50 anos da Caravana Ford – I

Por em 17/01/2011

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SeringalA EPOPÉIA DA CONSTRUÇÃO DE UMA RODOVIA

BR 364/Brasília – Acre

A BR 364, rodovia estratégica de integração nacional e continental, modificou o sistema de transporte rodoviário, conferido ao Estado de Rondônia uma posição no sistema global de transporte rodoviário. Uma posição de relevo como força de articulação e intercâmbio entre regiões Norte, Centro-Oeste, Sudeste e Sul do país, e conexão com os países das bacias do oceano Pacífico e do Caribe respectivamente, do Oeste e do Norte da América do Sul. Tem origem em Limeira na confluência com a via Anhanguera no Estado de São Paulo, percorre São Paulo, Mato Grosso do Sul, Brasília, Goiás, Mato Grosso, Rondônia e Acre num percurso de 3.306 Km (Brasília-Acre). De Rio Branco/AC prossegue até alcançar o porto de Ilo no Oceano Pacífico litoral de Peru, totalizando 4.099km de extensão.

Na cidade de Porto Velho situada na margem direita do rio Madeira a BR 364 faz conexão com a BR 319 – Porto Velho/Manaus/AM, rodovia com 887 km, a qual na cidade de Humaitá/AM, faz junção com a Transamazônica e na cidade de Manaus se conecta com a rodovia Manaus/Boa Vista/ BR-174. De Porto Velho a BR 364 segue a direção sul até a Vila de Abunã/Guajará-Mirim, (220 Km), na qual faz conexão com a rodovia BR 425-Abunã/Guajará-Mirim, cidade na margem direita do Rio Mamoré frontal a cidade boliviana de Guayaramerim. Da Vila de Abunã a BR 364 segue a direção oeste passando por Rio Branco e várias outras cidades do Estado do Acre, até alcançar a fronteira Brasil/Peru. A BR 425 em conexão com a malha rodoviária boliviana, alcançará a cidade de La Paz e os portos do Peru e do Chile no litoral do Oceano Pacífico.

A construção da rodovia BR-364, o sacrifício que exigiu dos seus construtores, tornou-se uma ingente epopéia.

ANTECEDENTES

RondonAcima, Cândido Mariano da Silva Rondon.

Construção da linha Telegráfica Estratégia Mato Grosso/Amazonas criada pelo Presidente da República Afonso Augusto Moreira Pena, chefiada pelo major engenheiro do exercito, Cândido Mariano da Silva Rondon, interligando pelo telégrafo com fio a cidade de Cuiabá ao povoado de Santo Antônio de Alto Madeira, ambos em mato Grosso. Rede telegráfica assentada em postes fixados num caminho com 8 (oito) metros de largura, devidamente destocados permitindo o tráfego de animais cargueiros, carroças e até automóvel da época (Ford de bigode).

Em 1° de janeiro de 1915, em sessão na Câmera de Santo Antônio do Rio Madeira, foi inaugurada a linha telegráfica, interligando Via telégrafo a Amazônia Ocidental à cidade do Rio de Janeiro capital federal e a todo país.

Um dos integrantes da Comissão Rondon, o antropólogo Edgar Roquete Pinto indicou ao governo federal que no caminho aberto, ligando a cidade de Rio Branco/AC a de Cuiabá/MT fosse construída uma rodovia de integração nacional. O que ocorria na década de 1960, servindo este de base para a construção da rodovia BR 364 Brasília/Acre.

AluísioAcima, Aluízio Pinheiro Ferreira.

Então tenente do exército brasileiro, Aluízio Pinheiro Ferreira, exercendo o cargo de superintendente da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, a partir de 10 de julho de 1931, submeteu ao ministro José Américo de Almeida, da Viação e Obras Públicas, o projeto da construção da rodovia Amazona/Mato Grosso ligando a cidade de Porto Velho na margem direita do alto rio Madeira à cidade de Cuiabá no centro geodésico da América do Sul. Justificando a sua construção ressaltando sua importância estratégica e econômica para o Noroeste de Mato Grosso facilitando o transporte de sua produção para os centros consumidores, assim como o seu abastecimento com os produtos de importação evitando o tráfego nos trechos encachoeirados dos rios Ji-Paraná, Jaru e Jamari. O projeto foi aprovado sendo-lhe repassados 200 (duzentos) contos de reis, com quais no dia 1º de agosto de 1932, iniciou sua construção empregando 200 (duzentos) trabalhadores sem disporem de equipamentos mecanizados, tão somente de picaretas, pás, inchadas e terçados. Para transpor os pequenos e os médios cursos da água construíram pontes de madeira e para a travessia dos grandes, foram construídas nas oficinas da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré balsas metálicas movidas por tração manual dos seus operadores. A construção da rodovia em 1945 alcançou 90(noventa) quilômetros, sendo paralisada por falta de recursos financeiros.

2° Companhia Rodoviária Independente

Esta unidade do exército sob o comando do capitão engenheiro Ênio dos Santos Pinheiro, se instalou em Porto Velho em 1945, retomando a construção da rodovia Amazonas/Mato Grosso construindo 98 (noventa e oito) quilômetros ligando São Pedro à Ariquemes. O desaparecimento do Tenente Fernando Gomes de Oliveira comandante do destacamento de São Pedro no Rio Preto, em cujas florestas ocorreu o funesto episódio nunca esclarecido, implicou na retirada dessa companhia construtora de Porto Velho e a conseqüente paralisação dos trabalhos de construção da rodovia. Os seus equipamentos tratores de lâmina de médio porte, motoniveladoras e outros implementos foram doados ao governo do Território, constituindo-se da maior importância para a manutenção da estrada de Porto Velho/São Pedro e a do caminho entre São Pedro e Ariquemes, este transitável no período de estiagem.

Criação da Rodovia Transversal BR 29

No plano Rodoviário organizado por uma comissão de técnicos presidida pelo engenheiro Yêdo Fíuza, instituída pelo decreto nº 15.097, de 20 de março de 1944, projetava a construção da “Rodovia Acreana”, estabelecendo a ligação terrestre do Território Federal do Acre com as regiões Centro Oeste e Sul do país. O Plano de Viação Nacional submetido ao Congresso Nacional em 1946 considerou a “Rodovia Acreana” como uma das transversais, designando-a BR 29 obrigatoriamente interligando os seguintes pontos: Cuiabá, Porto Velho, Rio Branco e fronteira com a República do Peru se conectando com a rodovia Pan-Americana. Não passando do projeto para a execução.

A Lei nº 2.975, de 27 de novembro de 1956, ao relacionar as estradas federais a serem construídas, incluía a BR 29.

Manoel

Caminhão Ford adquirido pelo governador do então Território Federal de Rondônia, Paulo Nunes Leal. Em pé, ao lado da faixa, vemos Manoel Ferreira, Walter Bártolo e o jornalista Euro Tourinho

Outubro / 1959

O Caminhão Bandeirante

O Coronel Paulo Nunes Leal, então governador do Território Federal de Rondônia, reunido com seus auxiliares diretos, discutiam sobre a viabilidade de ser estabelecida uma via de transporte terrestre ligando Porto Velho a São Paulo e ao Rio de Janeiro superando a morosidade do hidroviário e o elevado preço do aéreo. O Major Renato Araújo, Secretário Geral (Vice-Governador), levantou a questão se não seria possível saindo de São Paulo com um caminhão passando por Cuiabá e Cáceres chegar a Vila Bela, e desta, via fluvial, descendo os rios Guaporé e Mamoré em barco do serviço de navegação do Guaporé até Guajará Mirim de onde prosseguiria embarcado em trem da ferrovia Madeira-Mamoré até Porto Velho. Estabelecendo-se uma via de transporte modal rodo-fluvial-ferroviário entre São Paulo e Porto Velho através de Mato Grosso.

Sugestão aceita, o governador encarregou o Major Renato Araújo de proceder um levantamento de dados e de todas informações possível sobre a rota a ser feita e planejar a viagem, se concluísse ser viável, (Clique AQUI e assista entrevista de Gervásio Alves Feitosa, que também participou da Caravana Ford).

Transcorridas alguns dias o Major Renato apresentou um relatório de todas informações obtidas e um plano da viagem a ser feita, cujo trecho de maiores dificuldades era de 318 quilômetros entre Cáceres e Vila Bela, a travessia de uma ponte de madeira com 40 metros de comprimento e 12 metros de altura (ponte Marechal Rondon), construída sobre o rio Guaporé, a mais de 40 anos pela Comissão Rondon, a 120 quilômetros de Vila Bela. Era desconhecido seu estado de conservação por estar a muito desativada, sendo duvidoso se suportaria o peso de um caminhão.

Foi decidido ser posto em execução o projeto, para tanto o governador comprou em São Paulo uma caçamba Ford, modelo F-600, a qual transportaria uma carga de quatro toneladas de materiais não perecíveis distribuídos em volumes, pesando no máximo trinta quilos para facilitar sua remoção quando preciso. Além dessa, também ferramentas, peças de reposição, enxadas, machados, picaretas, pás, serrotes, martelos e pregos para solucionar os casos de emergência.

Para conduzir o caminhão foram selecionados três competentes profissionais capazes de superar os obstáculos e as dificuldades do percurso São Paulo a Vila Bela na margem do Rio Guaporé. Foram eles Manoel Maria Pereira Bezerra Oficial de Gabinete, Bismark Marcelino motorista e Auzier Santos (Pirralho) mecânico. O primeiro era o chefe da equipe, seguiram de avião a São Paulo, na Ford receberam a viatura, batizada com o nome “BANDEIRANTE”. Dia 10 de outubro de 1959 saíram de São Paulo dirigindo-se para Vila Bela (Mato Grosso), passando por Cuiabá e Cáceres (2.700km). De Cáceres a Vila Bela (318km), este foi o trecho de maiores obstáculos, a estrada era um simples caminho de serviço, com atoleiros, areais, muitas veredas confundindo-os fazendo se perderem levando-os às fazendas de gado da região. Em Pontes e Lacerda depararam com a ponte sobre o Rio Guaporé, seu estado era péssimo, fizeram uma apurada vistoria verificando que os pilares estavam sólidos, decidiram se arriscarem a transpô-la, porque não tinham outra alternativa. O Bezerra e Pirralho, seguiram a pé na frente da caçamba dirigida pelo Bismark, os dois transportando os pranchões mais conservados removendo-os de trás para frente construindo uma passadeira que permitisse o avanço da viatura nos 40 metros de ponte, momento de estressante apreensão, só superada ao ser feita com êxito a travessia do maior e mais perigoso obstáculo. Estavam a 120 quilômetros de Vila Bela, aonde chegaram no dia 21 de outubro, tendo gasto quatro dias para percorrer os 318km entre Cáceres e Vila Bela.

O Bandeirante percorreu o seguinte roteiro: São Paulo, Vila Bela 3018km (via terrestre); Vila Bela – Guajará Mirim 1406km (via fluvial, rios Guaporé e Mamoré, transportado em barco do serviço de navegação do Guaporé/SNG, comandado pelo superintendente Paulo Saldanha Sobrinho) e Guajará Mirim – Porto Velho 366km transportado em trem da ferrovia Madeira-Mamoré, chegando em Porto Velho no dia 19 de novembro de 1959.

A viagem pioneira do Bandeirante foi divulgada com destaque nos jornais “Folha de São Paulo”, “O Globo”, na revista Visão e nas revistas especializadas “BR Revista”, “Revista do Clube Militar”, “Mundo Motorizado” e “Revista de Automóveis”. Foi registrada nos anais da Câmara dos Deputados, pelo Deputado Federal Aluízio Pinheiro Ferreira.

1960 – Construção da BR 29

Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira

Governador Paulo Nunes Leal

JK

A Rodovia BR 29 estava criada por lei e incluída no Plano de Viação Nacional, tendo alguns trechos construídos, tais como Brasília – Cuiabá 1200km, Cuiabá – Juruena 500km e Ariquemes – Porto Velho 200km. Porém não havia efetivo empenho para sua construção. Por exemplo, no trecho Juruena – Vilhena – Ariquemes, nenhuma realização de obras estava programada. Ao assumir o governo do Território Federal de Rondônia, o coronel Paulo Nunes Leal, elegeu como prioridade o compromisso de se empenhar em conseguir a construção da Rodovia Brasília – Acre, instrumento imprescindível ao desenvolvimento econômico e social do Noroeste de Mato Grosso e da Amazônia Ocidental. Elaborou um projeto e um mapa esquemático com as distâncias quilométricas dos respectivos trechos a serem construídos ligando Jaruena à Porto Velho, em um percurso de mais de 1.200Km. Aguardou o momento oportuno para apresentá-lo ao Presidente Jucelino, solicitando-lhe a construí-la, a qual seria a mais importante das rodovias construídas na sua gestão, além de tirar Rondônia e o Acre do isolamento integrando-os ao País, ligaria os dois oceanos Atlântico e Pacifico via a Bolívia e o Peru. Essa oportunidade ocorreu no dia 02 de Fevereiro de 1960, na reunião dos governadores dos estados da região Norte e do estado de Maranhão, em Brasília. O Presidente de grande visão e realizações aprovou o projeto e determinou ao Diretor do Departamento Nacional de Estradas de Rodagem, a tomar providências para a construção da rodovia, marcando sua inauguração a ser no dia 10 de Dezembro, deste ano. No dia 05 de Fevereiro, numa exposição das obras realizadas no seu governo, anunciou a construção de rodovia Brasília – Acre. No dia 29 de junho foi concluído o total desmatamento da rodovia de Cuiabá a Rio Branco. No dia 04 de Julho o Presidente Jucelino dirigindo um trator Caterpillar D-8 em Vilhena, às 15:03h derrubava a ultima árvore da rodovia BR 29, uma faixa rodoviária com 60 metros de largura e 2.796Km de extensão de Brasília a Porto Velho, os relevantes episódios, denodo e sacrifício, autêntica epopeia que exigiu a construção dessa rodovia em plena floresta amazônica, o leitor encontrará com minuciosos detalhes no Livro “O OUTRO BRAÇO DA CRUZ” de autoria do Coronel Paulo Nunes Leal, um dos mais destacados protagonistas da construção da Rodovia Brasília/Acre (BR634).

Texto publicado em 27/11/2010 no jornal eletrônico Gente de Opinião do estado de Rondônia.

*ABNAEL MACHADO DE LIMA é ex-professor de História da Amazônia – Universidade Federal do Pará e membro do Instituto Histórico e Geográfico de Rondônia.






Por Abnael Machado, em 17/01/2011.

2 respostas to “50 anos da Caravana Ford – I”

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