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Armas e atraso moral

A indústria de defesa e segurança é próspera no mundo. Há razões para tal: a política expansionista de alguns países e o esforço de resistência de outros. Testemunhamos neste planeta a constância da guerra e a manutenção da ordem através de conflitos velados. Ambos se fazem através de demonstração de poderio em armamentos. É notável que armas sustentem a guerra e a paz num jogo global que tem aparência de paradoxo, mas é premeditado e planejado.

O mercado de armas e munições tem como produtores majoritários países como Estados Unidos, França, Inglaterra, Alemanha e Rússia. O oportunismo dos negócios e a prática de qualquer atividade que traga rendimentos estão acima de qualquer orientação moral. É por isso que circulam impiedosamente no mundo armas automáticas, revólveres, pistolas, metralhadoras, coletes à prova de balas, gases lacrimogêneos e balas de borracha. Algumas dessas armas são extremamente perigosas, enquanto outras não são letais.

O Brasil está entre os cinco principais países exportadores de armas no mundo. Li numa reportagem que a indústria brasileira de armas e munições tem todas as cartas para prosperar num “mundo que é palco de vários conflitos”. Entendi claramente a mensagem de que se vende qualquer produto que tiver demanda, independentemente de suas implicações morais. Juntamente dessa indústria, seguem outras que causam distúrbios à humanidade: a da bebida alcoólica, a do fumo, a de narcóticos. O fato de o globo hospedar conflitos de naturezas variadas não deveria ser pretexto para fomentar negócios de instrumentos danosos e letais.

Apesar disso, o setor de armamento movimenta no Brasil R$ 200 bilhões por ano, o que equivale a polpudos 3,7% do Produto Interno Bruto neste país. Vale lembrar que este número retrata um país globalmente conhecido como pacífico, sem inimigos. As proporções são maiores em países que – como Estados Unidos e Rússia – conhecem mais a condição de guerra que de paz. Durante décadas, esses países beligerantes têm exercido sua influência no mundo através da força das armas, do medo e da dor em regiões em que seus habitantes não seguem o regime democrático. A propósito, democracia transforma-se num elemento de conquista tão contundente quanto a entrega ao demônio de quem não aceita Jesus. Fundamentalismos do Ocidente.

Algumas empresas brasileiras destacam-se na produção de armamentos: Taurus, Companhia Brasileira de Cartuchos (CBC), Amadeo Rossi, Indústria de Material Bélico (IMBEL) e E. R. Amantino. A IMBEL é uma empresa pública fundada na década de 1970 mais voltada ao fornecimento de materiais às Forças Armadas brasileiras. Ainda em se tratando de números, estima-se que a indústria de armas gere 30.000 empregos diretos e 120.000 indiretos no Brasil. Essas informações vigoram nessa época atual de crise do Estado brasileiro, que fecha empresas no Brasil e promove o desemprego.

O Brasil destaca-se na produção de armas pequenas, peças e munições. Suas empresas olham para o mercado externo, já que desde 2003 o governo federal empreende uma campanha pelo desarmamento de civis que não tenham autorização para porte de armas. Armas não-letais de origem brasileira são usadas em vários lugares do mundo, por exemplo gás lacrimogêneo para conter protestos na Turquia. Uma afirmação tecnicamente pertinente do ponto de vista de teoria das relações internacionais saiu da boca de um representante sindical da indústria de armas e munições no Brasil. Para ele, essa indústria não promove a guerra senão a ordem no mundo. Deixa-se de contextualizar, entretanto, o atraso moral que desune os povos deste planeta em conflitos.

*Bruno Peron Loureiro é doutor em Políticas Culturais por University of London – Birkbeck, e mestre em Estudos Latino-americanos pela Universidad Nacional Autónoma de México; autor de oito livros em versão eletrônica, incluindo Aresta da razão (2013), Aresta da prudência (2014) e Aresta da desilusão (2015). http://www.brunoperon.com.br

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