complexo jogo de contrastes da polifonia e dos contrapontos, como torcedor eu sou clássico, preferindo as jogadas limpas, trabalhadas, de um jogo coletivo bem planejado, chegando mesmo, na hora do gol, a ser cartesiano.
Afonso Guerra-Baião

A pena e a pedra

Num poema de Mao Tsé-Tung, pena e pedra são imagens de dois tipos diferentes de existência: a pena simboliza uma vida sem sentido, ao léu, desperdiçada; a pedra é a figura de um viver que tem o peso de um conteúdo e o lastro de um significado. A pena pode ser o símbolo da vida de Ya Ru, personagem de “O homem de Beijing”, ficção policial de Henning Mankell, publicada entre nós nesse ano pela Companhia das Letras; a pedra pode representar a existência de Roger Casement, protagonista de “O sonho do celta”, romance histórico de Mário Vargas Llosa, lançado no Brasil em 2011 pela Alfaguara.
Afonso Guerra-Baião

Revoluções por minuto

Se Pedro Bial programasse para os participantes do “Big Brother” um teste eliminatório que consistisse em explicar a origem do título do programa, na certa todos seriam eliminados, sem precisar passar pelo paredão. Nós que não vivemos confinados e temos acesso à internet, numa consulta rápida à Wikipedia, poderíamos responder com segurança: o título desse reality show é tirado do personagem que George Orwell criou em seu romance
Afonso Guerra-Baião

Cenários de Natal

Alguns dizem que mudamos sempre para sermos os mesmos. Somos nós que mudamos ou mudam as circunstâncias? Alguém pergunta: e se Jesus nascesse hoje? Ele, decerto, seria o mesmo: pobre, excluído, perseguido. Mas a cidade seria muito diferente: condomínios fechados, prédios com seguranças, casas com cercas elétricas sobre os muros e nenhuma estrebaria. O presépio teria lugar sob alguma marquise ou debaixo de um viaduto. Não havendo cocho nem palha, o berço seriam caixas de papelão. Na falta do calor dos animais, o fogo aceso em latas por moradores de rua que tomariam o lugar dos pastores.
Afonso Guerra-Baião

Estevão e Sakineh

Dificilmente eu me lembraria de Estêvão, primeiro mártir da fé cristã, por causa de seu dia: vinte e seis de dezembro – data ofuscada pelos brilhos das festas natalinas. Pois sua lembrança me veio junto com a recordação de um dos sonetos brancos de Murilo Mendes: “A lapidação de Santo Estêvão”. Nesse texto o poeta convida sua companheira a olhar para a cena do apedrejamento de Estêvão: “Contempla, amada, a lapidação do homem”. Acontece que esse verso me chegou à memória de uma forma distorcida, como se Sakineh Ashtiani – condenada à morte por apedrejamento no Irã
Afonso Guerra-Baião

Os exterminadores do presente

A violência institucionalizada é notória quando governos preferem a guerra à diplomacia ou quando o sistema de poder se arroga o direito sobre a vida humana, através da pena de morte. È fácil perceber como interesses de grupos conduzem á formação de verdadeiros exércitos particulares e ao crime organizado, impondo a violência como norma de convivência.
Afonso Guerra-Baião

Muito além do futebol

Há cerca de vinte anos as leis impostas pela minoria branca proibiam o voto à maioria negra, assim como negavam aos negros o acesso á Igreja Reformada. Essas leis impediam o casamento e criminalizavam a relação sexual entre brancos e negros, vedavam aos negros o uso de instalações, espaços e serviços públicos destinados aos brancos, bem como os obrigavam a morar em guetos. Pelo “Nactive Lands Act”, os negros (dois terços da população) tinham direito à propriedade de apenas 7,5 por cento da terra, enquanto os brancos (um quinto da população) detinha a posse de 92,5 por cento e os mestiços eram excluídos do direito à propriedade do solo.
Afonso Guerra-Baião

O deserto fértil

Engana-se quem pensa que esses oásis do dizer são monopólios das elites e que o deserto da repetição é habitat exclusivo das massas. Grupos de uma elite altamente especializada - a dos economistas – repetiram como dogmas, durante as últimas décadas, as receitas neoliberais da atrofia do Estado e do advento do reino divino do Mercado. A crise que abalou o sistema financeiro internacional veio revelar: o que se vestia de ciência não passava de ideologia, era crendice o que se repetia como se fosse a voz da razão.
Afonso Guerra-Baião

A voz da terra

O Parque Ambiental do Inhotim é um local de sobrevivência, alimentação e reprodução das mais variadas formas de vida. Tem como diretrizes a conservação dos remanescentes florestais pertencentes aos biomas Mata Atlântica e Cerrado; resgate, ampliação e manutenção de coleções botânicas; emprego de técnicas sustentáveis de manejo; elaboração e desenvolvimento de programas socioambientais.
Afonso Guerra-Baião

O caminho das pausas

Nesse livro Werner Keller busca analisar inúmeras informações provenientes das descobertas arqueológicas, comparando-as com as narrativas da Bíblia. A razão da Bíblia, bem como a de mitos da antiguidade e dos povos ditos primitivos, é a mesma razão intuitiva, iluminada, que faz com que os poetas sejam os primeiros a saber. Assim, os dias bíblicos da criação podem ser lidos como metáfora das eras geológicas; assim também, através do mito de Ícaro, a antiguidade clássica antecipou, simbolicamente, a possibilidade da conquista do espaço pelo Homem; da mesma forma, os índios Caiapó, no mito do Buraco do Céu, podem ter figurado a teoria dos universos paralelos.