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A nova tática de Lula, Dilma e do PT

A OBSTRUÇÃO DESESPERADA PASSOU A SER A ÚNICA ALTERNATIVA PARA LULA, DILMA E O PT

Análises realizadas anos atrás por pesquisadores da Universidade da Califórnia mostraram, através de estudos econométricos e de correlação, que a curva de ascensão do PT e sua representação parlamentar tinha basicamente Lula como fator explicativo.

Após o afastamento de Dilma por erros graves de direito, restava ao PT a explicação para o impeachment ter sido um golpe branco e passaram a bradar em concentrações e em plenários dos legislativos –federal, estaduais e municipais- a palavra de ordem – “golpistas”.

E o objetivo dos “golpistas” era atingir Lula. Suas palavras de ordem terminaram por produzir algum descolamento entre Lula e Dilma. As pesquisas registraram este descolamento, com Lula mantendo um patamar entre 25% e 30% de intenções futuras de voto.

A rejeição a Lula (não votaria de jeito nenhum) ficava situada no patamar dos 50%, basicamente o mesmo do presidente da República e do presidente do PSDB. A base de apoio ao governo foi atraída pela antipolítica, buscando um nome fora da política, ou um “político novo”. Ilusão treda.

Aquela dinâmica caminhava para uma enorme probabilidade de Lula no segundo turno. A base do governo reagia, dizendo: quem for com ele para o segundo turno vence a eleição.

A construção de uma rede internacional de palestras de forma a que Dilma se apresentasse tentando caracterizar o “golpe branco” foi sendo ampliada. E, com isso, o batido discurso de vitimização de Lula ganhou alguma expressão.

Dessa forma, a batalha parlamentar de obstrução, por oposição significativamente minoritária, ganhou algum respaldo nos antes debilitados movimentos sociais, especialmente nas corporações. Um artigo da chamada reforma trabalhista -o término da contribuição sindical compulsória, que ainda depende do Senado- caminha para abalar a base financeira do corporativismo.

A obstrução parlamentar, com algum movimento nas ruas, foi sendo adensada politicamente. Até o cara a cara entre Lula e Moro, com Lula fazendo de sua defesa jurídica seu discurso para Moro. Apesar do cinismo de algumas respostas, Lula saiu vivo, mesmo que cambaleante, do depoimento prestado.

Mas, em seguida, a delação premiada dos marqueteiros de Lula e Dilma foi mortal. Os marqueteiros vivem, nas campanhas, a intimidade dos candidatos. O documentário “Entre Atos” mostra isso claramente. E no caso de Lula/PT/Dilma foi um ciclo de vinte anos, acentuando a intimidade.

Dilma perdeu o argumento que usava sempre, que o impeachment por mais razões tecno-jurídicas que o justificassem não atingia a aura de honestidade que era repetida à exaustão. As deleções de João Santana e, especialmente, de Mônica Moura desintegraram esse argumento. Com isso, o impeachment, além das razões jurídicas, passou a ter uma amplíssima base de legitimação.

E Lula, que se colocava à margem dos problemas, como líder popular, e sua equipe que criticava duramente o Power-Point dos procuradores da Lava-Jato, mergulhou diretamente na circunferência que o mostrava como consciente e operador de tudo. Assim desintegrou-se inteiramente a última bóia de sustentação política de Lula e do PT.

Se a tática usada desde o impeachment era a obstrução mais palavras de ordem, agora a única tática passa a ser a obstrução desesperada. E essa obstrução desesperada, com os últimos fatos, e a correspondente deslegitimação dos argumentos de Lula e Dilma, inevitavelmente diluirá a base sobrevivente de apoio político e parlamentar. O desespero retórico e obstrutivo de uma minoria é que se fará presente – daqui para frente.

*César Epitácio Maia nasceu em 18 de junho de 1945, é economista e professor universitário, foi exilado político e é um dos políticos brasileiros mais atuantes no momento, tendo ocupado diversos cargos públicos, dentre eles o de Prefeito da Cidade do Rio de Janeiro.

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