A honorável Sociedade do Chapéu
Acordei cedo neste domingo. Coisa relativamente rara de acontecer, mas hoje eu tinha uma reunião com os meus companheiros do CIRCES, a fim de preparar o planejamento de nossas ações de voluntariado, avaliar os resultados da campanha de inverno, essas coisas. E lá ia eu, pela Paulo Barreto, quando encontrei um velho amigo. Mário Filho — músico profissional e talentoso — viu-me antes que eu o visse. E já chegou sorrindo e dando o seu veredicto: — Você está parecendo um músico erudito, de instrumento de arco, mas que toca música pop.
O que haveria de diferente na minha aparência, pro Mariozinho criar esse personagem, assim do nada, ele que sabe que não chego exatamente a ser um músico? Afinal, o escritor sou eu, e o músico é ele. Talvez o chapéu que eu estava usando, quem sabe. Um panamá, no estilo Santos Dumont, que voltou à minha cabeça agora que o inverno terminou, e a primavera insiste em brincar de verão. Será que só aquele chapelão branco já foi suficiente para inspirar o personagem? Bem, é claro que não foi só ele que chamou a atenção do meu amigo. O sol levou-me também a usar óculos escuros, e eu gosto daquele tipo italiano, que Bob Dylan usava nos anos 1960. A camisa ampla, larga e clara, a calça preta, também larga, tipo chinesa, e as minhas sandálias vietnamitas, Tio Ho, devem ter ajudado. Mas acho que mesmo isto não seria nada sem o meu chapéu. Não sei porque, mas em pleno Rio de Janeiro, chapéus ainda causam algum espanto. Bonés, tudo bem. Já fazem parte da paisagem. Inda mais se forem colocados ao contrário, com a pala na direção da nuca, sugerindo pescoços mais sensíveis ao sol do que mesmo os olhos. Mas chapéus…
Lembro-me de, há alguns anos, ter sido objeto do olhar revoltado de uma senhora, que mirou fixamente a minha cabeça, onde repousava um outro tipo de panamá, aquele tropicana, que ela parecia não entender porque eu estava usando. No Rio, a regra é clara: usar chapéu, só idoso ou turista. Ou então na praia. Fora isto, parece soar como um tipo de transgressão. Como eu ainda não entrei na terceira idade e não sou absolutamente um turista — apesar do meu clássico branquelo look, que exclui também a areia e o mar — devo ter ficado fora dos códigos estabelecidos, e o meu chapéu virou, no mínimo, uma afronta. Será que ela pensou que eu era um violinista que tocava música pop? Vai saber…
De todo modo, chapéus marcam indelevelmente aqueles que os usam. Não só os chapéus. Boinas também têm a sua quota de marginalidade. Até mesmo uma linda moreninha de olhos negros e nariz perfeito, que andou estremecida comigo há algum tempo, reclamou que eu havia passado por ela, na rua, uma semana antes, e não a cumprimentara, que virei o rosto, como se não a conhecesse. Bem, isso é verdade, virei sim. Mas por uma causa nobre: queria evitar mais encrenca com aquela beleza, que começava a me condenar à invisibilidade. Assim mesmo, disse que não me lembrava do episódio, e que achava que, na verdade, havia passado por ela sem realmente vê-la. E, só pra checar, perguntei como eu estava vestido naquele dia. — Estava de boina!, garantiu ela, como quem comprova a falta do acusado. Mas eu lembrava perfeitamente daquele episódio… e não estava usando boina nenhuma. Aliás, nem chapéu, nem boné, nem nada. Fiquei impressionado com aquilo. Na hora de registrar a transgressão, não deu outra: ela viu um “chapéu” (no caso, a boina), que eu não estava usando mesmo. Aliás, aquela princesinha só me havia visto usando boina muito tempo antes, e uma única vez.
O meu consolo é que, em verdade, não estou totalmente só. Descobri que pertenço a uma organização mais ou menos secreta, na qual todos os integrantes usam algum tipo de cobertura para a cabeça. É a misteriosa e honorável Sociedade do Chapéu. Descobri minha pertença há pouco tempo, meio que por acaso. Eu havia colocado, ao longo de uns poucos meses, várias fotos no meu perfil do Orkut, na maioria das quais eu estava usando algum tipo de cobertura. Jairo, namorado de minha querida amiga Flavinha, entrou nos meus recados e disse que estávamos disputando pra ver qual dos dois variava mais de chapéu. Estava descoberta a misteriosa sociedade! E, a partir daí, fui encontrando outros confrades e me sentindo cada vez mais amparado e inserido na legalidade. Mas, também aos poucos, descubro que a maioria deles é artista. Jairo, por exemplo, é poeta, pode um negócio desses?
Meus deuses… Será que não existe ninguém normal que use chapéu?
*Marco Antonio Coutinho é escritor, mora no Rio de Janeiro e anima o blog “E por falar nisto…” (http://eporfalarnisto.blogspot.com). Suas crônicas são publicadas aqui com autorização expressa do autor.
Por Marco Antonio Coutinho, em 07/10/2009 - 12:00. Você pode acompanhar as respostas a este texto acessando o leitor RSS 2.0.

























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gostaria de saber como funciona a sociedade do chapéu !!!
quero fazer parte !!!!
gratto!!!!
sou de Palmeira – PR proximo da capital Curitiba.