A História e suas faces: Intentio operis, intentio auctoris & intentio lectoris.
Resumo
Este ensaio busca analisar as diferentes interpretações que um acontecimento histórico pode ter. A questão principal passa pela querela entre intenção da obra, intenção do autor e intenção do leitor. É possível termos acesso à gênese de um processo histórico? O acontecimento histórico é uma entidade em si mesmo? Qual a importância das interpretações dos indivíduos comuns sobre os acontecimentos? Existe um código a ser decifrado num acontecimento histórico? Os autores usam uma imagem para concluir suas idéias. A história é um rio, que ao receber águas de seus afluentes vai aumentando de nível. Em determinado momento as águas se dividem. Mais adiante, elas se unem novamente. Em determinados trechos, formam-se os deltas e os meandros. A água corre mais lentamente no centro do rio, mas nas suas margens elas são velozes.
Palavras-chaves: futebol, interpretação, imaginário, acontecimento.
Abstract
This essay aims at to analyze the different interpretations that a historical event can have. The main subject goes by the dispute among intention of the work, the author’s intention and the reader’s intention. Is it possible we have access to the genesis of a historical process? Is the historical event an entity in itself? Which is the importance of the common individuals’ interpretations on the events? Is there a code to be deciphered in a historical event? The authors use an image to conclude their ideas. The history is a river, that when receiving waters of your tributaries is going increasing of level. In certain moment the waters become separated. Further on, they join again. In certain spaces, they are formed the deltas and the meanders. The water runs more slowly in the center of the river, but in your margins they are fast.
Key-words: soccer, interpretation, imaginary, event.
O moleque e a bola
Apaixonados apreciadores do futebol, temos, ao longo destes anos de existência, gasto uma boa soma de 90 minutos, com este fabuloso esporte bretão! Dentre as lições que aprendemos, achamos que a mais importante de todas, obtida durante estes valiosos minutos em que nossos olhos, hipnotizados, acompanharam a mágica esfera, foi aquela que, simplesmente, diz: futebol é história e cultura.
Para aquelas pessoas que duvidarem desta afirmação, e temos certeza de que algumas duvidarão, resta-nos apenas lembrá-las, que nada exemplifica mais a cultura que a diversidade e a alteridade. Aquele que tiver a oportunidade de assistir ao bom futebol alemão, certamente ficará impressionado com a organização, quase bélica, das equipes germânicas. Os jogadores alemães se movem como Panzers em ritmo de marcha, desfilam com força para dentro do campo do inimigo, com um único objetivo: VENCER! A exemplo da cultura alemã, as seleções daquele país não são formadas só de brutalidade e organização. Há também, uma grande dose de lirismo, quase que musical, como Beethoven, ou melhor, quase barroco, como Bach, afinal o preciosismo técnico de jogadores como Breitner e Beckenbauer, sempre deu ao futebol alemão aquela arte e sem ela os alemães não teriam levantado o caneco três vezes. Nem só de batalhas vive o povo alemão. A filosofia e o espírito romântico sempre estiveram presentes na cultura daquele povo que nos deu Hegel e Goethe.
Pela esquerda os alemães atacaram de Overarth, Stielike, e Breitner, mas também contra-atacaram com Marx. E se pela direita, Seller e Muller marcaram inúmeros gols, Nietzche desenvolveu, através de Zaratustra, teorias que nem o mais radical companheiro pode deixar de respeitar. E se a filosofia e a inteligência estiveram tão presentes no pensamento alemão, dentro de campo quebrou a Hungria em 54 e enguiçou a Laranja Mecânica, vinte anos depois.
Quem pode não ver sedução nas equipes italianas? E olha que não falamos aqui dos olhos de Roberto Bettega, que nos deixaram, homens, enciumados quando as mulheres se tornaram fanáticas pelo Cálcio, pelo menos enquanto a Azzura jogava! Aliás a Itália sempre jorrou sedução. Exemplos não faltam: Sophia Loren, Claudia Cardinalle, Ornella Mutti, ou simplesmente uma “ragazza” qualquer, que nos chama a atenção ao buscarmos algo na TV a cabo e parar na Rai. A parada se torna, obrigatória!
Cerezzo, por exemplo, deve ter ficado completamente seduzido pela forma italiana de jogar, ao entregar aquele passe ao sedutor Paolo Rossi. O nosso Toninho entregou a bola a Rossi, como se entrega flores a pessoa amada e o italiano seduziu a generosa defesa brasileira, por três vezes, afinal sedutor que é sedutor, dissimula, aproxima-se da baliza do adversário e põe a bola lá dentro.
O futebol argentino, a exemplo de todo o povo da Bacia do Prata, é aguerrido, muitas vezes até demasiado. Assim são os caudilhos na vida, sempre prontos para virar o jogo, como o Uruguai fez em Cinqüenta, seja na bola, ou seja no tapa, mesmo que este seja nela mesma, como fez Maradona, contra a Inglaterra. Dieguito contudo, pôs os soldados da rainha para dançar o tango, partindo ao meio aquelas cinturas duras dos Bobs britânicos.
O futebol africano é como a África negra. O vigor físico é aliado a um ritmo inigualável! Há também uma grande dose de magia, black magic, mas a inocência ainda é uma forte característica daquele continente e submetidos pela brutalidade do homem branco, os jogadores africanos ainda se deixam seduzir e “erros” no final do espetáculo têm sido constantes, como os cometidos pela equipe dos Camarões na Copa de 86, quase no finzinho do jogo, contra o nada inocente “scratch” inglês. Aliás, este sempre alto, forte, bom de “porrada” e nada mais. Foi esta mesma inocência, que eliminou a Nigéira em 94, quando foram submetidos, quase no fim, pela sedução de Roberto Baggio.
E o futebol brasileiro? Qual é a identidade deste futebol, tetra-campeão do mundo, mulato, sem muitos recursos materiais, mas cheio de malícia e com aquele jeitinho que acerta o tempero na feijoada ou no bobó e o pé na hora do gol. É um futebol multi-cultural. Herdamos o vigor e a magia da mãe África, a malícia do pai português e a eficaz adaptabilidade do filho nativo. E se a cultura brasileira é multi-facetada, dentro de campo, apenas a face de Joãozinho me vem a memória quando penso no nosso futebol. Quem lembra dele? Era um mameluco de estatura mediana, mais para o magro, e que endiabrava seus marcadores, como pivetes endiabram os meganhas nas ruas de Rio e São Paulo. Joãozinho driblava os laterais, como o brasileiro dribla as crises e apesar de um físico meio franzino, vez por outra fazia seus gols e, quase sempre, generoso como todo bom brasileiro, dividia seus feijões de glória servindo a seus companheiros cruzamentos para que estes marcassem.
Joãozinho é a cara do brasileiro comum que com toda a sua habilidade, malícia, magia e um adorável jeito moleque consegue se adaptar e criar, em meio a toda miséria que lhe é exposta. Não fosse a truculência, a falta de escrúpulos e a corrupção dos donos da bola, certamente seríamos sempre os melhores do mundo. Mas será que aqui falamos de algum General ou de algum Almirante? Falamos de cartolas ou simplesmente do “Mercado”? É… esse Brasil tem mesmo mil faces. E a história?, que faces tem?
Intentio operis: a intenção da obra
Umberto Eco (1989) no livro The Open Work defende o papel ativo do leitor na interpretação dos textos dotados de valor estético. Entretanto, posteriormente, no livro Interpretação e superinterpetação (1993/1997), afirma que os leitores acabaram exagerando nos seus direitos de interpretar. Eco vai discorrer sobre esse excesso que ocasiona, na maioria dos casos, interpretações ruins. Para ele, há limites para a interpretação.
Nesse sentido, aduz que entre a intenção do autor (intentio auctoris) e a intenção do leitor (intentio lectoris) existe a intenção da obra (intentio operis). Por conseguinte, um texto, um documento histórico, uma obra, um acontecimento, tem uma “natureza” e caberia ao intérprete descobrir a “verdade”.
Por outro lado, Richard Rorty (1997) insiste na idéia de que devemos abandonar esta obsessão e compreendermos que os textos nos são úteis no sentido de modificarmos a nós mesmos e a partir daí o mundo. Rorty, como um pragmatista, anti-estruturalista e anti-hermetista, vai dizer que tudo o que alguém pode fazer com alguma coisa é usá-la. A busca de um sentido profundo nas obras é um desperdício de tempo. De fato, não fazemos nem descobrimos, mas reagimos a estímulos emitindo frases, pensamentos, metáforas, e inferimos outras frases destas. O nosso vocabulário é sempre final-provisório em virtude de não haver limites para as interpretações.
Rorty não está à procura das coisas como elas realmente são ou foram, mas como argumentações contínuas, em que diversos vocabulários se mostram e se constroem, criam o novo. Os conceitos, para Rorty, são mais ferramentas do que peças de um quebra-cabeças ou enigmas que, ao serem desvendados, nos mostrariam como o mundo realmente é.
Temos por um lado a crítica de Eco à superinterpretação e, por parte de Rorty, uma despreocupação com o que a obra efetivamente diz, mas com o que poderia dizer.
Interpretação, superinterpretação e subinterpretação
De acordo com Culler (1997:131), a interpretação não precisa de defesa; entretanto, o ponto crucial é a idéia de que a interpretação só é interessante quando é extrema. Diz ele que: “Muitas interpretações ‘extremas’, como muitas interpretações moderadas, sem dúvida terão pouco impacto, por serem consideradas pouco convincentes, redundantes, irrelevantes ou aborrecidas, mas, se forem extremas, terão mais possibilidade, parece-me, de esclarecer ligações ou implicações ainda não percebidas ou sobre as quais ainda não se refletiu, do que tentarem manter-se ‘seguras’ ou moderadas”.
Nesse sentido, Culler vai valorizar a superinterpretação e dizer que o que Eco entende como superinterpretação – na qual os intérpretes se distanciam da intenção da obra -, é de fato uma subinterpretação, pois, neste caso, não são interpretados elementos suficientes para a compreensão da obra.
Ao contrário de Rorty, Culler não advoga o abandono da busca dos códigos e da tentativa de identificar e compreender os mecanismos estruturais. Ou seja, não é porque as pessoas falam português que não necessitamos mais analisar as estruturas lingüisticas e seus mecanismos.
Para Culler, tanto Eco como Rorty repudiam a desconstrução. No caso de Eco, o ataque é feito à desconstrução empreendida pelo leitor que altera a intenção da obra. Já Rorty critica a desconstrução que se preocupa em encontrar as estruturas que só tentam identificar o que está na obra, sem ultrapassá-la.
A interpretação de um acontecimento histórico, à luz de uma perspectiva em que espaço e tempo não estejam dissociados, permitem-nos encontrar uma outra via nessa discussão.
Em primeiro lugar, o ponto de vista do intérprete é fundamental na análise de um acontecimento. O intérprete é parte estruturante do processo interpretativo.
Em segundo lugar, consideramos que efetivamente um acontecimento não contém em si uma “verdade”. Essa verdade, se é que possamos usar este termo, é um conjunto de idéias argumentadas e que, pelo menos em parte, são aceitas pela comunidade científica, num determinado contexto.
Em terceiro lugar, a concepção de que os contextos são ilimitados, permitem-nos inferir que, nesse aspecto, as interpretações também são ilimitadas. Entretanto, ao delimitarmos um contexto em que um acontecimento histórico provavelmente tenha ocorrido, poder-se-ia estabelecer um campo razoável para a interpretação, pois os mecanismos interpretativos não podem ser configurados a priori; eles funcionam recorrendo a outros processos. Por exemplo, o termo “Bulelê” poderia dar a entender que alguém estivesse pedindo alguma coisa? Não há como se estabelecer de antemão um limite para interpretar que “Bulelê” significa que alguém quer alguma coisa.
No entanto, se recorrermos a processos interdisciplinares de interpretação, talvez pudéssemos nos aproximar de uma interpretação próxima do real.
Daniel é filho de um dos autores deste artigo, quando ele era ainda um bebê, repetia incessantemente o termo “Bulelê”. Ninguém conseguia entender, a princípio, o que queria dizer tal termo. O menino percebendo que não era compreendido, passou também a estender os braços em direção ao pai. Isto significava que ele queria o que estava nas mãos do pai. Aquela expressão já intrigava o pai há algum tempo. Certo dia, pai e filho foram à casa da avó do menino e o enigma foi decifrado. Sempre que a avó ia dar algo para o neto ela dizia: “é pro nenê”.
Efetivamente, é muito difícil, senão impossível, termos acesso à genese de um processo histórico, mas recorrendo a plurimetodologias e respeitando as diversas interpretações sobre um acontecimento, por mais extremas que elas sejam, abrimos a possibilidade de contribuirmos para a compreensão dos acontecimentos históricos.
A propósito, como poderíamos interpretar O moleque e a bola? Joãozinho realmente existiu? Que importância tem se ele existiu ou não? Qual era a verdadeira intenção do autor quando escreveu o texto? É possível descobrir a verdadeira intenção do autor? A obra pode ser considerada uma entidade em si mesma? O acontecimento é intrinsecamente determinado por ele mesmo? No nosso ponto de vista, a história encarada como algo que tenha uma intentio operis despreza a inteligência do homem comum. Se a história se constitui, independetemente, das interpretações que os indivíduos realizam, de que serve a história? Se há uma intentio auctoris na história, que nós devemos descobrir, é um trabalho impossível de ser realizado, pois a intenção do autor é inatingível.
Salman Rushdie (1985: 85-90 passim) diz: “Eu também me defronto com o problema da história: o que reter, o que eliminar, como me manter fiel ao que a memória insiste em abandonar, como lidar com a mudança. (…) Todas as histórias são perseguidas pelos fantasmas das histórias que poderiam ter sido”.
A história, no nosso ponto de vista, é obra de uma intentio lectoris. Os indivíduos, ao realizarem os seus processos de interpretação dos fatos, vão construindo um conjunto de elementos que se incorporam ao imaginário coletivo. Este imaginário é ágil, transformador e criativo. Não é uma rocha encravada no fundo do oceano, mas sim a parte submersa de um iceberg que se desloca e se manifesta a partir das interpretações que nós realizamos no nosso cotidiano. Ou se preferirmos usar uma outra imagem, a história é um rio, que ao receber águas de seus afluentes vai aumentando de nível. Em determinado momento as águas se dividem. Mais adiante, elas se unem novamente. Em determinados trechos, formam-se os deltas e os meandros. A água corre mais lentamente no centro do rio, mas nas suas margens elas são velozes.
Referências Bibliográficas
CULLER, Jonathan. Em defesa da superinterpetação. In: Eco, Umberto. Interpretação e superinterpretação. São Paulo, SP: Martins Fontes, 1993.
ECO, Umberto. Interpretação e superinterpretação. São Paulo, SP: Martins Fontes, 1993.
ECO, Umberto. The Open Work. Cambridge, MA, 1989.
RORTY, Richard. A trajetória do pragmatista. In: Eco, Umberto. Interpetação e superinterpretação. São Paulo, SP: Martins Fontes, 1993.
RUSHDIE, Salman. Shame. Londres: Jonathan Cape, 1985.
Trabalho elaborado em parceria com Paulo Kastrup Albuquerque.
*Carlos Alberto Figueiredo da Silva exerce, atualmente, o cargo de Pró-reitor de Ensino do Centro Universitário Augusto Motta e atua como professor titular da Universidade Salgado de Oliveira, no programa de mestrado em Ciências da Atividade Física. Possui graduação em Educação Física pela Universidade Gama Filho (1979), graduação em Direito pela Universidade Federal Fluminense (1993), especialização em Didática e Metodologia do Ensino Superior pela Universidade Estácio de Sá (1995), mestrado em Educação Física pela Universidade Gama Filho (1997) e doutorado em Educação Física (Área de Concentração: Educação Física e Cultura) pela Universidade Gama Filho (2002). Atua como professor no ensino superior desde 1979. Além da docência, implantou o curso de Licenciatura em Educação Física e exerceu o cargo de coordenador no Centro Universitário Celso Lisboa (2002). Foi coordenador do curso de Licenciatura em Educação Física do Centro Universitário Augusto Motta (2003 a 2005). Exerceu os cargos de Pró-reitor de Pesquisa e Pós-graduação (2007 a 2009), Pró-reitor de Pesquisa (2006 a 2007) e Diretor de Pesquisa no Centro Universitário Augusto Motta (2005). Além de atuar no ensino superior, foi professor no Ensino Fundamental e Médio no Colégio da Cidade e professor concursado pelo município de Duque de Caxias, atuando no CIEP Célia Rabelo, no Ensino Fundamental. Na área esportiva foi treinador de basquetebol em diversos clubes do Rio de Janeiro e também no desporto universitário, técnico da seleção carioca feminina de basquetebol universitário, bem como desenvolveu ações em projetos sociais esportivos na Cidade de Deus e na Mangueira pela Fundação Roberto Marinho. Tem experiência na área de gestão acadêmica, pesquisa e educação física, atuando principalmente nos seguintes temas: esporte e desenvolvimento local, educação física, etnometodologia, esporte educacional, racismo-esporte-mídia e inclusão social.
Por Carlos Alberto Figueiredo da Silva, em 12/11/2009 - 00:01. Você pode acompanhar as respostas a este texto acessando o leitor RSS 2.0.

























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