A identidade da Fé.
Ele era um homem sem fé. Na verdade, nem sabia o que era isso. A vida o tinha moldado com migalhas e constantemente mergulhava no álcool para fugir deste mundo.
Na infância, a primeira notícia de seu pai veio com os palavrões da mãe, praguejando-o por infinitas gerações. Nunca teve Certidão de Nascimento, pois sua mãe dizia que dava muito trabalho e “pra quê? Não sei o nome do seu pai mesmo…”.
Até completar oito anos dormia durante o dia com a mãe. Ela trabalhava a noite, madrugada dentro e chegava pela manhã, trazendo a primeira fornada de pães da padaria da esquina. As noites, enquanto D. Jurema, uma senhora cega de um olho e que era paga pra cuidar do menino, esparramava sua gordura pelo velho e remendado sofá da sala, ele se perdia nas horas debruçando seu queixo no peitoril da janela, controlando o céu, as estrelas e o movimento barulhento dos carros e pessoas na vida noturna. Era o terceiro andar de um velho prédio de paredes sem reboco na Rua Mauá. Mal sabia que já aprendia a ser só.
Aos nove, mesmo não sabendo ler e escrever, já conhecia as notas de dinheiro e todas as moedas, seu valor e se orgulhava de brincar de “dar troco” com D. Jurema, essa a única forma que ela sabia de ensiná-lo a viver por aí. Foi então que numa manhã chuvosa de janeiro sua mãe chegou do trabalho com uma caixa de drops Garoto e outra de chocolate Chokito. O menino arregalou os olhos, começou a esboçar um largo sorriso de alegria quando, imediatamente, sua mãe mandou-o vender as guloseimas na sinaleira. Enfim, não eram pra ele degustar e se lambuzar.
Começou no dia seguinte, num cruzamento próximo do prédio onde morava. Levou muito chingamento, desaforo e foi aprendendo a se defender dos garotos mais velhos e maiores que vez por outra vinham roubar seu objeto de trabalho. Já não cruzava a madrugada avistando estrelas de sua janela. Trocou o sono do dia pelo da noite e D. Jurema sentia falta de “ensiná o minino a contá”.
Um dia, sua mãe não voltou do trabalho pela manhã, como de costume. Ele saiu com as últimas unidades de chocolate pra vender, voltou pra casa mais cedo, cochilou no velo sofá e foi acordado por D. Jurema com a notícia de que sua mãe tinha sido levada pelo Menino Jesus. Nem sabia quem era esse tal e de onde ele tinha aparecido pra levar a mãe embora dele. Esbravejava perguntando o endereço do Menino pra D. Jurema, que calmamente, mas com os olhos marejados de lágrimas, tentava explicar ao menino um mundo, um universo que ele desconhecia.
- Mas tia Ju, se esse tal de Deus não aparece, ele não existe. Como é que a senhora quer que eu acredite numa coisa assim?
Uma semana após o enterro, a velha Jurema juntou os poucos trapos que o menino vestia, embolou tudo numa trouxa de lençol sujo e levou, junto com menino, pro seu quarto e cozinha na zona leste da cidade.
Não vendia mais guloseima na sinaleira. Ano seguinte, começou a freqüentar a escola. Era o último da fila, pois os demais colegas só tinham sete anos. Mas aprendia com rapidez as letras, e se orgulhava de já conhecer os números e de fazer conta de somar e dividir. Dizia que era a experiência com as balas.
Aos quatorze, tia Ju colocou-o pra trabalhar de embalador num mercadinho de bairro. Teve que aprender a andar de bicicleta, pois algumas madames queriam a entrega em casa. No começo, ganhou uma cicatriz de 6 pontos no joelho esquerdo, tombo feio num bueiro aberto.
Tia Jurema passou a ser a “véia Ju”. Ensinou o menino a rezar antes de dormir e das refeições, mas não o levava à igreja. Dizia “os padres são todos tarados por crianças”.
Um dia o menino acordou, olhou pro despertador e viu que estava atrasado pra escola. Olhou pro outro lado da cama e viu a “veia Ju” ainda dormindo. Chamou, chamou e chamou. Não se mexia, não respirava mais. Percebeu então que aquele tal Menino Jesus tinha de novo levado alguém que ele gostava. E sentiu um ódio imenso. Chorou pela primeira vez uma perda e engoliu em seco o golpe certeiro da vida de que estava definitivamente sozinho.
Não concluiu a quarta série. Certa manhã foi chamado no escritório do dono do mercadinho. Nunca tinha entrado lá. Disseram que ele não podia mais trabalhar ali, pois não tinha documentos e nem “responsável”. Caso ele conseguisse os tais RG e Carteira de Trabalho, poderia voltar sem problema.
Ficou mais de um mês sem sair de casa. Abria as janelas do quarto só pra sair aquele cheiro de mofo. Não tinha vontade de acordar, de tomar banho, de ver pessoas do lado de fora de seu mundo sem identidade. A comida acabou e numa tarde a Senhoria veio cobrar o aluguel. Sem documento, sem trabalho e sem dinheiro, teve que juntar poucas peças de roupa, um par de tênis e um retrato de tia Ju, quando era moça, dentro de uma mochila velha e sair do quarto e cozinha, sem olhar pra trás e sem destino. Na rua, passou fome, frio e foi agredido. Virou andarilho sem rumo por meses, anos até. Vez por outra fazia um serviço, um “bico” pra comprar uma cachaça e esquentar a noite em seu colchão de cimento. Vez por outra, fazia um esforço na mente pra lembrar seu próprio nome. Sabia que mês era pelas vitrines das lojas quando anunciavam Dia das Mães, Namorados, Dias dos Pais, Das Crianças e Natal.
Devia ser dezembro, pois havia muita iluminação nas ruas à noite, o que atrapalhava até pra dormir, e os postes estavam decorados com aquele velho gordo de barbas e vestindo um terno vermelho em pleno verão (isso ele nunca entendeu). Numa dessas noites, perambulando pela calçada da estação Julio Prestes ouviu uma cantoria diferente vindo de dentro da estação. Ele nunca tinha ouvido algo parecido, pois o que conhecia vinha do que escutava na rua e quando ficava próximo de alguma loja de CDs. Umas diziam que era sertanejo e outras, pagode. E tinha aquelas estrangeiras também que ele nunca entendia nada do que cantavam.
Caminhou até entrada principal da estação, de onde poderia vir aquela música. E viu, bem ao fundo algumas pessoas em pé, vestindo uma capa branca e segurando uma pasta. Foi a primeira vez que ele via e ouvia um coral. Ficou ali, recostado num dos pilares de entrada. O local estava cheio de gente sentada, ouvindo atentamente aquelas vozes que entravam em seu ouvido com uma calma, uma paz, sentia como se fossem remédios pra suas dores no corpo. Quando a música acabava, um homem que estava à frente se virava e todos aplaudiam. Ele os acompanhou. Num desses intervalos foi que o avistei. Havia naquele olhar de vislumbramento algo de muito triste e solitário. Eu via uma criança num corpo de homem descobrindo a beleza da música sacra numa noite de dezembro, comemorando o Natal. Havia um lugar vago na minha frente. Tive que chamá-lo por três vezes para se sentar ali, antes de começar a próxima música. Duvidoso, aceitou o convite e timidamente pousou seus trapos sujos sobre a cadeira colonial estofada de vermelho. Do meu acento, eu o olhava e imaginava o que se passava em sua mente ao ouvir aquelas vozes tão angelicais. Cabelos escuros, despenteados e empoeirados sem corte definido, vestia uma camisa pólo azul escuro com um rasgo do lado esquerdo da barra; bermuda de sarja marrom e tênis sem cor definida, mas devia ser branco ao sair de fábrica. Ele não se movia, por um momento inclinei minha cabeça para observar sua expressão facial. Estava completamente embriagado pela música e esboçava um sorriso inconsciente de prazer e satisfação. A audição durou mais trinta minutos e a cada intervalo, aquele homem aplaudia efusivamente, vez por outra virava a cabeça pra traz e me encontrava sorrindo com ele.
Quando finalmente terminou e ele viu que todas as pessoas se levantaram pra aplaudir, imitou-as, olhando novamente para traz como se a pedir minha permissão. Na sequência, as pessoas foram saindo calmamente e eu não pude deixar de desejar conhecer mais sobre aquele homem tão pobre fisicamente, mas com uma riqueza de pureza humana impressionantes. Puxei assunto, perguntando se gostara do que vira.
- Moça, nunca ouvi uma música tão linda e que me deixasse tão feliz.
- É. Realmente a música sacra nos aproxima muito mais de Deus – respondi.
Foi então que ele arregalou os olhos com uma aparência tão raivosa que imediatamente senti-me em perigo. Mas a feição no rosto foi acalmando, abaixou o queixo e me pediu com uma voz de criança para falasse pra ele sobre esse tal Deus. Sentamo-nos num dos bancos da praça em frente à estação, emoldurados pela claridade da iluminação daquele monumento. Iniciei meu contato perguntado sobre a vida dele, da qual em meia dúzia de frases resumiu sem prazer algum. Mas ouviu-me falar sobre o que desconhecia com o mesmo vislumbramento com que ouvira há pouco o coral natalino. Estava realmente interessado em saber sobre o lado espiritual que movia as pessoas em dezembro, os porquês, como e quando. As horas se passaram e eu me sentia numa profunda paz por ter conhecido aquele ser humano tão sofrido e chagueado pela vida e, mesmo que singelamente, ter levado algo de bom ao seu coração. Ao despedir-me, perguntei se iria ficar bem aquela noite, já que morava na rua, debaixo de uma marquise próxima à Rua Mauá. Respondeu balançando a cabeça positivamente e sorriu deixando escapar uma luz especial em seu olhar. Estava feliz e nem sabia.
A noite de Natal chegou e com minha família brindei o aniversário de nascimento do Menino Jesus. Pensei naquele homem, o andarilho e em certos instantes sentia-me aflita pela incerteza de onde e como estaria, se ainda o veria uma vez mais.
Dia seguinte uma notícia inusitada ilustrava os jornais da cidade. Um homem havia sido encontrado morto deitado na manjedoura de uma praça pública, agarrado ao Menino Jesus estilizado. O detalhe ficava por conta de um bilhete que ele carregava nas mãos com os dizeres: “Desta vez, o Menino Jesus não vai levar mais ninguém que eu gostar. Eu é que vou me encontrar com ele, ouvindo aquelas músicas”.
Dezembro de 2009
*Fátima Venutti é paulista de Osasco (1965). Reside em Blumenau desde dezembro de 2002. Formada em Letras, escreve desde os 11 anos e possui textos premiados em diversos Concursos literários; co-autora e organizadora de antologias da Sociedade Escritores de Blumenau-SEB (presidente em 2007); membro da Academia Catarinense de Letras e Artes (ACLASC), ocupando a cadeira nº 11, cujo patrono é o poeta Lindolf Bell. Publicou Último Beijo – poesias (Ed. THS Arantes, 2007) e Terceiro Apito -contos e crônicas (Ed. Nova Letra, 2008), ambas as obras bilíngue (português/espanhol). No prelo: Estação Catarina: O Trem Passou Por Aqui (contos e crônicas) – Ed. Nova Letra – Blumenau/ SC. Lançamento em março/2010.
Por Fátima Venutti, em 18/12/2009 - 00:01. Você pode acompanhar as respostas a este texto acessando o leitor RSS 2.0.

























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