A implosão da Ética II
Como já aconteceu em outras oportunidades, dependendo do assunto abordado, recebi inúmeros e-mails e comentários sobre minha última coluna. Óbvio, o assunto ética não se esgota em uma, nem em dez crônicas jornalísticas de espaço reduzido. Poderia escrever um tratado – como tantos melhores que eu fizeram – e ainda assim meandros importantes dela ficaram de fora.
Mas o que achei mais interessante foi o fato de que todos que me abordaram ligaram a palavra – ou conceito, como queiram – à política. Isso mesmo com o fato de eu ter me esmerado em atribuir à ética uma concepção relativa ao indivíduo. Talvez eu tenha falhado em meu intuito. Talvez as pessoas só pensem em ética quando diretamente relacionada à política.
A felicidade pessoal tem íntima relação com a conduta ética, assim como o progresso e a qualidade de vida de um país tem estreita relação com o padrão ético dos seus governantes. Mas as pessoas parecem esperar que os políticos tenham ética, para que depois a tenham também. Acho que é mais fácil e provável que o povo a tenha antes, para formar políticos éticos depois. E isso, obviamente, só será alcançado através de uma educação de primeira.
O que vemos nos pleitos de hoje é a antiética. É a total indiferença ou ignorância ideológica partidária. É o descaso para com qualquer regra moral ou mesmo de etiqueta. Nossos “homens do povo” trocam de partido como quem troca de sapatos (reparem que os sapatos nos sustentam e são sempre pisados).
Nós imaginamos que um indivíduo, ao se filiar num partido, tenha lido o estatuto do mesmo e não só concordado com ele, como tentará fazer o possível para pô-lo em prática. Então como pode, tempos depois, por um carguinho ou salário, renegá-lo, execrá-lo, e abraçar outro completamente oposto? Que ética é essa? Este “político” está demonstrando que seu objetivo é puramente financeiro e egoísta (logo ele que jurou amor ao povo). E como pode esse antigo adversário (o partido político oposto) aceitar um indivíduo desses no seu corpo. Esse partido também não é ético, pois tacitamente está aprovando uma atitude antiética.
Não é uma questão de que lado se está. Não é uma questão de quanto se vai ganhar ou perder. É uma questão de caráter, de compromisso. De ser Ético, primeiro com seus próprios ideais, depois com o povo, que ele representa.
Sim, tem razão os meus leitores ao escreverem que a política é o maior palco da Implosão da Ética. E está contaminando todo o resto.
*Uili Bergamin nasceu em Bento Gonçalves, RS, no dia 02 de fevereiro de 1979. Destaca-se por sua escrita concisa, e pela busca das palavras certas, que encaixam perfeitamente ao texto. Bergamin é também colunista em jornais e revistas de circulação em Caxias do Sul e região.
Obras publicadas
O Sino do Campanário (2005, contos, Editora Maneco) Coletânea de catorze contos e obra inaugural do autor. Apesar do título, não é propriamente um livro religioso. Talvez seja antes o contrário. O conto que nomeia a obra, por exemplo, narra a história de um padre que, aos 70 anos, revê sua vida e relembra um grande amor do passado. A solidão do celibato, a angústia de estar teminando de viver, o fracasso de uma vida que não realizou seus sonhos nem o de seus pais, faz com que transfira suas dores ao sino de sua igreja, como única forma de redenção. Praticamente todos os contos têm como fio condutor a crença, o amor e a dúvida. Seus contos são independentes e escritos de maneira simples, porém, seu texto é polêmico e questionador, e incita à reflexão sobre crenças, verdades e dogmas.
Cela de Papel (2006, novela, Editora Maneco) Novela fragmentada, com nuance autobiográfica. É uma fantasiosa alegoria sobre a arte da leitura. Repleta de metalinguagens.
Do Útero do Mundo (2007, poesias, Editora Doravante) Impiedosos e intensos, luminosos e sombrios, a maioria dos poemas que compõem a obra já obteve alguma premiação literária. Do Útero do Mundo vem sendo muito elogiado pelos leitores e também pela crítica.













