A corrosão do caráter… e da escola

Por em 05/06/2010


Aluno desmotivadoAcabo de reler o belo livro A corrosão do caráter, de Richard Sennett (Rio de Janeiro: Ed. Record, 10ª edição, 2005). Desde a primeira leitura, fiquei com a impressão de que este instigante texto poderia suscitar outras questões, embora, de início, não tenha ficado bem claro como ou quais. Na releitura, tornaram-se mais evidentes para mim os riscos e reflexos dos argumentos do autor para a formação escolar dos jovens, pois acredito que não se podem desvincular as consequências impostas, no trabalho, pelo novo capitalismo sobre as pessoas, daquilo que elas próprias passam a exigir da sociedade da qual fazem parte. E este processo, naturalmente, não deixa de fora as expectativas com relação à Escola. Portanto, não resisti a fazer a seguinte extrapolação: não há como desvincular essa tendência de corrosão do caráter, de grande impacto social, ético e moral, de uma particular concepção de Escola. Se isto é verdade – o que seria muito triste –, estamos presenciando um processo de amplificação desta corrosão do caráter a partir da escola, que acabará retroalimentando o próprio processo de degradação do caráter, criando um círculo vicioso nefasto. Neste ensaio pretendo apenas esboçar quais podem ser estas interrelações.

Mas – perguntaria logo o leitor – onde está esta corrosão do caráter? Para Sennett, como aparece resumido na orelha do livro, “o desenvolvimento do caráter depende de virtudes estáveis como lealdade, confiança, comprometimento e ajuda mútua. Características que estão desaparecendo no novo capitalismo. Em alguns aspectos, as mudanças que marcam este novo sistema são positivas e levaram a uma economia dinâmica, mas também corroeram a ideia de objetivo, a integridade e a confiança nos outros, aspectos que gerações anteriores consideravam essenciais para a formação do caráter”.

Sua premissa inicial é que o modo de sobrevivência na economia moderna pode colocar a vida emocional das pessoas à deriva. Estamos todos expostos a uma forte tendência de se “reinventar decisiva e irrevogavelmente as instituições, para que o presente se torne descontínuo com o passado”. Justifica-se, assim, a dificuldade de os indivíduos construírem suas próprias histórias, a partir de suas experiências profissionais e de seus laços de dependência com outros indivíduos. Uma consequência direta deste fato é que as pessoas tendem a viver apenas o presente. Sonhar passa a ser mais difícil, quando as incertezas de se manter o que se conquistou profissionalmente se tornam significativas. A enorme flexibilização do trabalho, por um lado, busca uma adaptação rápida à sempre crescente volatilidade da demanda do consumidor e, por outro, implica a aceitação de que “não há longo prazo”. Acredito, assim como o autor, que tal expressão contém o princípio da corrosão de valores como a confiança, a lealdade e o compromisso mútuo. Deste modo, o espectro da volatilidade se alarga, extrapola as fronteiras da Economia, e se infiltra nas relações sociais. Além disso, Sennett muito bem observa que, na área familiar, esta expressão significa “mudar, não se comprometer e não se sacrificar”.

Vejo, há muito, reflexos evidentes disto na Universidade na qual dou aula e no contato frequente com vários adolescentes do ensino médio. A ideia de que o aprendizado deva necessariamente envolver esforço parece, hoje em dia, uma ficção, ou mesmo uma fantasia. Os alunos não estão dispostos a fazer sacrifícios, a fazer exercícios e a lerem muito sobre o que estão aprendendo. Mas, obviamente, não se pode por a culpa só neles. A escola, desde cedo, tem sido incapaz de formar esta conscientização no jovem, tampouco é capaz de despertar o hábito da leitura, essencial para a boa formação de qualquer cidadão. Também a Escola se tornou superficial. Aliás, “superficial” é uma palavra que designa bem os dias de hoje, quando se vê que os jovens não namoram mais, apenas “ficam”, denotando que, mesmo no campo afetivo ou do amor, se aceita como premissa que “não há longo prazo”. Superficial é ainda o mundo do videoclip, o mundo globalizado onde alguns propalam vantagens globalizantes da Internet. Entretanto, não podemos esquecer que esta poderosa ferramenta é também um convite à superficialidade. Tony Rothman, por exemplo, afirma, no livro Tudo é Relativo (São Paulo: Difel, 2005), que “a Internet tem a largura de uma galáxia e a profundidade de um dedo”. Os alunos não têm mais qualquer tipo de interesse em se aprofundar em qualquer que seja o assunto. Fazer um trabalho ou uma “pesquisa” passou a ser sinônimo de um simples e direto “copy and paste”.

Voltando à escola, independente do nível de escolaridade, há que se admitir que os padrões de qualidade e de dificuldade têm diminuído significativamente no último século. E Sennett, analisando a flexibilização do trabalho, vê um terrível paradoxo, no fato de que “quando diminuímos a dificuldade e a resistência, criamos as condições mesmas para a atividade acrítica e indiferente por parte dos usuários”. Creio que o mesmo se aplique para a escola. Alunos acríticos serão consumidores ideais. Outra característica do mercado que o autor destaca é que cada vez mais ele se constrói a partir da lógica de “o vencedor leva tudo”. Portanto, é inevitável que “a competitividade predisponha ao fracasso um número cada vez maior de pessoas educadas”. O que é grave nisto é que inevitavelmente, com o tempo, levará cada vez mais as pessoas a se perguntarem: Escola para que?

O último comentário que gostaria de fazer diz respeito à necessidade de se lançar um novo olhar tanto para o capitalismo quanto para a Escola, que está bem sintetizado nestas palavras: “O esforço para controlar de fora o funcionamento do novo capitalismo precisa ter um raciocínio diferente: deve perguntar o valor da empresa para a comunidade, como ela serve mais a interesses cívicos que apenas ao livro-caixa de lucros e perdas”.

Sennett conclui o livro reiterando a seguinte convicção, que comporta uma dose de esperança: “Mas sei que um regime que não oferece aos seres humanos motivos para ligarem uns para os outros não pode preservar sua legitimidade por muito tempo”. Afirmativa análoga pode ser feita com relação à instituição Escola. Com uma dose ainda maior de esperança, me atrevo a sonhar que uma nova Escola possa contribuir para a revisão externa do capitalismo, formando indivíduos conscientes da força de seu caráter.

*Francisco Caruso é físico, escritor e bibliófilo, pesquisador titular do CBPF e professor associado da UERJ. Co-autor do livro Física Moderna: Origens Clássicas e Fundamentos Quânticos, que recebeu o Prêmio Jabuti em 2007. Membro do Pen Club do Brasil e agraciado com a Ordem do Mérito Científico da Academia Roraimense de Ciências.




Por Francisco Caruso, em 05/06/2010 - 00:03. Você pode acompanhar as respostas a este texto acessando o leitor RSS 2.0.

16 respostas to “A corrosão do caráter… e da escola”

  1. Adílio Jorge Marques

    Prezado Professor Caruso,

    É com grande satisfação que leio o seu texto. Realista e descompromissado com todo o esquema de educação capitalista que praticamente culminou, por exemplo, com o fim do ensino público e gratuito de qualidade. Seu texto nos remete também a reflexão de nossa função nas instituições de ensino, aos métodos empregados, ao “pedagogismo” desenfreado ou sem lógica, e ao estado da própria sociedade.
    Os valores desapareceram com a desestruturação da família e da escola. Realmente, “tudo é relativo”, e como nos diz o sociólogo Z. Bauman, tudo é “líquido”, há uma “insegurança presente globalmente derivada”, entre outras coisas, de uma definição de modernidade como a “época, ou o estilo de vida, em que a colocação em ordem depende do desmantelamento da ordem “tradicional”, herdada e recebida; em que “ser” significa um novo começo permanente” (O mal-estar da pós-modernidade, p. 20).

    Parabéns, e que seu texto mantenha a discussão sempre em aberto do momento em que estamos vivendo.

    Abraços,
    Adílio.

    #821
  2. Cristina Silveira

    Excelente seu texto, como sempre!
    Parabéns pelas reflexões tão profundas. Que sejam ponto de partida para tantas outras.

    #822
  3. Alberto Santoro

    Caruso,
    Ao ler seu texto nos dá vontade também de ler o Senett. Coloca com as palavras certas a situação de robotização que vivemos. Não há mais sentimentos que abalam toda essa nova geração. “Ser racional” infelizmente virou isto. É muito frustante ao terminarmos uma aula ou uma palestra e ver o público imóvel. “Essa montagem” vem de longe, desse homem do presente. Não precisam de quem pensa mas de quem se comporta como robot. A própria organização social, judiciária, do trabalho, leva a tudo isto. O “formal” exigido pelo Patrão ainda que ele seja o Estado, é lamentável. Isto expica, sucessos dos emails-convites para um chop, para uma festinha, e a não-resposta a questões mais sérias.
    Finalmente, o artigo nos leva a imaginar e a compreender, a verbalizar o presente.
    Parabens!

    #823
  4. Ronaldo Bomfim

    Caruso,
    Parabéns pelo texto, instigante e oportuno. O problema atual é que os ambientes onde os jovens formam o caráter estão em franca desestruturação, especialmente a família e a escola. As crianças crescem em um clima de consumismo exacerbado, alimentado pela máquina publicitária, que resulta na excessiva valorização de bens materiais que simbolizam status. Os exemplos que a juventude recebe da sociedade – de governantes, de líderes sociais, de políticos e até de magistrados – são os piores possíveis. E é o maestro que dá o tom da orquestra.

    #824
  5. Marcia Chame

    Caruso
    Como sempre você transpõe para a escola as coisas da vida! Talvez por que você saiba tão bem que a escola ajuda a estruturar a vida, ou ao menos deveria. Mas, o que me chama a atenção é que a corrosão do caráter também parece corromper as emoções. Oservamos um mundo apático, no sentido criativo, ao mesmo tempo que as pessoas se movem por somente por prazer. Parece ilógico, mas é o que observo na busca de todos por se manterem sempre em movimento. É possível que nos falte calma, tempo, para refletir, pensar e não nos deixar levar….
    Obrigada, por me fazer para para pensar.
    Um grande abraço

    #825
  6. Alfredo Marques

    Meu caro amigo Caruso:
    Seu artigo ilumina o terreno sombrio onde convivem os personagens do drama atual da escola, tornando visíveis os contornos de suas assombrações.
    De fato, contra tais pressões de fora há pouco a fazer de dentro do sistema educativo com força bastante para resistir à deterioração progressiva. O culto ao corpo, ao belo, ao sucesso – metas hedonistas de sociedades que ainda sofrem de carências e restrições diversas – substituiram os valores de realização pelo trabalho, de solidariedade e companheirismo. Sem menosprezar o valor que têm as medidas quantitativas, não será, entretanto, com maiores orçamentos para a educação, mais exames, mais professores, etc, que tais problemas poderão sequer ser tocados.

    #826
  7. jose alexandre da silva

    Com a leitura do artigo escrito pelo meu grande amigo Caruso pude compreender a reflexão do escritor gênio José Saramago, é como se o Caruso a tivesse lido e resolvesse interpretá-la para nós. Sorte nossa.

    “Vivemos todos numa espécie de Luna Park audio-visual. Onde os sons se multiplicam, onde as imagens se multiplicam e onde nós, creio eu que isso vai acontecer, vamos cada vez mais nos sentir perdidos. Perdidos, em primeiro lugar, de nós próprios. E em segundo lugar, perdidos na relação com o mundo. Acabamos por circular por aí sem saber muito bem o que somos, nem para que servimos, nem que sentido tem a existência.” – José Saramago.

    #827
  8. [...] Artigo em site externo: A corrosão do caráter… e da escola [...]

    #828
  9. José Roberto Mahon

    Parabéns Caruso, pelo texto claro.
    Infelizmente estamos vendo isso em nossos alunos… mas corrosão do caráter vem de todos os lados… começando com a corrosão da familia… do governo… dos empresários… etc…
    claro chega na escola… infelizmente.
    Parabéns pela forma lucida do texto

    #830
  10. Vitor

    Esta discussão toda é apocalíptica demais, sugiro ao autor a leitura de Apocalípticos e integrados, do Umberto Eco. Apesar de gostar da iniciativa de discussão, acredito que a mesma se limita a medida em que faz uma análise de caráter meramente moral, embora muitas das críticas sejam bastante pertinentes.

    #831
  11. Estimado amigo Caruso

    Para mim, já é um lugar-comum dizer que seus textos são excelentes e atuais. É claro que a corrosão política que acontece no mundo ela afeta tudo, principalemnte o ensino, que, a meu ver, nada mais é do que uma Ação Política no sentido que deveria dar ao aluno a capacidade de entender o que está acontecendo com o que lhe está sendo ensinado.
    Um abraço amigo do
    Bassalo

    #835
  12. José Israel Vargas

    Meu caro Caruso,
    Gostei muito de seu artigo. Oportuno, face a degringolada de nosso ensino. Não acredito que o fenômeno seja exclusivamente global, entre nós. Há componentes locais, com raízes que encontram-se no ensino primário, com a desvalorização da função docente. Possivelmente influenciada pela maldito dispositivo constitucional que criou o “regime jurídico único”, criado não pelo capitalismo, mas pelos anseios igualitários de certa esquerda brasileira. Veja que, na Europa, e nos Estados Unidos, uma professora primária ganha cerca de 80% do salário de um titular das Universidades,com as clássicas exceções das grandes – Oxford, Harvard, etc. Aqui a pobre professorinha ganha 1020,00, para 40 horas de carga horária. Bibliotecas, nem falar! Apenas cerca de 5000, em todo o território nacional. A lista de descaminhos é demasiadamente longa. Deixo-a resevada para conversa pessoal aí no Rio.
    Abraço fraternal de
    José Vargas

    #852
  13. Fábio Antonio Rezende

    Caro Caruso

    Parabéns pelo artigo! Atual e pertinente. Vejo que ele provocou uma boa discussão à qual gostaria de adicionar um comentário, discordando do que disse um dos leitores. Não vejo o artigo como apocalíptico. Ao contrário, ele baseia-se em uma análise lúcida calcada em exemplos reais analizados por Sennett em seu livro. Claro que o autor está preocupado com os impactos diretamente ligados ao ambiente de trabalho. Sua generalização do problema foi muito feliz, vendo reflexos na Escola. Em meu entendimento, ela extrapola questões apenas de natureza moral, abarcando questões éticas, cíveis entre outras. Sugiro ao Vitor que leia também o livro citado no artigo do Caruso. Com certeza, ele terá uma nova visão do problema. Um forte abraço, Fábio.

    #853
  14. Senhor Caruso,
    Entrei no link por causa do João Cândido. Li o título do seu artigo e me interessei.
    Sou artista plástica, e uma mulher de casa muito simples. Tenho quatro filhos, e sinto uma necessidadde imensa de preservar valores como lealdade, comprometimento consigo mesmo, e com nossas verdades internas. Confesso ser esta uma tarefa árdua, pois as informações externas, colaboram ao contrário.
    Até comigo mesma, se não há um vigilância constante, sito-me perder.
    Tronar-se um ser humano comprometido com a verdade, é tarefa diária e contínua.
    Gostei que alguém esteja tratando deste assunto, e por isto agradeço e compartilho.

    #856
  15. Senhor Caruso,
    Entrei no link por causa do João Cândido. Li o título do seu artigo e me interessei.
    Sou artista plástica, e uma mulher de casa muito simples. Tenho quatro filhos, e sinto uma necessidadde imensa de preservar valores como lealdade, comprometimento consigo mesmo, e com nossas verdades internas. Confesso ser esta uma tarefa árdua, pois as informações externas, colaboram ao contrário.
    Até comigo mesma, se não há um vigilância constante, sito-me perder.
    Tornar-se um ser humano comprometido com a verdade, é tarefa diária e contínua.
    Gostei que alguém esteja tratando deste assunto, e por isto agradeço e compartilho.

    #857
  16. Armando Tavares

    Amigo Caruso,
    excelente a sua discussão. Entretanto,me parece que isso está acontecendo em todos os regimes políticos pelo mundo, não seria uma prerrogativa do neocapitalismo. Me parece que em todos os “neoregimes” aos quais estamos submetidos, essa exarcebação do imediato e do superficial está aumentando…

    #2409

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