À beira do paraíso educacional

Por em 17/09/2009


middlebury-collegeAcima, parte do campus do Middlebury College.

No verão de 2006, recebi um convite para participar do programa de português do Middlebury College, em Vermont (EUA), na qualidade de “Writer in Residence”. Na ocasião, proferi palestras sobre literatura e sobre meus livros para os alunos. Em 2007, retornei, mas na condição mista de escritor e professor, o que me levou a dar aulas regulares, para tratar de temas de literatura. O programa de português, ao lado dos de francês, espanhol, italiano, japonês, chinês, russo, árabe, é um dos cursos de línguas oferecidos durante o verão (no mês de julho inteiro e parte do mês de agosto). São cursos intensivos, mais conhecidos como “de imersão”, ou seja: os alunos de várias nacionalidades, sob juramento, deixam de lado a língua materna e, evidentemente, o inglês, e se propõem, no espaço de sete semanas, a aprender, a falar e a escrever apenas o idioma escolhido para estudo. Para tanto, são “confinados” no campus, de onde só podem sair com autorização especial. Além das aulas de cultura, de gramática, de literatura, os estudantes, no caso do programa de português, têm audições de música popular brasileira, assistem a filmes brasileiros, às novelas da Globo, lutam capoeira, aprendem a fazer e degustar feijoada, vatapá, muqueca e, até mesmo, aprendem palavrões tupiniquins em palestras especializadas… Não bastasse essa variedade de cursos e performances culturais, também convivem com os professores – falantes nativos – grande parte do dia. Nas refeições, oferecidas no enorme restaurante freqüentado por estudantes de todas as línguas, repartindo as mesmas mesas com os mestres, os alunos aproveitam-se para falar de suas experiências, sobre a diversidade cultural do Brasil e tirar dúvidas de pronúncia ou de gramática. Tanta convivência leva à camaradagem e a um conhecimento da diversidade cultural de diferentes países e, sobretudo, à tolerância, à compreensão mútua e a uma conscientização aguda dos problemas nacionais e internacionais.

Universidade Americana2 Acima, o selo do Middlebury College.

Middlebury é um College School (o que equivale, em nosso país, a uma faculdade), fundado em 1800. Situado junto à cidadezinha do mesmo nome, espraia-se num belíssimo campus, em meio à vegetação luxuriante. Como o estado de Vermont é conhecido pelo investimento na área ecológica, há, na comunidade, um cuidado especial em preservar o meio ambiente. Por exemplo, no campus, não se permite o uso de adubo que não seja natural, o que, se dá ao ambiente um odor muito peculiar, serve, pelo menos, para se evitar os prejuízos decorrentes da aplicação desordenada dos agrotóxicos. Bastante separados uns dos outros, os edifícios do Middlebury College distribuem-se numa grande extensão de terreno, propiciando uma vista prazerosa do verde, no meio do qual, há uma quantidade enorme de pássaros, esquilos e até mesmo pequenos cervos. Os prédios do College, construídos de madeira branca, no estilo da Nova Inglaterra, ou revestidos de pedra cinza, servem a um duplo intuito: muitos deles são alojamentos para estudantes, em casas muito confortáveis, os demais são bibliotecas, laboratórios, salas de aula providas de toda parafernália eletrônica. Não bastasse isso, entre outras coisas, há um enorme complexo esportivo, provido de piscina olímpica, campos de futebol, de basquete, quadras de tênis, um museu de arte contemporânea, um cinema, um centro de lazer completo, um observatório astronômico.

Tudo isso que compõe Middlebury College está a serviço dos cursos regulares e dos cursos de verão, mas o que surpreende é saber o número de alunos alocados no campus. Os cursos de verão recebem, mais ou menos, 2.000 estudantes (40 de português, por questão de espaço); os regulares, por sua vez, aceitam – pasme o leitor – entre 1.600 e 1.800 alunos apenas. Digo “apenas” porque, no Brasil, a meta das entidades privadas, pelo contrário, é partir avidamente em busca de mais e mais alunos, construindo monstruosos campi, alguns deles autênticos shopping centers, em que a qualidade de ensino, por razões óbvias, deixa muito a desejar. O número de alunos ingressantes em Middlebury seria tido como irrisório e anti-econômico, aos olhos dos comerciantes e varejistas que, via de regra, se apoderaram do ensino privado brasileiro. É evidente que manter essa máquina funcionando requer grandes investimentos. Pelo que pude saber, o aluno do College paga $48.000 por ano, tendo direito a quarto, roupa de cama, comida, lazer, atividades culturais e, evidentemente, as atividades acadêmicas. Sendo assim, a princípio, é uma elite privilegiada que tem acesso a Middlebury. Contudo, não se pode esquecer que o College e outras associações concedem bolsas a estudantes carentes que tenham se destacado nas escolas públicas, o que serve para mesclar os desfavorecidos pela sorte aos membros da elite. Pelo menos, no curso de verão, foi me dado conviver com estudantes da América Latina, da América Central, das Filipinas, da Indonésia, etc, dos mais diversos extratos sociais e econômicos. A essa altura, talvez alguns dos ferrenhos críticos dos EUA, que pululam no Brasil, objetassem dizendo, à la Eduardo Galeano, que Middlebury College é uma escola desse nível porque o dinheiro que existe para mantê-lo provém do sistemático saque dos países pobres do Terceiro Mundo. Admitindo a perversa premissa, poderíamos argumentar que, diferentemente de nosso país, pelo menos, esse dinheiro, em vez de ir para o bolso dos políticos corruptos, serve a fins nobres: à educação em altíssimo nível e ao intercâmbio de estudantes do mundo inteiro.

*Álvaro Cardoso Gomes é professor titular da USP e escritor. Publicou, entre outras obras, Os rios inumeráveis, A divina paródia, Concerto amazônico, A boneca platinada, O comando negro (romances); A hora do amor, A colina sagrada (romances juvenis), além de diversos livros de ensaios.




Por Alvaro Cardoso Gomes, em 17/09/2009 - 12:00. Você pode acompanhar as respostas a este texto acessando o leitor RSS 2.0.

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