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Atuação sem ensaio

Há pessoas que garantem que não se surpreendem com nada. Deveriam se surpreender. Se não estiverem mentindo, provavelmente não estão atentas ao que lhes ocorre, ou ao que se desenvolve ao seu redor. Afinal, por mais previsíveis que os acontecimentos sejam, sempre escondem surpresas (boas ou más). São elas que os marcam e os tornam especiais. Não há nenhum script previamente elaborado e definitivamente testado e aprovado, que comande nossas ações. Por mais planos que façamos, temos que sempre improvisar.

Mesmo as surpresas desagradáveis têm, lá, a sua utilidade. Servem-nos como lições, para sermos mais cautelosos e precavidos em nossas atitudes e comportamentos futuros. Os homens sábios e sensatos não lamentam erros e sofrimentos. Aprendem com eles e crescem com esse aprendizado. Só os fracos, os despreparados e os incautos perdem seu tempo com inúteis e vazias lamentações. A vida é toda ela constituída de surpresas. Daí ter tamanho encanto. Respeito, claro, quem não concorde comigo, mas mantenho a minha convicção. O que as pessoas precisam é ser educadas para a vida. Nem sempre (ou quase nunca) são.

Aqui, cabe uma importante observação. Muita gente confunde educação com mera instrução, com o aprendizado das primeiras letras, dos princípios da Matemática, das regras do idioma e dos fundamentos da Geografia, História, Ciências etc. Quem pensa assim, está muito equivocado. As duas coisas são muito diferentes, distintas, ambas indispensáveis e complementares (ou, pelo menos, deveriam se complementar).

Educação é um processo contínuo, ininterrupto e que nunca tem fim. Vai do berço à tumba, do nascimento à morte. Enquanto vivermos, estaremos nos educando (ou deixando de nos educar, o que, quando ocorre – e acontece com desastrosa freqüência – é trágico para nós e para a civilização). Portanto, o processo educacional nunca termina com a obtenção de um diploma universitário, ou de uma pós-graduação, ou então de um doutorado. Em muitos casos, está, exatamente aí, a metade desse processo. A carência de educação é que causa, entre tantos outros equívocos e males, desavenças de toda a sorte, ditadas, sobretudo, pela intolerância. Temos que aprender, que ser treinados, que ser condicionados a não somente tolerar, mas a respeitar diferenças.

É possível e, sobretudo, desejável, a convivência pacífica e respeitosa de pessoas com pensamentos, sentimentos e conceitos antagônicos. Mas para que isso ocorra, é indispensável que haja tolerância mútua. Só é licito impormos nossas convicções aos outros mediante o convencimento, e com argumentos sólidos e indestrutíveis, jamais pela força ou coação.

Infelizmente, não é o que ocorre neste sofrido planeta. Daí tanta violência, tantas guerras e arbitrariedades. Não é preciso ser sábio para concluir da impossibilidade de haver no mundo pensamentos absolutamente uniformes e consensuais. Ademais, ninguém pode afirmar, com certeza, ser detentor de verdades incontestáveis que tenham que ser impostas, a ferro e fogo, aos outros. Quem o fizer, estará sendo, apenas, arrogante, estúpido e arbitrário e sujeito, entre tantas outras conseqüências e reações, a cair em ridículo.

Pelo fato da vida ser, relativamente, tão curta e não comportar “reprises”, para emendarmos nossos erros, somos forçados a agir, na maior parte das vezes, por impulsos, em especial nos atos que tendem a determinar nosso futuro. A lei da física aqui também funciona. Ou seja, “a toda ação corresponde uma reação, do mesmo módulo, mas de sentido contrário”. Somos como atores, convocados, às pressas, para representar determinada tragédia (ou comédia), sem ter feito um único e reles ensaio, apenas com ligeira e apressada leitura do script.

Nunca saberemos, de fato, se a intuição que nos determinou seguir certo sentimento ou alguma idéia que nos parecesse, à primeira vista, “genial”, foi correta ou não. Não há tempo para essa verificação. Por isso, precisamos cuidar das nossas emoções e ações com carinho muito especial.

Milan Kundera adverte, no romance “A insustentável leveza do ser”: “O homem, porque não tem senão uma vida, não tem nenhuma possibilidade de verificar a hipótese através de experimentos, de maneira que não saberá nunca se errou ou acertou ao obedecer a um sentimento. Tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado”. Daí, serem questionáveis todas nossas eventuais certezas. Atentemos para isso!

*Pedro J. Bondaczuk é jornalista e escritor, autor dos livros “Por uma nova utopia”, “Cronos e Narciso” e “O país da luz”.

E-mail: pedrojbk@bestway.com.br

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