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	<title>Debates Culturais - Liberdade de Idéias e Opiniões &#187; Afonso Guerra-Baião</title>
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		<title>A pena e a pedra</title>
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		<pubDate>Thu, 01 Sep 2011 03:01:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Afonso Guerra-Baião</dc:creator>
				<category><![CDATA[Afonso Guerra-Baião]]></category>

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		<description><![CDATA[Num poema de Mao Tsé-Tung, pena e pedra são imagens de dois tipos diferentes de existência: a pena simboliza uma vida sem sentido, ao léu, desperdiçada; a pedra é a figura de um viver que tem o peso de um conteúdo e o lastro de um significado. A pena pode ser o símbolo da vida de Ya Ru, personagem de <strong>“O homem de Beijing”</strong>, ficção policial de Henning Mankell, publicada entre nós nesse ano pela Companhia das Letras; a pedra pode representar a existência de Roger Casement, protagonista de <strong>“O sonho do celta”</strong>, romance histórico de Mário Vargas Llosa, lançado no Brasil em 2011 pela Alfaguara.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Pena.jpg" alt="Pena" title="Pena" width="259" height="194" class="aligncenter size-full wp-image-13124" />Num poema de Mao Tsé-Tung, pena e pedra são imagens de dois tipos diferentes de existência: a pena simboliza uma vida sem sentido, ao léu, desperdiçada; a pedra é a figura de um viver que tem o peso de um conteúdo e o lastro de um significado. </p>
<p>A pena pode ser o símbolo da vida de Ya Ru, personagem de <strong>“O homem de Beijing”</strong>, ficção policial de Henning Mankell, publicada entre nós nesse ano pela Companhia das Letras; a pedra pode representar a existência de Roger Casement, protagonista de <strong>“O sonho do celta”</strong>, romance histórico de Mário Vargas Llosa, lançado no Brasil em 2011 pela Alfaguara.</p>
<p>Na estória contada por Mankell, a ficção busca ser permeável à realidade; no romance de Vargas Llosa é a História que se atualiza na forma da fantasia. Essas duas narrativas têm, no entanto, um referente histórico comum: o trabalho escravo. Na primeira ele aparece como motivo, na segunda como crime.</p>
<p>O tráfico e a exploração de mão de obra escrava na construção de uma ferrovia nos Estados Unidos, no século XIX, é o remoto motivo do assassinato de dezenove pessoas numa aldeia sueca, nos dias atuais. Passando pelos quatro continentes, a trama de <strong>“O homem de Beijing”</strong> vai além das convenções do gênero policial, conduzindo a uma rede de referências históricas e a um painel de conexões culturais e geopolíticas.</p>
<p>As incríveis atrocidades cometidas pelo imperialismo ocidental contra as populações do Congo e da Amazônia são os crimes que Roger Casement, cônsul britânico, denunciou no começo do século XX. Em <strong>“O sonho do celta”</strong>, Vargas Llosa, Prêmio Nobel de Literatura de 2010, recria sua trajetória de ingênuo entusiasta dos ideais de progresso, cultura e evangelização, com que os colonizadores racionalizavam o genocídio, ao seu crescente engajamento na causa dos direitos humanos até sua adesão à luta pela independência da própria pátria, a Irlanda.</p>
<p>A frieza do planejamento e a brutalidade da execução dos crimes que são os referentes históricos dessas duas narrativas parecem matéria de ficção. E é a pena que escreve a ficção que nos permite olhar para trás sem ficarmos petrificados pelo horror. Afinal, diz Nietzsche, <em>&#8220;A arte existe para que a verdade não nos destrua”.</em></p>
<p><em>*<strong>Afonso Guerra-Baião</strong> é professor, vive no município de Curvelo, no estado de Minas Gerais desde 1976 e desenvolve um projeto de tradução de poetas de língua inglesa.</em></p>
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		<title>Revoluções por minuto</title>
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		<pubDate>Wed, 09 Mar 2011 03:01:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Afonso Guerra-Baião</dc:creator>
				<category><![CDATA[Afonso Guerra-Baião]]></category>

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		<description><![CDATA[Se Pedro Bial programasse para os participantes do “Big Brother” um teste eliminatório que consistisse em explicar a origem do título do programa, na certa todos seriam eliminados, sem precisar passar pelo paredão. Nós que não vivemos confinados e temos acesso à internet, numa consulta rápida à Wikipedia, poderíamos responder com segurança: o título desse reality show é tirado do personagem que George Orwell criou em seu romance]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/BBB.JPG" alt="BBB" title="BBB" width="276" height="182" class="aligncenter size-full wp-image-10145" />Se Pedro Bial programasse para os participantes do “Big Brother” um teste eliminatório que consistisse em explicar a origem do título do programa, na certa todos seriam eliminados, sem precisar passar pelo paredão. Nós que não vivemos confinados e temos acesso à internet, numa consulta rápida à Wikipedia, poderíamos responder com segurança: o título desse reality show é tirado do personagem que George Orwell criou em seu romance <strong>“Mil novecentos e oitenta e quatro”</strong>: o Grande Irmão – um ditador que mantém tudo e todos sob constante vigilância. Isso nos permite concluir que o BBB também seja cultura? Ou nos autoriza a pensá-lo como uma metáfora da alienação do indivíduo submetido a estruturas de controle e massificação? </p>
<p>Há quem considere o “Big Brother” apenas um programa pornográfico. Segundo Umberto Eco, a característica principal de uma narrativa pornô é desenvolver-se em tempo real. Nesse aspecto, a experiência mais próxima à pornografia que é concedida a nós, voyeurs da televisão aberta, é a transmissão em tempo real dos intermináveis discursos dos Senadores pela TV Senado. </p>
<p>Há também quem julgue serem mais pornográficos que o BBB os programas de perpetuação no poder desses Grandes Irmãos, os ditadores, ainda que aqui estejamos a salvo da transmissão em tempo real de seus discursos – Alá seja louvado!</p>
<p>E há quem considere ainda mais indecente o apoio interesseiro que as grandes potências sempre deram a esses Big Brothers – como há quem julgue imoral a forma não menos oportunista com que os parceiros democráticos mudam de lado na hora em que o bicho começa a pegar, nessas novelas nada exemplares.  </p>
<p>O suposto teste sobre o título do BBB nos levou a viagens inesperadas, com conexões imprevistas. E chegamos a um trevo onde a interseção dos diferentes roteiros surpreende de novo: pode não mais ser moda dizer que o meio é a mensagem, mas a internet permite ao telespectador eliminar os brothers no paredão com a mesma velocidade com que possibilita aos opositores dos Grandes Irmãos no Oriente e na África se organizarem para derrubá-los como peças de dominó. <em>“Tudo o que é sólido desmancha no ar” </em>diria Marx, ao ver essa onda revolucionária: revoluções por minuto, como na letra da canção que a banda RPM de Paulo Ricardo gravou pela primeira vez no ano de – adivinhe – 1984.  </p>
<p><em>*<strong>Afonso Guerra-Baião</strong> é professor, vive no município de Curvelo, no estado de Minas Gerais desde 1976 e desenvolve um projeto de tradução de poetas de língua inglesa.</em></p>
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		<title>Cenários de Natal</title>
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		<pubDate>Fri, 10 Dec 2010 02:01:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Afonso Guerra-Baião</dc:creator>
				<category><![CDATA[Afonso Guerra-Baião]]></category>

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		<description><![CDATA[Alguns dizem que mudamos sempre para sermos os mesmos. Somos nós que mudamos ou mudam as circunstâncias? Alguém pergunta: e se Jesus nascesse hoje? Ele, decerto, seria o mesmo: pobre, excluído, perseguido. Mas a cidade seria muito diferente: condomínios fechados, prédios com seguranças, casas com cercas elétricas sobre os muros e nenhuma estrebaria. O presépio teria lugar sob alguma marquise ou debaixo de um viaduto. Não havendo cocho nem palha, o berço seriam caixas de papelão. Na falta do calor dos animais, o fogo aceso em latas por moradores de rua que tomariam o lugar dos pastores.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Presépio.jpg" alt="Presépio" title="Presépio" width="252" height="200" class="aligncenter size-full wp-image-8744" />O fim de ano traz de volta a questão que fecha o célebre soneto de Machado de Assis: “Mudaria o Natal ou mudei eu?”. Alguns dizem que mudamos sempre para sermos os mesmos. Somos nós que mudamos ou mudam as circunstâncias? Alguém pergunta: e se Jesus nascesse hoje? Ele, decerto, seria o mesmo: pobre, excluído, perseguido. Mas a cidade seria muito diferente: condomínios fechados, prédios com seguranças, casas com cercas elétricas sobre os muros e nenhuma estrebaria. O presépio teria lugar sob alguma marquise ou debaixo de um viaduto. Não havendo cocho nem palha, o berço seriam caixas de papelão. Na falta do calor dos animais, o fogo aceso em latas por moradores de rua que tomariam o lugar dos pastores. Em vez de ouro, incenso e mirra, o que teriam esses magros substitutos dos Reis Magos para oferecer ao Menino e a seus pais? Um gole de cachaça, um marmitex requentado, uma pedra de crack? Há quem até tire de cena esse dramático presépio para compor um quadro trágico, como o poeta Gabriel Bicalho que vê Maria “na fila do sus / abortando jesus!”. Vamos prosseguir com cenários mais otimistas: Jesus nascendo em uma barraca, num campo de refugiados mantido pela ONU. O rei Herodes é agora apenas uma figura bíblica, mas existem poderes que cedem à xenofobia. Talvez a sagrada família esteja fugindo com imigrantes ilegais na América do Norte, junto a ciganos e muçulmanos na Europa ou no meio de tribos derrotadas na África, para escapar da prisão ou de um serviço completo de limpeza étnica. Pode ser ainda que Jesus cresça na favela e que, não querendo se tornar serviçal dos traficantes, seja um dos meninos a entregar bilhetes de boas-vindas aos soldados que trazem a possibilidade da paz. Ou quem sabe, em outro cenário de conflito, Jesus seja um dos alunos da escola do MST que se destacou no ENEM? Talvez, por fim, Jesus tenha vindo morar, adotado, em nossa casa. Ele é “a criança tão humana que é divina”, como no poema de Fernando Pessoa: “é o divino que sorri e que brinca”. Quando assiste ao telejornal ao nosso lado, ele “ri dos reis e dos que não são reis, tem pena de ouvir falar das guerras e dos comércios”. Ele brinca com nossos sonhos, dizendo “que não há mistérios no mundo” e que a vida vale a pena.</p>
<p><em>*<strong>Afonso Guerra-Baião</strong> é professor, vive no município de Curvelo, no estado de Minas Gerais desde 1976 e desenvolve um projeto de tradução de poetas de língua inglesa.</em></p>
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		<title>Estevão e Sakineh</title>
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		<pubDate>Wed, 25 Aug 2010 03:01:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Afonso Guerra-Baião</dc:creator>
				<category><![CDATA[Afonso Guerra-Baião]]></category>

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		<description><![CDATA[Dificilmente eu me lembraria de Estêvão, primeiro mártir da fé cristã, por causa de seu dia: vinte e seis de dezembro – data ofuscada pelos brilhos das festas natalinas. Pois sua lembrança me veio junto com a recordação de um dos sonetos brancos de Murilo Mendes: <strong>“A lapidação de Santo Estêvão”</strong>. Nesse texto o poeta convida sua companheira a olhar para a cena do apedrejamento de Estêvão: <em>“Contempla, amada, a lapidação do homem”</em>. Acontece que esse verso me chegou à memória de uma forma distorcida, como se Sakineh Ashtiani – condenada à morte por apedrejamento no Irã]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Sakineh.JPG" alt="Sakineh" title="Sakineh" width="226" height="223" class="aligncenter size-full wp-image-7253" />Dificilmente eu me lembraria de Estêvão, primeiro mártir da fé cristã, por causa de seu dia: vinte e seis de dezembro – data ofuscada pelos brilhos das festas natalinas. Pois sua lembrança me veio junto com a recordação de um dos sonetos brancos de Murilo Mendes: <strong>“A lapidação de Santo Estêvão”</strong>. Nesse texto o poeta convida sua companheira a olhar para a cena do apedrejamento de Estêvão: <em>“Contempla, amada, a lapidação do homem”</em>. Acontece que esse verso me chegou à memória de uma forma distorcida, como se Sakineh Ashtiani – condenada à morte por apedrejamento no Irã – ouvisse de um amante:<em> “Contempla, mulher, os homens que te apedrejam”</em>. Mas agora, sem nenhuma distorção, um outro verso se apresenta como fragmento de um monólogo dos apedrejadores: <em>“Quantas pedras movemos diariamente!”</em>. Ontem movemos contra Estêvão, jovem apóstolo radical cristão, as pedras da intolerância religiosa; hoje jogaremos contra Sakineh, mulher muçulmana acusada de adultério, as pedras do puritanismo machista? Estêvão foi linchado logo após sumário julgamento; a lei iraniana prevê um sádico ritual para Sakineh: os algozes devem <em>“enrolar firmemente a mulher, da cabeça aos pés, com lençóis brancos, enterrá-la na areia até os ombros e golpeá-la à morte com pedras grandes.”</em> (<a href="http://www.liberdadeparasakineh.com.br">http://www.liberdadeparasakineh.com.br</a>). A imagem desses alvos lençóis me traz outro verso do soneto branco de Murilo: <em>“Nós tecemos o véu da iniqüidade.”</em>. Esse véu não vai vedar os olhos de Sakineh, de modo que a pergunta feita no soneto poderia lhe ser dirigida: <em>“Sabes dizer de onde vêm as pedras?” &#8211; “De mãos masculinas”</em>, seria decerto a resposta. Ah – uma questão se faz insistente: não vieram de mãos masculinas os carinhos que te conduziram ao adultério? Onde estão os comparsas do crime pelo qual és condenada? E um verso de outro poeta, Augusto dos Anjos, daria forma à possível resposta: <em>“A mão que afaga é a mesma que apedreja”</em>. </p>
<p>Eu que pensava ser o apedrejamento coisa do tempo de Estêvão ou das remotas terras de Sakineh, descubro pelo soneto de Murilo: vivemos em sua zona hostil, sempre que o corporativismo do mesmo dedicar à anulação do corpo do Outro <em>“o fervor que só Deus mereceria.” </em>.</p>
<p>Lapidando Estêvão, apedrejando Sakineh, a nós próprios apedrejamos.  </p>
<p><em>*<strong>Afonso Guerra-Baião</strong> é professor, vive no município de Curvelo, no estado de Minas Gerais desde 1976 e desenvolve um projeto de tradução de poetas de língua inglesa.</em></p>
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		<title>Os exterminadores do presente</title>
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		<pubDate>Wed, 04 Aug 2010 03:01:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Afonso Guerra-Baião</dc:creator>
				<category><![CDATA[Afonso Guerra-Baião]]></category>

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		<description><![CDATA[A violência institucionalizada é notória quando governos preferem a guerra à diplomacia ou quando o sistema de poder se arroga o direito sobre a vida humana, através da pena de morte. È fácil perceber como interesses de grupos conduzem á formação de verdadeiros exércitos particulares e ao crime organizado, impondo a violência como norma de convivência.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Defunto.JPG" alt="Defunto" title="Defunto" width="252" height="220" class="aligncenter size-full wp-image-6920" />Outro dia, lendo (inevitavelmente) matéria sobre o caso Bruno/Eliza Samudio, lembrei-me de uma das últimas entrevistas do Professor Milton Santos, geógrafo da Universidade de São Paulo.</p>
<p>O tema abordado pelo Professor naquela entrevista era a <em>“brutalização da vida social”</em>. Para ele, as causas da crescente brutalização das relações sociais no mundo são basicamente duas: a competitividade sem ética e a falta de diálogo. Segundo Milton Santos<em> “o centro de tudo é a competitividade sem ética: atitude que exclui toda a compaixão e que leva os participantes do processo a desconhecerem qualquer sentimento em relação ao outro. O outro é apenas alguém a ser abatido na primeira oportunidade”</em>. A razão do outro não deve ser escutada.</p>
<p>Ora, quando temos competidores surdos, que não querem o diálogo, as ações violentas de um contra o outro são inevitáveis. E terceiros, que não estão diretamente envolvidos, acabam colhendo também os frutos dessa brutalização das relações, seja entre indivíduos, seja entre grupos, seja entre Estados.</p>
<p>Não é difícil observar, em nosso dia a dia, como a competitividade sem ética entre indivíduos leva ao envenenamento das relações pessoais, a ponto de conduzir a comportamentos agressivos, ao crime, à banalização da vida. </p>
<p>È fácil perceber como interesses de grupos conduzem á formação de verdadeiros exércitos particulares e ao crime organizado, impondo a violência como norma de convivência. </p>
<p>A violência institucionalizada é notória quando governos preferem a guerra à diplomacia ou quando o sistema de poder se arroga o direito sobre a vida humana, através da pena de morte.</p>
<p>Pois lendo, outro dia, matéria on-line sobre o crime do momento, li também postagens de internautas que, além de pedirem pena de morte para os suspeitos, negavam aos mesmos qualquer amparo dos direitos humanos.</p>
<p>Ora, um dos suspeitos é também acusado de participar de um grupo de extermínio. Os grupos de extermínio acreditam fazer o trabalho sujo que os direitos humanos impedem a Justiça de executar.</p>
<p>As opiniões daqueles internautas e a auto-justificativa dos matadores profissionais se encontram dentro uma mesma lógica: a brutalização da vida social.</p>
<p><em>*<strong>Afonso Guerra-Baião</strong> é professor, vive no município de Curvelo, no estado de Minas Gerais desde 1976 e desenvolve um projeto de tradução de poetas de língua inglesa.<br />
</em></p>
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		<title>Muito além do futebol</title>
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		<pubDate>Mon, 28 Jun 2010 03:03:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Afonso Guerra-Baião</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Segregação racial]]></category>

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		<description><![CDATA[Há cerca de vinte anos as leis impostas pela minoria branca proibiam o voto à maioria negra, assim como negavam aos negros o acesso á Igreja Reformada. Essas leis impediam o casamento e criminalizavam a relação sexual entre brancos e negros, vedavam aos negros o uso de instalações, espaços e serviços públicos destinados aos brancos, bem como os obrigavam a morar em guetos. Pelo “Nactive Lands Act”, os negros (dois terços da população) tinham direito à propriedade de apenas 7,5 por cento da terra, enquanto os brancos (um quinto da população) detinha a posse de 92,5 por cento e os mestiços eram excluídos do direito à propriedade do solo.  ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Nelson-Mandela1.JPG" alt="Nelson Mandela" title="Nelson Mandela" width="220" height="301" class="aligncenter size-full wp-image-6426" /><em>Acima, pintura retratando Nelson Mandela.</em></p>
<p>Pela primeira vez a Copa do Mundo é realizada no continente africano. Pela primeira vez a bola, personalizada, rouba o protagonismo dos jogadores. Não será por acaso que ela tem nome próprio: Jabulani – que, no idioma zulu, significa“celebrar”. </p>
<p>Se não pôde comemorar a classificação dos “bafana-bafana” para a próxima fase do mundial, o povo sul-africano pode celebrar sua histórica vitória na luta contra o apartheid.  </p>
<p>Há cerca de vinte anos as leis impostas pela minoria branca proibiam o voto à maioria negra, assim como negavam aos negros o acesso á Igreja Reformada. Essas leis impediam o casamento e criminalizavam a relação sexual entre brancos e negros, vedavam aos negros o uso de instalações, espaços e serviços públicos destinados aos brancos, bem como os obrigavam a morar em guetos. Pelo “Nactive Lands Act”, os negros (dois terços da população) tinham direito à propriedade de apenas 7,5 por cento da terra, enquanto os brancos (um quinto da população) detinha a posse de 92,5 por cento e os mestiços eram excluídos do direito à propriedade do solo.  </p>
<p>Os líderes negros, como Nelson Mandela, Moses Mabhida, Peter Mokaba e Jacob Zuma, foram submetidos à prisão e à tortura, da mesma forma que seu povo sofreu a humilhação, a injustiça e a violência institucionalizada.</p>
<p>Mas a luta do povo sul-africano venceu o apartheid e construiu o país que hoje recebe o mundo inteiro para a Copa. A eliminação prematura dos “bafana-bafana” não tira dessa gente a alegria e a sustentável leveza de ser que se reflete na irreverente e indomável Jabulani.</p>
<p>A celebração inscrita no nome da bola comemora a força desse povo, que se uniu para conquistar o estado democrático, a inclusão e a liberdade.</p>
<p><em>*<strong>Afonso Guerra-Baião</strong> é professor, vive no município de Curvelo, no estado de Minas Gerais desde 1976 e desenvolve um projeto de tradução de poetas de língua inglesa.<br />
</em></p>
]]></content:encoded>
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		<title>O deserto fértil</title>
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		<pubDate>Sun, 11 Apr 2010 03:01:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Afonso Guerra-Baião</dc:creator>
				<category><![CDATA[Afonso Guerra-Baião]]></category>

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		<description><![CDATA[Engana-se quem pensa que esses oásis do dizer são monopólios das elites e que o deserto da repetição é habitat exclusivo das massas. Grupos de uma elite altamente especializada - a dos economistas – repetiram como dogmas, durante as últimas décadas, as receitas neoliberais da atrofia do Estado e do advento do reino divino do Mercado. A crise que abalou o sistema financeiro internacional veio revelar: o que se vestia de ciência não passava de ideologia, era crendice o que se repetia como se fosse a voz da razão.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Oásis.JPG" alt="Oásis" title="Oásis" width="264" height="220" class="aligncenter size-full wp-image-5292" />Quem foi mesmo que disse: <em>“As idéias demasiadamente repetidas não são mais idéias, nada penso quando as falo.”?</em> Ainda nem chegou um torpedo com a resposta e já uma outra frase à procura do autor se apresenta: <em>“O homem é aquele que diz”</em>. A palavra dizer, com suas raízes profundas, alcança o sentido de fazer aparecer. Quem repete nada diz, pois nada faz surgir: apenas reproduz o já visto, o já estabelecido. A aldeia global, na era da comunicação, é uma verdadeira babel de palavras. Porém grande parte do que é falado e do que é escrito não passa de mera repetição. Livros, jornais e revistas são viveiros do estereótipo; televisão, rádio e internet são latifúndios do lugar-comum; as canções e o cinema são searas do clichê; os discursos são monoculturas do chavão. No complexo ambiente da comunicação, ao excesso de palavras corresponde a escassez do sentido. No seu habitat característico (a linguagem) o homem luta contra a progressiva aridez da afasia, pois <em>“O homem apenas sabe falar na medida em que é aquele que diz”</em>.  </p>
<p>Mas (quem disse?) <em>“o deserto é fértil”</em>: há minas d´água no agreste, há oásis no areal.  Em meio à repetição brota o dizer, entre o já visto nasce o novo, nas brechas do lugar-comum surge a criatividade. </p>
<p>	Engana-se quem pensa que esses oásis do dizer são monopólios das elites e que o deserto da repetição é habitat exclusivo das massas.</p>
<p>	Grupos de uma elite altamente especializada &#8211; a dos economistas – repetiram como dogmas, durante as últimas décadas, as receitas neoliberais da atrofia do Estado e do advento do reino divino do Mercado. A crise que abalou o sistema financeiro internacional veio revelar: o que se vestia de ciência não passava de ideologia, era crendice o que se repetia como se fosse a voz da razão. </p>
<p>	Por outro lado, o povo tem mostrado que é capaz de dizer a sua palavra, deixando a falar sozinhos os “formadores de opinião”, empenhados em inculcar, pela repetição, o catecismo neoliberal. Ao eleger Lula, Correa, Chavez, Morales, Mujica, Obama, o povo das Américas afirmou que um mundo novo é possível, que o sonho não acabou, que a História (a luta) continua.</p>
<p><em>*<strong>Afonso Guerra-Baião</strong> é professor, vive no município de Curvelo, no estado de Minas Gerais desde 1976 e desenvolve um projeto de tradução de poetas de língua inglesa.</em></p>
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		<title>A voz da terra</title>
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		<pubDate>Sat, 13 Mar 2010 03:01:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Afonso Guerra-Baião</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O Parque Ambiental do Inhotim é um local de sobrevivência, alimentação e reprodução das mais variadas formas de vida. Tem como diretrizes a conservação dos remanescentes florestais pertencentes aos biomas Mata Atlântica e Cerrado; resgate, ampliação e manutenção de coleções botânicas; emprego de técnicas sustentáveis de manejo; elaboração e desenvolvimento de programas socioambientais.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Inhotim.JPG" alt="Inhotim" title="Inhotim" width="293" height="220" class="aligncenter size-full wp-image-4664" />O Parque Ambiental do Inhotim é um local de sobrevivência, alimentação e reprodução das mais variadas formas de vida. Tem como diretrizes a conservação dos remanescentes florestais pertencentes aos biomas Mata Atlântica e Cerrado; resgate, ampliação e manutenção de coleções botânicas; emprego de técnicas sustentáveis de manejo; elaboração e desenvolvimento de programas socioambientais.</p>
<p>A surpresa que aguarda seus visitantes é que sua área em constante expansão (com 600 hectares de mata nativa conservada, 45 hectares de jardins e coleções botânicas e 3,5 hectares de lagos ornamentais) abriga um acervo de pinturas, esculturas, desenhos, fotografias, vídeos e instalações de artistas brasileiros e internacionais. Inhotim é um complexo museológico original, constituído por uma seqüência não linear de pavilhões em meio a um parque ambiental. Suas ações incluem, além da arte contemporânea e do meio ambiente, iniciativas nas áreas de pesquisa e de educação. É um lugar de produção de conhecimento, gerado a partir do acervo artístico e botânico.</p>
<p>Se tudo isso pode ser lido no site ou nos folders de divulgação dessa Oscip que fica em Brumadinho, a 60 quilômetros de Belo Horizonte, nada substitui a experiência de estar em Inhotim. Entretanto algo me move a relatar um mágico momento que lá vivenciei no carnaval. Foi no “Sound Pavilion” do artista Doug Aitken. No alto pavilhão circular envidraçado, as pessoas se sentaram em silêncio, vendo a mata ao redor. E ouvimos, ouvimos o som da Terra. Por um buraco de duzentos metros de profundidade, através de microfones de alta sensibilidade, ressoavam naquela sala os sons produzidos ou repercutidos pela Terra.</p>
<p>É comum ouvir as pessoas dizerem que a arte contemporânea não tem nenhum sentido. No caso dessa obra de Doug Aitken, em Inhotim, é possível captar a lição de uma parábola: em tempos de aquecimento global, desmatamentos, terremotos e tsunamis, não seria desejável que mais pessoas se sentassem em silêncio para tentar ouvir e entender a Terra?</p>
<p><em>*<strong>Afonso Guerra-Baião</strong> é professor, vive no município de Curvelo, no estado de Minas Gerais desde 1976 e desenvolve um projeto de tradução de poetas de língua inglesa.</em></p>
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		<title>O caminho das pausas</title>
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		<pubDate>Thu, 04 Feb 2010 02:03:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Afonso Guerra-Baião</dc:creator>
				<category><![CDATA[Afonso Guerra-Baião]]></category>

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		<description><![CDATA[Nesse livro Werner Keller busca analisar inúmeras informações provenientes das descobertas arqueológicas, comparando-as com as narrativas da Bíblia. A razão da Bíblia, bem como a de mitos da antiguidade e dos povos ditos primitivos, é a mesma razão intuitiva, iluminada, que faz com que os poetas sejam os primeiros a saber. Assim, os dias bíblicos da criação podem ser lidos como metáfora das eras geológicas; assim também, através do mito de Ícaro, a antiguidade clássica antecipou, simbolicamente, a possibilidade da conquista do espaço pelo Homem; da mesma forma, os índios Caiapó, no mito do Buraco do Céu, podem ter figurado a teoria dos universos paralelos. 
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			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.debatesculturais.com.br/wp-content/uploads/Bíblia1.JPG" alt="Bíblia" title="Bíblia" width="233" height="220" class="aligncenter size-full wp-image-4131" /><em>“Os poetas são os que menos sabem, mas são os primeiros a saber”</em>. Essa frase de Lacan, que li há pouco, vem confirmar a que intitula um livro que li há muito, na pequena biblioteca de uma tia: <strong>“E a Bíblia tinha razão&#8230;”</strong>. Nesse livro Werner Keller busca analisar inúmeras informações provenientes das descobertas arqueológicas, comparando-as com as narrativas da Bíblia. A razão da Bíblia, bem como a de mitos da antiguidade e dos povos ditos primitivos, é a mesma razão intuitiva, iluminada, que faz com que os poetas sejam os primeiros a saber. Assim, os dias bíblicos da criação podem ser lidos como metáfora das eras geológicas; assim também, através do mito de Ícaro, a antiguidade clássica antecipou, simbolicamente, a possibilidade da conquista do espaço pelo Homem; da mesma forma, os índios Caiapó, no mito do Buraco do Céu, podem ter figurado a teoria dos universos paralelos. </p>
<p>E assim também é que uma antítese recorrente nas narrativas do Novo Testamento antecipa o moderno conflito entre ação e descanso, entre trabalho e recreação, entre utilidade e prazer. </p>
<p>Entre a afirmação capitalista de que <em>“Tempo é dinheiro”</em> e a ponderação da sabedoria popular de que <em>“Mais vale um gosto que dois vinténs”</em>, os evangelhos parecem preferir a segunda. </p>
<p>Essa preferência é explicitada no juízo de valor expresso por Jesus, em sua visita às irmãs de Lázaro. Marta, atarefada e preocupada com as coisas práticas, recrimina Maria que estava sentada a conversar com o Mestre – que sai em sua defesa, dizendo: <em>“Maria escolheu a melhor parte”</em>.</p>
<p>De forma implícita, o repouso é simbolicamente valorizado em muitas passagens dos Evangelhos. Assim, ao interromper sua caminhada pela estrada de Jericó, Jesus restitui a visão aos cegos: sua parada possibilita que eles caminhem. Ao pousar numa casa em Cafarnaum, Jesus cura um paralítico: seu repouso desencadeia o movimento do outro. O descanso de Jesus na casa de Zaqueu enseja a caminhada deste em direção a uma vida nova. A parada de Jesus no túmulo de Lázaro permite que este caminhe da morte para a ressurreição. E a fixidez de Cristo na cruz é que permite aos homens se mobilizarem numa trilha de vida.</p>
<p>Vivendo sob o signo da ação, numa sociedade regida pelo movimento, precisamos nos deter em atenção a essa voz silenciosa que, antecipando-se aos nossos psicólogos, nos fala nas entrelinhas de um jogo de antíteses: parar é condição para caminhar, o pouso é requisito para novos voos. </p>
<p><em>*<strong>Afonso Guerra-Baião</strong> é professor, vive no município de Curvelo, no estado de Minas Gerais desde 1976 e desenvolve um projeto de tradução de poetas de língua inglesa.<br />
</em></p>
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