A voz da terra

Por em 13/03/2010


InhotimO Parque Ambiental do Inhotim é um local de sobrevivência, alimentação e reprodução das mais variadas formas de vida. Tem como diretrizes a conservação dos remanescentes florestais pertencentes aos biomas Mata Atlântica e Cerrado; resgate, ampliação e manutenção de coleções botânicas; emprego de técnicas sustentáveis de manejo; elaboração e desenvolvimento de programas socioambientais.

A surpresa que aguarda seus visitantes é que sua área em constante expansão (com 600 hectares de mata nativa conservada, 45 hectares de jardins e coleções botânicas e 3,5 hectares de lagos ornamentais) abriga um acervo de pinturas, esculturas, desenhos, fotografias, vídeos e instalações de artistas brasileiros e internacionais. Inhotim é um complexo museológico original, constituído por uma seqüência não linear de pavilhões em meio a um parque ambiental. Suas ações incluem, além da arte contemporânea e do meio ambiente, iniciativas nas áreas de pesquisa e de educação. É um lugar de produção de conhecimento, gerado a partir do acervo artístico e botânico.

Se tudo isso pode ser lido no site ou nos folders de divulgação dessa Oscip que fica em Brumadinho, a 60 quilômetros de Belo Horizonte, nada substitui a experiência de estar em Inhotim. Entretanto algo me move a relatar um mágico momento que lá vivenciei no carnaval. Foi no “Sound Pavilion” do artista Doug Aitken. No alto pavilhão circular envidraçado, as pessoas se sentaram em silêncio, vendo a mata ao redor. E ouvimos, ouvimos o som da Terra. Por um buraco de duzentos metros de profundidade, através de microfones de alta sensibilidade, ressoavam naquela sala os sons produzidos ou repercutidos pela Terra.

É comum ouvir as pessoas dizerem que a arte contemporânea não tem nenhum sentido. No caso dessa obra de Doug Aitken, em Inhotim, é possível captar a lição de uma parábola: em tempos de aquecimento global, desmatamentos, terremotos e tsunamis, não seria desejável que mais pessoas se sentassem em silêncio para tentar ouvir e entender a Terra?

*Afonso Guerra-Baião é professor, vive no município de Curvelo, no estado de Minas Gerais desde 1976 e desenvolve um projeto de tradução de poetas de língua inglesa.




Por Afonso Guerra-Baião, em 13/03/2010 - 00:01. Você pode acompanhar as respostas a este texto acessando o leitor RSS 2.0.

14 respostas to “A voz da terra”

  1. Marisa Bueloni

    Afonso, parabéns pelo belo texto. Que maravilha ouvir o som da Terra! Sim, que bela é a possibilidade de ouvir os rumores do planeta, os gemidos da sua alma, e compreendê-los, sobretudo num momento em que a vida é ameaçada de todas as formas. Um abraço!

    #492
  2. Leia Gandra

    Caro Amigo, como dizia Nietzsche: “Os grandes valores quase sempre são compreendidos tardia ou postumamente”. Em tempos de sistema neoliberal excludente, onde ecoa o lucro e o supéfluo aos quatro cantos da Terra, onde impera a ética do “eu mínimo” com o individualismo exacerbado, nada melhor do que vivenciar experiências como essa, não é? Parabéns pelo texto e pela divulgação de um espaço de graça do Criador.
    Forte e terno abraço

    #494
  3. Afonso, ainda não conheço este pedacinho do Paraíso. Mas é bom saber por você, a descrição deste lugar, e ouço até A voz da Terra. Parabéns primo, pelo lindo texto!….Abração MMaris.

    #495
  4. André

    Estamos num mundo onde precisamos cada vez mais o resgate do “ouvir” … parar, deixar o bombardeio visual, sonoro, midiático de alguma forma e cultivar somente a contemplação, tão enriquecedora para alma… Abraços.. belo texto.

    #496
  5. Amigo Afonso,
    Este texto mostra um pouco do tanto que Inhotim é maravilhoso! Graças ao bom Deus já tive o privilégio de conhecer e apreciar este lugar que pra mim é um pedaço do paraíso com certeza! E ouvir a terra é uma das experiências mais fantásticas que o homem pode sentir. E ouvir este verbo que poucos sabem praticar! Fica registrado então o meu elogio a este lugar que adoro e a seu trabalho que é sempre primoroso. Beijos.

    #498
  6. Marcus Francisquini

    Afonso, parabéns, você expressou muito bem o que pode ser visto e principalmente sentido em Inhotim. O som da terra é realmente muito interessante e criativo. As outras obras também são marcantes. Já utilizei até uma foto que fiz em Inhotim para um trabalho na faculdade. O professor pediu uma imagem “que expressasse o que você é ou sente em relação ao curso”. Utilizei aquela obra japonesa das esferas metálicas para mostrar a força do trabalho em grupo, assim como a beleza da obra está na união das peças de arte com a água e as plantas que compõem o ambiente, formando um quadro de admirável beleza. Um grande abraço.

    #500
  7. Sheila Jota

    Afonso, ao ler seu texto pude perceber o quanto Inhotim é belo. Arte e natureza juntas, mostrando que o homem pode trabalhar sem entrar em conflito com o planeta.Seu texto me faz lembrar de uma frase de Gandhi: “O homem deve ter a consciência de aprender tudo o que for ensinado pelo mundo afora. Isso lembraria os erros cometidos,para que não mais se repitam.” Inhotim era uma área, que antes era devastada pela mineração. Hoje, tornou-se um pedido de socorro da natureza!

    #502
  8. GLICERIA BAYÃO

    AFONSO, GOSTEI MUITO DA SUA DESCRIÇÃO SOBRE INHOTIM, QUE ATÉ “SENTI OS SONS DA TERRA” E VISUALIZEI A BELEZA DESTE PEDAÇO DAS INÚMERAS MARAVILHAS FEITAS POR DEUS. BEIJOS DA SUA IRMÃ QUE MUITO O ADMIRA E AMA.

    #503
  9. lucilia

    Realmente, Afonso, todos deveriam se sentar e ouvir os sons da terra que reclama das maus tratos e suas consequências; mas parece que a maioria dos homens só quer seguir em frente não importando a quem e a quantos estão prejudicando. Abraços.

    #508
  10. Riona Bogliolo Sirihal

    Já visitei Inhotim por 3 vezes. Nenhuma me causou emoção tão profunda quanto visitá-lo através dos seus olhos e do seu coração, Afonso. Parabéns pelo texto, parabéns por sua sensibilidade. Felicidades, Rina.

    #509
  11. Jane

    Uma das características fundamentais no ser humano é a inquietude. Sem ela não seria possível a busca. Sem a sua, como iríamos nos surpreender?
    O Inhotim merece ser visitado por alguém como você! Bjo.

    #511
  12. Afonso, muito pouco há que se dizer agora, considerando os comentários que me antecederam. Entretanto, há que se ressaltar a clareza do seu texto que, de forma magistral, desperta em nós o desejo urgente de conhecer Inhotim. Meu amigo Nonô Nardy, frequentador assíduo de lá, sempre me conta sobre suas experiências lá, mas ainda não havia falado nada a respeito do “Sound Pavillion”. Parabéns, Afonso, por mais este texto, pelo qual você deveria ser eleito “Embaixador de Inhotim”. Breve, muito breve, irei conhecer esse paraíso.
    Um grande abraço.

    #517
  13. Ruben Silverio

    Companheiro Afonso

    Li e gostei de seu texto, mostra sensibilidade , conhecimento e valorizaçao da natureza.
    Fiquei com vontade de conhecer este parque
    Parabens, continue assim fazendo cultura

    Um fraternal abraço

    Rubens Silveiro e Nida

    #549
  14. Meu caro Afonso,

    Tenho o raro prazer da vizinhança com o Inhotim. Da minha casa lá na Serra da Moeda avista-se parte do Vale do Paraopeba e o caminho que conduz a este projeto impressionante. Na verdade, é muito mais do que um projeto. Podemos dar muitos nomes: refúgio, beleza, exemplo, carinho com as pessoas e com a natureza, arte, experimentação… Não me canso de ir lá e de levar pessoas para conhecer. Quando quiser retornar, dê notícias. Inhotim não é para se conhecer apenas. É para se degustar de todos os modos bons. Como você fez e fará de novo, certamente. Um abraço. Geraldo Leite

    #568

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