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Acordo ortográfico empoeirado

Rolou pelas gavetas do tempo esse Acordo. Mais de vinte anos para se conseguir uniformizar a ortografia nos países de língua portuguesa. Presenciei algumas discussões sobre o Acordo.

No início dos anos 90 assisti a uma delas com um professor português, à mesa com professores brasileiros, da qual também participava, como mediador, o Prof. Evanildo Bechara, hoje de fardão da A.B.L. Cena patética: os brasileiros mal deixavam o professor lusitano abrir a boca. Impunham suas idéias, diziam que as consoantes mudas tinham de deixar de existir. (Portugueses distinguiam “fato, acontecimento, escrevendo “facto” e deixavam “fato” para nomear o terno, de vestir.) Dessa forma – pobres portugueses! – teriam de escrever sem distinção “fato” tanto o acontecimento, como o terno (calça e paletó). O professor português, educadamente, queria defender sua ideia, mas os antigos colonizados o tratavam como se ele representasse o dominador, a explorar a terra brasileira.

Afinal, o Acordo é um fato. E, dentre outras bases, as consoantes mudas não existem mais: fato, datilografia, por exemplo, não poderão mais ser facto, nem dactilografia, nem aqui, nem em qualquer país de língua portuguesa. Assinado em setembro de 2008, entrou em vigor em janeiro de 2009, mas até 2012 se aceitarão as normas antigas (de 1943 com as alterações de 1975).

É boa a reforma proposta pelo Acordo?

Se considerarmos que países de mesma língua devem ter a mesma ortografia, a resposta é sim. Ainda em 2003 eu trabalhava num Projeto de educação para Angola e tinha de fazer revisão em todos os textos escritos no Brasil, mas na ortografia angolana. E é claro que isso demandou mais custos àquele Projeto.

Se pensarmos, porém, que somos capazes de ler José Saramago sem dificuldade porque a língua é a mesma e vivemos muito bem sem as letras k, w e y – agora no alfabeto – porque há muito tempo assistimos a shows, temos know-how e cantamos Yes, nós temos bananas, o Acordo não nos parecerá tão útil assim.

Uma coisa é certa: editoras estão muito felizes. Brasil, Portugal, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste trocarão textos escritos da mesma forma, e em cada país os livros serão reeditados de acordo com a Reforma ortográfica. É muito dinheiro!…

Perguntaram-me se a Reforma ia fazer o brasileiro escrever melhor. E eu disse que não. Porque os brasileiros que não conheciam as antigas regras ortográficas vão continuar a desconhecer as novas. E não são poucos.

O Prof. Evanildo Bechara, da A. B. L., em entrevista a um Jornal de TV, no último dia 17, tentou demonstrar que o Acordo já é aceito pelo povo, ao declarar: – Soube de um botequim no Rio de Janeiro que chamou um prato de “linguiça com trema” e outro de “linguiça sem trema”.

Ah! como está mal informado o prof. Bechara! O botequim não era carioca, o povão nem está aí pro Acordo porque não sabe ler, não lê e nem sabe o que é trema. Mas essa é uma outra história.

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