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A chegada do novo

A chegada do novoMuito precisa ser feito para resgatar socialmente minorias étnicas, raciais, religiosas e outras discriminadas por suas livres escolhas comportamentais. Registramos um portentoso progresso nos últimos cem anos comparando-se com os séculos anteriores. Deram-se avanços juntamente com a expansão da consciência, com o reconhecimento apenas do “óbvio” que se incorporou nos costumes da população. O que era “normal” no século XVIII, como deportar, destratar, açoitar, enforcar e exterminar, passou a ser crime, e, mesmo que não o fosse, hoje, felizmente, não se coadunaria com algo de minimamente civilizado. Não há quem duvide de que discriminar uma pessoa pela cor da pele é errado, estúpido e reprovável, além de antissocial.

Vivemos como nunca uma fase de aceleração civilizatória. Basta considerar que as últimas cinco gerações progrediram mais que as 50 que as antecederam. Essa mesma progressividade sinaliza que outras mudanças marcantes ainda estão por vir, mais intensas que as registradas no século XIX e que se aceleraram depois de 1968, quando também a juventude ocupou praças e se revoltou. O tempo executa sua tarefa, abre e fecha feridas, apaga até cicatrizes.

Anos? Gerações? Séculos? Incrível como em apenas um mês de manifestações de ruas já se possa sentir um envelhecimento fulgurante de atores e de cenários que pareciam destinados a persistir incontestados e inabaláveis. Aí enraizados para torturar quem se apercebia do gigantismo da injustiça, do acinte, da desgraça.

Veja-se ainda como essa “virada de página” assusta quem tem privilégios injustos. E agora, como fica? Será que os revoltosos se recolherão e tudo voltará ao que era? Pouco provável. Estamos como a bordo de um asteroide evolutivo, com trajetória incerta, mas irrefreável, nunca mais voltaremos ao que éramos.

Valores estão mudando, alguns se intensificando. Apenas usando-se de desapego pessoal, com mente mais aberta para o “novo”, talvez confortada pelas palavras de sábios, se poderá entender que esse processo de justiça social, que embebe as pessoas, será benéfico ao sistema.

ESCRAVIDÃO

Se a escravidão era defendida e aceitável no século XIX, muitos costumes atuais serão vistos em breve como obsoletos, ridículos. As pessoas do amanhã se perguntarão como nós, desta geração, toleramos tantas “injustiças” bárbaras e primitivas. Burocracias, impostos, desperdícios, falcatruas, governantes assumidamente defensores da corrupção. Hipersalários, supermordomias, milhares de cargos sanguessugas, desrespeitos aos direitos de assistir doentes, crianças, desamparados. Trens-bala no lugar de metrôs etc.

A geração que vem aí não terá como tolerar e, quando assumir maior responsabilidade econômica e social, impulsionará mudanças que os atuais ocupantes do poder não conseguem. Como aconteceu com a “geração de 68”, à qual pertenço, conseguirão quebrar tabus e, com sua exuberância, realizar grandes avanços, livrando-se de safadezas e de demagogos baratos.

Não será fácil, como já foi, manobrar massas. A circulação das informações elevará a capacidade cognitiva, a crítica e a autocrítica. O tempo, melhor juiz e remédio da história, realizará sua inexorável tarefa de sepultar o que mais não serve.

Nesse aflorar de consciência, se entenderá que rotular minorias é uma ofensa, que o Estado autoritário, leniente com a corrupção e os desperdícios, não tem atributos morais para ditar normas legais e sociais.

PLANTIO DE BATATAS

Na semana passada, entre os descalabros de uma sociedade alienada pela burocracia e pela corrupção, por gente descomprometida com o processo civilizatório, entrou em vigor uma exigência de apresentação de relatório arqueológico para licenciar plantio de batatas ou qualquer outro produto. Sim, porque, segundo o delírio e a fome de arrecadação num território de 29 milhões de quilômetros quadrados como é o Brasil, e que de arqueológico não possui uma milionésima parte, é preciso agora, antes de semear, se certificar de que alguma civilização extraterrestre não tenha passado pelo pedaço. Nem na Itália, crivada de patrimônios arqueológicos, existe essa estultice, sancionada por eminências brasileiras.

Esse é o Estado que nega consciência cívica, que pune, que abusa de autoridade, que é cínico em suas pretensões. Tem razão esta geração de escrachar e perseguir políticos, de querer saber como se gasta a suada arrecadação para sustentar quadrilhas de larápios.

A abordagem mais civilizada é de educar, não de punir, de conscientizar, de dar exemplos, de premiar quem respeita as regras. A sociedade tem que premiar quem abriga minorias, quem preserva as matas, quem assume o papel social que o Estado, perdido em corrupção e bandalheiras, não consegue. Mas só se fala de cotas, de multas, de penas, como se todos fôssemos bandidos, e os legisladores, santos.

Os atuais governantes ficarão mal situados, muito em breve, na moldura da história que se acelerou.

Artigo publicado no site Tribuna da Internet

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