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	<title>Debates Culturais - Liberdade de Idéias e Opiniões &#187; Cristovam Buarque</title>
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		<title>Cinismo ou ceticismo</title>
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		<pubDate>Sat, 19 Nov 2011 03:03:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Cristovam Buarque</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cristovam Buarque]]></category>

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		<description><![CDATA[Diversos repórteres descreveram a rebelião em Canudos. Mas foi Euclides da Cunha quem ficou na história, porque no lugar de apenas descrever as aparências entre o que parecia um Conselheiro insensato e Generais sensatos, mostrou o que havia por baixo das aparências: a disputa entre Cidade e Campo, Império e República, Moderno e Arcaico. Cem anos depois, estamos repetindo a mesma forma superficial de fazer reportagens sem descrições mais profundas da sociologia da corrupção. As notícias giram em torno de denúncia dos fatos visíveis: vídeos, contratos, fotos e propinas. Ainda não surgiu o Euclides da Cunha da corrupção. Estamos vendo e descrevendo o superficial.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Euclides-da-Cunha.jpg"><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Euclides-da-Cunha.jpg" alt="" title="Euclides da Cunha" width="216" height="233" class="aligncenter size-full wp-image-14709" /></a><em>Acima, Euclides da Cunha.</em></p>
<p>Diversos repórteres descreveram a rebelião em Canudos. Mas foi Euclides da Cunha quem ficou na história, porque no lugar de apenas descrever as aparências entre o que parecia um Conselheiro insensato e Generais sensatos, mostrou o que havia por baixo das aparências: a disputa entre Cidade e Campo, Império e República, Moderno e Arcaico.</p>
<p>Cem anos depois, estamos repetindo a mesma forma superficial de fazer reportagens sem descrições mais profundas da sociologia da corrupção. As notícias giram em torno de denúncia dos fatos visíveis: vídeos, contratos, fotos e propinas. Ainda não surgiu o Euclides da Cunha da corrupção. Estamos vendo e descrevendo o superficial. </p>
<p>Por trás dos fatos de políticos roubando dinheiro público, está a realidade de uma sociedade acostumada a desprezar o que é público. A indignação contra a corrupção é um bom sinal de que o interesse público começa a nascer, mesmo assim muito discretamente, porque as causas mais profundas não são denunciadas. Como Canudos, há uma barreira protegendo a percepção das causas mais profundas. </p>
<p>Depois de séculos em que até o trabalhador era propriedade privada e de décadas de uma democracia servindo aos interesses de minorias, o interesse privado ainda prevalece sobre o público. Fica explicado &#8211; não justificado, obviamente &#8211; porque tantos se sentem no direito de vandalizar os bens públicos, como se destruir bens públicos não fosse uma forma de corrupção. Fica explicada também a aceitação de expressões como “isto não é roubo”, ou “rouba, mas faz”, ou &#8220;mas, e daí, se todos roubam&#8221;, ou a mais moderna e cínica “rouba, mas é um dos nossos”, ou ainda &#8220;rouba, mas não é para si, é para a campanha&#8221;.</p>
<p>Até há pouco tempo, pelo menos existiam partidos e militantes que repudiavam essas afirmações. A democracia cooptou-os, absorveu-os e os fez tolerantes, criando uma geração de céticos e cínicos, porque a realidade da primazia do privado é mais forte do que as idéias, os sonhos e a vontade dos que querem defender o público. Isso faz com que os jovens que há poucos meses estavam sendo pisoteados pelas patas de cavalos da polícia, ao manifestarem-se contra a corrupção, não compareçam e até repudiem as recentes manifestações pela ética. Pode ser por ingenuidade ou por convicção de que os fins justificam os meios, ou pode ser por cinismo até porque as ações não mostram fins diferentes do ponto de vista dos interesses do público e do longo prazo. </p>
<p>Esse desprezo pelo interesse público induz e permite uma tolerância com o roubo dos recursos públicos a ponto de, eufemisticamente, chamá-lo de corrupção, no lugar de roubo. A sociedade aceita como natural o uso do dinheiro público para obras desnecessárias ou que beneficiam apenas uma minoria. Felizmente, cobrar propina na construção de prédio público já começa a provocar indignação, mas fazer obra faraônica ou estádios ao lado de casas sem esgoto não escandaliza. A primazia do privado sobre o público, do indivíduo sobre a Nação, leva à &#8220;corrupção pelo vandalismo&#8221;, à &#8220;corrupção nas prioridades&#8221; e à &#8220;corrupção do imediatismo&#8221;, provocando o consumo de recursos que pertencem também às gerações futuras, como acontecerá com os royalties do petróleo, como se isto não fosse também uma corrupção. </p>
<p>É por isso que, nas palavras do professor Kurt Weyland, citado pelo jornalista Rudolfo Lago, no site <strong>Congresso em Foco</strong>: <em>“O Brasil tem uma democracia estável, mas de baixa qualidade”</em>. Porque a política não está comprometida com a causa pública. Felizmente, enquanto não surge um Euclides da Cunha, temos repórteres atuantes, desvendando segredos e descrevendo a realidade apenas nas aparências. Como os repórteres que foram a Canudos, os de hoje talvez tenham interesses e visão das minorias privilegiadas, viciadas no interesse particular da renda e do consumo privado, que impedem a visão das causas da corrupção que vão muito além do comportamento dos p olíticos imorais. A corrupção está na estrutura social, na qual o Estado pertence e existe para poucos. </p>
<p>Euclides da Cunha, além da genialidade literária, possuía uma habilidade sociológica que não dá para exigir de todos nós, nem dos nossos leitores que, provavelmente, não gostariam de tomar conhecimento de toda a verdade. </p>
<p>Mas dá para exigir que os militantes não sejam cínicos no presente, para que não sejam todos céticos quanto ao futuro. </p>
<p><em>*<strong>Cristovam Buarque</strong> é professor da Universidade de Brasília e Senador pelo PDT/DF. Visite o blog de Cristovam: <strong><a href="http://www.cristovam.org.br">http://www.cristovam.org.br</a></strong></em></p>
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		<title>Saúde nota 10</title>
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		<pubDate>Mon, 03 Oct 2011 03:03:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Cristovam Buarque</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cristovam Buarque]]></category>

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		<description><![CDATA[O Brasil precisa de uma saúde “Nota 10” na vida dos brasileiros, mas estão querendo que a saúde tenha “10% do PIB” no Orçamento da União. Com esses 10% promete-se garantir Nota 10 para a saúde. Mas essa correlação não é verdadeira. Antes de definir quanto gastar em saúde, é preciso saber como gastar na saúde. Com o atual sistema, os gastos adicionais poderão ser úteis, mas poderão ser desperdiçados. Antes da decisão de vincular constitucionalmente mais recursos para a saúde, é preciso saber como será o Novo Sistema de Saúde a ser implantado. Hoje não há sistema único, porque o SUS é completamente diferente do SES (Sistema Especial de Saúde) para os que têm acesso aos serviços privados; o próprio SUS é diferente de um Estado para outro, entre um e outro município, até mesmo, de um bairro para outro.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Saúde.JPG" alt="Saúde" title="Saúde" width="220" height="220" class="aligncenter size-full wp-image-13807" />O Brasil precisa de uma saúde “Nota 10” na vida dos brasileiros, mas estão querendo que a saúde tenha “10% do PIB” no Orçamento da União. Com esses 10% promete-se garantir Nota 10 para a saúde. Mas essa correlação não é verdadeira. Antes de definir quanto gastar em saúde, é preciso saber como gastar na saúde. Com o atual sistema, os gastos adicionais poderão ser úteis, mas poderão ser desperdiçados.</p>
<p>Antes da decisão de vincular constitucionalmente mais recursos para a saúde, é preciso saber como será o Novo Sistema de Saúde a ser implantado. Hoje não há sistema único, porque o SUS é completamente diferente do SES (Sistema Especial de Saúde) para os que têm acesso aos serviços privados; o próprio SUS é diferente de um Estado para outro, entre um e outro município, até mesmo, de um bairro para outro.</p>
<p>Só depois é que será possível estimar quanto custará esse Novo Sistema Público Universal de Saúde Com a Mesma Qualidade. Dez por cento do PIB representam quase R$ 2 mil por ano por pessoa, e R$ 160 por mês. Para uma população tão ampla certamente cobriria um bom seguro coletivo de saúde.</p>
<p>Mas, se ficar provado que precisamos desse valor, devemos inicialmente fazer esforço para obtê-lo, reduzindo outros gastos do Orçamento. O gasto com a proposta da “Emenda 29” elevaria as despesas com a saúde de cerca de R$ 100 bilhões para cerca de R$ 370 bilhões, R$ 250 bilhões a mais a ser deslocado das demais rubricas do Orçamento da União. Supondo que as amarras técnicas e políticas não permitam esse deslocamento, temos a alternativa de buscar recursos elevando alíquotas dos impostos atuais, sobretudo naqueles cujo consumo apresenta periculosidade para a saúde, tais como, cigarros, álcool, alimentos gordurosos, automóveis e motocicletas.</p>
<p>Se isso for impossível, justificar-se-ia um novo imposto; e o conceito da velha CPMF é tentador por ser insonegável, progressista e com destino vinculado. Mas, nesse caso é preciso que a nação brasileira esteja convencida de que a saúde pública vai ter de fato qualidade.</p>
<p>Será justificável abolir todo subsídio à saúde privada, porque as classes média e rica não mais precisarão dela. Presidente, seus Ministros, Governadores, Prefeitos e parlamentares não precisarão mais utilizar seus serviços especiais; os profissionais de saúde poderão ter um Plano de Carreira com a máxima remuneração, mas exigindo deles elevada competência, dedicação exclusiva e estabilidade subordinada aos resultados e satisfação dos clientes.</p>
<p>Mas, para tanto, é preciso apresentar quais salvaguardas impedirão qualquer desvio desses recursos da saúde para cobrir déficits fiscais, bem como assegurar que não voltarão os “sanguessugas”, obras desnecessárias, as propinas em obras e o desvio de verbas que deveriam servir para comprar remédios.</p>
<p>Presidenta Dilma, nesse momento em que discutirmos quanto gastar, a Senhora tem a chance de mostrar como será um Novo Sistema e não apenas quanto gastará no sistema atual. Assim, teremos uma “Saúde Nota10” e não apenas uma “Saúde que custa 10% do PIB”.</p>
<p>PS: O que vale para a saúde vale também para a busca de uma Educação Nota 10.</p>
<p><em>*<strong>Cristovam Buarque </strong>é professor da Universidade de Brasília e Senador pelo PDT/DF. Visite o blog de Cristovam: <a href="http://www.cristovam.org.br">http://www.cristovam.org.br</a><br />
</em></p>
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		<title>Casamento maldito</title>
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		<pubDate>Thu, 04 Aug 2011 03:03:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Cristovam Buarque</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cristovam Buarque]]></category>
		<category><![CDATA[Corrupção]]></category>

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		<description><![CDATA[A corrupção tem sido uma loteria ao contrário: o vencedor compra o bilhete e espera ser sorteado depois; o corrupto rouba primeiro porque sabe da pouca probabilidade de ser punido. A impunidade é o pai da corrupção, a mãe é a falta de valores morais: de compromissos sociais e sentimento pátrio entre os que se dedicam à política. A vocação política deveria nascer do sentimento de responsabilidade com a coletividade, com o país, com a humanidade. Quando essa vocação surge, a vida pública é um sacrifício com o prazer de realizar a obra da construção do mundo. O político é um escultor. A escultura é o mundo que ele transforma por sua ação; e sua biografia termina esculpida por suas ações. Joaquim Nabuco é um dos exemplos brasileiros. Sua biografia se fez enquanto ele esculpia a abolição da escravatura.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Corrupção1.jpg" alt="Corrupção" title="Corrupção" width="252" height="200" class="aligncenter size-full wp-image-12636" />A corrupção tem sido uma loteria ao contrário: o vencedor compra o bilhete e espera ser sorteado depois; o corrupto rouba primeiro porque sabe da pouca probabilidade de ser punido. A impunidade é o pai da corrupção, a mãe é a falta de valores morais: de compromissos sociais e sentimento pátrio entre os que se dedicam à política.</p>
<p>A vocação política deveria nascer do sentimento de responsabilidade com a coletividade, com o país, com a humanidade. Quando essa vocação surge, a vida pública é um sacrifício com o prazer de realizar a obra da construção do mundo. O político é um escultor. A escultura é o mundo que ele transforma por sua ação; e sua biografia termina esculpida por suas ações. Joaquim Nabuco é um dos exemplos brasileiros. Sua biografia se fez enquanto ele esculpia a abolição da escravatura.</p>
<p>Ele e sua carreira se confundiam com a luta e o resultado obtido. Impossível imaginar Nabuco roubando porque, mesmo que houvesse impunidade no seu tempo, ele fazia política com o propósito de realizar seu compromisso social com os escravos, seu amor patriótico por um país sem escravidão. Políticos comunistas, socialistas e capitalistas liberais lutavam pela democracia, e pela igualdade e fraternidade. Seus partidos se organizavam por suas bandeiras para lutar por um país melhor para todos.</p>
<p>A luta política era feita em trincheiras e o interesse político se realizava no coletivo. Ao perderem bandeiras, os militantes se transformaram em filiados, os políticos em carreiristas e os partidos em clubes eleitorais. As bandeiras, causas e ideias foram substituídas por metas eleitorais; os discursos e convencimentos pela manipulação do marketing; e os candidatos e políticos substituíram os líderes e estadistas. A luta foi substituída pelo apego aos cargos. Sem ideais e sem punição a porta da corrupção ficou escancarada.</p>
<p>É isso que vem ocorrendo no Brasil. As forças liberais realizaram a democracia e sentiram-se livres para usar o Estado como o celeiro de onde tirar proveito privado, pessoal ou empresarial. Aqueles que, além da democracia, ainda continuaram lutando pela ética e por bandeiras sociais, ao perderem as convicções e propostas, chegaram ao poder e passaram a conviver com a corrupção como um fato natural, não mais um crime da política contra o povo e o país. Ainda mais grave: a política passou a oferecer o magnetismo das benesses e do enriquecimento fácil.</p>
<p>A política permite o salto, de um dia para o outro, da sobrevivência com contracheque de assalariado para o poder de manejar bilhões de reais do dinheiro público. Coincidindo a impunidade jurídica e a falta de valores morais, a corrupção torna-se um filho natural da política e gera netos hediondos, tais como estradas paradas, porque a licitação foi burlada; alunos sem merenda, por causa do desvio de verbas; uma empresa escolhida no lugar de outra, porque pagou propina. Um triste produto desse casamento é a quebra da confiança nos políticos e a recusa dos jovens de ingressarem na política.</p>
<p>Ainda pior é quando os mais velhos olham com desconfiança para os jovens que desejam fazer política, como se eles quisessem obter vantagens, e não oferecer sacrifício ao país. A política fica sem dignidade, e os líderes que deveriam ser exemplos são vistos como aproveitadores. Quando as bandeiras tradicionais morrem antes de serem substituídas por novas e a impunidade coincide com um marco jurídico impotente para enfrentar e combater a corrupção, o país entra em crise de credibilidade.</p>
<p>É necessário romper esse casamento maldito, acabando com a impunidade e consolidando novas bandeiras. Mas vivemos em um tempo em que as bandeiras morrem antes que novas surjam. As ideias só se transformam em causas quando o povo as entende e aceita. Mas hoje a população está dividida entre uma parte pobre interessada apenas na solução dos problemas imediatos e uma parte rica desejosa de manter os benefícios aos quais está acostumada graças a um modelo de sociedade e economia que já não têm mais como manter tantos privilégios.</p>
<p>No vazio ideológico desse tempo, não se pode esperar até que novas causas sejam aceitas pela maioria. Por isso, a forma possível de enfrentar a corrupção no momento é romper o casamento maldito pelo lado da impunidade, eliminando-a enquanto os novos valores sociais vão sendo construídos aos poucos pela história.</p>
<p><em>*<strong>Cristovam Buarque</strong> é professor da Universidade de Brasília e Senador pelo PDT/DF. Visite o blog de Cristovam: <strong><a href="http://www.cristovam.org.br">http://www.cristovam.org.br</a></strong></em></p>
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		<title>Economia colorida</title>
		<link>http://www.debatesculturais.com.br/economia-colorida/</link>
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		<pubDate>Tue, 26 Jul 2011 03:03:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Cristovam Buarque</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cristovam Buarque]]></category>

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		<description><![CDATA[Até recentemente, a ideia de "economia verde" era tida como um devaneio de ambientalistas, sem base teórica. Com o acirramento da crise ambiental, a "economia verde" ganhou legitimidade, apesar de ainda não ser analisada (desconsiderada) pelos economistas tradicionais porque, ao buscar alternativas sustentáveis para o processo produtivo, ela desrespeita os fundamentos da teoria atual. A utilização de preços diferentes do mercado de curto prazo e a restrição ao uso de certos recursos naturais ainda incomodam economistas. Mas a economia do século XXI não pode continuar amarrada, como a do século XX, à ideia de que a estrutura de preços momentâneos é capaz de orientar o futuro. Sabemos que as chamadas externalidades, os impactos externos à economia e ao imediato, precisam ser consideradas.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Economia-colorida.JPG" alt="Economia colorida" title="Economia colorida" width="280" height="197" class="aligncenter size-full wp-image-12429" />Até recentemente, a ideia de &#8220;economia verde&#8221; era tida como um devaneio de ambientalistas, sem base teórica. Com o acirramento da crise ambiental, a &#8220;economia verde&#8221; ganhou legitimidade, apesar de ainda não ser analisada (desconsiderada) pelos economistas tradicionais porque, ao buscar alternativas sustentáveis para o processo produtivo, ela desrespeita os fundamentos da teoria atual. A utilização de preços diferentes do mercado de curto prazo e a restrição ao uso de certos recursos naturais ainda incomodam economistas. Mas a economia do século XXI não pode continuar amarrada, como a do século XX, à ideia de que a estrutura de preços momentâneos é capaz de orientar o futuro. Sabemos que as chamadas externalidades, os impactos externos à economia e ao imediato, precisam ser consideradas.</p>
<p>Keynes dizia que no longo prazo todos estaremos mortos, por isso, o futuro distante não importava. Mas no seu tempo o problema ambiental não existia e a economia não tinha poder de influir no longo prazo. Daqui para a frente, a sustentabilidade ambiental é condição necessária a ser considerada em qualquer economia sólida. A crise ecológica se acirrou de tal forma, e tão rapidamente, que a simples mudança nos preços, justificando a preferência por recursos renováveis, já não é suficiente para enfrentar os problemas adiante. Mesmo assim, antes de ser aceita, a economia verde já nasceu velha: porque não basta o equilíbrio ecológico.</p>
<p>A substituição de combustíveis fósseis por renováveis pode gerar um efeito bumerangue: o acomodamento diante da crise; e não basta a &#8220;economia verde&#8221; em cada carro, se no nível macro o número de carros cresce tanto que as florestas darão lugar a plantações de cana para alimentar toda a frota.</p>
<p>Também não basta a economia substituir o combustível fóssil por renovável se o perfil da demanda continuar voltado para a minoria de renda superior. A economia que dinamiza seu crescimento produzindo bens caros para a minoria, concentrando a renda, pode ser verde, mas não é a economia que o futuro precisa. Não vale a pena a &#8220;economia verde&#8221; salvar o planeta, se salvá-lo apenas para poucos. A economia do futuro precisa ser verde &#8211; no uso dos recursos naturais &#8211; e vermelha no destino de seus produtos. Precisamos de uma economia que atenda as necessidades sociais como, por exemplo, a erradicação da pobreza, a diminuição da desigualdade e a ampliação do emprego. Uma economia com valores éticos, capaz de entender que na educação e na saúde a desigualdade é imoral. Enfim, uma economia vermelha.</p>
<p>A economia precisa definir o conceito de riqueza. Uma &#8220;economia branca&#8221; voltada para ampliar o bem-estar e não para destruir. A produção de armas não deve ser considerada como resultado positivo da economia, embora seja importante para a defesa. O valor do PIB deve descontar a produção dos bens de destruição e serviços de segurança e também o tempo perdido pelas pessoas na ida e vinda diária de um lugar para o outro.</p>
<p>A economia também precisa ser amarela e manter como símbolo os produtos da ciência e da alta tecnologia. A competitividade pela redução de custos, em geral pelo desemprego, não pode ser indicador da economia do futuro. A competitividade deve estar na capacidade de invenção de novos produtos capazes de elevar o bem-estar das pessoas. Para isso ela deve ter por base os cérebros, não mais mãos e braços.</p>
<p>Finalmente, a economia tem que ser azul e considerar o bem-estar como mais importante do que a produção. A abolição do analfabetismo não pode ser medida apenas pelo aumento de renda do alfabetizado. O PIB baseado em automóveis que engarrafam o trânsito, mesmo com carros elétricos, ou que fluem graças a viadutos construídos em vez de escolas, hospitais e sistemas de água e esgoto, não pode ser considerado como indicador da economia do futuro. Mais importante é uma economia que libere tempo dos trabalhadores e aumente os bens públicos e aqueles imateriais da cultura. A &#8220;economia azul&#8221; deve buscar eliminar os entraves que dificultam a busca da felicidade. Pode inclusive optar por um decrescimento do PIB como forma de aumentar o bem-estar.</p>
<p>A &#8220;economia verde&#8221; começou a ser aceita, mas ela não representa a metáfora certa. Pelo menos cinco cores são necessárias para definir a economia do futuro: o verde da sustentabilidade ambiental; o vermelho da justiça social; o branco de uma economia produtiva para a paz; o amarelo da criação de bens de alta tecnologia; e o azul da economia comprometida mais com o bem-estar do que com a produção e a renda.</p>
<p><em>*<strong>Cristovam Buarque</strong> é professor da Universidade de Brasília e Senador pelo PDT/DF. Visite o blog de Cristovam: <strong><a href="http://www.cristovam.org.br">http://www.cristovam.org.br</a></strong></em></p>
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		<title>Quase 200 anos!</title>
		<link>http://www.debatesculturais.com.br/quase-200-anos/</link>
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		<pubDate>Tue, 12 Jul 2011 03:03:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Cristovam Buarque</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cristovam Buarque]]></category>

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		<description><![CDATA[Mas não há dúvidas que o mais importante dos três dias foi a palestra de dois senhores que somam 184 anos de idade: Stéphane Hessel, com 94, e Edgar Morin, com quatro anos a menos, pois fará 90 no dia 18 de julho. O debate com eles durou quase três horas em auditório lotado. A primeira gratificação dos assistentes foi ver dois homens com essas idades chegarem caminhando rápido e subirem os degraus do palco, sem qualquer ajuda. Depois do debate, Hessel seguiu para um restaurante, onde jantamos até meia-noite. Morin não pôde ir ao jantar porque precisava viajar por duas horas e meia até Paris para cuidar de sua mudança à casa onde vai morar depois do casamento.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Stéphane-Hessel-e-Edgar-Morin.JPG" alt="Stéphane Hessel e Edgar Morin" title="Stéphane Hessel e Edgar Morin" width="228" height="185" class="aligncenter size-full wp-image-12132" /><em>Acima, Stéphane Hessel e Edgar Morin.</em></p>
<p>Na semana passada, em Dijon, na França, realizou-se o fórum <strong>&#8220;Em torno das incertezas: Rio+20&#8243;</strong> para debater assuntos relacionados à cúpula de chefes de Estado e Governo, que se realizará no Rio de Janeiro, em junho de 2012. Um dos temas debatidos girou em torno do texto <strong>&#8220;133 perguntas sobre o futuro&#8221;</strong>, que apresentei ao fórum (atualmente já são 168 perguntas &#8211; ver no endereço <strong><a href="http://bit.ly/is31J6">http://bit.ly/is31J6</a></strong>). Mas não há dúvidas que o mais importante dos três dias foi a palestra de dois senhores que somam 184 anos de idade: Stéphane Hessel, com 94, e Edgar Morin, com quatro anos a menos, pois fará 90 no dia 18 de julho. </p>
<p>O debate com eles durou quase três horas em auditório lotado. A primeira gratificação dos assistentes foi ver dois homens com essas idades chegarem caminhando rápido e subirem os degraus do palco, sem qualquer ajuda. Depois do debate, Hessel seguiu para um restaurante, onde jantamos até meia-noite. Morin não pôde ir ao jantar porque precisava viajar por duas horas e meia até Paris para cuidar de sua mudança à casa onde vai morar depois do casamento.</p>
<p>A jovialidade desses quase 200 anos não decorre apenas da capacidade de subir faceiramente os degraus, nem da resistência para falar, jantar ou casar, mas, sobretudo, do conteúdo que apresentam, olhando para o futuro, e da total empatia com os jovens que ali estavam.</p>
<p>Morin gesticula mais, fala com rapidez meteórica e cita muitos autores. Hessel tem gestos mais contidos e fala com mais poesia. Ambos falaram do futuro, preocupados, enfáticos, combativos, otimistas. Cada um denunciou os riscos das crises ecológica, social, política e financeira. Sobretudo, falaram que estas crises decorrem de outra muito maior, a crise do modelo da civilização que surgiu a partir da Revolução Industrial.</p>
<p>Civilização da insegurança, do desperdício, da depredação ambiental, da desigualdade, do desemprego, do endividamento, do consumo de drogas e da droga do consumo. Civilização que, no lugar de usar, se submete ao avanço técnico; no lugar de reduzir, cria necessidades novas a cada instante.</p>
<p>Ao longo de duas horas, eles passaram crítica, lucidez, jovialidade, combatividade. Começaram o discurso pela indignação que carregam e extravasam com a crise ambiental; a desigualdade; a intolerância racial, religiosa, de gênero, de opção sexual; com a falta de compaixão e de respeito à diversidade; com a estupidez da economia, a voracidade dos bancos e dos consumidores.</p>
<p>Hessel convoca os jovens a indignarem-se, como estão fazendo milhares, todos os dias, nos países árabes e na Europa, autonomeando-se de indignados, por inspiração do livro <strong>&#8220;Indignez-vous&#8221;</strong>, que ele escreveu. Morin fala da esperança de uma &#8220;Nova Via&#8221;, pela qual aponta rumos para uma civilização solidária, inteligente, harmônica.</p>
<p>Da indignação passam à análise crítica, mostrando a falta de lógica da civilização industrial; como a produção destrói; como a economia e a globalização alienam pelo excesso de trabalho de uns e o desemprego de outros; como o luxo do consumo por alguns e o consumo do lixo por outros se engrenam como duas partes de um mesmo sistema. Diante de nós, dizem, há um mundo ameaçado, um planeta maltratado, uma sociedade partida, vazia, drogada.</p>
<p>Pelos discursos percebe-se que os dois senhores não aceitam perguntar se vale a pena o esforço para salvar a humanidade. Não concordam com a ideia de Arthur Koestler de que o cérebro humano é suicida, por carregar um lado lógico com poder tecnológico para mudar o planeta e um lado amoral sem capacidade para dominar os instintos individuais e de curto prazo.</p>
<p>Eles falam da esperança de que todo o desastre atual é prenúncio de um novo tempo, quando a ética controlará a técnica; o prazer substituirá o consumo; a dança substituirá o ritmo chapliniano do fordismo; o antagonismo será substituído pela convivência solidária entre os homens e deles com a natureza.</p>
<p>Os dois passam o otimismo de que estes jovens vão mudar o mundo que continuará depois deles dois.</p>
<p>E desafiam todos à combatividade para que mudem o mundo do futuro, dos duzentos anos adiante. Hessel, aos 94, conclui declamando, de memória, todos os 24 versos do poema de Apollinaire <strong>&#8220;Sob a Ponte de Mirabeau&#8221;</strong>, que conclui dizendo: <em>&#8220;Vem a noite/soa a hora/os dias passam/eu não passo.&#8221;</em></p>
<p><em>*<strong>Cristovam Buarque</strong> é professor da Universidade de Brasília e Senador pelo PDT/DF. Visite o blog de Cristovam: <strong><a href="http://www.cristovam.org.br">http://www.cristovam.org.br</a></strong></em></p>
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		<title>Aviso alemão</title>
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		<pubDate>Thu, 23 Jun 2011 03:03:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Cristovam Buarque</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cristovam Buarque]]></category>

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		<description><![CDATA[Neste momento, construir usinas nucleares é uma temeridade que beira o crime. Até mesmo manter as atuais é viver sob risco de tragédia em algum momento. Em vez de novas centrais nucleares, o Brasil precisa reduzir seu consumo de energia e investir em novas fontes, renováveis e menos perigosas. Em 2009 fui a Chernobyl. Trinta anos depois do acidente, ainda não foi fácil conseguir autorização para visitar o lugar e as ruínas do reator nuclear. Consegui permissão para ir até o local por, no máximo, seis horas de permanência.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Prostestos-na-Alemanha.JPG" alt="Prostestos na Alemanha" title="Prostestos na Alemanha" width="223" height="180" class="aligncenter size-full wp-image-11698" />Em 2009 fui a Chernobyl. Trinta anos depois do acidente, ainda não foi fácil conseguir autorização para visitar o lugar e as ruínas do reator nuclear. Consegui permissão para ir até o local por, no máximo, seis horas de permanência.</p>
<p>A paisagem que tive a oportunidade de ver foi assustadora, desoladora, uma devastação nuclear sem explosão. Silenciosa, sem fumaça.</p>
<p>Pude visitar prédios, escolas, restaurantes, centros de diversão, tudo abandonado, fantasmagórico, apesar da beleza do branco da neve ao redor. Uma roda gigante de um parque de diversão infantil mantinha-se intacta à espera da inauguração que seria no dia seguinte ao da tragédia. As casas estão invadidas pelas árvores que crescem dentro delas. Em breve, tudo será uma floresta, apenas o mausoléu do reator se manterá rodeado pelos prédios mais altos.</p>
<p>Tudo indica que o horror começou por um erro dos dirigentes da usina, que permitiu a um engenheiro testar até que ponto seria possível o reator funcionar em segurança. Ele perdeu o controle e o reator explodiu, emitindo as terríveis radiações. Durante algumas horas o governo soviético, apesar da &#8220;glasnost&#8221;, preferiu manter a informação em segredo, até que, na Finlândia, analistas perceberam o forte aumento de radiação naquela região e revelaram o assunto ao mundo.</p>
<p>A partir da divulgação, o governo soviético decidiu esvaziar as duas cidades: a velha e modesta, quase medieval, Chernobyl, com suas casinhas de madeira; e a nova, ostentosa e moderna, um retrato menor de Brasília, sede oficial dos serviços e das residências de servidores da usina.</p>
<p>Dezenas de milhares de pessoas já contaminadas foram obrigadas a sair da cidade em poucos minutos, levando somente a roupa do corpo, que logo depois foi retirada e jogada em meio ao lixo classificado como contaminado.</p>
<p>Ao sair, depois de quase seis horas caminhando e conversando com os fiscais da área afetada, olhando para os medidores de radioatividade espalhados pela cidade, precisei passar por um detector de radiação que media todo o corpo para saber se voltaria para o hotel ou seria levado para o isolamento de algum hospital do país.</p>
<p>A visita mostra um quadro assustador. Pior é a percepção que vem ao conversar com pessoas que moravam a 200 quilômetros e até hoje carregam os efeitos na saúde dos familiares. Ainda mais ao ler sobre os milhares de mortos ao longo desses 30 anos; as pessoas que carregam doenças por toda a vida; e outras que transmitirão doenças aos filhos que ainda não nasceram.</p>
<p>Aquela visita me fez mudar a posição de ver a alternativa nuclear como energia limpa. Fukushima consolidou meu antagonismo ao uso de reatores nucleares como forma de gerar energia. Pelo menos enquanto não evoluírem a engenharia civil, para garantir resistência absoluta nas edificações, e a engenharia nuclear, para garantir o armazenamento seguro dos resíduos. Não se trata de dizer &#8220;nuclear jamais&#8221;, mas definir uma moratória de 20 anos à espera de uma evolução na engenharia.</p>
<p>Neste momento, construir usinas nucleares é uma temeridade que beira o crime. Até mesmo manter as atuais é viver sob risco de tragédia em algum momento. Em vez de novas centrais nucleares, o Brasil precisa reduzir seu consumo de energia e investir em novas fontes, renováveis e menos perigosas.</p>
<p>A decisão do governo alemão na semana passada (final de maio de 2011), definindo prazo para desativar todas as suas usinas nucleares, é um alerta que o Brasil não tem o direito de ignorar. Suas usinas estão em locais mais protegidos que as nossas; seus sistemas de defesa civil são mais bem organizados; sua dependência de energia nuclear é de 23% do total da demanda de energia, enquanto a nossa é de apenas 3%. E a Alemanha não tem as alternativas de fontes energéticas que temos. Se a Alemanha está assustada, será um crime fecharmos os olhos. Sobretudo ao lembrar que importamos a velha tecnologia que os alemães desenvolveram e agora já não serve para eles.</p>
<p><em>*<strong>Cristovam Buarque </strong>é professor da Universidade de Brasília e Senador pelo PDT/DF. <strong><a href="http://www.cristovam.org.br">http://www.cristovam.org.br</a></strong></em></p>
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		<title>A reinauguração de Brasília</title>
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		<pubDate>Mon, 08 Feb 2010 02:03:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Cristovam Buarque</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Brasília chega a meio século, construída fisicamente e demolida moralmente. Com a imagem física de seus prédios orgulhando o país e sua imagem política desmoralizada em todo o Brasil. Parte disso é resultado do comportamento do Congresso, do Executivo, do Judiciário federal sediados em Brasília. Uma parte, porém, é responsabilidade nossa: de eleitos e eleitores brasilienses, uns mais outros menos. Por isso, deve partir de nós, brasilienses, fazermos a nossa parte.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Brasília.JPG" alt="Brasília" title="Brasília" width="293" height="220" class="aligncenter size-full wp-image-4185" />Brasília chega a meio século, construída fisicamente e demolida moralmente. Com a imagem física de seus prédios orgulhando o país e sua imagem política desmoralizada em todo o Brasil. Parte disso é resultado do comportamento do Congresso, do Executivo, do Judiciário federal sediados em Brasília. Uma parte, porém, é responsabilidade nossa: de eleitos e eleitores brasilienses, uns mais outros menos. Por isso, deve partir de nós, brasilienses, fazermos a nossa parte.</p>
<p>O resto do Brasil pode aproveitar a chance de, neste 2010, enviar para cá melhores deputados, senadores e um governo que não sejam coniventes com a corrupção. Nós, brasilienses, não temos outra escolha: a eleição de 2010 é nossa chance e obrigação para fazermos nossa parte e reinaugurarmos Brasília. Além de comemorarmos o 21 de abril deste ano — o dia de nosso cinquentenário — comemorarmos também o início de nossa reinauguração ética nas eleições de outubro.</p>
<p>A reinauguração da Brasília ética deve buscar duas linhas de ação: a ética no comportamento de nossos políticos — e de nossas instituições políticas — e a ética nas prioridades das nossas políticas públicas.</p>
<p>A reinauguração no comportamento deve levar Brasília a eleger dirigentes que se comprometam a implantar medidas e instrumentos que impeçam a corrupção. Não se trata apenas de escolher pessoas honestas, mas de construir estruturas que impossibilitem a corrupção. É preciso retomar o Orçamento Participativo; criar um Conselho Legislativo composto voluntariamente por personalidades respeitadas; uma Comissão Cidadã que zele pela transparência nos gastos. Com isso, deve-se acabar toda promiscuidade do governo com empresários e deputados, além do fisiologismo com eleitores.</p>
<p>A reinauguração nas prioridades deve levar o próximo governo a quebrar a mais grave de todas as corrupções: a brutal e vergonhosa desigualdade na qualidade dos serviços públicos, uma parte com padrões superiores à média do Primeiro Mundo e outra com padrões próximos à miséria.</p>
<p>Isso requer uma revolução na saúde pública, substituindo as atuais preferências por obras, por investimentos diretamente na saúde do povo. O segundo ponto será retomar a revolução na educação, com o compromisso de garantir direitos aos professores, mas, sobretudo, exigir deles dedicação e formação, implantando-se o horário integral dentro da própria escola. A eliminação do analfabetismo deve ser uma meta clara do novo governo. A imagem nacional de Brasília começará a mudar no dia em que, na frente do aeroporto e nos pontos de acesso rodoviário ao DF, houver cartazes com os dizeres: ‘<em>‘Você está entrando em um território livre do analfabetismo’’</em>. Um terceiro, é a preferência pelo transporte público, no lugar de privilegiar o transporte privado. Quarto: compromisso radical com o meio ambiente. Quinto, o compromisso com a manutenção da legalidade, assegurando políticas de incentivo à construção de moradias, mas sem o fisiologismo de escolher quem vai merecer esses serviços e exigindo de cada beneficiário uma contrapartida dentro dos limites de suas possibilidades. Sexto, a reinauguração nas prioridades vai exigir retorno à ideia de fazer Brasília ser maior do que a capital do Brasil, mostrar uma cidade onde se produz, emprega-se, cria-se e se distribui renda, e onde a política e o setor público sejam apenas pequena parte de nossas atividades.</p>
<p>Feitas essas duas reinaugurações, na ética do comportamento dos políticos e na ética das prioridades das políticas e gastos públicos, Brasília estará fazendo também a reinauguração de sua imagem no seio do povo brasileiro. Este passará a ver nossa cidade não apenas como o conjunto de bonitos prédios que orgulham o país, mas, também, como um sistema social, legal, político, que se comporta como deveria ser em todo o Brasil. Da cidade hoje ridicularizada no imaginário brasileiro, para uma cidade exemplar, capaz de receber a admiração e o orgulho do povo brasileiro. Como já fomos em alguns momentos: ao respeitar a faixa de pedestre, ao criar o bolsa escola, etc.</p>
<p>Apesar das dificuldades, tudo indica que essas reinaugurações são viáveis. Hoje, Brasília tem um enorme orçamento anual, garantido pelo Fundo Constitucional, tem infraestrutura social e urbana avançada e sobretudo uma população ansiosa para recuperar a imagem de pioneiros, construtores, desbravadores. O povo certamente quer reinaugurar sua cidade. Falta saber se os líderes políticos querem mudar a cidade ou apenas os nomes dos dirigentes ou talvez nem mesmo os nomes deles.</p>
<p><em>*<strong>Cristovam Buarque</strong> é professor da Universidade de Brasília.</em></p>
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		<title>Nós, escravocratas!</title>
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		<pubDate>Mon, 01 Feb 2010 02:03:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Cristovam Buarque</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Há exatos cem anos, saía da vida para a história um dos maiores brasileiros de todos os tempos: o pernambucano Joaquim Nabuco. Político que ousou pensar, intelectual que não se omitiu em agir, pensador e ativista com causa, principal artífice da abolição do regime escravocrata no Brasil. Apesar da vitória conquistada, Joaquim Nabuco reconhecia: “Acabar com a escravidão não basta. É preciso acabar com a obra da escravidão”, como lembrou na semana passada Marcos Vinicios Vilaça, em solenidade na Academia Brasileira de Letras.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Escravidão.JPG" alt="Escravidão" title="Escravidão" width="219" height="220" class="aligncenter size-full wp-image-4176" />Há exatos cem anos, saía da vida para a história um dos maiores brasileiros de todos os tempos: o pernambucano Joaquim Nabuco. Político que ousou pensar, intelectual que não se omitiu em agir, pensador e ativista com causa, principal artífice da abolição do regime escravocrata no Brasil. Apesar da vitória conquistada, Joaquim Nabuco reconhecia: <em>“Acabar com a escravidão não basta. É preciso acabar com a obra da escravidão”</em>, como lembrou na semana passada Marcos Vinicios Vilaça, em solenidade na Academia Brasileira de Letras.</p>
<p>Mas a obra da escravidão continua viva, sob a forma da exclusão social: pobres, especialmente negros, sem terra, sem emprego, sem casa, sem água, sem esgoto, muitos ainda sem comida; sobretudo sem acesso à educação de qualidade.</p>
<p>Ainda que não aceitemos vender, aprisionar e condenar seres humanos ao trabalho forçado pela escravidão – mesmo quando o trabalho escravo permanece em diversas partes do território brasileiro –, por falta de qualificação, condenamos milhões ao desemprego ou trabalho humilhante. Em 1888, libertamos 800 mil escravos, jogando-os na miséria. Em 2010, negamos alfabetização a 14 milhões de adultos, negamos Ensino Médio a 2/3 dos jovens. De 1888 até nossos dias, dezenas de milhões morreram adultos sem saber ler.</p>
<p>Cem anos depois da morte de Joaquim Nabuco, a obra da escravidão se mantém e continuamos escravocratas.</p>
<p>Somos escravocratas ao deixarmos que a escola seja tão diferenciada, conforme a renda da família de uma criança, quanto eram diferenciadas as vidas na Casa Grande ou na Senzala. Somos escravocratas porque, até hoje, não fizemos a distribuição do conhecimento: instrumento decisivo para a liberdade nos dias atuais. Somos escravocratas porque todos nós, que estudamos, escrevemos, lemos e obtemos empregos graças aos diplomas, beneficiamo-nos da exclusão dos que não estudaram. Como antes, os brasileiros livres se beneficiavam do trabalho dos escravos.</p>
<p>Somos escravocratas ao jogarmos, sobre os analfabetos, a culpa por não saberem ler, em vez de assumirmos nossa própria culpa pelas decisões tomadas ao longo de décadas. Privilegiamos investimentos econômicos no lugar de escolas e professores. Somos escravocratas, porque construímos universidades para nossos filhos, mas negamos a mesma chance aos jovens que foram deserdados do Ensino Médio completo com qualidade. Somos escravocratas de um novo tipo: a negação da educação é parte da obra deixada pelos séculos de escravidão.</p>
<p>A exclusão da educação substituiu o sequestro na África, o transporte até o Brasil, a prisão e o trabalho forçado. Somos escravocratas que não pagamos para ter escravos: nossa escravidão ficou mais barata e o dinheiro para comprar os escravos pode ser usado em benefício dos novos escravocratas. Como na escravidão, o trabalho braçal fica reservado para os novos escravos: os sem educação.</p>
<p>Negamo-nos a eliminar a obra da escravidão.</p>
<p>Somos escravocratas porque ainda achamos naturais as novas formas de escravidão; e nossos intelectuais e economistas comemoram minúscula distribuição de renda, como antes os senhores se vangloriavam da melhoria na alimentação de seus escravos, nos anos de alta no preço do açúcar. Continuamos escravocratas, comemorando gestos parciais. Antes, com a proibição do tráfico, a lei do ventre livre, a alforria dos sexagenários. Agora, com o bolsa família, o voto do analfabeto ou a aposentadoria rural. Medidas generosas, para inglês ver e sem a ousadia da abolição plena.</p>
<p>Somos escravocratas porque, como no século XIX, não percebemos a estupidez de não abolirmos a escravidão. Ficamos na mesquinhez dos nossos interesses imediatos negando fazer a revolução educacional que poderia completar a quase-abolição de 1888. Não ousamos romper as amarras que envergonham e impedem nosso salto para uma sociedade civilizada, como, por 350 anos, a escravidão nos envergonhava e amarrava nosso avanço.</p>
<p>Cem anos depois da morte de Joaquim Nabuco, a obra criada pela escravidão continua, porque continuamos escravocratas. E ao continuarmos escravocratas, não libertamos os escravos condenados à falta de educação.</p>
<p><em>*<strong>Cristovam Buarque</strong> é professor da Universidade de Brasília.</em></p>
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