A festa de Ogum no Rio de Janeiro: a construção do sentimento de pertencimento.

Por em 23/04/2010


São JorgeFigura 01.

Filho de Iemanjá, Ogum tem sua importância destacada pela ligação com os metais, principalmente o ferro, matéria-prima básica para os instrumentos utilizados por caçadores e agricultores. É associado atualmente à metalurgia e à siderurgia, representando, dentro do panteão africano, um símbolo da Revolução Industrial. Não é a toa que muitas das oferendas à Ogum são realizadas em ferrovias, simbolizando a abertura dos caminhos diante do elemento ferro. Por conta dos metais, Ogum passou a ser associado à guerra, desviando seu papel de comandante das atividades agrícolas para a atividade bélica e passando a ser o “Vencedor das demandas”.

OgumFigura 02.

As ferramentas de Ogum, todas em ferro, simbolizam a transformação, já que se tornam úteis (interação) à produção no momento em que são forjadas em altas temperaturas (fogo como a mente). O ferro, portanto, é o símbolo dos objetos que servem aos seres humanos, tornando-os produtivos à sociedade e salvando-os do mal, fato que pode ser percebido na espada de São Jorge.

Santo AntônioFig. 01, 02 e 03: Ogum, Santo Antônio e São Jorge – senhores da guerra e protetores contra a maldade do Mundo.

O simbolismo de guerreiro acabou ocasionando a aproximação de Ogum com São Jorge (Rio de Janeiro) e Santo Antônio (Bahia). Em Salvador, durante as invasões holandesas, Santo Antônio foi visto como um “santo militar”, dada a popularidade de seus milagres. Para a população da cidade, o Santo foi responsável pela defesa e libertação da capital baiana, sendo associado ao Orixá guerreiro, Ogum. No caso do Rio de Janeiro, São Jorge, nascido na Capadócia (atualmente território turco), se aproxima do imaginário de Ogum pela qualidade de soldado montado em seu cavalo branco (símbolo da pureza), lutando contra um dragão (o mal, Satanás), representados comumente pelas imagens comercializadas nas casas de Umbanda (COSTA, 1983, p.208). A princesa que aparece nas telas européias, que poderia representar a Fé cristã ou a própria Igreja, não aparece nas representações do santo guerreiro (TRINDADE, LINARES e COSTA, 2008, p.149-150).

Senhor da Guerra, indomável e imbatível defensor da lei e da ordem, Ogum assume de guardião cujo papel é de defensor dos fracos, protege as estradas e os que estão sob demanda. Esse atributo explica porque o Orixá é o padroeiro dos policiais, que usam suas armas para a proteção da população, e dos caminhoneiros. (http://www.umbanda.etc.br/orixas/ogum.html. Acessado em 24/07/2009).

Estudando a espacialidade do sagrado, especificamente no Candomblé, Corrêa (2008) nos fornece elementos preciosos sobre como o uso de vestimentas, artefatos, cores e adornos alicerçam o processo identitário dos praticantes como grupo sóciorreligioso. Segundo a autora, “a identidade, fomentada nas ações de significar objetos e coisas em especial, se realiza sob a estratégia de portá-las nos corpos através das vestes, dos adornos e bens religiosos (..)” (p.169). Esse processo, donde o corpo, durante a festividade, se torna um suporte signico e as vestes e objetos operam como marcas que passam a designar a identidade do grupo (p.170), também pode ser percebido na Umbanda, onde os signos presentes nas vestes, imagens e objetos dos Orixás sincretizados com os santos católicos possuem significados que engendram a constituição do grupo.

Através desse exemplo, portanto, percebemos que a materialidade da experiência social é essencial, mas nunca deve estar dissociada da natureza simbólica e subjetiva. “Na construção da identidade não é possível pensar de forma dissociada sua natureza simbólica e subjetiva (representações) e seus referentes mais “objetivos” e “materiais” (a experiência social em sua materialidade)” (CRUZ, 2007, p.99).

A partir dos sistemas de representação, os indivíduos podem se posicionar, se tornar sujeitos, pois as representações incluem as práticas de significação e os sistemas simbólicos por meio dos quais os significados são produzidos. O que somos só tem sentido a partir dos significados produzidos pelas representações. Os sistemas simbólicos fornecem novas formas que dão sentido à experiência das clivagens e disparidades sociais e aos meios pelos quais alguns grupos são excluídos e estigmatizados (WOODWARD, 2000, p.17).

*Marcelo Alonso Morais é professor de Geografia do Colégio Santo Inácio, no Rio de Janeiro, e tem mestrado em Geografia das Religiões.

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Por Marcelo Alonso Morais, em 23/04/2010 - 00:03. Você pode acompanhar as respostas a este texto acessando o leitor RSS 2.0.

2 respostas to “A festa de Ogum no Rio de Janeiro: a construção do sentimento de pertencimento.”

  1. Bruno Fernandes Carvalho

    Prezado Professor Marcelo,

    Mais uma vez, venho parabenizá-lo pelo texto. Gosto tanto deles que, hoje, ainda sexta, fiz questão de vim ler esse, que você já me dissera segunda que enviaria.
    Além do uso de variadas fontes de consulta, destaca-se, novamente, a felicidade em aproximar e explicar a origem da “semelhança/correspondência” entre, por exemplo, Ogum x São Jorge ( RJ ) x Santo Antônio ( BA ) .

    Bruno.

    #691
  2. Adílio Jorge Marques

    Caro Marcelo,

    Parabéns mais uma vez por nos informar sobre as raízes de nosso povo!
    Abraços,

    Adílio.

    #694

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