A Era da negação
A moda agora é negar. Negar que recebeu, negar que pagou, negar que sabia… Essa onda vem de cima e avalancha (nego que criei esse verbo esdrúxulo) tudo e todos. Negar é mais fácil, a gente se exime de tudo.
Negro nega que é negro. Pobre nega que é pobre. Até rico anda negando que é rico. Vejam só onde chegamos. Uma negação total.
E essa onda negativa acaba de tomar conta inclusive do último foco de resistência que havia: o meio literário. Não todos, mas quase (percebam aqui também a negação). Depois de ouvirem nosso presidente negar a leitura, dizendo que lhe dá azia, e que não consegue ler muitas páginas porque lhe dão sono, muitos novos autores acham que podem tornar-se escritores sem ler. E muitos velhos autores acham que podem negar tudo de novo que se produz. Mas o presidente fez pelo menos uma afirmativa, o que nos salva da negação absoluta. Ele assegurou: “Vejo televisão, quanto mais bobagem, melhor.”.
Confesso que eu, que trabalho para a literatura há anos, vejo meus esforços renegados diante desta frase da maior autoridade do país. Ouso afirmar, no meio disso tudo, que essa crise “negatória” não passa de um problema de identidade. Não sabemos quem somos, nem de onde viemos, nem onde estamos.
Digo “nem onde estamos” pois muitos tem vergonha de se dizer brasileiros, gaúchos ou caxienses. A alcunha de “escritor caxiense”, por exemplo, soa como um estigma para alguns, que em suas cabeças desavisadas parecem residir em Paris ou em Nova Iorque. Confundem sua pessoa, que mora em uma cidade localizada geograficamente, com sua obra, que pode ou não ser universal. E pregam a distinção entre autor e obra. Mas a contradição vai sem rédeas quando esses burocratas da literatura negam que haja uma fórmula para a arte e ao mesmo tempo dizem que não há caminhos duplos. Como assim? Se não há uma fórmula é porque existem vários caminhos, duplos, quíntuplos. A negação pode ser muito contraditória. Cuidado!
Sempre desconfiei de pessoas que vivem com o “não” na boca. Negam a terra, negam a liberdade, negam até a arte, criando fórmulas escamoteadas nas entrelinhas de seu discurso proibitivo.
É hora de assumirmos nossa identidade, planejarmos nossas ações e, de uma vez por todas, dizer SIM às nossas origens e à nossa literatura.
*Uili Bergamin nasceu em Bento Gonçalves, RS, no dia 02 de fevereiro de 1979. Destaca-se por sua escrita concisa, e pela busca das palavras certas, que encaixam perfeitamente ao texto. Bergamin é também colunista em jornais e revistas de circulação em Caxias do Sul e região.
Obras publicadas
O Sino do Campanário (2005, contos, Editora Maneco) Coletânea de catorze contos e obra inaugural do autor. Apesar do título, não é propriamente um livro religioso. Talvez seja antes o contrário. O conto que nomeia a obra, por exemplo, narra a história de um padre que, aos 70 anos, revê sua vida e relembra um grande amor do passado. A solidão do celibato, a angústia de estar teminando de viver, o fracasso de uma vida que não realizou seus sonhos nem o de seus pais, faz com que transfira suas dores ao sino de sua igreja, como única forma de redenção. Praticamente todos os contos têm como fio condutor a crença, o amor e a dúvida. Seus contos são independentes e escritos de maneira simples, porém, seu texto é polêmico e questionador, e incita à reflexão sobre crenças, verdades e dogmas.
Cela de Papel (2006, novela, Editora Maneco) Novela fragmentada, com nuance autobiográfica. É uma fantasiosa alegoria sobre a arte da leitura. Repleta de metalinguagens.
Do Útero do Mundo (2007, poesias, Editora Doravante) Impiedosos e intensos, luminosos e sombrios, a maioria dos poemas que compõem a obra já obteve alguma premiação literária. Do Útero do Mundo vem sendo muito elogiado pelos leitores e também pela crítica.
Por Uili Bergamin, em 16/03/2010 - 00:02. Você pode acompanhar as respostas a este texto acessando o leitor RSS 2.0.

























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Texto muito interessante. Gostei!