“Ficha limpa”: um projeto necessário e urgente para o futebol brasileiro!

Por em 14/04/2010

Tamanho da fonte: Aumentar o tamanho da letraDiminuir o tamanho da letra
Compartilhar

Futebol1Segundo o site do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE) http://www.mcce.org.br/,

“em 1999 foi aprovada a Lei n° 9.840, que tornou possível a cassação, até o presente momento, de mais de mil políticos por compra de votos e uso eleitoral da máquina administrativa. Foi a primeira vez que a sociedade brasileira apresentou e viu aprovado um Projeto de Lei de iniciativa popular em que se concedia à Justiça Eleitoral poderes mais amplos para aplicar punições aos que praticam atos de corrupção eleitoral. Agora, a Campanha Ficha Limpa quer manter essa vitória da sociedade, colaborando para a formação de melhores quadros políticos no país.” .

Ainda lemos no mesmo site que:

“Serão atingidos os candidatos que já ostentem condenações criminais ou civis em virtude dos ilícitos mencionados no projeto de lei. Os principais atingidos serão pessoas que exerceram cargos públicos e, ali, praticaram desvio de verbas.”.

A sociedade brasileira está lutando há décadas, com unhas e dentes, pela moralização de seus representantes na política, sendo esta apenas uma das muitas facetas de qualquer sociedade mundial. Lembremos de considerar as sociedades hodiernas em seus aspectos econômicos, sociais, esportivos e culturais, em um todo que movimenta inteiramente nosso planeta.

O futebol para o povo brasileiro tornou-se, assim como muitas de nossas festas folclóricas, um dos pilares da manifestação popular. Faz parte da cultura da segunda-feira, ao menos em sua grande maioria, ouvir, ler, discutir o futebol do final de semana. Existem as “mesas redondas” oficiais da TV, mas também aquelas dos bares, das salas ou de qualquer “cantinho” aonde nos reunimos com os amigos e familiares para falar do “último clássico” que mexeu com os brios de todos nós.

E o que há de comum entre futebol e a campanha do MCCE? Vou responder a esta pergunta com outras: se a política deve ser moralizada com atos como o do Projeto de Lei que prevê a inelegibilidade de candidatos com condenações na Justiça, por que outras instâncias de nossa sociedade não podem ser igualmente limpas e moralizadas? Por que o futebol, que movimenta milhões de pessoas e de reais, dólares, euros, ou a moeda que for, passaria ao largo de uma moralização justa e perfeita?

Ainda poderíamos pensar no seguinte: se uma instituição, ou mesmo pessoa física, ao provocar algum prejuízo material a terceiros deve pagar pelos seus atos, por que um juiz de futebol ou péssimos dirigentes também não são responsabilizados por prejuízos absurdos que instituições clubísticas sofrem quando erros absurdos são cometidos em campo? Vamos ao estágio, pagamos ingresso, ou mesmo um canal fechado na TV. Acreditamos que a cultura do futebol pode ser tão confiável quanto à de qualquer outro esporte ou diversão cultural. Ou seja, se eu for ao cinema e surgir na tela um filme diferente daquele na placa da entrada, ou se o som falhar, etc., reclamamos e ninguém achará absurdo que o cinéfilo seja ressarcido em seu ingresso.

Muito bem, já chego ao finalmente desta história. Dia 11 de abril de 2010, Vasco e Flamengo jogam no Maracanã, pessoas pagam para assistir a um esporte popular, um jogo que envolve milhões de torcedores dos dois lados, milhões de reais em investimentos e em propaganda, e não mais que de repente um juiz resolve inverter o resultado do jogo. Vejamos: o resultado foi 2 x 1 Flamengo. Aquele que deveria ser o responsável pela norma, pela lei esportiva, simplesmente sai da cartola com um tiro livre contra o gol vascaíno. Ou seja, vê um pênalti onde não existe, alterando o placar de um jogo disputado equilibradamente pelos dois clubes.

Segundo o site GloboEsporte.com, lemos que:

“Após a partida, os jogadores envolvidos se pronunciaram. Léo Moura afirma que usou a experiência. – Sabia que ele (Márcio Careca, jogador do Vasco) viria para cima. A experiência conta. Dei um toque a mais e ele me empurrou por trás – disse o lateral.

– Não marcaria – disse, ao repórter Eric Faria, da TV Globo, na saída de campo.”

Existe a confissão de que o lateral do Flamengo se jogou usando sua “experiência”. Nossos jovens aprenderam que ter “experiência” no futebol de hoje, e na vida, é burlar a lei e enganar o público (ou tentar), a mídia e os juízes. Ética só deve existir na política e nos livros de filosofia, ou é algo a ser buscado em todos os campos sociais?

Bem, após tão belo exemplo, digno de um noticiário político ou policial de nossos dias, acontece o lance capital da partida. Transcrevendo o texto lacônico do site NetVasco do dia 12 de abril de 2010:

“Quarenta e dois minutos do segundo tempo. Após um escanteio, Willians corta a bola com o braço após a cabeçada de Thiago Martinelli, dentro da área. O árbitro João Batista de Arruda nada marca. Flamengo 2 x 1 Vasco. Vasco eliminado.”

Eu completaria: eliminado e com um prejuízo de milhões de reais. O clube saiu das finais de um campeonato importante por algo inusitado: uma jogada de vôlei em um jogo de futebol! Mas tudo bem, ninguém viu, ninguém vê, o importante é satisfazer àqueles que desejam arbitrariamente que A ou B vença. Já que o juiz, o bandeirinha e nem o quarto árbitro conseguiram ver a quase “cortada” do jogador do Flamengo, coloco a foto abaixo para dar uma “mãozinha”. Sem trocadilhos.

PênaltiAcima, o “mão santa” de 2010. Foto GloboEsporte.com

Repito, assim, que vivemos em um mundo globalizado. O interesse de poucos que move o interesse de milhões, estes “globalizados” midiaticamente. Já temos veículos de comunicação que escolhem presidente, religião, por que não escolher time para os outros torcerem, o que devemos ler, ouvir, comer, enfim, consumir?

Viva o século da farta informação, onde podemos descobrir, por exemplo, uma tendência nos jogos do mesmo Flamengo (o clube “escolhido”, o “Neo” da Matrix futebolística nacional) desde o início de 2009: a marcação de pênaltis a favor. Segundo dados do Footstats e site Terra, o time carioca possui um pênalti a cada 3,5 jogos. Foram 24 penalidades máximas em 85 jogos, contando Campeonato Carioca (2009 e 2010), Copa do Brasil, Campeonato Brasileiro e Libertadores. Destes, dez foram duvidosos. Na comparação com o time do São Paulo, principal rival rubro-negro no último Campeonato Nacional, verifica-se que é um número bastante alto, “considerando, por exemplo, que o time paulista disputou 92 partidas desde janeiro do ano passado e teve nove pênaltis marcados (média de um pênalti a cada dez partidas, aproximadamente).”. (site NetVasco).

Assim, devemos dar um Basta! Para a corrupção na política e na sociedade brasileira como um todo, também devemos dar um Basta! Na vergonha em que se transformou o futebol carioca e nacional nos últimos anos. Chega de escolhidos pelo consumo! Chega de jogos duvidosos, resultados modificados apenas pelos “erros” de poucos, de ladrilheiros saindo do túnel rubro negro para paralisar jogos decisivos como aconteceu em 1981.

Chega de “caso das papeletas amarelas”, como o de 1986, quando veio à tona a compra de árbitros em jogos de futebol carioca. Basta de “hexa” com cinco títulos, “tri” em dois anos! Ou ter que expulsar meio time atleticano para se classificar em um torneio internacional (o YouTube, como em http://www.youtube.com/watch?v=PwwXKwHm6BI, está repleto de imagens do fatídico jogo também de 1981).

O povo brasileiro merece um pouco mais de respeito. Mais do que apenas assistir, passivamente e pagando, a casos tão vergonhosos dentro e fora do esporte.

Basta!

*Adílio Jorge Marques é professor de Física e História da Ciência da rede pública e particular de ensino do Rio de Janeiro. Pesquisador em História da Ciência luso-brasileira e história das Tradições.






Por Adílio Jorge Marques, em 14/04/2010.

4 respostas to ““Ficha limpa”: um projeto necessário e urgente para o futebol brasileiro!”

  1. Vânia França

    Mestre,
    Como profissional de Educação Física, aplaudo a cada palavra escrita neste artigo. Como educadora, ao mesmo tempo que fico triste em perceber, diáriamente, que nadamos contra a correnteza, alegro-me em verificar a sua indignação, tão bem descrita, em relação aos absurdos ocorridos no futebol.
    Infelizmente temos que lidar com essa realidade! Mas jamais “jogar a toalha”. Somos EDUCADORES acima de tudo, e nossas crianças e jovens merecem uma chance.Vivenciar um mundo onde VALORES não sejam vistos como VIRTUDES! Onde o correto não seja “CARETA”! Onde o esporte seja um estímulo ao seu crescimento como um todo, e não um” momento ilusório” de projeção num mundo materialista, sem dignidade e respeito ao próximo! Um forte abraço muita luz Vânia.

    #677
  2. Sergio Russo

    Concordo plenamente com o Professor Adílio.

    Nada mudou na trágica História da humanidade. Milhões subordinados a uma sempre pequena parcela de corruptos e desonestos responsáveis diretos pelas guerras, pela fome, pela miséria, e pela degradação humana.

    Já no antigo Império Romano, um cidadão, revoltado, escreveu num muro uma frase sempre atual e que atravessa o tempo cada vez mais válida – e que ainda hoje se aplica em muitas situações, e não somente na política: SENATORES SENATUM MALA BESTUS

    A sorte de certos brasileiros é que aqui não é a China, país que usa uma metodologia de certa forma cruel e drástica, porém saneadora:

    Ou seja: traficantes, tarados, estupradores, vigaristas, estelionatários, ladrões, e notadamente políticos corruptos: – confisco de bens e fuzilamento sumário em cerimônia pública! E as respectivas famílias ainda têm que pagar pela munição utilizada pelos pelotões de fuzilamento.

    O conceito de justiça deve prevalecer sobre o conceito de amor

    #678
  3. Vinicius Pinheiro

    “Existe a confissão de que o lateral do Flamengo se jogou usando sua “experiência”. Nossos jovens aprenderam que ter “experiência” no futebol de hoje, e na vida, é burlar a lei e enganar o público (ou tentar), a mídia e os juízes. Ética só deve existir na política e nos livros de filosofia, ou é algo a ser buscado em todos os campos sociais? ”

    sensacional, acho que isso pode resumir bem oq acontece hoje em dia!

    #685
  4. Bruno Fernandes Carvalho

    O mercado hoje busca profissionais plurais, cujos objetos de pesquisa e capacidade de explanação extrapolam os assuntos em que, outrora, especializaram-se.
    Adílio é um desses profissionais.
    Parabéns, mais uma vez, amigo.

    #692

Comente!

Busca

Colunistas


stivali ugg outlet italia online canada goose jacka dam billigt ralph lauren pas cher ugg pas cher bottes uggs pas cher hollister online shop Hollister Outlet Online Shop Deutschland Hollister Outlet Online Shop Deutschland Hollister Online Shop Deutschland Sale Hollister Sale Online Shopping Canada Goose Schweiz doudoune parajumpers pas cher Ropa Hollister Espa?a Online hogan 2014 hollister france moncler outlet hollister outlet piumini moncler parajumpers italia woolrich france moncler danmark moncler jakker moncler outlet hollister outlet deutschland moncler jacke detuschland ugg deutschland canada goose deutschland woolrich nederland moncler jassen moncler jacken moncler deutschland ugg outlet ugg deutschland the north face jacken the north face outlet the north face deutschland hollister deutschland hollister outlet abercrombie